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  • Dom Casmurro vs. Bentinho: Dupla narração em Dom Casmurro.

    E aí, aspirantes a demolidores de clássicos? Ana Amélia na área, pronta para mais uma sessão de autópsia literária. Hoje, vamos pegar o bisturi e abrir ao meio um dos nossos maiores tesouros nacionais, mas com um cuidado cirúrgico. Esqueça a pergunta que não quer calar. A questão não é "Capitu traiu ou não traiu?". A verdadeira pergunta, a que separa os escritores amadores dos estrategistas da palavra é: "Quem, diabos, está nos contando essa história?". Pois é. Se você respondeu "Bentinho", acertou metade. Se respondeu "Dom Casmurro", também. A genialidade do Bruxo do Cosme Velho não foi criar um narrador, mas sim dois, aprisionados no mesmo corpo e em guerra declarada pela sua versão da verdade. Desmascarando o Narrador: O Que Dom Casmurro e Os Vestígios do Dia Nos Ensinam Sobre a Memória Vamos direto ao ponto: o Dom Casmurro  que narra o livro não é o mesmo Bentinho que vive a história. Existe um abismo de décadas, mágoas e, principalmente, de interesses entre os dois. O livro se apresenta como um projeto de memória, uma tentativa do velho de "atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência". Uma premissa quase nobre, se não fosse uma completa falha, admitida por ele mesmo logo no início: Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. "Falto eu mesmo". Preste atenção nessa confissão. O narrador, o velho Dom Casmurro, nos diz com todas as letras que o protagonista da sua história—o jovem Bentinho—está ausente, é uma lacuna. Ele não está lembrando ; ele está reconstruindo , e todo engenheiro sabe que uma reconstrução pode facilmente alterar a planta original para esconder rachaduras. A narração é um ato de defesa. Dom Casmurro, o advogado, monta um processo meticuloso contra Capitu, Escobar e, indiretamente, contra a própria felicidade que ele perdeu. O jovem Bentinho é sua principal testemunha, mas uma testemunha que não tem voz própria. Suas memórias, suas dúvidas e seus ciúmes são todos filtrados, editados e apresentados pelo promotor Casmurro. Nós, leitores, somos o júri, e recebemos o caso já com as "provas" selecionadas a dedo. Esse truque de dividir o "eu-narrador" do "eu-personagem" é uma das ferramentas mais sofisticadas para criar um narrador não confiável. O autor nos dá a ilusão de intimidade (afinal, é uma narração em primeira pessoa), enquanto nos manipula pelas costas. E se você acha que isso é exclusividade do nosso Machado, está redondamente enganado. Vamos cruzar o Atlântico e dar uma espiada em Os Vestígios do Dia , do prêmio Nobel Kazuo Ishiguro. O livro é narrado por Stevens, um mordomo inglês que, assim como Casmurro, decide revisitar seu passado durante uma viagem. Stevens passou a vida inteira servindo Lord Darlington, um aristocrata que flertou com o nazismo. O dilema de Stevens é tentar justificar uma vida de devoção a um homem moralmente questionável, ao mesmo tempo em que lida com o arrependimento de ter sacrificado um possível amor com a governanta, a Srta. Kenton. A "dignidade" para Stevens é o que a promessa do seminário era para Bentinho: um ideal que justifica a anulação de si mesmo. Ele constrói uma narrativa onde sua abnegação e controle emocional são virtudes supremas, mas, nas entrelinhas, sua humanidade reprimida vaza. Veja como ele descreve o pilar de sua existência: O grande mordomo é grande em virtude de sua capacidade de habitar seu papel profissional — e de habitá-lo até o fim. Não se deixa abalar por acontecimentos externos, por mais surpreendentes, alarmantes ou constrangedores que sejam. Veste seu profissionalismo como um cavalheiro decente veste seu terno: não permitirá que baderneiros ou circunstâncias o arranquem dele em público. Stevens, o narrador, tenta nos convencer de que essa armadura profissional é uma marca de grandeza. No entanto, é essa mesma armadura que o impede de agir quando seu pai está morrendo em um quarto no andar de cima, ou quando a Srta. Kenton, em um ato de desespero e afeto, tenta provocá-lo. O Stevens que narra é o advogado de defesa de uma vida que, no fundo, ele suspeita ter sido um erro. A tragédia está no que ele não  diz, nos silêncios, nas justificativas polidas que mal conseguem esconder um coração partido. Tanto Casmurro quanto Stevens são homens que olham para trás e tentam construir um monumento sobre as ruínas de suas vidas. Casmurro constrói um mausoléu para seu amor perdido, culpando Capitu para não ter que encarar sua própria insegurança paralisante. Stevens ergue uma estátua à "dignidade", para não admitir que serviu a um propósito falho e perdeu sua única chance de felicidade. A técnica é a mesma: um narrador no presente (velho, experiente, ferido) reconta a história de seu eu no passado (jovem, ingênuo, cheio de potencial) não como ela foi, mas como ele precisa  que ela tenha sido para justificar quem ele se tornou. Entender essa fratura narrativa é crucial. É aqui que a relação entre autor, texto e leitor, a santíssima trindade que tanto prezamos na Letra & Ato , se torna um jogo de alta tensão. Seu narrador não é apenas um porta-voz; ele é uma entidade com agenda, com medos e com o poder de distorcer todo o universo que você criou. Reconhecer isso no seu próprio texto é o primeiro passo para transformá-lo de um simples relato em uma obra de arte complexa e instigante. Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia... 📚 A Estante de Ana: Reparação  de Ian McEwan Se a memória de Casmurro é um processo judicial e a de Stevens é um relatório profissional, a de Briony Tallis é uma arma de destruição em massa. Este livro é uma aula magna sobre as consequências catastróficas de uma narração equivocada e a tentativa de uma vida inteira para consertar um erro através da ficção. Leitura obrigatória para quem quer entender o poder e o perigo de contar uma história. Exportar para as Planilhas ☕ Um café e uma primeira conversa Seu manuscrito, assim como a memória de Bentinho, tem duas versões: a que você viveu ao escrever e a que o leitor vai encontrar. Muitas vezes, um abismo separa as duas. Uma palavra mal colocada, uma motivação que fica subentendida apenas para você, um silêncio que soa como confissão. Essas são as "rachaduras" que podem comprometer a estrutura da sua obra. Nosso trabalho na Letra & Ato  não é apenas corrigir a gramática. É estabelecer um diálogo com seu texto, encontrar essas fissuras e entender a intenção por trás de cada escolha. Queremos ser o primeiro leitor crítico e parceiro da sua história, ajudando a garantir que a versão que chega ao mundo é exatamente a que você sonhou em contar. Que tal nos enviar um trecho? Vamos tomar esse café e conversar sobre o potencial que vive nas entrelinhas da sua narrativa. No final, toda escrita é uma tentativa de organizar o caos da memória; a revisão é o ato de garantir que você não se tornou o vilão da sua própria história. Letra & Ato Tradição | Precisão Editorial | Sensibilidade © 2024-2025 Letra & Ato (antiga Revisão Dialogal) . Todos os direitos reservados.

