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- "Segunda Vez" de Cortázar: O Manual do Terror Burocrático.
#JulioCortazar #SegundaVez #LiteraturaArgentina #AnaliseLiteraria #Conto #EscritaCriativa #TecnicasNarrativas #TerrorPsicologico #DitaduraNuncaMais #RevisaoDialogal #OsDoisOutros Desvendando Cortázar: A Tensão e o Silêncio em "Segunda Vez". E aí, sobreviventes da página em branco? Ana Amélia na área. Hoje, vamos calçar as luvas e operar um dos mestres do estranhamento: Julio Cortázar. A peça na nossa mesa de autópsia é o conto "Segunda Vez". Se você nunca leu, prepare-se para um desconforto elegante. Se já leu, sabe que a sensação de que "algo está errado" nunca nos abandona. Cortázar era um mágico do subentendido, um arquiteto de labirintos onde a saída é sempre uma nova pergunta. E neste conto, ele nos convida para um lugar aparentemente inofensivo: a sala de espera de uma repartição pública. Um lugar de formulários, chamadas e uma espera entediante. Ou será que não? O Palco do Absurdo: A Burocracia como Vilã A genialidade de Cortázar começa na escolha do cenário. Não há monstros, fantasmas ou assassinos com facas. O terror em "Segunda Vez" nasce do procedimento, da ordem inexplicável, do funcionário que chama nomes de uma lista. A história é narrada por uma voz que parece tão perdida quanto nós, tentando entender as regras de um jogo que ninguém se deu ao trabalho de explicar. — Bom, agora somos nós — disse o rapaz. — O senhor não se incomoda se eu fumar um cigarro? Não aguento mais, mas a senhora parecia tão indisposta. [...] Com maiúsculas, bem claro. Eram as besteiras de sempre, nome e sobrenome, idade, sexo, endereço. Entre duas palavras, María Elena sentiu que alguma coisa a incomodava, alguma coisa que não estava muito clara. Não na planilha, onde era fácil ir preenchendo os espaços; alguma coisa de fora, alguma coisa que faltava ou que não estava em seu lugar. Percebem a sutileza? A personagem, María Elena, sente que "algo não está em seu lugar". Não é um medo palpável, é uma dissonância. É a sensação de que a lógica do mundo foi suspensa naquele corredor. As pessoas são chamadas, entram por uma porta e... não voltam. A tensão não está no que acontece, mas no que deixa de acontecer : o retorno. Essa técnica de construir o pavor a partir da ausência é uma aula magna de tensão narrativa . Cortázar não precisa descrever a tortura ou a violência. Ele apenas nos mostra a porta se fechando e o silêncio que fica depois. É o nosso cérebro que, treinado pela brutalidade do século XX, preenche as lacunas. Escrito durante a ditadura militar argentina, o conto é uma alegoria perfeita dos desaparecimentos forçados. A "segunda vez" do título não é uma segunda chance, mas a repetição de um ciclo de apagamento. A Engenharia Reversa do Apagamento Para entendermos como Cortázar é eficaz, vamos contrastá-lo com outra distopia onde o Estado se torna o administrador da existência. Vamos deixar Kafka descansando um pouco e invocar o pai da vigilância, George Orwell, e sua obra-prima, 1984 . Em 1984 , o apagamento de uma pessoa é um procedimento administrativo, uma correção nos registros. O termo para isso é "vaporização". A pessoa se torna uma "impessoa". Orwell nos mostra o resultado final desse processo através da percepção de Winston. Syme fora vaporizado. Tornara-se uma impessoa. Fora abolido. Era um espaço em branco. Nunca existira. [...] Era curioso como se podia seguir o processo em minúcia. Riscar o nome das listas, queimar os registros, desmentir qualquer ação que a pessoa tivesse praticado, apagar qualquer lembrança. Fazer como se tal pessoa nunca tivesse existido. Orwell nos explica o mecanismo. Ele nos dá o nome ("vaporização"), detalha o processo burocrático de apagar alguém da história. É terrível, frio e explícito. Cortázar, por outro lado, nos joga dentro da sala de espera desse mesmo processo, mas sem nos dar o manual de instruções. Ele não usa a palavra "desaparecimento", ele nos faz sentir a angústia da família que espera do lado de fora da porta. Enquanto Orwell nos entrega um tratado sobre o totalitarismo, Cortázar nos entrega a experiência sensorial dele. Ambas as abordagens são geniais e buscam o mesmo efeito: demonstrar a fragilidade da existência perante um poder invisível e absoluto. A escolha de qual caminho seguir define o tipo de impacto que um autor quer causar. Toda essa construção, essa escolha precisa de palavras e omissões, não é acaso. É engenharia narrativa. É a prova de que a estrutura e o estilo não são meros enfeites, mas o motor que define se uma história será esquecível ou se ela vai te assombrar por dias. É exatamente esse eixo autor-texto-leitor que a nossa filosofia na Revisão Dialogal busca dissecar, entendendo que cada vírgula pode ser um passo em direção ao sublime ou ao abismo. 🔪 Dica de Leitura da Ana "O Deserto dos Tártaros" , de Dino Buzzati. Se você se sentiu paralisado pela espera em "Segunda Vez", precisa conhecer a história do tenente Drogo. Ele é enviado a uma fortaleza remota para aguardar uma invasão inimiga que talvez nunca chegue. É uma obra-prima sobre a passagem do tempo, a esperança e a forma como a espera pode consumir uma vida inteira. Um ângulo diferente, mas igualmente poderoso, sobre a paralisia existencial. ☕ Um café e uma primeira conversa Seu manuscrito parece um corredor onde os personagens entram e a trama se perde? Seus diálogos são como formulários, preenchendo espaços sem revelar nada? Talvez seu texto precise de mais do que uma simples correção. A sensação de "algo fora do lugar" que Cortázar domina pode ser um recurso poderoso, ou pode ser um sinal de que sua narrativa não está funcionando. A diferença é a intenção . Nosso trabalho na Revisão Dialogal é encontrar essa diferença. Clique aqui nos envie um trecho do seu texto . Faremos uma amostra gratuita da nossa revisão gramatical e ortográfica. Será o primeiro passo, a "primeira vez". A partir daí, podemos conversar sobre como garantir que, na sua história, cada porta que se abre leve o leitor exatamente para onde você planejou. Não deixe sua história desaparecer num corredor burocrático. Dê a ela a clareza e o impacto que ela merece. Um bom revisor não apenas limpa o texto; ele verifica se todas as portas levam a algum lugar. Mesmo que seja ao nada. Ana Amélia © 2024-2025 Revisão Dialogal . Todos os direitos reservados.
- Revisão Dialogal vs. Revisão Comum de Livros: Saiba a Diferença
#RevisãoDeLivros #EscritaCriativa #RevisãoTextual #MercadoEditorial #VidaDeEscritor #DicasDeEscrita #MikhailBakhtin #TeoriaLiterária #VozDoAutor #LetraEAto #RevisaoDialogal #PublicarLivro No universo da publicação de livros, a revisão textual é uma etapa indispensável. No entanto, abordagens distintas podem ser empregadas para aprimorar um manuscrito. Duas delas, a revisão comum e a dialogal, empregam métodos distintos para alcançar a excelência textual . Enquanto A primeira é um serviço de aprimoramento técnico; a segunda, uma parceria na construção de significado entre revisor e autor, tratando o texto como uma entidade viva e comunicativa. A Revisão Comum: O Foco na Norma e na Clareza A revisão comum, ou tradicional, de livros abrange um conjunto de serviços essenciais para garantir que a obra esteja em conformidade com as normas da língua e seja apresentada de forma gramaticalmente correta ao leitor. Geralmente, este processo inclui: Revisão Ortográfica e Gramatical: A correção de erros de digitação, acentuação, pontuação, concordância verbal e nominal, regência e outras regras gramaticais. Padronização e Formatação: A adequação do texto a um manual de estilo específico, garantindo consistência no uso de maiúsculas, itálicos, abreviações e na formatação de elementos como citações e referências. Análise de Coesão e Coerência: A verificação da fluidez do texto, da clareza das ideias e da ligação lógica entre frases e parágrafos. O objetivo é eliminar ambiguidades e garantir uma leitura agradável. Leitura de Prova: Uma última verificação minuciosa do texto já diagramado, buscando quaisquer erros que possam ter passado nas etapas anteriores. Nesta abordagem, o texto é frequentemente tratado como um objeto a ser aprimorado, com o revisor atuando como um especialista que aplica seu conhecimento técnico para corrigi-lo, com uma interação limitada com o autor. A Revisão Dialogal: Uma Parceria na Construção do Sentido A revisão dialogal, por sua vez, transcende a simples correção. Baseada em conceitos filosóficos e pedagógicos, em especial do pensador russo Mikhail Bakhtin, essa abordagem enxerga o texto como um ato de comunicação em potencial, um diálogo entre o autor, a obra e o leitor. O revisor, nesse contexto, transcende a função de especialista para se tornar o primeiro leitor crítico da obra As principais características da revisão dialogal são: Colaboração Intensa: A revisão se desenvolve por meio de um diálogo constante entre o revisor e o autor. O revisor não apenas aponta erros, mas questiona, sugere e busca compreender a fundo a intenção do escritor. Foco na Voz do Autor: O objetivo central não é impor uma norma externa de maneira rígida, mas sim ajudar o autor a encontrar e a potencializar sua própria voz, garantindo que sua mensagem seja transmitida da forma mais autêntica e eficaz possível. O Texto como Entidade Viva: O manuscrito é visto como uma obra em processo, cheia de potencialidades. A revisão busca explorar essas possibilidades, fortalecendo o diálogo que o texto já está tentando estabelecer. Mediação com o Leitor: O revisor atua como um "leitor modelo", antecipando possíveis dúvidas e reações do público e trabalhando com o autor para refinar a obra, tornando-a mais acessível e impactante. Revisão Ortográfica e Gramatical: A correção de erros de digitação, acentuação, pontuação, concordância verbal e nominal, regência e outras regras gramaticais. Padronização e Formatação: A adequação do texto a um manual de estilo específico, garantindo consistência no uso de maiúsculas, itálicos, abreviações e na formatação de elementos como citações e referências. Análise de Coesão e Coerência: A verificação da fluidez do texto, da clareza das ideias e da ligação lógica entre frases e parágrafos. O objetivo é eliminar ambiguidades e garantir uma leitura agradável. Leitura de Prova: Uma última verificação minuciosa do texto, buscando por quaisquer erros que possam ter passado nas etapas anteriores quer sejam eles gramaticais, quer sejam de diagramação. Em suma, enquanto a revisão comum busca o texto correto, a dialogal persegue o texto exato — aquele que vive, ressoa e é fiel à essência de quem o escreveu. A primeira é um serviço de aprimoramento técnico; a segunda, uma parceria na construção de significado, além do simples aprimoramento técnico. ☕Um café e uma primeira conversa Se o que você leu aqui ressoou em seu coração de escritor, se você sente que seu manuscrito não é apenas um conjunto de palavras, mas uma voz que precisa ser ouvida com clareza e potência, talvez seja a hora de conversarmos. A revisão não precisa ser só um processo frio e impessoal de caça aos erros. Ela pode ser o primeiro e mais profundo diálogo que sua obra estabelecerá. Um diálogo de parceria, de respeito pela sua jornada e de um compromisso compartilhado com a excelência do seu texto. Convido você a me enviar um trecho do seu trabalho. Vamos tomar um café, ainda que virtual, e ter essa primeira conversa. Será um prazer ser o primeira leitora atenta que sua história merece, e juntos, podemos descobrir o caminho para que ela se comunique com o mundo em sua plenitude. Adorama Letra & Ato Tradição | Qualidade | Sensibilidade © 2024-2025 Letra & Ato (antiga Revisão Dialogal) . Todos os direitos reservados.
- Seu livro está pronto para a publicação? O segredo da Revisão de Texto Dialogal
E aí, criadores de mundos e arquitetos de frases? Bora de papo reto, porque hoje o assunto é sobre aquele nó na garganta que a gente conhece bem. Sabe aquela pergunta que fica martelando na sua cabeça, dia e noite, depois que você digita a última palavra do seu livro? Aquela que grita em silêncio: "Meu livro está pronto para publicar?" É a insegurança, minha gente. Aquele monstro que se esconde debaixo da cama do autor. A gente escreve, reescreve, revisa cem vezes, e mesmo assim a dúvida paira no ar. É a hora de soltar a cria no mundo, e o pânico se instala. Será que está bom o suficiente? Será que a voz está clara? Será que alguém vai entender o que eu quis dizer? O Paulo André, meu parceiro de blog, fez um post genial sobre a revisão de texto ser um "gesto filosófico". E ele tem toda a razão. A revisão de texto dialogal não é só a faxina, o tapa na cara da vírgula fora de lugar. É a prova final, o ato de amor-próprio pela sua obra, a validação de que o que você escreveu é digno de ser lido. É a ponte entre a sua ideia e a cabeça do leitor, sem ruído. E sabe por que a gente sente essa insegurança? Porque, no fundo, a gente sabe que só a nossa voz não é suficiente. Precisamos de um espelho, de um olhar de fora, de alguém que enxergue a nossa obra com a mesma paixão, mas com a precisão cirúrgica de um revisor. Pense comigo: você passaria anos construindo uma casa e a deixaria sem telhado, sem reboco, com as fiações à mostra? O texto é a mesma coisa. O trabalho é seu, a alma é sua, mas a lapidação final é o que a torna segura, habitável, e de fato, digna de ser admirada. “O palco ‘armado’ com os atores de fora”: apesar dessa afirmação, que nos dá a impressão de uma ausência de gente nas fotografias da Edição de Nova York, há pessoas em dez dos 24 frontispícios. Nadel sugere, acuradamente, cremos, que “mesmo quando a cena está vazia, a presença de indivíduos é iminente. Há um senso constante de pessoas prestes a surgir, especialmente de trás das portas...” Este é um trecho de uma análise sobre a obra de Henry James , um mestre do romance psicológico, um autor que entendia de arquitetura de texto como ninguém. Ele era obcecado pelo detalhe, pela precisão e pela economia de palavras para criar um efeito máximo. Em seus prefácios, ele detalhava o processo de criação de cada obra, mostrando que a escrita é um ato de constante lapidação, de ir e voltar, de ajustar e refinar. E aqui, a análise de Ira Nadel sobre as fotos nos frontispícios da Edição de Nova York do autor, é a prova cabal. Mesmo quando o cenário parecia vazio, o que se sentia era a presença iminente de alguém. Era a maestria do autor na criação de suspense e de ambiente. Não é sobre a quantidade de palavras, mas sobre o efeito que elas causam. Isso exige não apenas talento, mas uma atenção maníaca ao detalhe. E tem mais. Vamos viajar para a Itália com outro mestre da escrita precisa: Italo Calvino. Em seu livro "As Cidades Invisíveis", ele nos transporta para universos inteiros com frases concisas e imagens poderosas. Cada palavra é uma peça de um quebra-cabeça perfeito. Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores. Existe um momento na vida dos imperadores que se segue ao orgulho pela imensa amplitude dos territórios que conquistamos, à melancolia e ao alívio de saber que em breve desistiremos de conhecê-los e de saber que, cedo ou tarde, nossa memória irá se fragmentar e se perder no meio de tantos nomes e de tantas imagens que se sobrepõem no horizonte de sua mente. O que Calvino faz aqui é puro gênio. Ele não só descreve uma cena, ele cria um universo de significados com uma economia de palavras assustadora. Cada frase é um golpe de mestre. Ele constrói não apenas cidades, mas a experiência de imaginá-las. A dúvida de Kublai Khan, a atenção que ele dedica, a melancolia de um vasto império... Tudo isso está ali, na superfície, mas a profundidade é imensa. Essa precisão é um ato de lapidação, de busca incessante pela "palavra certa" que o Paulo André tanto fala. Se você se questiona se seu livro está pronto para publicar , olhe para esses mestres. Eles não se contentavam com o "quase". A voz deles precisava ser afiada, precisa, cirúrgica. E a sua, meu caro autor, também precisa. O medo de publicar é real e normal, mas a solução não é a covardia, é o aprimoramento. A solução é dar à sua obra a melhor chance possível. Afinal, a insegurança nada mais é do que a sua voz interior dizendo: "eu posso ser melhor". E a revisão de texto dialogal é a resposta. É a validação de que seu trabalho merece estar no mundo, bem-feito, claro e polido. É um processo de parceria, de confiança, de olhar para a sua obra não apenas com olhos de pai, mas com olhos de parceiro, de cúmplice na busca pela excelência. E quando essa parceria acontece, a insegurança se desfaz como fumaça, e o medo de publicar dá lugar à euforia de ter um produto final pronto, confiável e forte. Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia... 📚A Estante de Ana: As Cidades Invisíveis de Italo Calvino Por que Ler? Leia para aprender a construir universos com poucas palavras. Calvino é o mestre da concisão e da imagem, mostrando que a precisão é a chave para a profundidade. Se seu livro está pronto para publicar, ou você acha que está, essa leitura vai te mostrar que sempre há espaço para o aprimoramento. ☕Vamos Conversar sobre a Revisão de Texto Dialogal? Seu texto está pronto para ir para o mundo? Se a dúvida ainda te assombra, a gente te entende. Escrever é um ato de coragem, e a revisão é o passo final para garantir que toda essa coragem valeu a pena. A gente não está aqui para somar. Acreditamos no potencial da sua obra e queremos ajudá-lo a encontrar a clareza e a força que sua voz merece. Que tal dar o primeiro passo? Deixe a gente fazer a revisão de texto dialogal de um pequeno trecho do seu texto. É de graça, sem compromisso, e é a chance de você ver, na prática, como nosso método pode transformar sua insegurança em certeza. O medo de publicar só se vai quando a gente tem a certeza de que fez tudo o que podia pela nossa arte. Ana Amélia Letra & Ato Tradição | Precisão Editorial | Sensibilidade © 2024-2025 Letra & Ato (antiga Revisão Dialogal) . Todos os direitos reservados.
- Mais que Humor: Como Verissimo Transformou o Cotidiano em Alta Literatura
O Silêncio Depois da Piada: A Genialidade de Verissimo na Arte da Crônica Tem dias que o mundo fica mais quieto. Não é um silêncio de paz, mas de ausência. É o que acontece quando uma das vozes mais inteligentes, sagazes e divertidas do nosso tempo se cala. A partida de Luís Fernando Verissimo deixa esse tipo de silêncio. Um silêncio que ecoa depois da última piada, da última sacada genial, da última crônica que nos fez rir e, no segundo seguinte, pensar. Muitos vão lembrar do Verissimo como o humorista. E estão certos. Mas aqui, no nosso cantinho de obcecados pela palavra, eu quero falar do Verissimo artesão. Do mestre que, com uma economia de palavras que faria Hemingway parecer prolixo, construía universos de significado em 800 palavras. Porque o humor dele, meus caros, não era mágica. Era técnica. Pura, lapidada e brilhante técnica de escrita. Enquanto meu colega Paulo André certamente escreveria um ensaio denso sobre "A Função Sociológica do Riso na Pós-Modernidade Brasileira através do Prisma Verissimiano", eu prefiro puxar a cadeira e fazer o que sempre fazemos aqui: abrir o capô para ver o motor funcionando. Vamos espiar os "truques" do mestre. Truque 1: A Lupa sobre o Ridículo Cotidiano A matéria-prima de Verissimo era a nossa vida banal. A fila do banco, a conversa de elevador, a briga de casal por causa da pasta de dente, a paranoia com o que o vizinho vai pensar. Enquanto aspirantes a gênios se debatem para criar tramas mirabolantes sobre dragões ou crises existenciais em cenários exóticos, Verissimo colocava uma lupa sobre o pão com manteiga e extraía dele uma ópera. Ele nos ensinou que a literatura mais potente muitas vezes não grita, mas cochicha uma verdade universal a partir de uma cena minúscula. A grande sacada não é inventar o extraordinário, mas revelar o quão extraordinariamente ridículo o nosso ordinário pode ser. Vejam este trecho de uma de suas crônicas clássicas, "O Lixo": Um dia, um vizinho meu, que acabara de se mudar para o prédio, me disse, com um ar triunfal: — Descobri o seu segredo. Assustado, perguntei qual era. — Você não joga nada fora. E contou que, bisbilhoteiro, tinha notado que o meu saco de lixo era sempre o menor e o mais leve de todos. Enquanto os outros vizinhos lotavam os seus de restos de comida, jornais velhos, embalagens e entulhos em geral, o meu mal continha o indispensável. Concluíra que eu era um desses orientais que não desperdiçam nada, ou que não comia em casa, ou que, sei lá, comia o lixo. — Engano seu — respondi. — Meu segredo é outro. Eu espalho o meu lixo. E expliquei. Em vez de concentrar todo o lixo que produzo num só saco e entregá-lo ao mundo como um retrato fiel da minha intimidade, eu o distribuo. Um pouco em cada lata de lixo da cidade. Percebem? A premissa é simples: um homem e seu lixo. Mas a partir dela, Verissimo tece uma crônica inteira sobre privacidade, julgamento social, a neurose da vida urbana e a imagem que projetamos para o mundo. Ele não precisou de um parágrafo de adjetivos para descrever a paranoia do narrador. A ação dele — espalhar o lixo pela cidade — diz tudo. É a velha máxima "mostre, não conte" elevada ao nível da maestria. A genialidade está em identificar o potencial cômico e filosófico na situação mais prosaica possível. Truque 2: A Arquitetura Impecável da Virada Se a observação do cotidiano era a fundação, a "virada" era a viga mestra da arquitetura de Verissimo. Muitas de suas crônicas funcionam como uma longa e elaborada preparação para o punchline . Ele nos conduz por um caminho, nos faz acreditar em uma realidade, cria uma expectativa e, na última linha, puxa o tapete com uma frase que ilumina e ressignifica todo o texto anterior. Essa não é uma tarefa fácil. Exige um controle narrativo absoluto. Cada palavra, cada vírgula, é um tijolo colocado no lugar certo para que o edifício não desmorone antes da hora. A piada, no caso dele, nunca é gratuita. Ela é a consequência lógica e, ao mesmo tempo, surpreendente de tudo que foi construído. É o arremate que transforma uma história divertida em algo memorável. Peguemos o exemplo da crônica "Papo de Anjo": — Não aguento mais. Aquele cara lá embaixo, de novo. — Qual? — Aquele de sempre. O que vive de joelhos. — Ah. — Vive de joelhos, chorando e pedindo perdão. Que mania! Se a gente perdoasse todo mundo que pede perdão, onde é que este Céu iria parar? Ia virar uma zona. — É. — E o que ele fez, mesmo? — Acho que roubou um pão. — Roubou um pão e está há dois mil anos de joelhos, pedindo perdão. Não tem mais o que fazer, não? — Parece que não. Mas não é por causa do pão. — Não? — Não. É por causa da mãe dele. Parece que ele falou uma coisa que a deixou muito triste. — O que ele disse? — Disse "Hoje estarás comigo no Paraíso". E furou. Toda a crônica é um diálogo aparentemente casual entre dois anjos entediados. A linguagem é coloquial, quase burocrática. Somos levados a pensar na mesquinhez do Paraíso, na repetição, no tédio da eternidade. A revelação final sobre quem é o "cara lá embaixo" (o bom ladrão, Dimas) e a natureza da sua "falha" não apenas provoca o riso, mas nos dá um tapa. É uma piada teológica, uma crítica à burocracia da fé e uma humanização absurda de uma das passagens mais solenes do cristianismo. Tudo isso em uma única frase. Isso, meus amigos, é o poder da palavra exata no lugar exato. É essa busca pela precisão, pelo ritmo que valoriza a piada, pela clareza que não subestima a inteligência do leitor, que nós na Letra & Ato vemos como o âmago de um texto que funciona. O trabalho de um bom editor é, muitas vezes, ajudar o autor a encontrar essa clareza, a construir sua própria "virada" de forma eficaz, garantindo que cada palavra trabalhe a favor da história. É um diálogo para afiar a ferramenta, exatamente como Verissimo afiou as suas à perfeição. Ele se foi, mas deixou a caixa de ferramentas para quem quiser aprender. Deixou a prova de que para escrever bem não é preciso ser solene, hermético ou "profundo". Muitas vezes, a profundidade maior se esconde num sorriso de canto de boca. E por essa lição, e por todas as risadas, nosso eterno obrigado. Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia... 📚 A Estante de Ana: A Traição das Elegantes de Rubem Braga Se Verissimo era o mestre do humor cirúrgico, Rubem Braga era o mestre da crônica lírica. Ler Braga é entender a alma do gênero no Brasil, como transformar a melancolia, a saudade e a beleza fugaz do dia a dia em poesia em prosa. É o contraponto perfeito para entender a vastidão de possibilidades que um simples "causo" pode conter. ☕ Um café e uma primeira conversa Seu texto, seja ele uma crônica, um romance ou um ensaio, carrega um potencial único. Às vezes, o que falta é apenas um segundo olhar, um diálogo atento para encontrar a palavra exata que destrava uma ideia ou a estrutura que faz sua história brilhar. Acreditamos que a revisão não é sobre apontar erros, mas sobre iluminar possibilidades. É por isso que nosso primeiro passo é sempre uma conversa. Que tal nos enviar um trecho do seu trabalho para uma amostra da nossa revisão? Sem compromisso. Será um prazer tomar esse café (mesmo que virtual) com você e seu texto, e juntos descobrirmos a força que já existe nas suas palavras. A piada genial precisa do timing perfeito; o grande romance, da revisão precisa. No fim, tudo se resume a encontrar a palavra certa para não deixar a história morrer no silêncio. Ana Amélia Letra & Ato Tradição | Precisão Editorial | Sensibilidade © 2024-2025 Letra & Ato (antiga Revisão Dialogal) . Todos os direitos reservados.
- A Estória do Homem do Pinguelo: Conto de Guimarães Rosa
Estas estórias / João Guimarães Rosa. – 6. ed. – Rio de Janeiro : Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013. A Estória do Homem do Pinguelo N ada em rigor tem começo e coisa alguma tem fim, já que tudo se passa em ponto numa bola; e o espaço é o avesso de um silêncio onde o mundo dá suas voltas. Esfera com mares, em azul, que confecham terras de outras cores. Montanhas se figuram por fieirinhas de riscos. Os rios representam-se a traços, sinuosos mais ou menos. Aí e cada cidade é um centro, pingo ou não em pequenino círculo. Mas, o povoado... — Arraial. O arraial que, já nos dantes tempos, se datava do Sr. Sagrado Coração de Jesus e de um Seo Coronel Regismundo dos Reis Fonsêca. Afianço que aquém ou além, por estes fundos nossos. As casas meio em beira do rio, sobre o em onde a barra do ribeirão; e é ver que inda tem uma lagoa, no que era para comum ser somente o Largo da Igreja. Lugarzinho amansado de quieto, conformemente, pelo mor moroso. Lá, o existir é muito escasso. Em tanto que, com o pessoal todo conhecidos uns dos outros, as coisas nem acontecem com regra de separação, mas quase só como se inventando de ser — no crescer do plantado e no virar do ar. Assisti ali, dos três aos trinta, naquele princípio-demundo. Lugarejo... Valha dizer-se também do redor — os cerrados de tabuleiros, uns campos, com amagrados capins e árvores de maus ossos, mas no entremontar de serras, onde se acham e se perdem as estradas. Andando ao acaso, às costas delas, um se pasma e interrompe, ao às-vezes abrir-se de vista alegre, longe, clara, nas paisagens inopinadas, páginas e páginas. Aqui e ora aí, por abaixo, orlam-se caapões e pega-se chão bom, em vale oasioso: belvale, valverde, valparaíso. Adiante, quando as léguas cessam, surge em saco-de-morro uma casa-de-fazenda, toda dentro dos currais, entre-e-entre mangueiras — e o laranjal, com um coeso fresco de pequena floresta, indo até junto do paredão, em que o mato mexe-se sobre o calcáreo azul das pedreiras. O ar é ágil, a gente habita-o levemente. Casinhas brancas, cafuas morenas. E há o riacho ávido, corguinhos vários, grégio o gado pastando. Após o escurecer, vão-se assim vagalumes ou o assombrável luar ou o céu se impõe de estrelas. Às duas margens da noite, totais grilos e a simultaneidade dos sapos, depois e antes do em-si-estremecer das cigarras. Tudo, pelo dito, quer que ali deva reger não o devido, mas o dado... — É. O lugar não é de todos o pior. Com sua terra-decultura, afora o que se reparte para a engorda de rêses, e cria e recria. Por ano, em maio, junho, lavora um forte movimento, que arremeda o de cidade. Só carros-de-bois cantando, trazendo o milho das roças, o povo feito na colheita... E algum negócio regular. Teve quem se diz que enriqueceu. Eu é que estou no que era, fiquei sendo. Dono de chácara, dono de sítio, de diversos — construção, carroças — perdi tudo, o mais reperdi, parei no à-toa. Vivendo como não posso. Isso não tira de minhas alegrias. Hoje, já me revejo quase meio remediado, enquanto que é a outra vez. Saí de lá, andei morando em distantes comércios, guardei o de Deus, gastei o do diabo... Mas, o que no fim de cada mês me falta, a minha Nossa Senhora intéira. Com a ajuda superior, eu vivo é do que é o do bico dos pássaros... Cujo nome é legião. Sábio seria poder seguir-se, de cor, o que eles tradizem, levíssimos na matéria. E todos inventam vogais novas. Porque os passarinhos, ali, ainda piam em tupi. (O epigorjeio, mil, do páss’o-preto, que marca a alvorada. O em fundo e eco sabiá, contábil. O contrapio segredoso do azulão. O esquerzo mero, ininfeliz, dos gaturamos. Os canarinhos repetitivos. O tine-trêmito silencional da araponga metalúrgica. Os eólios nhambus que de tardinha madrugam. O simplezinho sim do tico-tico. O sofredor também corrupião — sua longa, mélroa intenção pípil. O tintimportintinhar sem teor da garrichinha estricta. O pintassilgo, flebílimo na alegria. O sanhaço: desmancha-pesares. O eclodir-melodir do coleiro, artefacto. O cochicho quase — imitante, irônico — da alma-de-gato, solíloqua. Os duos joãos-de-barro, de doméstico entusiasmo. O, que enfraquece o coração, fagote e picirico dos pombos. O operário pica-pau, duro estridente ou o mais mudo. O doidivescer honesto do patativo (seus pulmõezinhos, sua traqueiazinha muito forte). O trêmulo pispito, a interrogar, sem mais, das tortas andorinhas, fugas. O canto do galo, que é um meteoro. O horrir da coruja clarividente?) Dó é, porém, que tão desencontradas, contramente, suas revelações se confundam. E que, no impropício, rude ou frouxo dia-a-dia, ninguém tenha inda tempo capaz de entendê-los. — Credo que não. É mal ver que, às ora vezes, a gente mal vive, por tudo. Mas, também, cá não me queixo, nem da roda nem do eixo. Jamais, nuncas, eu invejei ninguém: porque inveja é erro de galho, jogar jogo sem baralho. A sina ou os acasos, de outros, meus não são — e nem por sobra nem copiado, porventuras, parentescos. Pouquinha dúvida. Invejar é querer o peso de bagagens alheias, vazio. Pelo que tolero o justo mal ou bem de todos. O que há, é que eu uso de jogar de fora. Eu aprendi assim. Eu vivi mais pouco, pelo aprender mais antes coisas. Quem não é, não pode ser. Assim como: não haverá dois cipós que não acabem se emendando. Se para escutar não lhe cansa — sempre me alembro de um forte caso, conteúdo, que nem dos de livro, conformemente. É estória achada. E o senhor depois vai não contrariar comigo que, do que se vive e que se vê, a gente toma a proveitosa lição não é do corrido, mas do salteado. Súbito acúmulo de adágios — recurso comum ao homem do campo, quando tenta passar-se da rasa realidade, para principiar em fórmulas suas abstrações. Quanto à frase in fine , quererá dizer que: o que merece especulada atenção do observador, da vida de cada um, não é o seguimento encadeado de seu fio e fluxo, em que apenas muito de raro se entremostra algum aparente nexo lógico ou qualquer desperfeita coerência; mas sim as bruscas alterações ou mutações — estas, pelo menos , ao que têm de parecer, amarradinhas sempre ao invisível, ao mistério. — A verdade letrada! Aí é que está o polvilho... Antes, pois. Seo Cesarino estava sendo dono de uma venda, mesmo na saída do arraial. Seo Cesarino era moço apessoado, de bom siso, magro, alto, forçoso. Vermelho, dos de mais nariz, vestido com um paletó de alpaca, que nem seu defunto Pai, parecia até que pertencido do Pai, por tanto quanto. O Pai era homem situado, seguro, companheiro de caçadas de Seo Coronel Regismundo e compadre de Seô Caetano Mascarenhas, da Ponte-Nova. Com ele, não se brincava de aliás. Mas já tinha morrido. Senão se só em dois pontos, denuncia-se o narrador, quanto a secretas opiniões ou involuntárias razões, que estariam a conduzi-lo no contar; o que pode propor algo à luz o sentido oculto da estória. Primeiro, diz “na saída” do arraial, quando também, e melhor, poderia ser “na entrada”. Depois, reafirma, com instantes ênfases, a personalidade do Pai, como se de incerto modo este se fizesse notado ainda, mas preponderante, por alguma outra espécie de presença. (Interpelado, sobre item e outro, ele nada tem para explicar.) — Seo Cesarino herdou a venda, não tinha mãe nem irmãos. Estava sempre calçado de botinas, o chapéu em cheio, com colete e paletó, mesmo dentro de casa. Ele usava ficar passeando, perpassante, por frente da venda, e bom é dizer que nunca se viu outro para andar com vontade de passo tão largo e estudado ligeiro, feito ele, me figuro e alembro. Seo Cesarino ria disparado de fácil, a cara comprida — o que queixo. Somenos que, às vezes, puxava de bravo, mas a raiva, com ele, se ia se indo, não tinha para onde espirrar. Segurava a gente pelo braço, para andar o lá-pra-cá, juntos conformemente. Achava o jeito de contar graças, motes de pândega, a cabeça cheia de coisas que vazias. Seo Cesarino apreciava a minha companhia, muito. Nenhum presunçoso gabar-se, nesta derradeira, quase impessoal observação. — Alguns achavam que ele era mais de vir do que de se chamar. Por via de acontecidos desses como este: de quando um pé-d’água derribou pano de muro do cemitério. O padre pronunciou que se havia de providenciar, passou introitos em sermão, mandando ao povo que o dinheiro encaixassem. Só que ninguém estava tendo o vagar nem pressa nenhuma de dar, aí a coisa parava para mais logo. Vai, do que, Seo Cesarino, no de um dia, no repente, saiu casa por casa, rogando intimado, recolheu