  • Segunda Vez - Conto de Julio Cortázar

    Segunda vez - Julio Cortázar   Não mais que os esperávamos, cada um tinha seu dia e hora, mas claro, sem pressa, fumando devagar, de quando em quando o negro López vinha com o café e então parávamos de trabalhar e comentávamos as novidades, quase sempre a mesma coisa, a visita do chefe, as mudanças em cima, as performances em San Isidro. Eles, claro, não podiam saber que estávamos esperando, o que se chama esperando, essas coisas deviam acontecer sem estardalhaço, ajam com calma, palavra do chefe, a cada momento ele repetia por via das dúvidas, vão piano piano, e depois era fácil, se desse algum galho não cobrariam de nós, os responsáveis estavam lá em cima e o chefe era a lei, fiquem calmos, rapazes, se houver problema aqui eu é que dou as caras, a única coisa que peço e que não se enganem de pessoa, primeiro a averiguação para não errar e depois podem agir. Francamente não davam trabalho, o chefe tinha escolhido escritórios funcionais para que não se amontoassem, e nós os recebíamos um a um, como se deve, com todo o tempo necessário. Para gente educada como nós, cara, o chefe dizia volta e meia e era verdade, tudo sincronizado assim nas IBM, aqui se trabalhava com vaselina, nada de pressa nem de vão em frente. Tínhamos tempo para os cafezinhos e os palpites do domingo, e o chefe era o primeiro a vir buscar as barbadas que para isso o magro Bianchetti era propriamente um oráculo. Todos os dias era a mesma coisa, chegávamos com os jornais, o negro López trazia o primeiro café e logo começavam a aparecer para o trâmite. A convocação dizia isso, trâmite que lhe concerne, nós só aí esperando. Agora isso é verdade, mesmo que venha em papel amarelo, uma convocação sempre tem um ar sério; por isso María Elena a olhara muitas vezes em sua casa, o carimbo verde rodeando a assinatura ilegível e as indicações de data e lugar. No ônibus voltou a tirá-la da bolsa e deu corda ao relógio para mais segurança. Convocavam-na a um escritório da Rua Maza, era estranho que ali houvesse um ministério mas sua irmã dissera que estavam instalando escritórios em qualquer parte porquê os ministérios já estavam ficando pequenos, e logo que desceu do ônibus viu que devia ser verdade, o bairro não tinha nada de especial, com casas de três; ou quatro andares e sobretudo muito comércio atacadista, e até algumas árvores das poucas que sobravam na zona. "Pelo menos deve ter uma bandeira", pensou María Elena ao se aproximar da quadra setecentos, pensando bem era como as embaixadas que estavam nos bairros residenciais mas se distinguiam de longe pelo pano colorido em alguma sacada. Embora o número figurasse bem claro na convocação, surpreendeu-a não ver a bandeira nacional e por um momento ficou na esquina (era muito cedo, podia fazer hora) e sem nenhuma razão perguntou na banca de jornais se nessa quadra ficava a Direção. — Claro que sim — disse o homem —, ali, na metade da quadra, mas por que não espera um pouquinho para me fazer companhia, veja como estou sozinho. — Na volta — sorriu María Elena caminhando sem pressa e consultando uma vez mais o papel amarelo. Quase não havia trêfego nem gente, um gato diante de um armazém e uma gorda com uma menina que saiam de um saguão. Os poucos carros estavam estacionados na altura da Direção, quase todos com alguém ao volante, lendo jornal ou fumando. A entrada era estreita como todas na quadra, com um saguão de ladrilhos e a escada ao fundo; a placa na porta parecia apenas a de um médico ou um dentista, suja e com um papel colado na parte de baixo para cobrir algumas inscrições. Era estranho que não tivesse elevador, um terceiro andar e precisar subir a pé com esse papel tão sério, carimbo verde, a assinatura e tudo mais. A porta do terceiro andar estava fechada e não se via nem campainha nem placa. María Elena experimentou o trinco e a porta se abriu sem ruído: a fumaça do fumo chegou-lhe antes dos ladrilhos esverdeados do corredor e os bancos dos dois lados com gente sentada. Não eram muitos, mas com essa fumaça e o corredor tão estreito parecia que se tocavam com os joelhos, as duas anciãs, o careca e o rapaz de gravata verde. Era certo que tinham estado falando para matar o tempo, bem ao abrir a porta María Elena alcançou um final de frase de uma das senhoras, mas como sempre ficaram calados de repente olhando a que chegava por último, e também como sempre e sentindo-se muito boba María Elena ficou vermelha e mal lhe saiu a voz para dizer bom-dia e permanecer de pé ao lado da porta até que o rapaz lhe fez um sinal, mostrando o banco vazio a seu lado justamente quando se sentava, agradecendo, a porta da outra extremidade do corredor se abriu para deixar sair um homem de cabelo vermelho que abriu caminho entre os joelhos dos outros sem se preocupar em pedir licença e o funcionário manteve a porta aberta com um pé até que uma das senhoras se levantou com dificuldade e desculpando-se passou entre María Elena e o careca; a porta da saída e a do escritório se fecharam quase ao mesmo tempo, e os que ficavam começaram de novo a falar, esticando-se um pouco nos bancos que rangiam. Cada um tinha seu assunto, como sempre, o careca a lentidão dos trâmites, se é assim na primeira vez que é que se pode esperar, me diga, mais de meia hora para, quando muito, o que, só umas quatro perguntas e tchau, pelo menos é o que imagino. — Não acredite nisso — disse o rapaz da gravata verde —, eu é a segunda vez e garanto que não é tão rápido, até que copiem tudo a máquina e então a gente não se lembra bem de uma data, essas coisas, no final demora bastante. O careca e a anciã ouviam-no interessados porque para eles era evidentemente a primeira vez, a mesma coisa com María Elena, embora não se sentisse com direito de entrar na conversa. O careca queria saber quanto tempo passava entre a primeira e a segunda convocação, e o rapaz explicou que em seu caso tinha sido coisa de três dias. Mas por que duas convocações? quis perguntar María Elena, e outra vez sentiu que o vermelho lhe subia ao rosto, então esperou que alguém falasse com ela e lhe desse confiança, que a deixasse integrar-se ao grupo, não ser mais a última. A anciã tirara um vidrinho talvez de sais e o cheirava suspirando. Tanta fumaça podia estar incomodando e o rapaz se ofereceu para apagar o cigarro e o careca disse claro, esse corredor era uma vergonha, era melhor apagarem os cigarros se se sentia mal, mas a senhora disse que não, um pouco de cansaço só, passava em seguida, em sua casa o marido e os filhos fumavam o tempo todo, quase não noto. María Elena que também tivera vontade de tirar um cigarro viu que os homens apagavam os seus, que o rapaz o esmagava com a sola do sapato, sempre se fuma demais quando se tem que esperar, na outra vez tinha sido pior porque havia sete ou oito pessoas antes dele, e no fim não se via mais nada no corredor de tanta fumaça. — A vida é uma sala de espera — disse o careca, pisando no cigarro com muito cuidado e olhando as próprias mãos como se já não soubesse o que fazer com elas, e a anciã suspirou uma concordância, de muitos anos e guardou o vidrinho quando a porta do fundo se abria e a outra senhora saia com esse ar que todos lhe invejaram, o bom-dia quase compadecido ao chegar a porta de saída. Mas então não demorava tanto, pensou María Elena, três pessoas antes dela, calculemos três quartos de hora, claro que em uma dessas o trâmite se fazia mais demorado com alguns, o rapaz já estivera ali uma primeira vez e o dissera. Quando, porém, o careca entrou no escritório, María Elena animou-se a perguntar para ter mais certeza, e o rapaz ficou pensando e depois disse que na primeira vez alguns tinham demorado muito e outros menos, nunca se podia saber. A anciã chamou a atenção para o fato de que a outra senhora tinha saído quase em seguida, mas o senhor de cabelo vermelho tinha demorado uma eternidade. — Ainda bem que agora somos poucos — disse María Elena —, esses lugares deprimem. — É preciso encarar essas coisas com filosofia — disse o rapaz —, não se esqueça que precisara voltar, assim é melhor que fique tranquila. Quando vim pela primeira vez não tinha ninguém com quem falar, éramos uma porção, mas não sei, não se comunicavam, e em compensação hoje, desde que cheguei, o tempo passa depressa porque a gente troca ideias. María Elena gostou de continuar conversando com o rapaz e a senhora quase não sentiu passar o tempo até que o careca saiu e a senhora se levantou com uma rapidez que os outros não teriam imaginado em sua idade, a coitada queria acabar depressa com os trâmites. — Bem, agora nós — disse o rapaz. — Não a incomoda se fumo um cigarrinho? Não aguento mais, mas aquela senhora parecia tão perturbada... — Eu também estou com vontade de fumar. Aceitou o cigarro que ele lhe oferecia e se disseram os nomes, onde trabalhavam, sentiam-se bem em trocar impressões esquecendo-se do corredor, do silêncio que, por momentos, parecia demasiado, como se as ruas e as pessoas estivessem muito longe. María Elena também tinha morado em Floresta mas quando menina, agora morava em Constitución. Carlos não gostava desse bairro, preferia o oeste, melhor ar, as árvores. Seu ideal teria sido viver em Villa del Parque, quando casar talvez alugue um apartamento por aqueles lados, o futuro sogro tinha prometido ajudá-lo, era uma pessoa com muitas relações e com uma dessas talvez conseguisse algo. — Eu não sei por que, mas alguma coisa me diz que vou viver toda a minha vida em Constitución — disse María Elena. — Não é tão ruim, apesar de tudo. E se alguma vez... Viu abrir-se a porta do fundo e olhou quase surpreendida o rapaz que lhe sorria ao se levantar, está vendo como o tempo passou conversando, a senhora despedia-se deles amavelmente, parecia tão contente por ir embora, todo mundo tinha um ar mais jovem e mais ágil ao sair, como se lhes tivessem tirado um peso de cima, o trâmite acabado, uma diligência a menos e lá fora a rua, os cafés onde talvez entrariam para tomar um trago ou um chá e se sentirem realmente do outro lado da sala de espera e dos formulários. Agora o tempo se tornaria mais longo para María Elena sozinha, embora se tudo continuasse assim Carlos sairia logo, mas numa dessas demorava mais que os outros porque era a segunda vez e sabe-se lá que trâmites teria. Quase não compreendeu no princípio quando viu abrir-se a porta e o funcionário a olhou e fez um gesto com a cabeça para que passasse. Pensou então que era assim mesmo, que Carlos precisaria ficar mais tempo enchendo papéis e que, enquanto isso, se ocupariam dela. Cumprimentou o funcionário e entrou no escritório; mal tinha passado a porta quando outro funcionário lhe mostrou uma cadeira diante de uma escrivaninha negra. Havia vários funcionários no escritório, só homens, mas não viu Carlos. Do outro lado da escrivaninha um funcionário de cara doentia olhava uma planilha; sem levantar os olhos estendeu a mão e María Elena custou a compreender que lhe pedia a convocação, de repente entendeu e a procurou um pouco distraída, murmurando desculpas, tirou duas ou três coisas da bolsa até encontrar o papel amarelo. — Vá preenchendo isto — disse o funcionário, passando-lhe um formulário. — Com letra de imprensa, bem claro. Eram as tolices de sempre, nome e sobrenome, idade, sexo, domicílio. Entre duas palavras María Elena sentiu como se algo a incomodasse, algo que não estava de todo claro. Não na planilha, fácil de preencher os vazios: algo fora, algo que faltava ou não estava em seu lugar. Parou de escrever e olhou ao redor, as outras mesas com os funcionários trabalhando ou falando entre si, as paredes sujas com cartazes e fotografias, as duas janelas, a porta por onde entrara, a única porta do escritório. Profissão, e ao lado a linha pontilhada; automaticamente preencheu o vazio. A única porta do escritório, mas Carlos não estava ali. Tempo de serviço. Com maiúsculas, bem claro. Quando assinou embaixo, o funcionário olhava-a como se tivesse demorado demais a preencher a planilha. Estudou um momento o papel, não encontrou erros e o guardou em uma carpeta. O resto foram perguntas, algumas inúteis porque ela já as havia respondido na planilha, mas também sobre a família, as mudanças de residência nos últimos anos, os seguros, se viajava com frequência e para onde, se havia tirado passaporte ou pensava tirá-lo. Ninguém parecia preocupar-se muito com as respostas, e de qualquer modo o funcionário não as anotava. Bruscamente disse a María Elena que podia sair e que voltasse três dias depois às onze; não precisava convocação por escrito, mas que não esquecesse. — Sim, senhor — disse María Elena levantando-se —, então na quinta-feira às onze. — Passe bem — disse o funcionário sem olhar para ela. No corredor não havia ninguém, e percorrê-lo foi, como para todos os outros, um apressar-se, um respirar aliviado, uma vontade de chegar à rua e deixar tudo aquilo para trás. María Elena abriu a porta da saída e, começando a descer as escadas, pensou em Carlos, era estranho que Carlos não tivesse saído como os outros. Era estranho porque o escritório tinha apenas uma porta, claro que às vezes não se repara bem, porque isso não podia ser, o funcionário abrira a porta para que ela entrasse e Carlos não passara por ela, não saíra primeiro como todos os outros, o homem de cabelo vermelho, as senhoras, todos menos Carlos. O sol estatelava-se contra a calçada, era o ruído e o ar da rua; María Elena deu uns passos e ficou parada ao lado de uma árvore, em um lugar onde não havia carros estacionados. Olhou para a porta da casa, disse a si mesma que esperaria um momento para ver Carlos sair. Não podia ser que Carlos não saísse, todos tinham saído ao terminar o trâmite. Pensou que talvez ele se demorasse porque era o único que viera pela segunda vez; sabe-se lá, talvez fosse isso. Parecia muito estranho não tê-lo visto no escritório embora pudesse haver ali uma porta dissimulada pelos cartazes, algo que não notara, mas assim mesmo era estranho porque todo mundo tinha saído pelo corredor como ela, todos os que tinham vindo pela primeira vez saíram, pelo corredor. Antes de seguir caminho (esperara um momento, mas não podia mais continuar assim) pensou que precisaria voltar na quinta-feira. Talvez então as coisas mudassem e a fizessem sair pelo outro lado embora não soubesse por onde nem por que. Ela não, claro, mas nós sim sabíamos, nós a estaríamos esperando, a ela e aos outros, fumando devagarinho e conversando enquanto o negro López preparava outro dos tantos cafés da manhã.

  • 8 Dicas para Escrever Melhor: Faça de seu Leitor um Coautor

    Escrever melhor sempre deve ser seu objetivo! Estamos condenados à servidão aos leitores! Para agradar a seus senhores e trubinar a experiência de leitura de um romance, você dever usar, além de sua sensibilidade, técnicas de escrita criativa que convidam o leitor a uma participação ativa na descoberta da narrativa. O eixo interpretativo sempre pende para o leitor. Só resta interagir com ele e trazê-lo para "dentro do livro" como coautor. Em vez de antecipar os acontecimentos ou explicar demais, essas técnicas deixam espaço para a imaginação, despertando a curiosidade sem revelar todos os segredos de antemão. Isso evita dois problemas comuns: a antecipação – que tira o prazer da surpresa –, e a explicação excessiva – que pode transmitir a ideia de que o leitor não é capaz de interpretar por si mesmo. 1. Mostrar, Não Contar Em vez de explicar diretamente os sentimentos ou os acontecimentos, o autor deve fazer com que o leitor "veja" e "sinta" a cena por meio de descrições sensoriais e ações. Essa abordagem favorece a identificação emocional e a imersão na história. Exemplo: Ernest Hemingway, com sua "teoria do iceberg", apresenta uma narrativa concisa em que o que não é dito é tão importante quanto o que aparece na superfície. Essa técnica faz com que o leitor atue quase como um detetive, completando as lacunas com suas próprias interpretações. 2. Suspense e Revelação Gradual A ideia é dosar a entrega de informações: colher pistas que instiguem o leitor sem entregar o roteiro completo. O uso cuidadoso do foreshadowing (antecipação sutil) permite que pequenos indícios sejam espalhados ao longo do texto, criando uma tensão que se resolve de forma natural mais adiante. Exemplo: Agatha Christie foi mestra em semear pequenos indícios nas tramas de seus romances policiais. Dessa forma, o leitor sente que, ao juntar as peças, a solução do mistério é resultado de sua própria leitura atenta, e não de uma revelação imposta . 3. Diálogos Naturais e Indiretos Os diálogos são ferramentas poderosas para revelar a personalidade dos personagens, seus conflitos internos e até mesmo traços da história sem precisar recorrer a longas explicações narrativas. Conversas autênticas e sutis podem marcar as intenções e emoções sem descrever explicitamente todos os detalhes. Exemplo: Jane Austen utiliza diálogos carregados de ironia e crítica social que, ao mesmo tempo que entretêm, permitem ao leitor deduzir nuances dos personagens e da trama. Essa técnica respeita a inteligência do leitor, convidando-o a inferir significados que vão além do óbvio . 4. Construção de Personagens Complexos e Ambíguos Ao desenvolver personagens com motivações e conflitos internos que não são totalmente revelados de imediato, o autor torna o processo de descobrimento um convite à interpretação. Personagens multifacetados criam um vínculo com o leitor, que se sente parte da evolução da história. Exemplo: Machado de Assis constrói personagens como Bentinho e Capitu em Dom Casmurro de forma ambígua, sem esclarecer completamente as intenções e sentimentos, o que provoca debates e múltiplas interpretações entre os leitores . 5. Linguagem Simbólica e Metafórica O uso de metáforas, símiles e outras figuras de linguagem pode adicionar camadas de significado à narrativa sem explicitar cada detalhe, mantendo o leitor desafiado a explorar as relações simbólicas da história. Exemplo: Em Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez mescla o real e o fantástico através de uma escrita poética e repleta de símbolos. Essa técnica permite que o leitor sinta a magia do enredo e interprete os elementos simbólicos de forma pessoal. 6. Estrutura Narrativa Não-Linear Romper com a linearidade pode levar o leitor a montar a cronologia dos eventos e a entender as relações entre as partes da história de forma mais profunda. 7. Utilização do Espaço e do Silêncio A inserção de pausas narrativas e de momentos de silêncio pode intensificar a atmosfera do romance e dar ênfase a momentos-chave, como faz Margaret Atwood em muitos de seus textos. 8. Narrador Confiável vs. Narrador Não Confiável Esse recurso pode desafiar o leitor a questionar as informações apresentadas, enriquecendo a experiência de leitura ao criar múltiplas camadas de interpretação, recurso que Clarice Lispector utiliza com frequência. Bentinho, um dos narradores de Dom Casmurro (Sim, são dois: Dom Casmurro e Bentinho, apesar de serem a mesma pessoa) de Machado de Assis também é um bom exemplo de narrador não confiável. Escrever melhor exige esforço extra, mas explorar essas técnicas e integrá-las de forma harmoniosa no seu romance pode transformar a narrativa em uma experiência única e instigante, onde cada página convida o leitor a descobrir algo novo sem que tudo esteja previamente explicado. Esses métodos preservam a magia da história e mostram respeito pela inteligência e imaginação de quem lê. Você cria uma leitura dinâmica e interativa, onde o leitor é constantemente convidado a participar ativamente da construção do sentido da narrativa. Em vez de receber um roteiro pré-definido, o leitor vivencia a descoberta, o que torna a história muito mais envolvente e memorável.

  • Nélida Piñon: A Caçadora de Javalis! "I Love My Husband" e o Poder do Subtexto.