quantia, formou os pedreiros, pegou a bênção do padre, e ainda foi feitorar enfim a tarefada. Homem ardente. — “Não ia consentir vossas vacas vindo comer capim lá de dentro, e quanto cabrito sujos deslimpando por riba de cova de minha mãe, meu Pai!” — me disse, me redisse. Convém, quando possível, reparar-se que o contador alterna, afetivamente, pelo menos dois tons, positivos. Aqui, em exemplo, o acento surdo recaindo sobre o “Pai”, daí por isto gravado maior. — Em outra ocasião, um moço de fora, que ganhava a vida medindo terras, requereu ao seo Cesarino favor de embaixada, de ir para ele pedir a filha de um sitiante, seo Agostinhinho, o manco. Seo Cesarino, é de ver que depressa foi que foi, lá almoçou, caçoou, e declarou o pedido, sério somente, costumeiro. Seo Agostinhinho meditou que primeiro carecia de uns dias, para bem poder resolver, mas com detença. Pouquinha dúvida. Seo Cesarino concordou que sim, porém que ficava feioso, para ele, não voltar já com a resposta satisdada. E que, por via disso, ia ter de esperar os três dias mesmo ali, no sítio, se caso seo Agostinhinho estivesse pelo dito, pelo hóspede. Pouquinha dúvida. E só aluiu de lá com o prazme do pai, noivado ajustado, por alegria de todos, conformemente. No narrado, não há inexatidão. Aquele agrimensor deu-se bem com a sua consorte. Seo Agostinhinho, mal historiado homem, não seria menos pífio nem mais fero que os demais habitantes . — Aqui, tomo água benta. Pelo que também, afora o que retro falei, seo Cesarino sendo de todos estimado, e muito. Porque mal cobrava o que deviam a ele, e favorecia dinheiro, em préstimo, a quem pedisse por precisar. Mesmo pensava junto, com qualquer um, para ajudar a resolver os casos desse outro, assuntos. Homem do pé quente. Discorria que o arraial carecesse de melhorar prumo, porvir adiante: se abastar de tamanho e progressos, capaz de ainda ser o principal, de todos por perto, para principiar. Bom é dizer que seo Cesarino não errava ocasião de festas, nem o de divertir que se desse de ter e haver, no derredor. Caçava. Possuía sempre um ou mais animais, regulares, de sela. E se prezava de botar gravatas, mesmo não sendo em dia-de-domingo. É mal ver que gastava meio para lá do convinhável — mas não que fosse rapaz estragado, demais não se pense. O que era: que a venda dele estava era dando para trás, não fazia muito negócio. Quem estavam se arredondeando eram as outras vendas. A de seo Genuíno. As dos turcos. Seo Genuíno, cunhado de Seo Coronel Regismundo, se via assim uma espécie de gentil-homem no sertão, já se esfarelando de rico, e nada de atraso poderia pegar-lhe, dado que como as águas vão é de rio a navio. A mais, ali, apenas bitáculas sem menção, a não ser o “São Jorge Barateiro” e o “Oriente Primavera”. E é que Abdallah Ibrahim e Jorge Felício Mansur, os sírios, ainda haviam desembarcado no país vestidos de rouponas e cobertos com turbantes, o povo dizendo deles que comiam crianças. Carregaram baús de mascatear, tocaram matracas, mas prosperaram, arabizavam, só em inteligente progredir. Salim Badi, de costas das mãos e antebraços tatuados de azuis, vencia: derramava sobre si, dia sim, dia não, um frasco barato de perfume. Mas, tendo por detrás, e no sangue, o antepassado fenício, ninguém podia com ele. — Vida sem vigiada. O fiado mal cobrado, e não pago, é que avoa com o negócio. E o miúdo. Ora, que passava alguém, seo Cesarino conversava, ouvia e contava os casos, propunha arrojo no glosar os meios de grandeza, e em o mais. O sujeito apreciava, dizia o riso e o gosto, e depois ia mais adiante, comprar de seos Salim ou Ibrahim, que nunca sacavam tempo sem forro de dinheiro. Às lástimas, que a venda de seo Cesarino não chegava mais nem aos pés do que tinha sido, conformemente, quando o Pai dele inteiro vivia. O fundode-negócio de encalhe, quase tudo alcaide. Maus maços... Sim e não. A venda não era propriamente pequena. Dominava a ponta do arraial, no baixo da rua, no para quem vem do rio e vai ao matadouro. Casa boa, de quatro portas, quintal vasto. Seo Cesarino tinha nascido ali, tão bem quanto o Pai e talvez o avô de seo Cesarino. — Teúdo e transato tropicavam, e é mal ver que nem seo Cesarino conseguia jeito de saber melhorar o sortimento, que restava encravado ali, as coisas morrinhando. Para o prato de viver de um rapaz solteiro, quase que ainda dava, se junto com o pouquinho mais, que tivesse herdado. Mas não podia ficar facilitando nas sobrecontas, nem emprestando dinheiro a cachorros e gatos, naquele já-chega. Isto é o que foi. Pouquinha dúvida. Por fim, ele se afundou pior, contra embaraços e outros, na cor do caldo. Bom é dizer que, naquele ano, tinham sucedido as invernadas muito brabas. O mundo virava chuva, chuva. Com enchente. Aí quando o rio, o ribeirão e a lagoa subiram, a água tapou uma sua parte do arraial, conformemente. Mas é ver que a única venda que sofreu, de má verdade, foi mesmo a de seo Cesarino. Resuma-se: que foi hora — em paupéries e intempéries. A cheia ficou notável. As chuvas ditas de calcarem no mundo mais marcas, Deus estando se apressando. A casa da venda de seo Cesarino tomou água por fora e por dentro, medidos na parede nove palmos. — Aí, se esperdiçou fatal a quanta mercadoria. Botouse para secar, mas tudo em barro grosso, empesgado, fartas coisas se apodrecendo. Estive lá, ajudando ao seo Cesarino. Em certa má-sorte, ele se arreliou, disse, nos sem-fundos da razão: — “Estou para saber se algum dia se deu uma desgraçação igual a esta, nos outros saudosos tempos do meu Pai!...” Daí mal em diante, foi que não vendia mesmo nada nem quase. O caipora, até na pedra atola. Tanto mais o quanto mais. Os cometas já não estavam querendo vir a ele com encomenda de se oferecer. Ah, o rapaz, em linhas frias. E tudo ia indo. Fecha os olhos, ao se referir às nefas causas. — Deus foi servido, por calcular, que o ano ficasse um dos muito lembrados. Ora, pois, o quê. A gente pensa que vive por gosto, mas vive é por obrigação. Pouquinha dúvida. Deu seguida que o tempo negou o certo. Passou outubro, passado novembro, mais dezembro, então. E credo nisto: que não e não chovia. Agora, era o estado da seca. E mal é ver que ninguém resolvia plantar, para não perder sem roça seu sementio. Sem mais os pastos, boi se via vendido às pressas, no esparramar. Todo o mundo, cada um, foi se cabendo dentro de si, ganhando conselhos retardados e produzindo medo de pobreza... Sobre os campos enfraquecidos, os ventos não vinham vindo das serras. Saudavam-se ausentes chuvisco e orvalho. Sobrava o céu, feio, vazio — de onde só o azul se dependura. Depois, chovia era terra, e pesava a poeira em qualquer folha. Mesmo nem mais quase folhas. A qual aridez. Os córregos cortavam. Enxuto e verde, negro, o fundo estorricado das lagoas. A seca: um saara. Sempre, o sobrejante calor, que chega a cantar uma cantiguinha fina, quando o sol está tenebroso. O sol de rodela de ananás, ardendo numa boca-de-forno, no céu insensibilíssimo, que se branco. — O povo, em pragas, rezava. Naquela época atual, o que é mais que haviam de fazer? Pelejavam com seus usos, não podendo e não regateando, precisados de uma folga de Deus. Estipulavam novenas, no rogar forte, senão que faziam altas promessas. Saíam com o terço... Sucedia haver desfiles penitenciais — as pessoas arcando com pedras nas cabeças. O terço, porém, era só procissão simples, no arrocho do queimar do dia, o padre tirando o canto e mulheres e homens respondendo. — “Glória seja ao Padre, glória seja ao Filho, ao Espírito-Santo e seu amor também. “Ele é um só Deus, em pessoas três...” .............................. Conformemente. E: “Ave Maria, cheia sois de graça o Senhor é convosco, bendita sois vós...” .................................... Exato. — Seo Cesarino somenos disse que no poder de virtude daquilo quase que mais não queria crer nem acreditava. Mas, o que, bom é dizer, vinha a ser bazófias dele, irritado nos cabelos. Mentira central. No que, no devocioneiro de acompanhar o terço, ele também acompanhava. Ninguém deixou de ir, comum, para o transmudamento. Segurava a grande cruz, revestido vermelho, o de opa, o Seo Coronel Regismundo, que ora não mandava e menos ainda abdicava. — Daí, se em uns poucos e tristes dias, ele, seo Cesarino, entregou seu cavalão de sela, a ato de indenizar metade do que devido não protelado. — “Vergonha, a gente passa, a vergonha a gente perde...” — ele me destornou, no riso de incerteza de encobrir tristeza. O que foi a ser de noite, a horas de se fechar a venda. Parte em que ainda me quis lá dentro um tempo, para o espairo de se tomar o uns-dois-dedos de um debeber, na companhia dele e minha, ali, nós dois sentados. De bocejos em bocejos, ficou tarde. Tanto menos o tanto mais: as coisas em roda da gente, mas sem o valor nem o poder nem o possuir. Seja se refira aos estoques de uma loja da roça, onde de tudo há — armarinho, fazendas, calçados, ferragens, armas, secos e molhados gêneros, toucinho, artigos fúnebres, tinta, cadernos, panelas e velas. — Seo Cesarino estava completando de ficar desesperado. Me mostrou as prateleiras: — “Vejo o cheio, pego no vazio. Agora é que sei como o de-nada é grosseiro, grosso. Olho o tibi-tifufes! Só sujo, seco, e mofo. Tem barro, guardado aqui, que dava para um sagrado entupir de cova. E meu Pai, que queria que eu tomasse boa condição da venda, a modo de ainda deixar tudo melhorado, para os saudosos netos dele e os meus!” E assim. Isto é conversa registra. Se via que o seo Cesarino se fazia desprezos de com aquela herança errada estragada: parecia nos remorsos do que nem tinha feito nem desfeito sem perfazer. Dava o perdido por remido, o despertencido. Desde que, já no canto, sozinho ele estava. Pouquinha dúvida. Mal é de ver que, mesmo falso fiado, grátis, somente vinha ainda, para adquirir dele, quem fosse tão precisado e sem crédito de não se prover em outronde próprio lugar. Mesmo eu, conjunto com ele, amigo em fito fiel, agora só é que me espanto que me alembro: de que, lá, quase que nunca eu comprei, nada, conformemente. A gente só segue. Se a seca se prolongava, morriam as criações. O povo voltava a sofrimentos muito antigos. Só os urubus sinuosos se trançavam no céu. — Sendo que, com mais ou menos prazo, sobrevindo um ventozinho do ar, ou migalhinhas nuvens, ou dando umas trovoadas cegas, o povo, por regra, adiantava esperanças de consolo. Seo Cesarino, não. Só nervoso, cismoso, dava para se ocupar em si, por esmorecido, esbarrado. Ovo em meio do choco, goro ovo. Ele era o pobre de um moço que ia se ajudando a ficar velho, sofria o sem-conformidade. Ele já estava imediatamente nunca? Seo Cesarino devia de contar uns 25 anos, se. Demais, o narrador, interrogado, desdiz-lhe qualquer real sinal de velhice temporã, e nem sabe explicar porque a isso se referiu. Dito foi, mais, que seo Cesarino deixara de correr às suas habituais caçadas. Decerto, porém, por conta do geral desânimo e em-vão, dado o calamitar suprareinante. — Suceda. Do que meu, que sei, na véspera do que vem, como ao adiante vou tratar, ainda proseei com o seo Cesarino. De vez que um carro-de-bois se esteve entrastalhado, ao perto, e seo Cesarino, ouvindo os praguejos rebuliços daquilo, às artes, pulou para fora o balcão. Aí, tirou o paletó, prestes, arregaçou as mangas, nos compridos braços, pois. Acabou pelejando antes que todos os mais, não parou enquanto tudo não se botou remediado, por suas ordens de mandar e afinar providências. Num trabalho que para ele não suou vintém meio-réis de ganho. Do que, depois, para sem hora nem demora, retomamos mais, juntos, um pingo e gole, e ele se respeitou meio alegre, tirando algum peso soltado, do demais do coração. Ponto em que dissesse: — “Agora, ôi. Ao que não tem mais arrumo. Se me, se mim, que me importa? Para não nascer, já é tarde; para morrer, inda é cedo. Pior do que as coisas já se dizem que estão, ao menos não têm mais ameaça de outro piorar...” Contra o que o fato daria a supor, seo Cesarino jamais se embriagava, nem mesmo recorria com frequência à bebida. E é notoriamente sóbrio o narrador. Serviam-se, um e outro, de copos, dos menores. A monotonia, ali, é que era aumentante. Só o tempo, temporoso. De fora a fim, no arraial, quando não gemiam os carros-de-bois, os galos, de dia, cantavam, a todo pesado momento. — Cá, eu ainda mais calado, encoberto, se rente. Desgosto de oferecer minha opinião, conformemente: fico resistido, de meio no talvez. Deciso, então, seo Cesarino desfechou num rompante, desses, de nada antes de nada. É bem de ver que, tras hora, um rechupa alívios novos — de de-dentro mesmo da cuia da aflição. — “Justo, um dente de menino, que cai, é outro que vem já apontando...” — resumo que ele mais disse, sem dar a razão de seu dizer. Gostei, daquilo, demais. O Homem do Pinguelo eu acho que estava lá, remirando a gente. Ele, às vezes, fio que costuma aparecer assim, em portas de vendas... — Oh. E estava-lhes ali, aos lados? — Resta pouquinha dúvida, que vem no poder dele. O que ele consegue. Porque: quem é, tem que ser! A gente a si mesmo se ajuda, é quase sem se estar sabendo o que se faz. Assopro de fôlego, o silingornir, conversinha com a vida, essas brandas maneiras, de de-dentro... Aqui, um floreio deceptivo. — Das coisas que a gente vê, a gente nunca percebe explicação. Cada caso, tudo, tem mais antes do que em ponto . — O Homem do Pinguelo? — Dessa forma dito é, quem não sabe saberá. Modo de referir, conversa dos antigos. Quem é que ajunta, no escuro, o que no claro vai aparecer? Nem não há nenhum lugar de nenhum momento. Porém, é peta, o jogo de adivinhas. A estória camba para uma segunda parte. — Saí eu cedo do arraial, no outro dia, por não ter obrigação minha à mão, queria render visita a um parente meu, morador meio longe. Passei a cavalo, por diante, mas bem que a venda de seo Cesarino se estava ainda fechada. Subi o beco, atravessei a ponte, peguei a boca da estrada. O viajar, naquela nossa ocasião, perfazia poucas alegrias. Aí e ali, nem um verde, quase, as roças nenhumas, não revivia nada. Eu ia pitando, imaginando ou não o que é bom ou não, a fito de desimaginar os seguros males. Departi do caminho, pela mão canhota, para ir poder saudar os vários conhecidos, de por lá, obra de meia légua, e vim revirar na outra estrada, aonde o ribeirão dá volta. Na Passagem do Ingá — que já de si é de vau — de água se via quase que só um fiapinho. E há que ali é tão recatado bonito, porém, que dá para sonho de banho de moça; e que devia compor-se uma canção: Na passagem do Ingá o rio é raso, na Passagem do Ingá o rio é bom... — Sei se serve. Mas eu estava deixando ao menos meu cavalo sorver o beber, por esse enquanto. Ao fim — quê — quando escutei toques de berrante: o hu... huhuuhuu... hu... e mesmo, logo em pós, a tropeada e o aboio de vaqueiros. Ah, uma boiada, por lá? O fato, que havia de ser sombração. Mas, não é que não, não; e que era de verdade? Decerto, vira-se o condutor dos bois forçado a deixar a grande rota cumeeira, sem pastos, falha de águas. Optara, daí, por um itinerário de fortuna, a seguir, o mais possível, o ribeirão, onde resta sempre, aqui ou ali, alguma vegetação marginal, embora escassa. Seja, de qualquer modo, que estaria o boiadeiro ante todos os problemas — almirante em mar secado, com suas favas mal contadas, aprendiz do que não quis... — Aqueles bois se sumiam e surgiam de magros, suas ossadas espinhando. Tanta miséria em mal-amparo, em maus cavacos, no cabo de se olhar dava gastura. Os vaqueiros, mascarados, que de só poeira, e desgosto. Atrás da comitiva, a gente esperasse de ver aparecer a Morte sensata, amontada em seu cavalo, dela, alvo, em preparo, gadanhando. Não, não, ainda não era. O não. Era mas um dono homem, quem vinha na culatra, sujeito de cara de lua das luas, desabado posto o chapelão. É ver que pitava, cigarro de palha, o cigarro comprido fora do costume. Vinha sobre um burro dourado, mulo grande, gordo feito o cavaleiro. O pró de parecer, deles dois, se sobressaía ainda mais estúrdio, no frisfruz de movimentos daquela mazela de mau gado — que se ia para o não adiar, por não-onde. Dito que, logo, no redemoinhar de parar, umas das