    O Guia Definitivo do Subtexto na Escrita Criativa E aí, pessoal da pena e do pixel? Ana Amélia na área, pronta para mais uma autópsia literária. Hoje, vamos falar de Nélida Piñon, a Caçadora de Javali em um de meus contos preferidos: I Love My Husband. E de um dos meus truques favoritos, uma daquelas técnicas que separam os escritores amadores dos... bem, dos que sabem o que estão fazendo. Estou falando da arte de fazer seu personagem dizer uma coisa, enquanto a alma dele grita outra completamente diferente. É o poder do subtexto . Aquele delicioso espaço entre a palavra dita e o sentimento real. E o conto que eu li essa semana é uma aula magna sobre o assunto. Vamos ao conto I Love My Husband Nélida Piñon EU AMO MEU MARIDO. De manhã à noite. Mal acordo, ofereço-lhe café. Ele suspira exausto da noite sempre mal-dormida e começa a barbear-se. Bato-lhe à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero com aflição. Não quero meu esforço confundido com um líquido frio que ele tragará como me traga duas vezes por semana, especialmente no sábado. Depois, arrumo-lhe o nó da gravata e ele protesta por consertar-lhe unicamente a parte menor de sua vida. Rio para que ele saia mais tranquilo, capaz de enfrentar a vida lá fora e trazer de volta para a sala de visita um pão sempre quentinho e farto. Ele diz que sou exigente, fico em casa lavando a louça, fazendo compras, e por cima reclamo da vida. Enquanto ele constrói o seu mundo com pequenos tijolos, e ainda que alguns destes muros venham ao chão, os amigos o cumprimentam pelo esforço de criar olarias de barro, todas sólidas e visíveis. A mim também me saúdam por alimentar um homem que sonha com casas-grandes, senzalas e mocambos, e assim faz o país progredir. E é por isto que sou a sombra do homem que todos dizem eu amar. Deixo que o sol entre pela casa, para dourar os objetos comprados com esforço comum. Embora ele não me cumprimente pelos objetos fluorescentes. Ao contrário, através da certeza do meu amor, proclama que não faço outra coisa senão consumir o dinheiro que ele arrecada no verão. Eu peço então que compreenda minha nostalgia por uma terra antigamente trabalhada pela mulher, ele franze o rosto como se eu lhe estivesse propondo uma teoria que envergonha a família e a escritura definitiva do nosso apartamento. O que mais quer, mulher, não lhe basta termos casado em comunhão de bens? E dizendo que eu era parte do seu futuro, que só ele porém tinha o direito de construir, percebi que a generosidade do homem habilitava-me a ser apenas dona de um passado com regras ditadas no convívio comum. Comecei a ambicionar que maravilha não seria viver apenas no passado, antes que este tempo pretérito nos tenha sido ditado pelo homem que dizemos amar. Ele aplaudiu o meu projeto. Dentro de casa, no forno que era o lar, seria fácil alimentar o passado com ervas e mingau de aveia, para que ele, tranquilo, gerisse o futuro. Decididamente, não podia ele preocupar-se com a matriz do meu ventre, que devia pertencer-lhe de modo a não precisar cheirar o meu sexo para descobrir quem mais, além dele, ali estivera, batera-lhe à porta, arranhara suas paredes com inscrições e datas. Filho meu tem que ser só meu, confessou aos amigos no sábado do mês que recebíamos. E mulher tem que ser só minha e nem mesmo dela. A ideia de que eu não podia pertencer-me, tocar no meu sexo para expurgar-lhe os excessos, provocou-me o primeiro sobressalto na fantasia do passado em que até então estivera imersa. Então o homem, além de me haver naufragado no passado, quando se sentia livre para viver a vida a que ele apenas tinha acesso, precisava também atar minhas mãos, para minhas mãos não sentirem a doçura da própria pele, pois talvez esta doçura me ditasse em voz baixa que havia outras peles igualmente doces e privadas, cobertas de pêlo felpudo, e com a ajuda da língua podia lamber-se o seu sal? Olhei meus dedos revoltada com as unhas longas pintadas de roxo. Unhas de tigre que reforçavam a minha identidade, grunhiam quanto à verdade do meu sexo. Alisei meu corpo, pensei, acaso sou mulher unicamente pelas garras longas e por revesti-las de ouro, prata, o ímpeto do sangue de um animal abatido no bosque? Ou porque o homem adorna-me de modo a que quando tire estas tintas de guerreira do rosto surpreende-se com uma face que lhe é estranha, que ele cobriu de mistério para não me ter inteira? De repente, o espelho pareceu-me o símbolo de uma derrota que o homem trazia para casa e tornava-me bonita. Não é verdade que te amo, marido? perguntei-lhe enquanto lia os jornais, para instruir-se, e eu varria as letras de imprensa cuspidas no chão logo após ele assimilar a notícia. Pediu, deixe-me progredir, mulher. Como quer que eu fale de amor quando se discutem as alternativas econômicas de um país em que os homens para sustentarem as mulheres precisam desdobrar um trabalho de escravo. Eu lhe disse então, se não quer discutir o amor, que afinal bem pode estar longe daqui, ou atrás dos móveis para onde às vezes escondo a poeira depois de varrer a casa, que tal se após tantos anos eu mencionasse o futuro como se fosse uma sobremesa? Ele deixou o jornal de lado, insistiu que eu repetisse. Falei na palavra futuro com cautela, não queria feri-lo, mas já não mais desistia de uma aventura africana recém-iniciada naquele momento. Seguida por um cortejo untado de suor e ansiedade, eu abatia os javalis, mergulhava meus caninos nas suas jugulares aquecidas, enquanto Clark Gable, atraído pelo meu cheiro e do animal em convulsão, ia pedindo de joelhos o meu amor. Sôfrega pelo esforço, eu sorvia água do rio, quem sabe em busca da febre que estava em minhas entranhas e eu não sabia como despertar. A pele ardente, o delírio, e as palavras que manchavam os meus lábios pela primeira vez, eu ruborizada de prazer e pudor, enquanto o pajé salvava-me a vida com seu ritual e seus pêlos fartos no peito. Com a saúde nos dedos, da minha boca parecia sair o sopro da vida e eu deixava então o Clark Gable amarrado numa árvore, lentamente comido pelas formigas. Imitando a Nayoka, eu descia o rio que quase me assaltara as forças, evitando as quedas d’água, aos gritos proclamando liberdade, a mais antiga e miríade das heranças. O marido, com a palavra futuro a boiar-lhe nos olhos e o jornal caído no chão, pedia-me, o que significa este repúdio a um ninho de amor, segurança, tranquilidade, enfim a nossa maravilhosa paz conjugal? E acha você, marido, que a paz conjugal se deixa amarrar com os fios tecidos pelo anzol, só porque mencionei esta palavra que te entristece, tanto que você começa a chorar discreto, porque o teu orgulho não lhe permite o pranto convulso, este sim, reservado à minha condição de mulher? Ah, marido, se tal palavra tem a descarga de te cegar, sacrifico-me outra vez para não vê-lo sofrer. Será que apagando o futuro agora ainda há tempo de salvar-te? Suas crateras brilhantes sorveram depressa as lágrimas, tragou a fumaça do cigarro com volúpia e retomou a leitura. Dificilmente se encontraria homem como ele no nosso edifício de dezoito andares e três portarias. Nas reuniões de condomínio, a que estive presente, era ele o único a superar os obstáculos e perdoar aos que o haviam magoado. Recriminei meu egoísmo, ter assim perturbado a noite de quem merecia recuperar-se para a jornada seguinte. Para esconder minha vergonha, trouxe-lhe café fresco e bolo de chocolate. Ele aceitou que eu me redimisse. Falou-me das despesas mensais. Do balanço da firma ligeiramente descompensado, havia que cuidar dos gastos. Se contasse com a minha colaboração, dispensaria o sócio em menos de um ano. Senti-me feliz em participar de um ato que nos faria progredir em doze meses. Sem o meu empenho, jamais ele teria sonhado tão alto. Encarregava-me eu à distância da sua capacidade de sonhar. Cada sonho do meu marido era mantido por mim. E, por tal direito, eu pagava a vida com cheque que não se poderia contabilizar. Ele não precisava agradecer. De tal modo atingira a perfeição dos sentimentos, que lhe bastava continuar em minha companhia para querer significar que me amava, eu era o mais delicado fruto da terra, uma árvore no centro do terreno de nossa sala, ele subia na árvore, ganhava-lhe os frutos, acariciava a casca, podando seus excessos. Durante uma semana bati-lhe à porta do banheiro com apenas um toque matutino. Disposta a fazer-lhe novo café, se o primeiro esfriasse, se esquecido ficasse a olhar-se no espelho com a mesma vaidade que me foi instilada desde a infância, logo que se confirmou no nascimento tratar-se de mais uma mulher. Ser mulher é perder-se no tempo, foi a regra de minha mãe. Queria dizer, quem mais vence o tempo que a condição feminina? O pai a aplaudia completando, o tempo não é o envelhecimento da mulher, mas sim o seu mistério jamais revelado ao mundo. Já viu, filha, que coisa mais bonita, uma vida nunca revelada, que ninguém colheu senão o marido, o pai dos seus filhos? Os ensinamentos paternos sempre foram graves, ele dava brilho de prata à palavra envelhecimento. Vinha-me a certeza de que ao não se cumprir a história da mulher, não lhe sendo permitida a sua própria biografia, era-lhe assegurada em troca a juventude. Só envelhece quem vive, disse o pai no dia do meu casamento. E porque viverás a vida do teu marido, nós te garantimos, através deste ato, que serás jovem para sempre. Eu não sabia como contornar o júbilo que me envolvia com o peso de um escudo, e ir ao seu coração, surpreender-lhe a limpidez. Ou agradecer-lhe um estado que eu não ambicionara antes, por distração talvez. E todo este troféu logo na noite em que ia converter-me em mulher. Pois até então sussurravam-me que eu era uma bela expectativa. Diferente do irmão que já na pia batismal cravaram-lhe o glorioso estigma de homem, antes de ter dormido com mulher. Sempre me disseram que a alma da mulher surgia unicamente no leito, ungido seu sexo pelo homem. Antes dele a mãe insinuou que o nosso sexo mais parecia uma ostra nutrida de água salgada, e por isso vago e escorregadio, longe da realidade cativa da terra. A mãe gostava de poesia, suas imagens sempre frescas e quentes. Meu coração ardia na noite do casamento. Eu ansiava pelo corpo novo que me haviam prometido, abandonar a casca que me revestira no cotidiano acomodado. As mãos do marido me modelariam até os meus últimos dias e como agradecer-lhe tal generosidade? Por isso talvez sejamos tão felizes como podem ser duas criaturas em que uma delas é a única a transportar para o lar alimento, esperança, a fé, a história de uma família. Ele é único a trazer-me a vida, ainda que às vezes eu a viva com uma semana de atraso. O que não faz diferença. Levo até vantagens, porque ele sempre a trouxe traduzida. Não preciso interpretar os fatos, incorrer em erros, apelar para as palavras inquietantes que terminam por amordaçar a liberdade. As palavras do homem são aquelas de que deverei precisar ao longo da vida. Não tenho que assimilar um vocabulário incompatível com o meu destino, capaz de arruinar meu casamento. Assim fui aprendendo que a minha consciência que está a serviço da minha felicidade ao mesmo tempo está a serviço do meu marido. É seu encargo podar meus excessos, a natureza dotou-me com o desejo de naufragar às vezes, ir ao fundo do mar em busca das esponjas. E para que me serviriam elas senão para absorver meus sonhos, multiplicá-los no silêncio borbulhante dos seus labirintos cheios de água do mar? Quero um sonho que se alcance com a luva forte e que se transforme algumas vezes numa torta de chocolate, para ele comer com os olhos brilhantes, e sorriremos juntos. Ah, quando me sinto guerreira, prestes a tomar das armas e ganhar um rosto que não é o meu, mergulho numa exaltação dourada, caminho pelas ruas sem endereço, como se a partir de mim, e através do meu esforço, eu devesse conquistar outra pátria, nova língua, um corpo que sugasse a vida sem medo e pudor. E tudo me treme dentro, olho os que passam com um apetite de que não me envergonharei mais tarde. Felizmente, é uma sensação fugaz, logo busco o socorro das calçadas familiares, nelas a minha vida está estampada. As vitrines, os objetos, os seres amigos, tudo enfim orgulho da minha casa. Estes meus atos de pássaro são bem indignos, feririam a honra do meu marido. Contrita, peço-lhe desculpas em pensamento, prometo-lhe esquivar-me de tais tentações. Ele parece perdoar-me a distância, aplaude minha submissão ao cotidiano feliz, que nos obriga a prosperar a cada ano. Confesso que esta ânsia me envergonha, não sei como abrandá-la. Não a menciono senão para mim mesma. Nem os votos conjugais impedem que em escassos minutos eu naufrague no sonho. Estes votos que ruborizam o corpo mas não marcaram minha vida de modo a que eu possa indicar as rugas que me vieram através do seu arrebato. Nunca mencionei ao marido estes galopes perigosos e breves. Ele não suportaria o peso dessa confissão. Ou que lhe dissesse que nessas tardes penso em trabalhar fora, pagar as miudezas com meu próprio dinheiro. Claro que estes desatinos me colhem justamente pelo tempo que me sobra. Sou uma princesa da casa, ele me disse algumas vezes e com razão. Nada pois deve afastar-me da felicidade em que estou para sempre mergulhada. Não posso reclamar. Todos os dias o marido contraria a versão do espelho. Olho-me ali e ele exige que eu me enxergue errado. Não sou em verdade as sombras, as rugas com que me vejo. Como o pai, também ele responde pela minha eterna juventude. É gentil de sentimentos. Jamais comemorou ruidosamente meu aniversário, para eu esquecer de contabilizar os anos. Ele pensa que não percebo. Mas, a verdade é que no fim do dia já não sei quantos anos tenho. E também evita falar do meu corpo, que se alargou com os anos, já não visto os modelos de antes. Tenho os vestidos guardados no armário, para serem discretamente apreciados. às sete da noite, todos os dias, ele abre a porta sabendo que do outro lado estou à sua espera. E quando a televisão exibe uns corpos em floração, mergulha a cara no jornal, no mundo só nós existimos. Sou grata pelo esforço que faz em amar-me. Empenho-me em agradá-lo, ainda que sem vontade às vezes, ou me perturbe algum rosto estranho, que não é o dele, de um desconhecido sim, cuja imagem nunca mais quero rever. Sinto então a boca seca, seca por um cotidiano que confirma o gosto do pão comido às vésperas, e que me alimentará amanhã também. Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido. O Contrato de Amor e Outras Prisões A história começa com a frase mais assertiva que uma esposa poderia dizer: "EU AMO MEU MARIDO". Letras garrafais e tudo. Parece o início de um romance cor-de-rosa, certo? Errado. Logo no primeiro parágrafo, a narradora descreve o ritual matinal do café com uma amargura que chega a dar um gosto metálico na boca. O "amor" que ela professa é, na verdade, a grade da sua cela. O autor (ou autora, a obra é um mistério para mim) constrói uma personagem que foi sistematicamente convencida de que sua anulação é a maior prova de amor. O marido é o dono do futuro, dos bens, do corpo dela e até do passado dela. A ela, resta o papel de "sombra", de guardiã de uma felicidade que não lhe pertence. Mas a genialidade está em como a verdadeira natureza dela vaza pelas frestas. A rebeldia não vem em discursos, mas em surtos de imaginação, em fantasias vívidas e violentas que contrastam brutalmente com sua vida de bibelô doméstico. E o estopim para a mais reveladora dessas fantasias é uma única e perigosa palavra: "futuro". A Sobremesa Proibida: Quando a Verdade Escapa O clímax do conflito interno da personagem acontece quando, quase por acidente, ela oferece ao marido a palavra "futuro" como se fosse uma sobremesa. A reação dele é de pânico, e a dela é a de recuar. Mas dentro de sua mente, a palavra desencadeia uma revolução. É aqui que o autor nos mostra quem ela realmente  é. Ele deixou o jornal de lado, insistiu que eu repetisse. Falei na palavra futuro com cautela, não queria feri-lo, mas já não mais desistia de uma aventura africana recém-iniciada naquele momento. Seguida por um cortejo untado de suor e ansiedade, eu abatia os javalis, mergulhava meus caninos nas suas jugulares aquecidas, enquanto Clark Gable, atraído pelo meu cheiro e do animal em convulsão, ia pedindo de joelhos o meu amor. Sôfrega pelo esforço, eu sorvia água do rio, quem sabe em busca da febre que estava em minhas entranhas e eu não sabia como despertar. A pele ardente, o delírio, e as palavras que manchavam os meus lábios pela primeira vez, eu ruborizada de prazer e pudor, enquanto o pajé salvava-me a vida com seu ritual e seus pêlos fartos no peito. Com a saúde nos dedos, da minha boca parecia sair o sopro da vida e eu deixava então o Clark Gable amarrado numa árvore, lentamente comido pelas formigas. Imitando a Nayoka, eu descia o rio que quase me assaltara as forças, evitando as quedas d’água, aos gritos proclamando liberdade, a mais antiga e miríade das heranças. Analisem essa belezura. É um parágrafo que vale por um tratado de psicologia. Enquanto o marido chora por causa de uma palavra, a mente dela explode em uma fantasia de poder, caça, sensualidade e, finalmente, liberdade . Ela não está apenas sonhando; está construindo uma identidade alternativa e selvagem. Ela mata o predador, dispensa o galã de cinema (Clark Gable amarrado e comido por formigas é de uma ironia deliciosa) e se autoproclama livre. Tudo isso enquanto, no mundo real, ela está preocupada em não "ferir" o marido. Isso, meus caros, é o subtexto em sua forma mais potente. É a "verdade" da personagem, que vive trancada no porão de sua consciência. Como Aplicar o Truque da "Narradora Contraditória" Querem dar essa profundidade aos seus personagens? Então aqui vai o desafio da semana: Crie a Contradição:  Pense em um personagem que está preso a uma crença limitante sobre si mesmo ("Eu sou feliz assim", "Eu não mereço mais", "Eu preciso dessa pessoa para viver"). Mostre as Fissuras:  Não diga que ele está mentindo para si mesmo. Mostre . Descreva seus rituais diários com um toque de melancolia. Dê a ele tiques nervosos, sonhos estranhos, um hobby secreto que contradiz sua persona pública. Use a Fantasia:  Deixe a mente do seu personagem escapar. Assim como a nossa narradora foge para uma África imaginária, para onde o seu personagem iria? O que ele faria se ninguém estivesse olhando e se as regras sociais não se aplicassem? O que o personagem não diz  é, muitas vezes, mais importante do que ele diz. É nesse silêncio ruidoso que a boa literatura acontece. Agora vão lá e escrevam umas belas e complexas mentiras. Até a próxima, Ana Amélia.

  • Ôsse é Obsesivo pela Grámatica? Erre Erre e Seja Criativo!