rêses se desceram, de joelhos e deitadas, para não prosseguirem dali. Assaz os outros entravam no cano do ribeirão, pelo fresco, por água, e catando folhagens, abaixo e arriba. Nem podiam brigar por algum ramo pendente, e outros penavam, é ver assim, por cavacar o chão ao modo de tatu, em instâncias de nem achar o que comer, raízes. Ou os que se atascavam, frouxos, no lurdo da lama. O triste rodeador! Os quartos de um boi daqueles, que se carneasse, davam mal para iludir a boa fome de uma pessoa. Aí berravam, pedintes, por algum capim não avistado. Simples, que o senhor gordo, que era o boiadeiro próprio, se apeou do burro, e foi se sentou direto na beira do barranco, debaixo de um pau-d’óleo de outroras sombras ramalhudas. Assim, todo capitão, chupando seu cigarro, dele, de palha, seja-me Deus válido. Semelhava o Pitôrro... O Pitôrro é uma aparição grotesco-fantástica, do repertório dos tropeiros. A parada da boiada explicava-se pela hora do dia, ainda mais em suas pobres condições, carecendo de frequentes repousos. Também a Passagem-do-Ingá não fora ponto mal escolhido. — E ele se nomeou: que se achamava Mourão. Me disse. — “Onde é que o senhor existe?” — foi me perguntando. Falei que morava dali aqui a légua e quanto, e declarei a situação do arraial. Conforme a verdade, de que, pasto, por cá, não se achava, de nenhum jeito, nem um capim seco, quase, para se pegar fogo riscando fósforos, e o que era muita pena. O homem ficou quieto como quem quieto, com o pito. Devia de estar num cansaço de segundas semanas, os olhos com certas olheiras, fundos, conformemente, mas no centro daquela gordura, pura, que puxava para inchação. Depois, sacou da algibeira uma tesoura pequena e começou a acertar as unhas dos dedos, em vagarinho, vai. Como se tudo com os bois e com ele sucedesse pelo perfeito trivial. Capaz de ficar quieto no inferno. Ele estava gostando imediatamente da minha companhia. Nenhuma pausa. — Dei tento nisso. Fiquei sentindo falta de falar alguma firme coisa. Indiquei o céu, e defini que a másorte era de todos. — “O mais penoso é para quem viaja...” — ele rescruzou. — “Boiadeiro, quando morre, até o demo a ele socorre...” — disse. Correu dedos pelo queixo. Do homem, aquele, Mourão, ainda até hoje melhor me alembro. O rechoncho, reboludo, no esperativo, mal e grave. Mas enxuto de ideias, com a cabeça comportada — subindo para as glórias da forca — em clara situação. Rente, assim, a cara de lua, no ruim reslumbre dos dois bois magros, era ver esses coqueiros que restam em pé no campo morto da queima e seca, viçoso ele só, quatreado de cocos. Haja-me. Ele principiou a fazer outro cigarro, conforme calado. Picou o fumo, palmeou, vagaroso. Por umas duas fipas, que caíram, ele procurou com os olhos, e apanhou, que nem que pulgas catasse; é triste ver o gordo se abaixar. — “O que eu estou caçando é sossego...” — ele disse. Era homem sem flagrante. E o sossego dele, mesmo, por demais, pasmava a gente, mentindo ali o remexer das lástimas, com os vaqueiros todos no alheio tristemente e qualquer berro de boi que era um arquejo feio. Em meio ao que, davam de chegar outros golpes de gado, a boiada era até bem grande. Então eu falei: — “Uns já estão se desistindo...” E ele respondeu: — “É. Eles, aos punhados, já vêm vindo se indo. Estão rasgando meu dinheiro. Onde que, neles, está o cobre todo meu, tudo o que eu pensei que meu era...” Dos fatos que falava, assim, mas sem o estado de se queixar, conformemente, enquanto que puxava aproveitada a fumaça toda do cigarro, tirei por mim: que o prejuízo dele estava para ser tão grande, que o homem já devia de meio se aquietar, que resignado, para cá do para lá do morro da derradeira desgraça, e as outras desditas de acompanhamento, de perdido por mil, com tantos atravéses; pois — mil é metade de nada. Mourão teria ido adquirir muito longe aquele gado. Fazia isso todos os anos, mas começara com cabedal pouco, talvez como capataz de ricos patrões. De miga a migalha, reaplicara depois de cada vez a quantia ganhada, trazendo rebanhos sempre maiormente. Viajando, sem parar, em sonho de descanso, a vida toda e mocidade; e, agora, que conseguira um boiadão de aguar inveja no espírito dos outros, com ela naufragava no sair do sertão, no vago da grande terrível seca territória. — Vieram dizer a ele mais um pouco do que não é de se gostar de escutar. O Mourão ouviu e reouviu, perseveroso. De em de, que balançou o estar do corpo, um leve, da cintura para cima, a barriga sem abreviação. Mas o redondo da cara de lua se permaneceu liso, sem carrego, sem se franzir nem cenhar. Daí, sacou de algibeira lápis e caderneta. Como que foi tomando nota. De quantos bois se estavam findando ou por findar, ele regesse as contas. Conciso, e forro de pressa nenhuma, fresqueteco. Do que, perfazendo mais contas, com todo o bendito cuidado, ele relambia o lápis, em ponta. Ele reduzia como fechados os olhos, para o sozinho poder mais pensar, de mim se esquecido, de quem era eu que ali estava. Eu, esperando. Por tudo ser de bem se ver e aprender. Isto vinha por depois. De seguida, chamou seus vaqueiros, expediu que uns deles saíssem, fossem, por rumos e bandas, avantes. Ao acaso que topassem com a qualquer veia de cacimbas, fundo de várzea, rego ou restar de córrego, e sabichar ainda aonde algum verde, de boi se avir. Admiro que ele falava manso, explicado, no propor ordem das providências, conformemente, e a um e um de sua cada vez. Demais que eles escutavam com a aberta atenção, que com respeito. Deixei o homem sentado ali, vim me desanimar com os bois, prosear com os vigias vaqueiros, dar o ar. De daí, retornei para perto. O Mourão se permanecia do dito jeito, conformemente, ao pé de uma grande árvore. Ele não arredava passo de lá, daquela sombra, curtindo a calma. Mas, foi, ele mostrou um papel, com lista que tinha assentado. O que eram: dúzia de velas, rapaduras pretas e claras, sal, vidro de remédio, e mais o mais. Me perguntou os preços que no arraial haviam de pedir, por cada espécie. O que eu respondi, ele lançando tudo, decorrendo que somou, as quantias com as quantidades. Tirou o dinheiro, escolhido justo, tostão por tostão, o que carecia. Foi me entregando, e falando que eu lhe prestava a ajuda importante, caso que se eu fosse quisesse ir dar um pulo de volta lá, no arraial, para aquilo comprar e trazer. Já que ele não podendo enviar outro, ninguém, os vaqueiros se necessitando solertes pelo sobrestar e pajear o gado. Me pegou pelo lado aberto. Porque, do incumbido que me dava, digo, ele expôs o mando tão natural, que eu achei certo que devia de cumprir, render ao próximo aquela demão, seu recado de encomendas. Só perguntei, achei exato, se ele não havia de gostar de comigo vir junto, aproveitar a folgância, ainda conhecer mais um lugar. — “Confere comigo não”, — ele abreviou no que respondeu — “com minhas horas...” Mas foi convite dele mesmo, logo assim, que eu já não saísse, mais ficasse para poder esperar o café. Com o que, cruzou mão com outra, esperto quieto, parecia padre. Seja que o cozinheiro trouxe o café, tomou-se. O Mourão pegou para si dois canecos, e cheios, que primeiro deixou de banda, esperou o café todo se esfriar. Depois, bebeu, devagar, regalão, poupado, suspirado; bebia segurando o caneco com as duas mãos, grandes, feito se quisesse tapar-se a cara, ao que nunca se viu alguém fazer o sistema assim. Me deu fumo e palha; falou: — “O senhor pita e vai.” O modo de voz se completando tão positivo e bem-criado, que eu, que não sendo serviçal dele nenhum, mesmo achei, pelo fato, que não me rebaixava com intimativas. É bem de ver que ele não se levantou, nem para beber água. Mandou o cozinheiro ir buscar, num chifre. A miséria daquele homem se pertencia com farturas. Ainda me pediu para amilhar o burro dourado. O esquipático! — por força que eu tivesse de começar a achar. Mas fiz, para não ser bruto fora de ocasião. Peguei a pensar que ele fosse mesmo doente, com algum resguardo, resumo de paralisias. Se com esse nome — de Mourão — se encontram no sertão alguns, de mais de uma estirpe, inclusive aquele, incognoscível, patrono da muda de dentes das crianças, difícil é ouvir-se e crer-se, contudo, de um assim, tão obstinado no estranho. — Chegando vinha era o mestre-vaqueiro. Deu-se que ouro ele tinha achado: um refrigério , bom sobejo. O lugar, por milagre desses que em alguma parte e em todo tempo há, ribeirão abaixo, por entre barrancos e brejos, onde teimava um minadouro e viçava o capinzal guardado. Mas o dono daquilo estava com sua ipueira cercada de arames, e ficava coimeiro tomando conta, com mão em espingarda e trela de cachorros bravos. O capim, ali, valia mortes. Mourão escutou, a porção de vezes. A fato, indagava: — “Em quanto a boiada podia rapar, naquele destino de pasto? Se em dia e meio ou dia?” A bom, o vaqueiromestre lá voltasse, falasse, fizesse, o dinheiro bem mostrasse. E a voz dele ficava meditando: — “Dinheiro vem, dinheiro vai. Pior é praga de mãe ou de pai...” Só, por lá, além dos bois, as árvores da beira e o rojo ruído do ribeirão, ter-se-ia, o quanto plus, o pio embusteiro de algum bem-te-vi bem alto, e o calor mortal, sitiando a minimidade das sombras. O vaqueiromestre, testemunha humana, chamava-se aliás Agapito. — Sucinto que, a partir desse rumo, em tempo de três partes, conformemente, o negócio feito se acertava. Só para não se acabar logo, com a boiada enganada, por enquanto. Mourão estava abrindo de si seu dinheiro derradeiro — a senhas e portas. Me fiz triste. Montei, para vir executar para ele a diligência das compras. De dó, só. De minha pena. Momento que foi outro meu espanto. Mourão então pediu perto o burro. Se se levantou do antigo lugar! Era ele — tão nhanhão não, nem com o tolher de achaque, nenhuma doença. Pouquinha dúvida. Tanto que ficou em pé, garboso, forçoso, a barriga imponente, me olhou me olhado, demais. O que perguntando, dizendo: — “Será que, por alguma vez que seja, a gente pode estar mesmo certo do que faz?” Tomei sentido. Dizer o quê, eu não. Não imponho de graças, nem vendo conselho. Mas o homem se sacou para outros ânimos. Vascolejou de si um influído jaculado, proezas de satisfação: — “Tropeçar também ajuda a caminhar!...” Disse, assim. Muito. Gostei daquilo, demais, achei toda a clareza. Quem é, tem de ser. Na boa hora, o Homem do Pinguelo devia de estar com a gente, remiroso, por ali, eu acho. Se diz que ele é velho para surgir, nesse vezo, do jeito, em parada em paragem de beira d’água. Vem só para fazer mercê de presença, conformemente. — O Homem-do-Pinguelo, o próprio? — Cujo, para atalhar os motivos das todas dúvidas. E mais não sei, nem saberei, no meu fraco não dizer. Tudo, quanto há, é crendo e querendo: É calando e sabendo... Seja que possivelmente se desgoste com a interrupção, tendo-a por impertinente, absurda, ou tomando-a talvez também como crítica à veracidade da estória e narrativa. — Do que, entrementes, o Mourão se mexeu, postou a mão em meu ombro. Mesmeamos. E ele foi andando, cabeça ante cabeça, cauteloso. Subindo no animal, aconselhou ainda, tim por tim, aos vaqueiros, o uso de todo proceder. Em tanto, que me disse: — “Eu vou, também. Dia e meio de folga, quero aproveitar para passar dentro de casa, dormir regular em catre, ver a vida de um lado só...” Falou. E viemos para o arraial. Se em longa pausa elide o tempo da viagem, é que parece também sozinho rememorar a extrema ligeireza dos fatos, há tanto passados, ou, mesmo, talvez, só em mente, na devida escala fazê-los caber. — Desde a rua na entrada, a gente topou perto com o seo Cesarino, o qual dava suas quatro pernadas por ali, conformemente, abotoado de nervoso. Sempre diante da venda dele, que era uma das primeiras casas, conformemente, nessa beira de ar. Seo Cesarino viu a gente, e fixe, fixe, veio. — “Desapeia, José Reles!” — ele me convidou. Respondi que, no hesitante, eu estava com aquele senhor. — “Desamontem os todos os dois, duma vez, pois então!” — seo Cesarino me rebateu. Aí, pelo que pois, foi o Mourão que falou: que agradecido, do bom obséquio, mas porém estava caçando era pouso. — “Pois arranche aqui, o amigo de fora, exato, que tem cômodo...” — seo Cesarino fechou, pela franqueza do agrado. Sumo, vai, foi ele mesmo querendo ajudar o outro a descer do animal. Dizer: que quase forçando o homem burro abaixo. E botou o Mourão em pé, no chão, e empurrou o Mourão venda a dentro. — “E por aí, como é que as coisas vão, seo Cesarino?” — dito que perguntei, a pergunta para os ares, porque ainda na véspera eu tinha bem ali estado com ele. — “Vão como que não: eu com a água, outros com o sabão...” — ele quis, que me chumbeou, dês que certo. O Mourão, num enfim, já se tinha todo sentado em cadeira, fofo descansando braço no balcão. Sem chapéu, ele parecesse outra pessoa. Dito que lá não tinha mais ninguém, só vistos os nós três. O puro de tudo se dando fresco, bem haja que sossegado. Só o sol, nas portas. Mourão quis um gole d’água, bom é dizer que ele bebidas não bebia. Eu trouxe. Eles dois já estavam conversando. ( Regulem-se as revezadas modulações, mas que ressoam contínuas, quase superpostas, no avivo do diálogo :) ............................................................................ — “Isto, que está vendo? É peta. Isto não são mais mercadorias. Sim o cisco, lixos. Tivesse por aí menos lugar, em prateleiras e caixas, um podia era botar fora — tudo de tudo. Acho que ainda era o prol de proveito de lucros que se tinha: o modo melhor...” — assim o seo Cesarino, sem paz, se ouvia falando, de si e do seu desfazendo. — “Quando foi o derradeiro balanço, que o sr. deu?” — o Mourão primeiro perguntou. — “Meus, meus! Balanço?! Ora, que em barros velhos e cacalhada sem o mero valor? Seja. O meu bom Pai que muito me perdôe...” — “O senhor seu pai é quem é o dono da venda?” — “Ah, foi. Meu Pai é falecido, eterno em retrato...” — “Ah. Não arrepare. Ideias minhas ainda estão fora de ordem...” — “Não por isso, meu senhor. Eu mesmo é que tenho de ser o dono legitimário, legal, deste estrago, por mau amor deste lugar...” — a modo de remoque. O Mourão parou de fazer um cigarro, desencarando o seo Cesarino. Para si, falou, pelo sozinho, revelamentação: — “Ah, nem pai, nem mãe. Essas minhas pessoas minhas, que eu nunca tive...” — e engoliu, engolinhado. Seo Cesarino, de estouvo, pulou o balcão, para dentro, pegou a espingarda, de donde era que estava dependurada. Repulou para fora, chegou na porta. — “Arre, lá, outra vez, o alma penada!” — resmungo que disse. Aí o que era: um gaviãozinho carijó, pousado no tenteiro. O Mourão, sem acender, inda lambia o cigarro. Os olhos dele piscavam pelo querer poder pegar de ver os antes começos das coisas. — “Saiba que estou e não estou com uma boiada, na beira do ribeirão...” — depois ele principiou a contar. — “Hum? Hem!?” — e foi o seo Cesarino desmanchar o que apontava, desistido de dar tiro no gavião, e virou a comprida cara para cá. — “Boiada, por esta má altura do ano? Com a seca brava? Que é que o senhor vai fazer com esse trem? Onde é que ela ficou?” — “Para baixo do Ingá, na grota do André...” — eu expliquei o restante. — “Então, pelo que não...” Seo Cesarino pegou a sacudir, sisfraz, a cabeça. O Mourão, sentado todo certo, pesado em si, olhando, altos olhos nesse ensimesmo, ele nem mudava o parecer da cara. Eu, é porque eu em fatos nunca que fico nervoso. Avistei o mundo em geral. Pausa. Abaixando a entonação: — Entendo que foi principiando a se ficar nos ares que seo Cesarino indagou: — “As quantas cabeças?” O Mourão, supro, sossegadão. — “O que devem de ainda regular por umas seiscentas, no contando por fora as que eu descontei para acabarem de morrer amanhã, ou hoje. Os todos — uns tantos esqueletos — veja o senhor.” — foi o que o Mourão disse; que não se alterou, não soletrou. — “Uma boiada... Virgem... enorme dessas... Nossa! E passados tantos dias de caminho...” Seo Cesarino parou de balançar a cabeça. — “Há-de. Haja! Há-de que tem de ter um jeito!” — ele bramou, ele bem que pôs. Seo Cesarino tornou a abrir no ir e vir, largo nos espaços da venda. De si só, para si, ardentemente, ele pegou a falar. — ... “Sobras nenhumas