    A Subversão Gramatical como Ferramenta de Criação na Literatura Na literatura, a gramática, muitas vezes vista como um conjunto rígido de regras, pode ser deliberadamente subvertida para se tornar uma poderosa ferramenta de criatividade, construção de estilo e expressão . Autores como James Joyce, Dalton Trevisan e João Guimarães Rosa são mestres nessa arte, desafiando convenções não por desconhecimento, mas por um profundo domínio da linguagem e um desejo de ir além do comum. Eles "erram" propositalmente para criar um impacto específico, seja ele um ritmo único, uma atmosfera particular ou uma voz autêntica. James Joyce e o Fluxo de Consciência Um dos maiores expoentes dessa subversão é James Joyce . Em sua obra-prima, Ulisses , ele emprega o fluxo de consciência , técnica que busca reproduzir o processo de pensamento humano, muitas vezes caótico e não-linear. Isso resulta em frases longas, ausência de pontuação tradicional, neologismos e uma sintaxe que desafia as normas gramaticais. O objetivo é imergir o leitor na mente do personagem, como neste trecho: "Sim, disse sim, eu direi sim" (Ulysses) Embora pareça simples, a repetição e a falta de pontuação aqui quebram a fluidez esperada, criando um efeito quase hipnótico que mimetiza a reflexão interna da personagem Molly Bloom. 👉👉 Saiba mais Dalton Trevisan e a Lacuna como Expressão Dalton Trevisan , o " Vampiro de Curitiba ", é outro autor que utiliza a quebra gramatical para construir sua narrativa concisa e impactante. Em seus contos curtos, ele frequentemente omite verbos, preposições e artigos, criando um estilo telegráfico que potencializa a densidade do texto e a atmosfera de estranhamento e melancolia. A ausência se torna uma forma de presença, sugerindo mais do que explicitando. Veja este fragmento: "Noiva. Pobre coitada. Aquele vestido. Aquele véu. Manchas. Barata na toalha." (Novelas Nada Exemplares) Aqui, a falta de conectivos gramaticais acelera a leitura e enfatiza os substantivos, criando uma sensação de observação crua e fragmentada da realidade. A lacuna convida o leitor a preencher os espaços, tornando-o participante ativo na construção do sentido. João Guimarães Rosa e a Reinvenção da Linguagem No Brasil, João Guimarães Rosa  talvez seja o maior exemplo de como a transgressão gramatical pode culminar em uma riqueza linguística ímpar. Em Grande Sertão: Veredas , ele forja uma linguagem própria, cheia de neologismos, arcaísmos, inversões sintáticas e uma prosódia que ecoa o falar sertanejo. A gramática tradicional é constantemente flexionada para expressar a complexidade do mundo e dos personagens. Observe este trecho: "Nonada. Tiros que o senhor ouviu, vieram de algum lugar." (Grande Sertão: Veredas) A palavra "Nonada" é um neologismo que mistura "não" e "nada", criando um termo com múltiplas camadas de sentido. A inversão "Tiros que o senhor ouviu, vieram de algum lugar" em vez de "Os tiros que o senhor ouviu vieram de algum lugar" reflete a oralidade e a construção peculiar da frase na fala popular, transportando o leitor para dentro do universo do sertão. Rosa não "errou" a gramática; ele a expandiu , demonstrando que a língua é um organismo vivo e mutável. 👉👉 Conto de Guimarães Rosa*** Outros Subversivos da Gramática A lista de autores que desafiam as regras gramaticais em busca de expressão é vasta. Alguns outros exemplos notáveis incluem: Clarice Lispector :  Sua prosa é marcada por frases fragmentadas, repetições e uma sintaxe que por vezes parece "desencaixada", buscando expressar o indizível e as profundezas da alma humana. E.E. cummings:  O poeta americano é famoso por sua experimentação com a pontuação, o uso de minúsculas e a quebra da estrutura tradicional dos poemas para criar um impacto visual e sonoro único. William Faulkner:  Em seus romances, Faulkner emprega longas sentenças complexas, múltiplas vozes narrativas e uma pontuação não convencional para refletir a psique dos personagens e a fluidez do tempo. A Subversão como Estilo e Expressão Em suma, a subversão gramatical na literatura não é um descuido, mas uma escolha consciente e deliberada . Ela serve a múltiplos propósitos: Criação de Ritmo e Musicalidade:  A quebra de padrões pode gerar um ritmo próprio, uma cadência que imita o fluxo do pensamento ou a melodia da fala. Ênfase e Impacto:  A alteração da ordem das palavras ou a omissão de elementos pode chamar a atenção para certos termos ou ideias. Reprodução da Oralidade:  Muitos autores utilizam a "gramática popular" para dar autenticidade às vozes de seus personagens e regionalizar a narrativa. Construção de uma Voz Narrativa Única:  A maneira como um autor manipula a linguagem se torna parte intrínseca de seu estilo, tornando-o reconhecível. Exploração de Novas Formas de Pensamento:  Ao quebrar as estruturas convencionais, a linguagem se liberta para explorar o inconsciente, o ilógico e o subjetivo. Esses autores nos mostram que a gramática não é uma jaula, mas um ponto de partida. Ao dominá-la e, em seguida, transgredi-la intencionalmente, eles expandem os limites da linguagem, criando obras que ressoam com originalidade e profundidade, redefinindo o que é possível dentro do universo literário. Outros Mestres da Subversão Gramatical na Literatura A riqueza da literatura reside, em parte, na ousadia de seus criadores em moldar a linguagem para além das convenções. Além de Joyce, Trevisan e Guimarães Rosa, muitos outros autores, tanto brasileiros quanto estrangeiros, exploraram a quebra gramatical como uma forma potente de expressão, estilo e criatividade. Vejamos alguns exemplos com trechos ilustrativos: Clarice Lispector e a Sintaxe da Alma Clarice Lispector é uma das maiores vozes da literatura brasileira, conhecida por sua prosa introspectiva e experimental. Ela frequentemente desviava da sintaxe convencional, usando frases fragmentadas, repetições e uma pontuação que parecia seguir um fluxo de consciência interno, buscando expressar o indizível, os paradoxos da existência e as profundezas da alma humana. Sua escrita muitas vezes se assemelha a um monólogo interior, com pausas e retomadas que mimetizam o processo do pensamento. "Entender é o subentendido. Eu estava em frente do mar. O mar era grande. E azul. E o vento vinha do mar. Eu estava sozinha. E feliz. Sim, feliz. E eu não entendia." (A Paixão Segundo G.H.) Neste trecho, a repetição de "E" e a ausência de conectivos mais elaborados criam uma sensação de observação crua e de uma mente processando o ambiente de forma quase tátil, sem a lógica linear da gramática normativa. É uma sintaxe da emoção , que prioriza a sensação sobre a explicação. William Faulkner e o Fluxo Ininterrupto O romancista americano William Faulkner, vencedor do Prêmio Nobel, é célebre por suas longas sentenças, com múltiplos encaixes e uma pontuação que desafia o leitor a acompanhar o fluxo de pensamentos de seus personagens. Sua técnica de fluxo de consciência, muitas vezes sem quebras de parágrafos óbvias ou pontuações que indicam diálogos, busca imergir o leitor na mente complexa e, por vezes, conturbada dos habitantes de seu fictício Condado de Yoknapatawpha. "Então ele se sentou na cama na escuridão e ouviu o relógio da prefeitura badalar doze vezes e o sino da capela da universidade badalar doze vezes e o relógio da torre da corte badalar doze vezes e o relógio do banco badalar doze vezes e o relógio da prisão badalar doze vezes e um relógio em algum lugar na cidade badalar doze vezes e então ele esperou." (O Som e a Fúria) A repetição exaustiva da palavra "badalar" e a ausência de pausas mais significativas (como pontos finais) constroem uma atmosfera opressiva de tempo que se arrasta, ao mesmo tempo em que mimetizam a obsessão ou a fixação mental do personagem. É uma acumulação rítmica  que transcende a regra para criar imersão. E.E. cummings e a Poesia Visual No campo da poesia, o americano e.e. cummings é um mestre da subversão gramatical e da experimentação tipográfica. Ele frequentemente ignorava as regras de capitalização, pontuação e espaçamento, utilizando a forma visual do poema para complementar seu significado. Seus "erros" são, na verdade, um convite à leitura não linear, um jogo com a percepção do leitor. "l(ale af fa ll s) one l iness" (L(a) Neste famoso poema, a desagregação da palavra "loneliness" (solidão) e a forma como "a leaf falls" (uma folha cai) é inserida no centro, visualmente representa a solidão de uma única folha caindo. A quebra das palavras, a falta de capitalização e a disposição no espaço não são aleatórias; são elementos gráficos que compõem o sentido , rompendo com a gramática tradicional para explorar novas dimensões da linguagem. Murilo Rubião e a Pontuação do Estranho Murilo Rubião, um dos grandes nomes do conto fantástico brasileiro, utiliza uma linguagem aparentemente simples, mas que esconde sutis desvios gramaticais e de pontuação para construir um universo de estranhamento e absurdo. Suas escolhas sintáticas, por vezes, criam uma atmosfera de sonho ou pesadelo, onde a lógica cotidiana é subvertida. "O homem era uma barata. Mas uma barata com gravata. E chapéu. De feltro." (O Ex-Mágico da Taberna Minhota) A simplicidade quase infantil da construção, a pontuação que quebra a frase em pequenos fragmentos e a justaposição de elementos díspares criam um efeito de irrealidade. A gramática "correta" seria mais fluida, mas a escolha de Rubião, com seus pontos finais abruptos, enfatiza a estranheza da imagem, tornando a irrealidade palpável . Raymond Queneau e a Elasticidade da Narrativa O escritor francês Raymond Queneau, membro do grupo Oulipo (Oficina de Literatura Potencial), era um grande experimentador da linguagem. Em sua obra Exercícios de Estilo , ele narra a mesma história de 99 maneiras diferentes, utilizando diversas restrições formais, incluindo manipulações gramaticais e sintáticas. Ele demonstra como a forma, inclusive a gramática, pode transformar completamente a percepção de um evento. "No S, ao meio-dia, em C, um J viu um H com um comprido P, discutir com um outro H, o qual tinha uma B." (Exercícios de Estilo - Estilo "Notarial") Aqui, Queneau reduz a narrativa a iniciais, um extremo da abreviação gramatical. Embora seja um exemplo mais radical e lúdico, ele ilustra como a manipulação da estrutura linguística  — incluindo a omissão e a simplificação de elementos gramaticais — pode gerar novos significados e efeitos, desafiando a expectativa do leitor sobre como uma história deve ser contada. A Gramática como Campo de Jogo Esses exemplos reforçam a ideia de que a gramática, nas mãos de autores talentosos, deixa de ser uma mera ferramenta de correção para se tornar um campo de jogo. As "transgressões" não são falhas, mas decisões artísticas  que visam ampliar as possibilidades expressivas da linguagem, criar mundos internos e externos mais autênticos, e provocar o leitor a uma experiência literária mais profunda e envolvente. Ao "errar" intencionalmente, esses autores nos ensinam que a verdadeira maestria da linguagem não está em seguir cegamente as regras, mas em saber quando e como quebrá-las para alcançar um propósito maior: a arte.