de pastos, por aqui, rapador nenhum, não tem socorro. Seiscentas... Seô Caetano... Até distância de cinco léguas... para lá do rio, rancho do Coqueiral... para acomodar os gados... no Cachorro-Manso... duas léguas e três-quartos... na tapera do Cocho... no Duvijílio, tem um brejal, no ermo... Será, que? Se há?” Apontou, encostando o dedo no peito do Mourão: — “O senhor possui bons vaqueiros?” — “Digo: a laia de primeira. O que é, é que eles não navegam neste mundo de por aqui. Os campeiros, que vêm, vieram, de longe...” Seo Cesarino esbarrou de caminhar, mas ficado em pé, conformemente, espingarda na mão; com a outra batendo no balcão, com os duros dedos. O Mourão, desprincipiado do cigarro, fez os gestos para cuspir; mas viu a venda em limpo chão, conservou na boca. Deu mais tempo. Daí, de frente, perguntou: — “O sr. tem interesse por boiada?” Fiquei muito acordado. Pausa — de circunstância. — Presumo que o seo Cesarino nem ouviu o que eu ouvi. Ele trespulava o balcão, vez para dentro, tornou a pendurar a espingarda. E nessa hora foi que o Mourão se levantou: coçou os olhos. E o vedes-vós. Esse homem — cara-de-lua, com tantas pachorras de nascido, como seja que era — cada vez que ele isso fazia, a gente se admirava. Daí, mais, porém, fez o que não se achava possível sem o pasmo: pulou também, para a banda de dentro, xispeteótico. E deu de caminhar, em vem-vai, outro também, próprio, somente vagaroso. Dito que andava e olhava, num lince de olhos. Dito que a gente vendo. A gente notando o bem bom se prezar que se dava de repente na redonda cara dele, seu virar de espírito, que exato. Onde que andava e olhava, e pegava a examinar. Pois, examinando, e querendo pôr mãos a tudo, mesmo nas prateleiras remexendo. Onde, no que bulia, só dizia: — “Fazenda boa. Chita? E isto aqui... caixa de suspensórios... botina de homem... enxadas... botões de calça...” De se ver, do desusado operativo expedito naquela movimentação, o Mourão, dado a desejoso, aí guiando suas vistas a todas as partes. Declarando querer a descrição de tudo, certo a certo, por gravidade: — “Bom. Ótimo. Bom!” — só dizia; só raspava as mãos na porcaria. Estupendante que, em feito fato, tinha muito trem, lá, que seo Cesarino mesmo nem soubesse mais o que era o quê, os esquecidos. Pelo quanto o seo Cesarino, tem-te tempo, já estava de acompanhar rente o outro, respondendo o que explicando. As coisas de nenhuma valia mais, só prestando para o dado de nada, mercancias no consumiço. Mas: — “Bom. Bom. Bom...” — o Mourão achava. Com a mente com que tudo gabava, falava a sério, resolvido, por puxar fatos, sem caçoar conversa, fornecido de coragem. O que avistava, parecia, para ele, o manjar dos olhos. E pegou em caixa de charutos, abriu. — “Ah, isto, sim. Há que tempos...” — disse, ele todo se suspirou no oh. Admiramos de ver, ouvindo aquelas tantas admirações. E porque ele estava feito menino pequeno — que só atende ao vislumbrado. — “É tudo refugo — de rebotalhos — restos...” — seo Cesarino falou, abaixou os braços: lambia o vinagre. O Mourão tirou um charuto, que logo todo se esfarelou. E pegou outro: que, também, nem. E outro mais outro, que esteve ainda pior, nos dedos dele, esfiapável. Mas foi escolhendo, apalpados, achou um são. Mamou, aí, mastigou o bico, acendeu, bafou, prezou a fumaça. — “Especial. Supimpa. Superior...” — veio dizendo. De repente e num túfe-te, ele desceu em cena — e fechou, franco, forte, soflagrado: O narrador se levanta: — “O senhor quer barganhar carne podre por fumo podre?” Pequena pausa, de fôlego. — Isto, eu ouvi. O que foi o desabe de pergunta que ele perguntou, de mão na ilharga. Decorreu o bruscamente, as quatro mudanças da lua. O se ser de labareda — num pulo e estalo. Bom desatino! Quá... Nós todos três, de rir, desafinouse. Mas não era, se sei, um riso verdadeiro. Sei que risada fosse, para armar na gente outros jeitos de seriedades. O tamanho tanto, no relance da forte notícia. Igual a essa, só esta! Igual a esta só essa: o Mourão, querendo trocar a boiada pela venda! É ver que é ver, bom é dizer: que vi. E ninguém era dono desse silêncio. Seo Cesarino empinou a cabeça. Seo Cesarino tossiu fora de propósitos. E o Mourão vindo de lá, de roda volta, charuto na mão, mastigando os beiços. Ombro por ombro um com o outro. De um lado, o homem; de outro lado, o homem. Eles estavam lá, os abismados. Onde pois foi então, naquela juntura. O em que eu dei fé, de uma aragem em fino, do vero que se dava para estar para acontecendo. Tudo subido sensato, no ensejo pontudo, positivo mesmo. E onde cantaria o galo? Chega que eu entendi. Sei o porquê, sem saber. Hoje, acho que sei. Que, naquela paz de hora, devia de se ter surgido para estar ali, com a gente, o... O desencontradiço... O bem-encontrado... O... Hesitação, de constrangimento. — É. É o que pode dar razão, nos fatos mais acontecidos. Eu acho que acho. Tiro por mim que devia de ser. O narrador torna a sentar-se. — Pelo dito. Pelo depois. Mas, o que ouvi, que foi o seo Cesarino depor, conformemente: — “Tem a casa da venda, e tem o fundo-de-negócio...” E o Mourão: — “Tudo se acerta. Tudo se acerta.” Disse, consoante aquela côrda voz. — “Tem as contas, por pagar ainda aos cometas...” — “Tudo se acerta. Oferta leal é porta aberta...” —; sem um acabar de falar, para o outro começar. O mais é só para resumos — o que houve, até à avença; e o que eles se estipularam, cujo e a quem. O que foi nuns momentos poucos, depois do fim. Concordou tudo, no entrementes, enquanto calei minha boca, nem pensando. O Mourão me olhou, prosseguindo seu charuto. Seo Cesarino, gesticulado, me olhava. Eles dois, quites, tinham fechado o trato. Deram mão de amigo um ao outro. Feito, e feito ligeiro, a ambas vontades. Admirei muito, com meus maiores espantos. Selaram pelo arremate, saído se-dado seguido, sem a regra das todas as praxes. Só assentaram em papel, rabiscado leve, quase que tudo na honra das palavras, para dar o cabo. O Mourão se chamava Pedro Mourão, da Pirapora. Seo Cesarino vinha a ser longe parente meu, pelo ramo dos Ribeiros e dos Correias Prestes. Jantou-se, não se ceou. Tinha ido quem, por trazer o mestre-vaqueiro, às ordens do patrão novo, da boiada. Seo Cesarino arrumava a trouxa, pouca, seus trens dele. Com efeito, o Mourão tomava entrega do negócio, estudando o livro borrador e as gavetas, metade do charuto em brancas cinzas. Vai, foi, quando reparou na espingarda, pendurada pensativa que estava. Então, disse: — “Convém levar, irmão. Eu, cá, não caço. Eu, só, às vezes, pesco...” — e ele era um homem atencioso, no estimável. Mas, também, se via, na parede, no branco, o retrato, grande, do Pai de seo Cesarino. E seo Cesarino mal sorriu, abanou a cabeça. Pelo firme, pelo triste, aí falou, reto, para o Mourão: — “Este, não levo, não careço. Só lhe peço, se lhe mereço, o poder ele ficar aí, um sempre...” O Mourão bem sorriu, disse: — “Mal não me faz. Me honrarei. Me praz...” — o Mourão estava bem de acordo. Então, eles se despediram, assaz. Seo Cesarino me chamou, no passo da porta: — “Você comigo vem, Zé?” Saiu estrada a dentro. Eu vim. Viramos no pé. Pausa, de fadiga. — ... De por diante e por depois, nós, aí e então — entões, nos dias gastados. Para a parte do rio. Definitos nesse rumo, légua mais légua, no cascar do calor — essas brasas celestes — chão esquentado. Perante que, em pegado e suado pó, nas grossuras da poeira, poeira pele a dentro — a gente se empalidecia — de poeiras baças. Seo Cesarino, em mão de rédea, conformemente, com esta determinação; e eu na sela, de boa assentada. Para dar comboio àquele gado terrivoroso — em mugidume e embatume — e que não tinham integridade. De um lanço a outro lanço, a gente se encontrando com o desencontro: eh. Marmilhapes! Aonde, por um pasto, dentro de mão, a gente pagando outros e almas. São coisas não cridas, acontecidas: são alturas de lua. A gente no préstimo de perseveranças — ao que, beira-rio, tras-rio — caçando o caminho passável. Ao que: tem-te aqui, tem-te ali, lá e cá, tem-te acolá! Ao que: a grande paciência. Era de ver que — o caminho conseguido, ave. Sob as principais estrelas. Segundo o grande sol das estradas. Sus urubus detidamente voavam. — Tempo e tempo. E mal é dizer que: que o danifício — dar em perdição — o ir com aquele negócio até ao cabo. E porque. O ar não cheirava. O gado, miqueado assim, à melindreza, e que não se toca, não tem toada. Antes, mal caminhando, devagar, no meio de cada momento, no susto e pulo, no se escorar. Andava-se agora era de noite, e se via o rio — arriba águas. Seo Cesarino cavalgante em frente, forçoso de brio, chefitivo, com o engenho em fé e as mãos na matéria. O boi se acabando de mansinho, dando a ossada. Seo Cesarino, a fino fuso, com espíritos de quem ia fundar curral. Sem a pressa possível — por eles, por conta. Só o ir, que não podia ser de desabe desabalado. Inda’s que com o pai da gente, no fim da distância, no pau da forca se balançando. Seja, ou, que — o sangue saía, mas sem se desatar a sangria. Tinha de ser o que não e o quê: desatino vagaroso. E, ei, eis: — “Inda tem vivos?” — “Todos, afora os mortos, eh.” — “Inda, então, vamos...” os resfolegados. Mas, melhorava. Sensatamente? As montanhas amoleciam. Afiançavase um em breve vir de chuva. Surtos, se bem que — seu incessar, — os abutres feretétricos . — Tempo depois de tempo. E o dia que havia de ser. Até que chegamos. Aonde que era guarida, o pique da esperança da gente, final próprio, terra de consideração. Isto que vi e admirei. E com os bois restantes refrescados. Seo Cesarino, todo paulista, em chegando a gente — o estrondo — e em rompendo a manhã, dos galos. De toda a aurora. Sei que ainda estimo, quanto nos ouvidos, a voz de firmeza, dele, já mal no desapear, de rebate, aquelas primeiras palavras: — “Seô Caetano!...” A verdade — do que do homem — de ousado e obrado. Tomei um alento. Aqueles, em festas, currais, de toda a capacidade. O curral abarcava. Seô Caetano Mascarenhas sendo homem sábio, grosso, marechalengo, senhor de família e fazenda, todo dono da Ponte-Nova. Seo Cesarino parava, porém, ainda com todos os problemas — de quem ganhou uma batalha . — Seô Caetano se avultou de vir ver. Isto, que ele estava de boa veneta — e em obrigação de proteção — por paz e amizades. Mas, que não podia, ele repetia; que para o fato nenhum jeito dava, achava. Seo Cesarino, só portanto, dizia, com as muito entreabertas pernas: — “Seô Caetano, quero não contrariar com o senhor, mas estou em meio da minha meada...” — “Diacho, menino, a seca não é minha também? Eu, que com o gado meu na falecência, sobejos, em rama e caroço, que mal tenho, e nem restados. E já estou quase no abrindo as porteiras...” Seo Cesarino botou o I no pingo: — “Seô Caetano, pois, o que eu trouxe, hoje, e aqui, é: imagina. O que é tudo o que inda hei — de meus possuídos...” Seô Caetano, de grado, de grande, severamente se consternava: — “Menino! Seu diabo, que triste loucura? Botou fora o que o seu pai para você ajuntou e herdou — botou? E ao que veio se meter, em feixe de estreitas talas...” Seo Cesarino, fio que não escutava. Ele tinha mandado desaparecer a boiada — adentro dos curralões do Seô Caetano — em aperto de bem encurralada. Deu o declarado final: — “Seô Caetano, o senhor me resolva. Sendo que me vou, vou, e senão onde. Só o senhor: faça e saiba.” Seô Caetano, irrazoado, sanhou-se que inda gritou: — “Menos essa! Seu diabo, seu! diacho, espera. Dito, e para onde é que vai, menino, seu diacho, diabo?” Seo Cesarino, mesmo, nem soubesse, à dôida. Isto vinha por depois. E tinha, decerto, para si, que não queria cair na razão. Disse que ia pelo virar as dobradiças do mundo. Largou pé de lá. Só tornou a montar, se sumiu. Sumiu até de mim, se sei. O resto... — O resto, cumpria, ainda, ao Homem do Pinguelo? — Houve o que houve e há e haverá. O que, de diverso, podia haver ou não haver, alguém por sorte saberá? Pausa; franzida. — Aos anos, que isto foi. Ainda que, por muitos, muitos, ninguém teve conhecimento, do seo Cesarino, de por onde andava — o que era que não fazia? E que boasartes, dele, de si, aprontava. A boiada, aquela, sim, se valera: achou-se assim enfim de poder rever os cinzentos verdejando, à sustença, nos pastos da Ponta-Nova. Salva, a meio, ou senão acima, do fim de estado em que se estava. Seô Caetano revendeu os bois bem gordos. Ao seo Cesarino certo enviou os importes da quantia. Pois. Mas, por fato e final, quando dele se empunhando notícias — foram da grandeza dos evangelhos! Seo Cesarino, de rico, inteirado. Se diz que ele viveu e mexeu, em cidades. Diz-se que, sem desesquentar os pés, ele deu fogo de todo lado. Se não pediu, só não pediu esmolas, há-de. Sendo, será que, com aquele primeiro dinheiro, viajou e virou, conformemente, no vender bois e passar outras boiadas? Só se soube: que também, logo, com um tempo, pegou a compor o estável. Simplesmente que fez negócios grandes, dobrou, dezenou, engrossou fortuna. O que, porém — foi um caber de anel em dedo — e mais no enxerir no castiçal a vela. À conta inteira, com a dinheirama, que gira e despeja, conformemente, capitalista, agora vive em palacete, dono. O quanto é mais que ele tem? Alguém sabe. Ao que: reside com a vida. Pausa, nostálgica. — E o Mourão. O Mourão — então — que se saiba. Primeiro, o fundo-de-negócio da venda, arrumou, conformemente, as prateleiras e armários. De que não era maldita, aquela, sendo, discorreu, bem discursado. Mimou com os vinte: deu o dedo. De onde ordem a tudo. De fato. E os cometas logo vieram, com créditos e arras. Pois. Veio o povo, mediante muito, para a muita freguesia. Para o muito comprar, e pagar, é de ver que. É de ver que ele, disso, como se já dantes definido soubesse, bem assistido e prosperado. Pois, bom é dizer que: nada, com ele saía para fora de nada. Devagar também é pressa. Seja, o que se diz: a carta errada, do ano passado, desta vez era trunfo! Donde bem, e sei; ah. Mas, o Mourão, por si, pôs: lavorou, ganhou, parou empapado de rico, sumo dono do arraial, quase. De hotel, os botequins, a aumentada venda, de chácara afazendada, da bomba de gasolina e graúdo salão de bilhares. Da fazenda que comprou, o despropósito de terra, de alqueires, do Seo Coronel Regismundo dos Reis Fonsêca — tão olvidado. Além de que com limpezas de vida, o Mourão. Depois, morreu, lá, ainda em firme véspera de velhice, dando-se a extraordinária extremaunção, festivos enterro e velório. Muito, às muitas vezes, mais rico, do que o seo Genuíno, do que os turcos, todos. Formou impossível exemplo. ( Inquieto :) Mas — e o senhor aprecia deveras, de esvaziar, a sustância desta vera estória? Sobre o ser e aparecer, porém, do Homem do Pinguelo, furta-se de ainda falar. Peremptório, recusa-se, chega a agastar-se. Saberá, decerto, que, a respeito, deva guardar o vivo silêncio, sob pena de alguma sorte de punição não-natural? — Ora, vista. A gente fabulando — o vivendo. Será que alguém, em estudo, já escarafunchou o roda-rodar de toda a gente, neste meu mundo? Assim — serra acima ou rio abaixo — os porquês. Atrás de torto, o desentortado. Adiante. Todo lugar é igual a outro lugar; todo tempo é o tempo. Aí: as coisas acontecidas, não começam, não acabam. Nem. Senhores! Assim, num povoado... — Arraial. O arraial, que... — É. Eu é que estive lá, junto, nas horas, em estâncias tão desiguais. Ali, primeiro, com um, depois com o outro, depois com os todos dois, para todos o sol nascendo. Eu vi e ouvi, tudo o que conformemente era para se notar, que se deu: fui flagrante de testemunha... Agora, não sei... E haverá, então pois, outra hipótese, nova suposição, e ignorada do próprio narrador, e teoria mais subtil? Bom é dizer que ousada demais, todavia, quase inaceitável... — A gente vive sem querer entender o viver? A gente vive em viagem. ( O narrador bebe cuia d’água .) Eu — eu não fui eu quem me comecei. Eu é que não sei dos meus possíveis! Pouquinha dúvida. É mal ver que o centro do assunto seja ainda de indiscussão, conformemente? Dito o que ninguém diz, bom é dizer, nem — na paisagem — o nenhum passarinho, tristriz. Isto viria por depois? (O narrador só escuta.) E mais não nos será perguntado.