  • Ulisses de James Joyce: O Fluxo de Consciência e Seus Segredos Literários

    Técnica do Fluxo de Consciência Fluxo de consciência é um recurso narrativo que tenta dar o equivalente escrito aos processos de pensamento de um personagem, seja num monólogo interior livre (veja abaixo), seja em conexão com suas ações. A é uma forma especial de monólogo interior caracterizada: Por saltos associativos de pensamento. Não há uma lógica sequencial explícita. A personagem (Molly Bloom, neste caso, do final de Ulisses ) salta de um pensamento sobre a China, para freiras, para o despertador, para a tentativa de dormir, para flores, para papel de parede, para um avental, para a lâmpada. Busca simular o processo de pensamento humano, que é desorganizado, fragmentado, com saltos entre assuntos, associações livres e interrupções. Pela falta de parte ou de toda a pontuação. As ideias fluem de uma para a outra sem transições claras. O Fluxo de consciência e monólogo interior se distinguem do monólogo dramático e do solilóquio, nos quais o falante dirige-se a uma audiência ou a um terceiro — formatos usados sobretudo em poesia ou teatro. No Um uso inicial do termo encontra-se em The Principles of Psychology (1890), do filósofo e psicólogo William James: “Consciência, pois, não se nos apresenta fragmentada em pedaços […] nada está unido; ela flui. ‘Rio’ ou ‘fluxo’ são as metáforas com que ela se descreve mais naturalmente. Ao falar dela a partir de agora, vamos chamá-la de fluxo de pensamento, consciência ou vida subjetiva.” 👉👉 Conheça mais sobre Wiliam James O fluxo de Consciência em Ulisses de James Joyce No exemplo a seguir, extraído de Ulysses de James Joyce, Molly busca o sono: um quarto de hora que não é desse mundo suponho que eles estão acabando de se levantar na China penteando seus rabos-de-cavalos para o dia daqui a pouco vamos ter as freiras soando o ângelo elas não têm ninguém que venha perturbar seu sono exceto um velho padre ou dois para seu ofício da noite ou o despertador do vizinho de romper os tímpanos ao primeiro cocoricó de um galo vamos ver se eu posso tirar um cochilo 1 2 3 4 5 que espécie de flores são aquelas que eles inventaram como as estrelas o papel de parede de Lombard Street era muito mais bonito o avental que ele me deu era assim uma coisa que eu só usei duas vezes é melhor abaixar esta lâmpada e tentar novamente de modo que eu possa me levantar cedo James Joyce 👉👉 saiba mais sobre Joyce a quarter after what an unearthly hour i suppose theyre just getting up in china now combing out their pigtails for the day well soon have the nuns ringing the angelus theyve nobody coming in to spoil their sleep except an odd priest or two for his night office the alarmlock next door at cockshout clattering the brains out of itself let me see if i can doze off 1 2 3 4 5 what kind of flowers are those they invented like the stars the wallpaper in lombard street was much nicer the apron he gave me was like that something only i only wore it twice better lower this lamp and try again so that i can get up early Os Neologismos " Cockshout": "Cockshout" é o caso mais interessante. Ela não é uma palavra reconhecida no inglês padrão. Joyce frequentemente combinava palavras ou criava novas para expressar conceitos muito específicos ou para evocar sensações de forma não convencional. No contexto de "the alarmlock next door at cockshout clattering the brains out of itself", "cockshout" parece ser uma onomatopeia  (imitação de som) ou uma combinação que sugere um som alto e repentino, como o canto de um galo ("cock") combinado com um grito ou barulho súbito ("shout") . Ele está descrevendo o som do despertador vizinho. A estranheza da palavra realça a irritação e a intrusão do som.

  • "3 Histórias" de J. Cheever

    Três histórias    I O assunto de hoje é a metafísica da obesidade e eu sou a barriga de um homem chamado Lawrence Farnsworth. Sou a cavidade de seu corpo situada entre o diafragma e a pélvis e contenho suas vísceras. Sei que você não vai acreditar em mim, mas, se pode aceitar um cri de coeur, por que não um cri de ventre? Tenho um papel tão grande na vida dele quanto qualquer outro órgão vital ou faculdade do intelecto e, apesar de eu não poder agir com independência, ele também vive, em seu ambiente, à mercê de forças tão díspares quanto o dinheiro ou a luz das estrelas. Nascemos no Meio-Oeste e ele foi educado em Chicago. Participou da equipe de atletismo (salto com vara) e depois da equipe de salto ornamental, dois esportes que tornaram minha existência arriscada e obscura. Não me descobri até que ele completasse os quarenta anos, quando minha presença foi apontada pelo médico e pelo alfaiate. Ele teimou em reconhecer meus direitos e por quase um ano continuou a usar roupas que me apertavam com força, causando-me muitas dores e desconforto. Minha única compensação é que eu podia abrir o fecho das calças dele quando bem entendesse. Ouvi-o dizer muitas vezes que, depois de ter passado a primeira metade da vida correndo atrás de um mastro desgovernado, estava condenado agora a passar o resto da vida seguindo uma barriga tão independente e caprichosa quanto seus genitais. Estive, é claro, em posição de observar sua prática dos esportes carnais, mas acho que me privarei de descrever os milhares — ou milhões — de performances das quais participei. Apesar de ter uma reputação ligada a coisas nojentas, sou uma verdadeira visionária e gostaria de olhar além da ginástica envolvida e analisar suas consequências, que, pelo que ouço dizer, costumam ser arrebatadoras. Para ele, ao que parece, a vida erótica é um passaporte de entrada para o que há de verdadeiramente belo no mundo. Trepar no meio de uma tempestade — qualquer chuvinha serve — é a sua ideia de um relacionamento completo. Há registros de reclamações. Ouvi uma mulher dizer certa vez: “Será que um dia você vai entender que a vida é mais do que sexo e conexão com a natureza?”. Uma ocasião, quando ele teceu loas à beleza das estrelas, sua belle amie não conseguiu conter o riso. Meu conhecimento aberto do mundo é dependente da incidência limitada da nudez: quartos, chuveiros, praias, piscinas, rendez-vous e banhos de sol nas Antilhas. Passo o resto da minha vida sendo uma espécie de divisória entre as calças e a camisa dele. Depois de ter se recusado a admitir minha existência por um ano ou mais, ele finalmente subiu o número das calças de 30 para 34. Quando alcancei trinta e quatro polegadas e estava me esforçando para chegar a trinta e seis, sua postura em relação à minha existência se tornou obsessiva. O contraste entre o que ele tinha sido, o que pretendia ser e o que havia se tornado começou a ficar sério. Quando as pessoas me cutucavam com o dedo e faziam piadas sobre a sua Janela de Sacada, seu riso forçado não era incapaz de encobrir a raiva que ele sentia. Parou de julgar os amigos pela esperteza ou inteligência e começou a julgá-los pela cintura. Por que X era tão seco, e por que Y, com uma pochete de pelo menos quarenta polegadas, estava satisfeito com aquele estado de coisas? Quando os amigos ficavam em pé, seu olhar se desviava rapidamente do sorriso para a porção intermediária do corpo deles. Fomos certa noite ao Yankee Stadium assistir a uma partida de beisebol. Ele havia começado a curtir o momento, até perceber que o jardineiro direito tinha umas boas trinta e seis polegadas de cintura. Os outros jardineiros e os defensores de base estavam razoavelmente bem, mas o arremessador — um homem mais velho — tinha uma protuberância inegável — e dois dos juízes — quando retiraram suas proteções — estavam em situação revoltante. O mesmo valia para o receptor. Quando ele se deu conta de que não estava mais assistindo a uma partida de beisebol — de que, por causa da minha influência, era incapaz de assistir a uma partida de beisebol —, nós fomos embora. Isso foi no topo da quarta entrada. Um ou dois dias mais tarde, ele deu início ao que seria um ano ou um ano e meio de inferno. Começamos com uma dieta que priorizava água e ovos cozidos. Ele perdeu quatro quilos e meio em uma semana, mas só nos lugares errados, e, apesar de minha existência ter sido posta em risco, sobrevivi. A dieta desencadeou algum distúrbio metabólico que danificou seus dentes, e ele desistiu dela por sugestão do médico e se matriculou numa academia. Três vezes por semana, eu era torturada numa bicicleta ergométrica e numa máquina de remo, e em seguida sovada e espancada ruidosamente e com crueldade pelas mãos de um massagista. Depois ele comprou uma variedade de cintas e cuecões elásticos que tinham como objetivo me disfarçar ou me oprimir, mas, apesar de me causarem dores enormes, eles serviram apenas para desafiar minha invencibilidade. À noite, quando eram removidos, eu me reintegrava espaçosamente no mundo que tanto adoro. Pouco tempo depois, ele comprou um aparelho que garantia minha destruição. Era um calção de plástico dourado que podia ser inflado com uma bomba manual. A acidez das secreções que eu era obrigada a refinar me diziam o quanto aquilo era doloroso e ridículo para ele. Quando o calção estava inflado, ele lia um livro de instruções e realizava alguns exercícios. Essa era a pior dor já infligida a mim e, quando os exercícios acabavam, minhas diversas partes estavam retraídas e empedradas de uma forma tão anormal que nós passávamos a noite sem conseguir dormir. A essa altura eu já tinha identificado dois fatos que garantiam minha sobrevivência. O primeiro era sua ojeriza aos exercícios solitários. Ele