- A Sintaxe do Sertão: Como Guimarães Rosa Esculpiu Palavras e Quebrou a Gramática
E aí, criadores de universos, Ana Amélia na área! Bora mexer com um gigante que muitos de vocês têm na prateleira, mas talvez, no fundo, tenham um medo danado de abrir: João Guimarães Rosa. Se você acha que a gramática é uma espécie de manual de instruções rígido, daqueles que vêm com a geladeira e você nem ousa ler, prepare-se para ter suas certezas estraçalhadas. Rosa não apenas desrespeitou as regras; ele as usou como blocos de montar para erguer um universo paralelo, um sertão mágico onde as palavras dançam. Muitos escritores se sentem presos, com medo de "inventar moda", de torcer a sintaxe, de criar uma palavra nova com receio de soarem... errados. Pois bem, hoje vou te mostrar como o mestre do sertão não apenas quebrou as regras, ele usou os cacos para construir algo novo. Vamos pegar nosso bisturi e dissecar alguns de seus "truques" para entender como ele fez isso e, de quebra, como você pode pegar um pingo dessa ousadia para dar vida aos seus próprios textos. O Truque Mestre: A Voz Dupla Que Te Guia e Te Confunde A primeira coisa que salta aos olhos — e aos ouvidos — na prosa de Rosa é que não há uma, mas duas vozes disputando a sua atenção no mesmo parágrafo. É uma jogada de gênio que cria uma textura narrativa única. De um lado, temos o "Contador de Causo", a voz da oralidade, do sertão. Ela é cheia de tiques, repetições, e carrega uma sabedoria que vem da terra e das conversas de beira de rio. É essa voz que nos senta numa roda de fogueira para ouvir uma história. É dela que vêm frases como “Inveja é erro de galho, jogar jogo sem baralho” ou o delicioso uso do "conformemente" como uma bengala para apoiar a narrativa. Ela é a poesia crua da vida. Do outro lado, quase como uma nota de rodapé metida no meio da frase, temos o "Meta-Narrador Erudito". Ele aparece, muitas vezes, entre parênteses, com uma linguagem culta, analítica, quase acadêmica. Ele é a consciência intelectual do texto, quem traduz a sabedoria do povo para a linguagem da teoria. Vamos ver essa dupla em ação num trecho de "A Estória do Homem do Pinguelo": Súbito acúmulo de adágios — recurso comum ao homem do campo, quando tenta passar-se da rasa realidade, para principiar em fórmulas suas abstrações. Quanto à frase in fine, quererá dizer que: o que merece especulada atenção do observador, da vida de cada um, não é o seguimento encadeado de seu fio e fluxo, em que apenas muito de raro se entremostra algum aparente nexo lógico ou qualquer desperfeita coerência; mas sim as bruscas alterações ou mutações — estas, pelo menos, ao que têm de parecer, amarradinhas sempre ao invisível, ao mistério. Percebeu o jogo? O contador solta a pérola de sabedoria popular ("a gente toma a proveitosa lição não é do corrido, mas do salteado"), e o erudito entra em cena para "explicar" o conceito com pompa e circunstância. Essa esquizofrenia narrativa faz duas coisas incríveis: valida a voz popular com o selo da erudição e, ao mesmo tempo, dá calor e vida à análise teórica. É uma aula e um causo, tudo junto. A Usina de Palavras: Neologismos que São Pura Poesia A grande marca de Rosa é, obviamente, sua capacidade de criar palavras. Ele não descreve um sentimento; ele inventa a palavra que é aquele sentimento. Ele não está sendo preguiçoso; está nos mostrando que a língua é um organismo vivo, uma argila a ser moldada. O texto está recheado de exemplos que deveriam ser emoldurados. Ele não lista os cantos dos pássaros; ele nos dá uma orquestra de neologismos que são a própria essência do som. (O epigorjeio, mil, do páss’o-preto, que marca a alvorada. O em fundo e eco sabiá, contábil. O contrapio segredoso do azulão. O esquerzo mero, ininfeliz, dos gaturamos. [...] O tintimportintinhar sem teor da garrichinha estricta. O pintassilgo, flebílimo na alegria. O sanhaço: desmancha-pesares. O eclodir-melodir do coleiro, artefacto. O cochicho quase — imitante, irônico — da alma-de-gato, solíloqua. [...] O doidivescer honesto do patativo...) "Flebílimo na alegria." "Doidivescer honesto." "Eclodir-melodir." Isso não é só escrita, é música. Rosa nos ensina que, às vezes, a palavra que você procura não existe. E tudo bem. Se você a criar com intenção, com poesia e dentro da lógica do seu universo narrativo, o leitor não vai estranhar. Ele vai se maravilhar. Em um de seus prefácios na “Edição de Nova York”, Henry James fala sobre a "arte de deixar de fora", mas Rosa nos mostra o oposto: a "arte de colocar dentro", de infundir a linguagem com vida nova. Enquanto James se preocupa em não sobrecarregar o leitor, Rosa o convida para um mergulho total. Onde James trabalha com a precisão do relojoeiro, Rosa trabalha com a força da natureza. A Sintaxe do Sertão: Quebrando a Ordem para Encontrar a Verdade Por fim, a sintaxe. Rosa escreve como se fala. As frases dele não seguem a ordem direta e limpinha da gramática normativa. Elas serpenteiam, dão voltas, pausam, respiram. Saí de lá, andei morando em distantes comércios, guardei o de Deus, gastei o do diabo... Mas, o que no fim de cada mês me falta, a minha Nossa Senhora intéira. A beleza dessa construção está em sua musicalidade e em sua verdade. É assim que as histórias são contadas oralmente, com hesitações e desvios. Ele nos prova que a clareza nem sempre é o objetivo principal. Às vezes, o objetivo é a textura, o ritmo, a sensação. É uma escolha de estilo consciente. Então, da próxima vez que você estiver escrevendo um diálogo ou a narração de um personagem com uma voz muito particular, não tenha medo de deixar a sintaxe dele "derrapar". É nessa derrapagem que, muitas vezes, mora a alma do personagem. Guimarães Rosa é uma aula magna sobre liberdade. Ele nos dá a permissão para sermos donos da língua, e não seus escravos. Ele nos mostra que a ousadia e a invenção não são sinais de falta de domínio, mas de domínio total. Mas, cá entre nós, o que torna a liberdade de Rosa tão potente é a base sólida que ele possuía. Ele sabia exatamente o que estava quebrando, e por quê. E é aí que entra a nossa conversa. Sua voz é única, sua história é sua. A gente te ajuda a garantir que essa voz chegue ao leitor com toda a sua potência, sem perdas no caminho. A gente não está aqui para podar sua criatividade, mas para regá-la, para que ela cresça e floresça sem amarras. Nosso método de revisão é uma espécie de bússola para a sua ousadia: te mostramos o mapa e as estrelas, mas é você quem escolhe o caminho. A gente acredita que a melhor revisão é uma conversa sobre o texto, uma parceria para lapidar, não para cortar. É uma abordagem que entende que a sua história é um organismo vivo, e não uma fórmula a ser preenchida. Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia... 📚A Estante de Ana: Se um Viajante Numa Noite de Inverno de Italo Calvino Um livro que desafia a própria noção de narrativa. Calvino te joga em um labirinto de começos de histórias, explorando a relação entre autor, leitor e a experiência de leitura. Ler Calvino é entender a estrutura e o quebra-cabeça que pode ser a arte de contar uma história. ☕ Um café e uma primeira conversa Seu texto é um universo em si. Ele tem suas próprias regras, sua própria voz. Mas, às vezes, a gente se perde nas nossas próprias criações. Um olhar externo, uma conversa sobre o potencial da sua obra, pode ser a bússola que falta para que sua escrita navegue com segurança e chegue aonde precisa. A gente não vai te transformar em Guimarães Rosa, mas podemos te ajudar a ser a melhor versão de você mesmo, como escritor. Nossa revisão é um convite para essa parceria. Para um café e uma primeira conversa sobre o que faz seu texto ser tão único. Deixe a ousadia "doidivescer" e a sua voz fluir livremente. A gente te ajuda a pavimentar o caminho para o leitor. 👉 Leia o conto 👈 Letra & Ato Tradição | Precisão Editorial | Sensibilidade © 2024-2025 Letra & Ato (antiga Revisão Dialogal) . Todos os direitos reservados.
- O Espelho e o Abismo: A Jornada do Herói, da Formação à Negação
Quem sou eu? Quem me tornarei? Estas são, talvez, as perguntas mais fundamentais que nos assombram da juventude à maturidade. A literatura, em sua infinita capacidade de ser um laboratório da alma humana, nunca se furtou a encená-las. No coração dessa investigação está uma forma narrativa que dominou a imaginação ocidental por séculos: o romance de formação , ou, em seu termo original alemão, o Bildungsroman . O Bildungsroman é a grande promessa do Iluminismo traduzida em ficção. Ele nos conta a história de um protagonista, geralmente jovem, que parte em uma jornada de autodescoberta. Através de provações, erros, amores e desilusões, ele (e, mais tardiamente, ela) gradualmente amadurece, educa seus sentimentos e, ao final, encontra seu lugar no mundo, integrando-se de forma harmônica à estrutura social. É uma narrativa de construção, de síntese, de ordem. Contudo, a modernidade, com suas guerras, sua psicologia do profundo e sua crescente desconfiança nas grandes narrativas, forjou um irmão sombrio para este gênero: o romance de antiformação , ou Anti-Bildungsroman . Aqui, a jornada não leva à integração, mas à alienação. O protagonista não se molda ao mundo; ele o rejeita, ou é esmagado por ele. A trajetória não é uma ascensão para a maturidade, mas uma queda no abismo da paralisia, do niilismo ou da desintegração. É uma narrativa de fragmentação, de recusa, de caos. Hoje, meus caros, quero convidá-los a descer a este ringue. De um lado, dois monumentos da formação artística. Do outro, dois manifestos da impossibilidade de se formar. Vamos observar como a literatura reflete o espelho da nossa própria busca por um lugar no mundo – e também o abismo que se abre quando essa busca falha. A Promessa da Forma: O Artista e a Sociedade No Künstlerroman , o romance de formação do artista, a jornada é duplamente difícil. O herói não busca apenas um lugar na sociedade, mas uma voz própria, uma consciência estética que, muitas vezes, o coloca em conflito direto com essa mesma sociedade. Em "Retrato do Artista Quando Jovem" , James Joyce nos entrega o arquétipo dessa luta. Acompanhamos Stephen Dedalus desde suas primeiras impressões sensoriais de infância até sua decisão final de abandonar a Irlanda. Para ele, a formação como artista exige a recusa das três grandes amarras que tentam moldá-lo: a família, a pátria e a igreja. Sua jornada é uma sucessão de rompimentos dolorosos em nome de uma liberdade superior. Ele precisa se exilar para cumprir seu destino, para, em suas famosas palavras, sair ao encontro "da realidade da experiência e forjar na bigorna da minha alma a consciência incriada da minha raça". A formação de Stephen não é uma integração pacífica; é uma autoexpropriação necessária para a criação. Ele se forma apesar do mundo, não através dele. Thomas Mann, em sua novela magistral "Tonio Kröger" , explora uma tensão mais sutil, mas não menos profunda. Tonio, o artista, ama a vida "normal", burguesa, encarnada por seus colegas loiros e de olhos azuis, Hans Hansen e Ingeborg Holm. Ele os ama justamente porque não pode ser como eles. A sua sensibilidade artística, sua capacidade de ver e formular, o isola, o marca como diferente, quase como um doente. A grande crise de Tonio é esta: como reconciliar seu amor pela vida com a distância fria que a arte exige para observá-la? A resposta de Mann é uma síntese melancólica. Tonio aceita seu destino. Ele é um "burguês extraviado", um artista cujo trabalho é alimentado por seu amor não correspondido pela vida comum. Sua formação se completa quando ele entende e aceita essa dualidade como a própria fonte de sua arte. A Recusa do Molde: O Indivíduo Contra o Mundo Se Joyce e Mann nos mostram a dificuldade de forjar uma identidade, Salinger e Dostoiévski nos jogam em cenários onde a própria ideia de identidade coerente é posta em xeque. Em "O Apanhador no Campo de Centeio" , de J.D. Salinger, temos a voz que definiu a rebelião de uma geração. Holden Caulfield é o herói de uma antijornada. Ele é expulso da escola – o lugar institucional da formação – e sua errância por uma Nova York invernal e hostil é uma fuga desesperada do mundo adulto, que ele resume em uma única e fulminante palavra: phony (falso, hipócrita). Holden não aprende, não amadurece, não se integra. Pelo contrário, cada encontro com o mundo adulto apenas aprofunda seu desencanto e sua alienação. Seu desejo de ser "o apanhador no campo de centeio", de proteger a inocência das crianças, é um desejo de parar o tempo, de impedir a própria formação, que ele vê como sinônimo de corrupção. O romance não termina com uma resolução, mas com um colapso. Mas é com o Homem do Subsolo de Dostoiévski, em "Notas do Subsolo" , que chegamos ao ponto mais radical da antiformação. Aqui não se trata de um jovem em crise, mas de um homem já malformado, entrincheirado em seu ressentimento e paralisado por sua consciência aguda. Ele não se rebela contra a hipocrisia social, como Holden; ele se rebela contra as próprias leis da natureza e da razão. Ele despreza a lógica do "dois mais dois são quatro" porque ela elimina o livre-arbítrio, a capacidade de agir por puro capricho, mesmo que seja contra seus próprios interesses. O subsolo é o espaço mental do homem moderno que sabe demais, pensa demais e, por isso, não consegue agir. Ele nos apresenta um retrato terrível do que acontece quando a formação não apenas falha, mas se torna um processo de autoanálise infinita e autodestrutiva. Pois o que pode um homem de sensibilidade aguda senão se enclausurar, se esconder? (...) A inteligência, sem dúvida, é uma coisa excelente, mas a inteligência é apenas a inteligência e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto a vontade é a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana, incluindo a razão e todos os seus impulsos. O Homem do Subsolo recusa a formação porque ela pressupõe um objetivo, uma finalidade, e ele se deleita na ausência de propósito, na liberdade terrível do "subsolo". O Diálogo das Eras: Da Síntese à Fragmentação Colocados lado a lado, estes quatro heróis nos contam a história da consciência ocidental. De um lado, a crença de que é possível, ainda que com dor, forjar um "eu" coeso e encontrar um sentido para a própria existência (Stephen, Tonio). Do outro, a suspeita crescente de que o "eu" é uma ilusão e que o mundo não oferece nenhum lugar seguro para se integrar (Holden, Homem do Subsolo). Para vocês, escritores, esta não é uma discussão meramente teórica. Toda vez que criam um personagem, vocês se deparam com essa mesma encruzilhada. A jornada dele será de construção ou de desmoronamento? Ele encontrará seu lugar ou personificará a impossibilidade de pertencer? A estrutura da sua narrativa irá refletir um mundo onde a ordem é possível ou um onde o caos reina? Minha colega, Ana Amélia, certamente apontaria como a sintaxe labiríntica de Joyce constrói a consciência de Stephen, ou como os monólogos febris e repetitivos de Dostoiévski nos aprisionam no subsolo da mente de seu narrador. A forma, como ela sempre nos lembra, não é um enfeite, mas o próprio campo de batalha onde essas visões de mundo se enfrentam. A jornada de formação, com sua promessa de sentido, e a de antiformação, com seu testemunho do absurdo, são os dois grandes polos que energizam a ficção. Entre eles, se desenrola o drama infinito do que significa ser humano. Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia... 📚 Sugestão de Leitura do Paulo André: Demian de Hermann Hesse Este romance narra a jornada de Emil Sinclair de uma infância de certezas (o "mundo da luz") para uma juventude de ambiguidades e autoconhecimento (o domínio de "Abraxas"). É um Bildungsroman exemplar que explora a necessidade de romper com o mundo convencional para encontrar a si mesmo, um diálogo perfeito com os temas que discutimos hoje. ☕Um café e uma primeira conversa A jornada de um personagem, seja ela de formação ou de fragmentação, ecoa de maneira profunda a jornada de quem o cria. Escrever é, em si, um ato de busca, um processo de dar forma ao caos das ideias, de encontrar uma voz em meio a tantas outras, de construir um lugar no mundo para sua história. Se você se sente no meio dessa travessia, seja no espelho da construção ou no abismo da dúvida, talvez seja a hora de um diálogo. A proposta da Letra & Ato é exatamente esta: uma conversa profunda sobre seu texto. Não para impor um caminho, mas para caminhar ao seu lado, ajudando a iluminar as encruzilhadas e a fortalecer a estrutura da sua narrativa. Que tal nos enviar um trecho do seu original? Podemos oferecer uma amostra da nossa revisão comentada, sem compromisso. Será o início de um diálogo que pode ajudar a sua obra a completar a jornada que ela merece. Letra & Ato Tradição | Qualidade | Sensibilidade Um abraço! Até a próxima Segunda. Paulo André © 2024-2025 Letra & Ato (antiga Revisão Dialogal) . Todos os direitos reservados.
- Escrita Criativa: O Guia para Deixar de Ser Chato e Começar a Contar Histórias de Verdade
Escrever Melhor: Mostre, Não Conte: O Guia Definitivo para Contar Histórias Melhores Olá, pessoal. Aqui é a Ana Amélia. Muitos de vocês pediram, então, como sou uma alma caridosa, resolvi abrir a minha caixinha de ferramentas. Sabe, aquela que a gente usa para transformar um amontoado de palavras numa história que presta. Peguem um café, sentem aí e vamos ao que interessa. Nosso primeiro papo é sobre o básico, o "arroz com feijão" da coisa toda: a tal da Escrita Criativa. Apertem os cintos. O que (diabos) é a Escrita Criativa? É a técnica que transforma uma descrição de paisagem numa experiência sensorial. É a habilidade de usar a linguagem não apenas para informar, mas para provocar, emocionar, intrigar e, quem sabe, até mudar a perspectiva de alguém. Em suma, é escrever com intenção, voz e um pingo de ousadia. É parar de apenas dizer as coisas e começar a mostrá-las . Ok, sou criativo. E agora? Como isso paga meus boletos? Ah, a pergunta de um milhão de dólares. Você acha que essa "criatividade" toda só serve para escrever aquele romance que está há anos na gaveta? Que engano. A escrita criativa é uma arma secreta para a vida. Exemplos práticos de onde a mágica acontece: No trabalho: Aquele seu e-mail pedindo um aumento. Em vez de um seco "Prezado, solicito reajuste", você constrói um argumento, conta uma pequena história sobre seus resultados, mostra seu valor. As chances de ser lido (e atendido) aumentam exponencialmente. Nas redes sociais: Quer engajamento de verdade? Pare de postar legendas genéricas. Conte o perrengue por trás da foto bonita. Use uma metáfora inesperada. Transforme um post sobre seu almoço num microconto. As pessoas se conectam com histórias, não com fatos. Na vida pessoal: Sabe aquela mensagem de aniversário? Em vez do "parabéns, tudo de bom", que tal uma pequena anedota que só você e a pessoa conhecem? Isso cria conexão. Isso é memória. Isso é usar a escrita para fortalecer laços. A escrita criativa te ensina a organizar o pensamento de forma mais interessante e persuasiva. E, convenhamos, ser interessante e persuasivo nunca é demais. As Ferramentas do Ofício: As Técnicas que separam os Amadores dos... (quase) Profissionais Existem dezenas de técnicas, mas vamos começar pelo começo. Se você só pudesse aprender uma única coisa hoje, que fosse esta: Mostrar, não Contar (Show, Don't Tell). É o mandamento número um. "Contar" é preguiçoso. É dizer: "A personagem estava triste". O leitor boceja, aceita a informação e segue em frente. "Mostrar" é criar a cena. É descrever o ombro caído, o olhar fixo no nada, a xícara de café esquecida na mesa, o jeito como a lágrima solitária desenha um caminho na poeira do rosto. É fazer o leitor sentir a tristeza junto com a personagem. A Prova do Crime: 'Mostrar, não Contar' com a Benção de Clarice Lispector Agora, para provar que não estou inventando moda, vamos ver como uma mestre faz. Peguei esse trecho do conto "Amor", da Clarice Lispector. Nele, a protagonista Ana, uma dona de casa com a vida toda arrumadinha, tem uma espécie de epifania no Jardim Botânico após ver um cego mascando chicletes. Clarice poderia ter "contado": "Ana viu o cego e de repente percebeu que sua vida era superficial e sentiu-se mal com a crueza do mundo." Mas ela não fez isso. Ela "mostrou". Veja: "O cego mascava chicles. Um homem cego mascava chicles. Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo: o mal que se faz a uma pessoa é como um erro de cálculo, repercutindo nos algarismos desinteressados. [...] Mas o mal estava feito. A piedade a sufocava, Ana amava o cego, com uma piedade que era o que de mais violento ela conhecera. [...] Inclinada, ela olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada, o rosto suspenso no rosto do cego." Trecho de "Amor", do livro Laços de Família, de Clarice Lispector Dissecando o cadáver (com todo o respeito, Clarice): O Detalhe Concreto: A cena toda nasce de uma imagem poderosa e banal: "O cego mascava chicles". Não é a cegueira em si, mas o ato de mascar chicletes na escuridão que quebra a realidade de Ana. É o detalhe inesperado que ancora a crise existencial. A Emoção em Ação: Clarice não diz "Ana sentiu uma piedade avassaladora". Ela diz que a piedade "a sufocava" e que era "o que de mais violento ela conhecera". A emoção se torna uma força física, quase uma agressão. Contraste e Ambiguidade: O movimento da mastigação que parece um sorriso e deixa de ser. A mulher que parece ter ódio, mas está tomada de piedade. Clarice não entrega uma emoção pura, ela nos mostra o caos de sentimentos contraditórios que borbulham dentro de Ana. É isso que nos faz sentir o desconforto dela. Ação em vez de Adjetivo: Em vez de chamar Ana de "chocada" ou "perturbada", ela a descreve "cada vez mais inclinada, o rosto suspenso no rosto do cego". A postura física dela revela seu estado mental. Viram só? É isso. É usar o mundo concreto — o chiclete, a mastigação, a inclinação do corpo — para revelar o universo invisível da alma. Comecem a praticar. Da próxima vez que forem escrever qualquer coisa, parem e se perguntem: "Eu estou contando ou estou mostrando?". A resposta pode ser o primeiro passo para transformar a escrita de vocês para sempre. Até a próxima. E tratem de escrever alguma coisa. Com aquele pingo de sarcasmo de sempre, Ana Amélia.
- A Estrutura da Bolha de Sabão de Lygia Fagundes Telles
ERA O QUE ELE ESTUDAVA. “A estrutura, quer dizer, a estrutura” — ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. “A estrutura da bolha de sabão, compreende?” Não o compreendia. Não tinha importância. Importante era o quintal da minha meninice com seus verdes canudos de mamoeiro, quando cortava os mais tenros, que sopravam as bolas maiores, mais perfeitas. Uma de cada vez. Amor calculado, porque na afobação o sopro desencadeava o processo e um delírio de cachos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca, a espuma descendo pelo queixo. Molhando o peito. Então eu jogava longe canudo e caneca. Para recomeçar no dia seguinte, sim, as bolhas de sabão. Mas e a estrutura? “A estrutura” — ele insistia. E seu gesto delgado de envolvimento e fuga parecia tocar mas guardava distância, cuidado, cuidadinho, ô! a paciência. A paixão. No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo. Estou me espiritualizando, eu disse e ele riu fazendo fremir os dedos-asas, a mão distendida imitando libélula na superfície da água mas sem se comprometer com o fundo, divagações à flor da pele, ô! amor de ritual sem sangue. Sem grito. Amor de transparências e membranas, condenado à ruptura. Ainda fechei a janela para retê-la, mas com sua superfície que refletia tudo ela avançou cega contra o vidro. Milhares de olhos e não enxergava. Deixou um círculo de espuma. Foi simplesmente isso, pensei quando ele tomou a mulher pelo braço e perguntou: “Vocês já se conheciam?” Sabia muito bem que nunca tínhamos nos visto mas gostava dessas frases acolchoando situações, pessoas. Estávamos num bar e seus olhos de egípcia se retraíam apertados. A fumaça, pensei. Aumentavam e diminuíam até que se reduziram a dois riscos de lápis-lazúli e assim ficaram. A boca polpuda também se apertou, mesquinha. Tem boca à-toa, pensei. Artificiosamente sensual, à-toa. Mas como é que um homem como ele, um físico que estudava a estrutura das bolhas, podia amar uma mulher assim? Mistérios, eu disse e ele sorriu, nos divertíamos em dizer fragmentos de ideias, peças soltas de um jogo que jogávamos meio ao acaso, sem encaixe. Convidaram-me e sentei, os joelhos de ambos encostados nos meus, a mesa pequena enfeixando copos e hálitos. Me refugiei nos cubos de gelo amontoados no fundo do copo, ele podia estudar a estrutura do gelo, não era mais fácil? Mas ela queria fazer perguntas. Uma antiga amizade? Uma antiga amizade. Ah. Fomos colegas? Não, nos conhecemos numa praia, onde? Por aí, numa praia. Ah. Aos poucos o ciúme foi tomando forma e transbordando espesso como um licor azul-verde, do tom da pintura dos seus olhos. Escorreu pelas nossas roupas, empapou a toalha da mesa, pingou gota a gota. Usava um perfume adocicado. Veio a dor de cabeça: “Estou com dor de cabeça”, repetiu não sei quantas vezes. Uma dor fulgurante que começava na nuca e se irradiava até a testa, na altura das sobrancelhas. Empurrou o copo de uísque. “Fulgurante.” Empurrou para trás a cadeira e antes que empurrasse a mesa ele pediu a conta. Noutra ocasião a gente poderia se ver, de acordo? Sim, noutra ocasião, é lógico. Na rua, ele pensou em me beijar de leve, como sempre, mas ficou desamparado e eu o tranquilizei, está bem, querido, está tudo bem, já entendi. Tomo um táxi, vá depressa, vá. Quando me voltei, dobravam a esquina. Que palavras estariam dizendo enquanto dobravam a esquina? Fingi me interessar pela valise de plástico de xadrez vermelho, estava diante de uma vitrina de valises. Me vi pálida no vidro. Mas como era possível. Choro em casa, resolvi. Em casa telefonei a um amigo, fomos jantar e ele concluiu que o meu cientista estava felicíssimo. Felicíssimo, repeti quando no dia seguinte cedo ele telefonou para explicar. Cortei a explicação com o felicíssimo e lá do outro lado da linha senti-o rir como uma bolha de sabão seria capaz de rir. A única coisa inquietante era aquele ciúme. Mudei logo de assunto com o licoroso pressentimento de que ela ouvia na extensão, oh, o teatro. A poesia. Então ela desligou. O segundo encontro foi numa exposição de pintura. No começo aquela cordialidade. A boca pródiga. Ele me puxou para ver um quadro de que tinha gostado muito. Não ficamos distantes dela nem cinco minutos. Quando voltamos, os olhos já estavam reduzidos aos dois riscos. Passou a mão na nuca. Furtivamente acariciou a testa. Despedi-me antes da dor fulgurante. Vai virar sinusite, pensei. A sinusite do ciúme, bom nome para um quadro ou ensaio. “Ele está doente, sabia? Aquele cara que estuda bolhas, não é seu amigo?” Em redor, a massa fervilhante de gente, música. Calor. Quem é que está doente? eu perguntei. Sabia perfeitamente que se tratava dele mas precisei perguntar de novo, é preciso perguntar uma, duas vezes para ouvir a mesma resposta, que aquele cara, aquele que estuda essa frescura da bolha, não era meu amigo? Pois estava muito doente, quem contou foi a própria mulher, bonita, sem dúvida, mas um tanto grosseira, fora casada com o primo de um amigo, um industrial meio fascista que veio para cá com passaporte falso, até a Interpol já estava avisada, durante a guerra se associou com um tipo que se dizia conde italiano mas não passava de um contrabandista. Estendi a mão e agarrei seu braço porque a ramificação da conversa se alastrava pelas veredas, mal podia vislumbrar o desdobramento da raiz varando por entre pernas, sapatos, croquetes pisados, palitos, fugia pela escada na descida vertiginosa até a porta da rua, espera! eu disse. Espera. Mas que é que ele tem? Esse meu amigo. A bandeja de uísque oscilou perigosamente acima do nível das nossas cabeças. Os copos tilintaram na inclinação para a direita, para a esquerda, deslizando num só bloco na dança de um convés na tempestade. O que tinha? O homem bebeu metade do copo antes de responder: não sabia os detalhes e nem se interessara em saber, afinal, a única coisa gozada era um cara estudar a estrutura da bolha, mas que ideia! Tirei-lhe o copo e bebi devagar o resto do uísque com o cubo de gelo colado ao meu lábio, queimando. Não ele, meu Deus. Não ele, eu repeti. Embora grave, custosamente minha voz varou todas as camadas do meu peito até tocar no fundo onde as pontas todas acabam por dar, que nome tinha? Esse fundo, perguntei e fiquei sorrindo para o homem e seu espanto. Expliquei-lhe que era o jogo que eu costumava jogar com ele, com esse meu amigo, o físico. O informante riu. “Juro que nunca pensei que fosse encontrar no mundo um cara que estudasse um troço desses”, resmungou ele voltando-se rápido para apanhar mais dois copos na bandeja, ô! tão longe ia a bandeja e tudo o mais, fazia quanto tempo? “Me diga uma coisa, vocês não viveram juntos?” — lembrou-se o homem de perguntar. Peguei no ar o copo borrifando na tormenta. Estava nua na praia. Mais ou menos, respondi. Mais ou menos eu disse ao motorista que perguntou se eu sabia onde ficava essa rua. Tinha pensado em pedir notícias por telefone mas a extensão me travou. E agora ela abria a porta, bemhumorada. Contente de me ver? A mim?! Elogiou minha bolsa. Meu penteado despenteado. Nenhum sinal da sinusite. Mas daqui a pouco vai começar. Fulgurante. “Foi mesmo um grande susto” — ela disse. “Mas passou, ele está ótimo ou quase — acrescentou levantando a voz. Do quarto ele poderia nos ouvir se quisesse. Não perguntei nada. A casa. Aparentemente, não mudara, mas reparando melhor, tinha menos livros. Mais cheiros. Flores de perfume ativo no vaso, óleos perfumados nos móveis. E seu próprio perfume. Objetos frívolos — os múltiplos — substituindo em profusão os únicos, aqueles que ficavam obscuros nas antigas prateleiras da estante. Examinei-a enquanto me mostrava um tapete que tecera nos dias em que ele ficou no hospital. E a fulgurante? Os olhos continuavam bem abertos, a boca descontraída. Ainda não. “Você poderia ter se levantado, hein, meu amor? Mas anda muito mimado”, disse ela quando entramos no quarto. E começou a contar muito animada a história de um ladrão que entrara pelo porão da casa ao lado, “a casa da mãezinha”, acrescentou afagando os pés dele debaixo da manta de lã. Acordaram no meio da noite com o ladrão aos berros pedindo socorro com a mão na ratoeira, tinha ratos no porão e na véspera a mãezinha armara uma enorme ratoeira para pegar o rei de todos, lembra, amor? O amor estava de chambre verde, recostado na cama cheia de almofadas. As mãos branquíssimas descansando entrelaçadas na altura do peito. Ao lado, um livro aberto e cujo título deixei para ler depois e não fiquei sabendo. Ele mostrou interesse pelo caso do ladrão mas estava distante do ladrão, de mim e dela. De quando em quando me olhava interrogativo, sugerindo lembranças mas eu sabia que era por delicadeza, sempre foi delicadíssimo. Atento e desligado. Onde? Onde estaria com seu chambre largo demais? Era devido àquelas dobras todas que fiquei com a impressão de que emagrecera? Duas vezes empalideceu, ficou quase lívido. Comecei a sentir falta de alguma coisa, era do cigarro? Acendi um e ainda a sensação aflitiva de que alguma coisa faltava, mas o que estava errado ali? Na hora da pílula lilás ela foi buscar o copo d’água e então ele me olhou lá do seu mundo de estruturas. Bolhas. Por um momento relaxei completamente: não sei onde está, mas sei que não está, eu disse e ele perguntou, “Jogar?” Rimos um para o outro. “Engole, amor, engole” — pediu ela segurando-lhe a cabeça. E voltou-se para mim, “preciso ir aqui na casa da mamãezinha e minha empregada está fora, você não se importa em ficar mais um pouco? Não demoro muito, a casa é ao lado”, acrescentou. Ofereceu-me uísque, não queria mesmo? Se quisesse, estava tudo na copa, uísque, gelo, ficasse à vontade. O telefone tocando será que eu podia?... Saiu e fechou a porta. Fechou-nos. Então descobri o que estava faltando, ô! Deus. Agora eu sabia que ele ia morrer. 👉👉👉 Compre os Os Contos Completos na Amazon! Estava superbarato quando publiquei esse aqui.
- A Marca na Parede: Conto de Virgínia Woolf.
Esqueça tudo o que você acha que sabe sobre o que faz uma história. Se você está esperando por heróis, vilões, um conflito claro e uma resolução arrumadinha, Virginia Woolf está prestes a dinamitar suas expectativas. Em "A Marca na Parede", ela não nos oferece uma trama, mas sim um convite irrecusável para um mergulho de cabeça na matéria mais volátil e fascinante que existe: a consciência humana em seu estado bruto. A premissa é de uma simplicidade que beira o absurdo. Uma pessoa, sentada confortavelmente, nota uma marca na parede. É um prego? A marca de uma rosa? Um caracol? A resposta é o que menos importa. A marca é apenas o pretexto, o pino de uma granada que, uma vez puxado, deflagra uma explosão de pensamentos, memórias, digressões filosóficas e sensações poéticas. O que você está prestes a ler não é um conto, é uma experiência. Uma viagem sem mapa pelo fluxo caótico e brilhante de uma mente em funcionamento, onde reflexões sobre Shakespeare se misturam a memórias de infância e a críticas veladas à ordem social. Woolf nos mostra que a maior de todas as aventuras não acontece em campos de batalha ou em terras distantes, mas no espaço infinito que existe entre um olhar e uma parede. Prepare-se. A literatura nunca mais será a mesma depois disso. A Marca na Parede Foi talvez em meados de janeiro deste ano que olhei pela primeira vez para cima e vi a marca na parede. Para fixar uma data é preciso lembrar o que se viu. Por isso eu penso agora no fogo; no inalterável véu de luz amarela sobre a página do meu livro; nos três crisântemos na jarra de vidro redonda na lareira. Sim, deve ter sido no inverno, e tínhamos acabado de terminar nosso chá, pois lembro que eu estava fumando quando olhei para cima e vi a marca na parede pela primeira vez. Olhei para cima, através da fumaça do cigarro, e meu olhar foi alojar-se por um momento nas brasas, e aquela velha fantasia da bandeira carmesim tremulando na torre de um castelo me veio à mente, e pensei no cortejo de cavaleiros vermelhos subindo pelo penhasco negro. Mas, para meu alívio, a fantasia foi interrompida pela visão da marca, porque é uma fantasia antiga, uma fantasia automática, constituída talvez na infância. A marca, negra na parede branca, era pequena e arredondada, a uns quinze centímetros acima do parapeito da lareira. Quão de pronto nossos pensamentos se atiram a um novo objeto, erguendo-o por um pouco, assim como formigas que carregam febrilmente uma lasca de palha e depois a abandonam… Se a marca fosse de prego, não devia ter sido para quadro, só podia ser para miniatura — a miniatura de uma dama de cachos empoados de branco, faces empoadas de creme e lábios como cravos vermelhos. Uma fraude decerto, pois as pessoas que moraram nesta casa antes de nós teriam escolhido quadros assim — para um cômodo antigo, um quadro antigo. Eis o tipo de pessoas que eram — pessoas muito interessantes, e é tão frequente eu pensar nelas, nesses lugares tão estranhos, porque nunca voltaremos a vê-las, nunca saberemos o que aconteceu a seguir. Pretendiam sair desta casa porque queriam mudar o estilo dos móveis, assim disse ele, e estava em processo de dizer que em sua opinião a arte deveria ter ideias por trás quando fomos separados à força, como somos separados da velha senhora que está para servir o chá e do jovem que está para atingir a bola de tênis no quintal da casa suburbana quando passamos de trem. Mas, quanto à marca, não estou certa; não creio, afinal, que tenha sido feita por um prego; é muito grande e redonda para ser de prego. Eu poderia levantar-me, mas se o fizesse, para a olhar, é quase certo que não saberia dizer exatamente o que é; porque, uma vez feita uma coisa, ninguém nunca sabe como aconteceu. Oh, meu Deus, o mistério da vida! A inexatidão do pensamento! A ignorância da humanidade! Para mostrar como é pouquíssimo o controle que temos sobre nossas posses — sendo questão acidental que este modo de vida seja afinal nossa civilização —, deixem-me enumerar apenas algumas das coisas perdidas em nosso tempo de vida, a começar por — que gato iria comer, que rato iria roer? — três caixas azuis de ferramentas para encadernação de livros, que sempre pareceu a mais misteriosa das perdas. Depois houve as gaiolas de pássaros, os aros de ferro, os patins de aço, a caixa de carvão Queen Anne, o quadro de bugigangas, o realejo — tudo se foi, e também joias. Opalas e esmeraldas jazem em torno das raízes de nabos. Como é preciso aparar e raspar para ter certeza! Espanta é que eu tenha roupas no corpo, que me sente rodeada, neste momento, de móveis sólidos. Porque, se quisermos comparar a vida a alguma coisa, temos de equipará-la a ser levada pelo metrô a oitenta quilômetros por hora — desembarcando no outro extremo sem um único grampo no cabelo! Lançada totalmente nua aos pés de Deus! De pernas para o ar nas campinas de asfódelos como embrulhos de papel pardo jogados, no correio, pela calha abaixo! Com o cabelo voando para trás como o rabo de um cavalo de corrida. Sim, isso parece expressar a rapidez da vida, o gasto perpétuo e a perpétua recuperação; e tão por acaso, tão a esmo… Mas após a vida. A queda lenta dos pedúnculos verdes e grossos para que o cálice da flor, à medida que vira, banhe-nos de luz vermelha e púrpura. Por que, afinal, não se há de nascer lá como se nasce aqui, sem defesa e sem fala, incapaz de focar os olhos, agarrando-se às raízes da grama, aos pés dos Gigantes? Quanto a dizer o que são árvores, o que são homens e mulheres, ou se existem tais coisas, isso não estaremos em condições de fazer por cinquenta anos ou mais. Não haverá nada a não ser espaços de luz e escuridão, cruzados por pedúnculos grossos, e talvez bem altos, traços em forma de roseta de uma cor indistinta — rosas pálidos e azuis — que se tornarão, com o passar do tempo, mais definidos, mais — não sei o quê… E no entanto a marca na parede nem chega a ser um buraco. Pode até ter sido causada por alguma coisa arredondada e preta, como uma folhinha de roseira deixada pelo verão, e não sendo eu uma dona de casa muito atenta — vejam só, por exemplo, quanta poeira em cima da lareira, a poeira que, pelo que dizem, cobriu Troia por três vezes, apenas fragmentos de vasos negando-se obstinadamente à aniquilação, como se pode crer. A árvore perto da janela bate de leve na vidraça… Quero pensar com calma, em paz, espaçosamente, nunca ser interrompida, nunca ter de me levantar da cadeira, deslizar à vontade de uma coisa para outra, sem nenhuma sensação de hostilidade, nem obstáculo. Quero mergulhar cada vez mais fundo, longe da superfície, com seus fatos isolados, indisputáveis. Firmar-me bem, deixar-me agarrar a primeira ideia que passa… Shakespeare… Bem, tanto faz ele ou outro. Um homem que solidamente sentou-se numa poltrona e olhou para o fogo e assim… Uma chuva de ideias caiu perpetuamente de algum Céu muito alto para atingir sua mente. Ele, abaixando a cabeça, apoiou a testa na mão, e os outros, olhando pela porta aberta — pois supõe-se que esta cena aconteça numa noite de verão… Mas como é enfadonha esta ficção histórica! Não me interessa em nada. Bem que eu gostaria de dar com uma linha de pensamento agradável, uma linha que indiretamente refletisse crédito em mim, pois tais são os pensamentos mais agradáveis e muito frequentes até mesmo nas mentes de modestas pessoas cor de rato, que sinceramente acreditam que não gostam de receber elogios. Não são pensamentos diretamente autoelogiosos; e essa é que é a sua beleza; são pensamentos como este: “E então entrei na sala. Eles estavam falando de botânica. Falei da flor que eu tinha visto crescendo num monte de lixo no quintal de uma casa velha em Kingsway. A semente, disse, deve ter sido plantada no reinado de Carlos i. Que flores ocorriam no reinado de Carlos I?”, perguntei — (mas não me lembro da resposta). Flores altas com pendões roxos talvez. E por aí vai. O tempo todo estou vestindo a figura de mim mesma em minha própria mente, em namoro furtivo, não a adorando abertamente, pois, se o fizesse, eu deveria considerar-me em erro e esticar a mão de imediato para em autoproteção apanhar um livro. É curioso como instintivamente protegemos nossa própria imagem de idolatria ou de qualquer manipulação que a possa tornar ridícula, ou diferente demais do original para que ainda acreditem nela. Ou isso não é, afinal de contas, tão curioso assim? É uma questão de grande importância. Suponha-se que o espelho se despedace, que a imagem desapareça e que a figura romântica com o fundo verde da floresta a envolvê-la não esteja mais lá, mas apenas aquilo, a casca de uma pessoa que é vista por outras — que mundo raso, árido, proeminente e sem ar ela se torna! Não um mundo no qual viver. Quando nos encontramos face a face, nos ônibus e trens subterrâneos, é no espelho que nós estamos olhando; o que explica a vaguidão, o brilho de vidro, em nossos olhos. E os romancistas do futuro dar-se-ão cada vez mais conta da importância dessas reflexões, pois claro está que não há só um, mas sim um número quase infinito de reflexões; são essas profundidades que eles irão explorar, esses os fantasmas que perseguirão, deixando a descrição da realidade cada vez mais fora de suas histórias, já contando com um conhecimento dela, como fizeram os gregos e talvez Shakespeare — mas essas generalizações são muito inúteis. Basta o timbre militar da palavra, que lembra editoriais, ministros de gabinete — toda uma categoria de coisas que em criança tomávamos pelo que podia haver de mais sério, de mais grave, de mais importante, e das quais não se podia escapar, a não ser sob risco de inominável danação. As generalizações trazem de volta, de alguma forma, o domingo em Londres, os passeios nas tardes de domingo, os almoços de domingo, e também modos de falar de mortos, roupas, hábitos — como o hábito de se sentarem todos juntos numa sala até certa hora, embora ninguém gostasse disso. Havia uma regra para tudo. A regra para toalhas de mesa, nessa época específica, é que deveriam ser feitas em tapeçaria, com pequenos compartimentos amarelos voltados para o lado de cima, como se pode ver em fotografias dos tapetes nos corredores dos palácios reais. As toalhas de outro tipo não eram verdadeiras. Quão chocante, no entanto quão maravilhoso, descobrir que essas coisas verdadeiras, os almoços de domingo, os passeios de domingo, as casas de campo e as toalhas de mesa, não eram afinal tão verdadeiras assim, sendo de fato meio fantasmais, e que a danação que se abatia sobre quem não acreditava nelas era apenas uma impressão de liberdade ilegítima. O que agora toma o lugar dessas coisas, pergunto-me, dessas coisas importantes e sérias? Talvez os homens, caso você seja mulher; o ponto de vista masculino que governa nossas vidas, que fixa o padrão, que estabelece a Ordem de Precedência de Whitaker, a qual desde a guerra se tornou meio fantasma, suponho eu, para muitos homens e mulheres, e que em breve, é lícito esperar, será motivo de riso na lata de lixo para onde vão os fantasmas, os bufês de mogno e as gravuras de Landseer, deuses e demônios, o Inferno e assim por diante, deixando-nos a todos uma impressão intoxicante de liberdade ilegítima — se existe liberdade… Sob certas luzes essa marca na parede parece na verdade se projetar da parede. Não é perfeitamente circular. Não posso ter certeza, mas parece lançar uma sombra perceptível, sugerindo que, se eu corresse o dedo para baixo, naquela faixa da parede, a um certo ponto ele iria subir e descer por um montículo, liso como os de South Downs, que ou bem são túmulos, segundo dizem, ou bem, acampamentos. Dos dois, eu preferiria que fossem túmulos, desejando a melancolia, como a maioria dos ingleses, e achando natural, ao fim de uma caminhada, pensar nos ossos esticados que há embaixo da terra… Deve haver algum livro sobre isso. Algum antiquário deve ter escavado essas ossadas, dando-lhes depois um nome… Que espécie de homem, pergunto-me, é um antiquário? A maioria é de coronéis reformados, creio eu, guiando grupos de trabalhadores idosos até o cume, examinando torrões e pedras e correspondendose com o clero das redondezas, o qual lhes dá, já estando aberto à hora do desjejum, um sentimento de importância, e a comparação de pontas de flechas necessita de longas viagens às cidades da região, necessidade agradável tanto para eles quanto para suas velhas esposas, que querem fazer uma geleia de ameixa, ou uma faxina no escritório, e têm todas as razões para manter essa grande questão de acampamento ou túmulo em suspensão perpétua, enquanto o próprio coronel sente-se satisfatoriamente filosófico ao acumular evidências sobre os dois lados da questão. É verdade que ele finalmente se inclina a crer no acampamento; e, quando se opõem à sua hipótese, redige um panfleto que está a ponto de ler na reunião trimestral da sociedade local quando um infarto o derruba, e seus últimos pensamentos conscientes não se reportam a mulher nem aos filhos, mas ao acampamento e àquela ponta de flecha, que agora está na vitrine do museu da cidade, junto com o pé de uma assassina chinesa, um punhado de pregos elizabetanos, muitos cachimbos de barro Tudor, um fragmento de cerâmica romana e o copo em que Nelson bebeu vinho — provando realmente não sei o quê. Não, não, nada é provado, nada é sabido. E se eu me levantasse, neste exato momento, e me certificasse de que a marca na parede é na verdade — como devo dizer? — a cabeça de um velho prego gigante, cravado ali há uns duzentos anos e que agora, devido ao paciente atrito causado por muitas gerações de faxineiras, apontou a cabeça por cima das camadas de tinta para dar sua primeira olhada na vida moderna, captando-a numa sala onde as paredes são brancas e a lareira está acesa, o que eu ganharia? Conhecimento? Tema para especulação posterior? Quer em pé, quer sentada sem me mexer, eu sou capaz de pensar. E o que é conhecimento? O que são nossos homens de saber senão descendentes de bruxas e eremitas que se acocoravam em grutas e nas matas preparando suas beberagens de ervas, interrogando musaranhos e anotando a linguagem das estrelas? E quanto menos os respeitamos, à medida que nossas superstições se reduzem e aumenta nosso respeito pela beleza e a saúde mental… Sim, poder-seia imaginar um mundo muito agradável. Um tranquilo mundo espaçoso, com flores bem azuis e vermelhas pelos descampados. Um mundo sem professores, sem especialistas, sem zeladores com perfis de polícia, um mundo que se pudesse cortar com o pensamento como um peixe corta a água com suas nadadeiras, roçando em talos de nenúfares que pendem suspensos sobre ninhos de ovos brancos do mar… Como é tranquilo aqui embaixo, enraizado no centro do mundo e olhando para cima pelo acinzentado das águas, com seus repentinos fachos de luz, com seus reflexos — ah, se não fosse o Almanaque de Whitaker — se não fosse a Ordem de Precedência! Tenho de me levantar para ir ver em pessoa o que é realmente esta marca na parede — um prego, uma folha de roseira, uma racha na madeira? Aqui está mais uma vez a Natureza em seu velho jogo de autopreservação. Esta linha de pensamento, percebe ela, ameaça tornar-se pura perda de energia, ameaça até mesmo colidir com a realidade, pois quem jamais será capaz de pôr um dedo em riste contra a Ordem de Precedência de Whitaker? O arcebispo de Canterbury é seguido pelo presidente da Câmara dos Pares; o presidente da Câmara dos Pares é seguido pelo arcebispo de York. Todo mundo segue alguém, tal é a filosofia de Whitaker; e a grande coisa é saber quem segue quem. Whitaker sabe, e você que se console com isso, como a Natureza aconselha, ao invés de enraivar-se; mas, se você não puder ser consolada, se tiver de estragar esta hora de paz, pense então na marca na parede. Entendo o jogo da Natureza — sua prontidão para agir como modo de interromper qualquer pensamento que ameace agitar ou causar dor. Daí provém, suponho, nosso leve desprezo pelos homens de ação — homens, presumimos, que não pensam. Seja como for, não faz mal ficar olhando uma marca na parede para pôr um ponto final em nossos desagradáveis pensamentos. De fato, agora que fixei o olhar nela, sinto que me agarrei a uma tábua de salvação; tenho uma satisfatória noção de realidade que de uma vez por todas transforma os dois arcebispos e o presidente da Câmara dos Pares em meras sombras. Eis aqui alguma coisa concreta, definida. Assim, despertando de um sonho de horror à meia-noite, logo a pessoa acende a luz e se mantém quiescente, adorando o gaveteiro, adorando a solidez, adorando a realidade, adorando o mundo impessoal que é prova de alguma existência que não a sua. É disso que queremos estar seguros… A madeira é uma boa coisa na qual pensar. Vem de uma árvore; e as árvores crescem, e não sabemos como crescem. Por anos e anos elas crescem, sem nos dar nenhuma atenção, em campinas, em florestas e à beira dos rios — coisas nas quais, sem exceção, nós gostamos de pensar. As vacas dão chicotadas com o rabo, à sombra delas, nas tardes quentes; elas pintam tão de verde os rios que, quando um frango-d’água mergulha, esperamos vê-lo com as penas todas verdes, quando volta à tona. Gosto de pensar nos peixes que balançam contra a correnteza como bandeiras ao vento; e nos besouros-d’água que lentamente vão erguendo domos de lama sobre o leito do rio. Gosto de pensar na árvore em si: primeiro na íntima e seca sensação de ser madeira; depois na trituração pela tempestade; depois na lenta, deliciosa penetração de seiva. Gosto de pensar nisso também nas noites de inverno, quando me ergo no campo vazio com as folhas todas dobradas, fechando-me sem nada expor de sensível aos projéteis de ferro que vêm da lua, um mastro nu na terra que não para, ao longo de toda a noite, de rodopiar. O canto dos passarinhos deve soar muito alto e estranho em junho; e que frio devem sentir nos pés os insetos, quando fazem seus laboriosos avanços, subindo pelas rugas da casca, ou tomam sol sobre o toldo verde e fino das folhas, olhando reto para a frente com seus olhos vermelhos, cortados em forma de diamante… Uma a uma as fibras estalam sob a imensa pressão fria da terra e vem então o temporal mais recente e os galhos mais altos, caindo, cravam-se na terra de novo, e fundo. Nem assim a vida acaba; para uma árvore, ainda há um milhão de vidas pacientes e atentas em todo o mundo, em quartos de dormir, em barcos, no assoalho, forrando salas onde homens e mulheres sentam-se depois do chá para fumar seus cigarros. Está cheia de pensamentos tranquilos, de pensamentos felizes, esta árvore. Bem que eu gostaria de pegar cada um deles separadamente — mas alguma coisa está atrapalhando. Onde é que eu estava? De que é mesmo que se tratava? Uma árvore? Um rio? A região dos Downs? O Almanaque de Whitaker? Os campos de asfódelos? Não consigo me lembrar de nada. Tudo está se movendo, caindo, deslizando, sumindo… Há uma vasta sublevação da matéria. Alguém está de pé, acima de mim, e diz: “Vou sair um instante para comprar um jornal.” “Hein?” “Se bem que nem adianta comprar jornais… Nunca acontece nada. Maldita guerra; que Deus maldiga esta guerra!… Seja como for, não vejo por que tínhamos de ter um caramujo na parede.” Ah, a marca na parede! Era um caramujo.