gostava bastante de jogos, mas não de ginástica. Toda manhã ia ao banheiro e tocava a ponta dos pés com as mãos dez vezes seguidas. Suas nádegas (é outra história) raspavam na pia e a testa roçava o assento do vaso sanitário. Pelas secreções que chegavam até mim, sei que essa experiência era espiritualmente demolidora. Tempos depois ele foi passar o verão no campo e começou a correr e a levantar pesos. Enquanto levantava pesos, aprendeu a contar em japonês e russo na esperança de conferir uma certa dignidade ao ato, mas não obteve sucesso. Tanto a corrida como o levantamento de pesos lhe causavam intenso constrangimento. O segundo elemento a meu favor era sua convicção de que levávamos uma vida frugal. “Eu realmente levo uma vida muito frugal”, ele costumava dizer. Se fosse verdade, a proeminência não seria uma opção para mim, mas não há, creio eu, nenhum restaurante de primeiro nível na Europa, Ásia, África e nas Ilhas Britânicas ao qual eu não tenha sido levada e posta à prova. Ele diz isso com frequência. Atracando-se com um prato de gafanhotos em Tóquio, ele deu umas batidinhas em mim e disse: “Dê o melhor de si, cara”. Enquanto ele continuar chamando isso de uma vida frugal, meu lugar no mundo está garantido. Quando o deixo na mão, não é por malícia nem por intenção minha. Depois de um jantar homérico com catorze pratos principais no sul da Rússia, passamos a noite juntos no banheiro. Foi em Tbilisi. Aparentemente, eu estava ameaçando a vida dele. Eram três da manhã. Ele chorava de dor. As lágrimas caíam, e creio que eu, de todas as partes do seu corpo, sou a que conhece melhor a verdadeira solidão desse homem. “Vá embora”, ele gritava para mim, “vá embora.” O que poderia ser mais lamentável e absurdo do que um homem nu mandando embora os órgãos vitais num país estranho a altas horas da madrugada? Fomos até a janela escutar o vento nas árvores. “Oh, eu devia ter prestado mais atenção nas coisas do espírito”, ele gritou. Se eu fosse a barriga de um agente secreto ou de um príncipe governante, meu papel no conflito do tempo não teria sido diferente. Represento o tempo de forma mais acabada do que um espantalho com uma foice. Por que uma força tão banal como o tempo — marcada com precisão pelos relógios da casa — era capaz de arrancar dele gemidos e palavrões? Será que ele achava que a juventude fugidia era o seu principal ou único atrativo? Sei que eu o fazia lembrar do relacionamento sofrido que teve com o pai. Seu pai se aposentou aos cinquenta e cinco anos e passou o resto da vida polindo pedras, cuidando do jardim e tentando aprender francês instrumental com o auxílio de fitas. Tinha sido um homem flexível e atlético, mas, assim como o filho, foi surpreendido no meio do caminho por um abdômen independente. Parecia, como o filho, não ter a capacidade de envelhecer e engordar com elegância. Sua pança, seu abdômen, estraçalhava o seu espírito. O abdômen o forçou a se curvar, a andar torto, a suspirar e a usar calças de número maior. O abdômen era como um precursor do Anjo da Morte, e talvez Farnsworth estivesse brigando com o mesmo anjo ao tocar a ponta dos pés no banheiro todas as manhãs. Chegou então o ano das viagens. Não sei o que o motivou, mas demos a volta ao mundo três vezes em doze meses. Talvez ele tenha pensado que as viagens iam acelerar o metabolismo e diminuir minha importância. Não perderei tempo com as dificuldades envolvendo cintos de segurança e uma rotina alimentar caótica. Fomos a todos os lugares de sempre, e também a Nairóbi, Madagascar, Ilhas Maurício, Bali, Nova Guiné, Nova Caledônia e Nova Zelândia. Visitamos Madang, Goroka, Lee, Rabaul, Fiji, Reykjavik, Thingvellir, Akureyri, Narsarsuaq, Kagsiarauk, Bukhara, Irkutsk, Ulan Bator e o deserto de Gobi. Depois vieram as Ilhas Galápagos, a Patagônia, a selva de Mato Grosso e, é claro, as Ilhas Seychelles e as Ilhas Amirante. Tudo terminou ou se decidiu certa noite no Passetto’s. Ele iniciou a refeição com peixe e presunto de Parma acompanhados de dois pãezinhos com manteiga. Depois comeu espaguete à carbonara, um filé com fritas, uma porção de pernas de rã, um robalo inteiro assado no papel, alguns peitos de frango, uma salada com molho de azeite, três tipos de queijo e um zabaione bem servido. No meio da refeição, precisou me fornecer um pouco mais de espaço, mas não houve rancor e pressenti que a vitória estava próxima. Quando ele pediu o zabaione, eu soube que tinha vencido, ou que havíamos chegado a uma trégua amistosa. Ele já não estava tentando me esconder, me repudiar ou me esquecer, e suas secreções tinham se suavizado. Teve que me conceder mais duas polegadas de espaço depois de levantar da mesa, e agora, caminhando pela piazza, eu conseguia sentir a brisa noturna e escutar as fontes, e vivemos felizes juntos desde então.     II   Marge Littleton, nos idos tempos do jargão freudiano, teria sido taxada de maternal, embora ela não fosse mais maternal do que eu ou você. O que estava por trás disso era a suavidade encantadora da sua voz e de seus gestos e sua fragrância de verão, ou talvez seja o cheiro do verão que lembre o de uma mulher como ela, não o contrário. Ela ia à igreja regularmente e sempre senti que sua devoção era mais profunda que a da maioria, embora seja impossível especular sobre uma coisa tão íntima. Adepta da liturgia, conformava-se com o Livro da Oração Comum e sempre que possível evitava os sermões. Não era nativa, é claro — o último nativo morreu junto com a última vaca vinte anos atrás —, e não me lembro de onde surgiram ela nem o marido. Ele era careca. Tinham três filhos e levavam uma vida rigorosamente convencional até uma certa manhã de outono. Foi depois do Dia do Trabalho, ventava um pouco. Dava para ver as folhas caindo do outro lado das janelas. A família tomou o café da manhã na cozinha. Marge tinha assado um pão de milho. “Bom dia, sra. Littleton”, disse o marido, dando um beijo na sua testa e uma palmadinha em seu traseiro. A voz e o gesto dele pareciam conter o equilíbrio perfeito do amor. Não sei o que um crítico virulento da família diria dessa cena. Será que os Littleton, ao moldar suas paixões de acordo com uma imagem social aceitável, estavam construindo uma espécie de prisão para si mesmos, ou será que tiveram a sorte de ser um homem e uma mulher que nutriam um pelo outro um afeto sensível, robusto e invencível? Até onde sei, era um casamento excepcional. Como eu mesmo nunca fui casado, posso estar sendo indevidamente suscetível ao componente de bufonaria presente no matrimônio sagrado, mas não é verdade que, ao comemorar o décimo ou décimo quinto aniversário de casamento, um casal parece tudo, menos triunfante? Na verdade, é como se eles tivessem sido enganados, enquanto o sacana do tio Harry, o devasso, é quem recebe todos os louros. Mas, no caso dos Littleton, tinha-se a impressão de que eles poderiam seguir vivendo juntos com entusiasmo e inteligência — dando e recebendo até que a morte os separasse. Naquela manhã de sábado em particular, o plano dele era ir às compras. Depois do café da manhã, fez uma lista do que necessitavam da loja de ferragens. Uma lata de tinta acrílica branca, um pincel de quatro polegadas, ganchos para pendurar quadros, um rastelo e óleo para o cortador de grama. As crianças foram junto com ele. Não foram ao vilarejo, que estava definhando como todos os outros, e sim ao centro de compras lotado e um tanto festivo que ficava na rota 64. Deu dinheiro aos filhos para que comprassem uma Coca. Na volta, o tráfego no sentido sul estava pesado. Como eu disse, isso foi logo após o Dia do Trabalho e muitos carros estavam rebocando casas portáteis, reboques, barcos à vela, lanchas e trailers. Essa longa procissão de veículos e reboques domésticos não lembrava o espetáculo de um povo retornando de férias, e sim algo como a evacuação trágica de uma grande cidade ou de um estado. Uma cegonha tentou ultrapassar um motor home mais largo que o usual, bateu de frente no carro dos Littleton e os matou. Não fui ao enterro, mas um de nossos vizinhos o descreveu para mim. “Ela ficou ali parada na beira da cova. Não chorou. Estava muito bonita e serena. Precisou ver quatro caixões descendo no buraco, um após o outro. Quatro.” Ela não foi embora. As pessoas a convidavam para jantar, é claro, mas numa comunidade tão doméstica é inevitável que os solteiros acabem sendo deixados de lado. Cerca de um mês após o acidente, o jornal local anunciou que a Comissão de Estradas Estaduais duplicaria as pistas da rota 64, de quatro para oito. Organizamos um comitê pela preservação da comunidade e coletamos dez mil dólares para as despesas legais. Marge Littleton participou bastante. Nós nos reuníamos quase toda semana. Os encontros aconteciam em casas paroquiais, tribunais, colégios e lares. No começo, esses encontros foram muito emotivos. A sra. Pinkham chorou num deles. Lavou-se em lágrimas. “Levei dezesseis anos para construir meu quarto pink e agora querem derrubá-lo.” Foi levada embora da reunião, uma mulher realmente devastada. Fretamos um ônibus e fomos à capital. Marchamos pela 64 num domingo chuvoso, com motos fazendo a escolta. Acho que éramos menos de trinta e acabamos nos dispersando. Carregamos placas de protesto. Lembro de Marge. Algumas pessoas nascem com um dom congênito para o protesto e com talento para carregar placas, mas Marge não era dessas. Ela carregou uma placa enorme que dizia: ABAIXO A ROTA DA GASOLINA. Parecia muito constrangida. Quando a marcha se desfez, me despedi dela no morrinho que fica ao lado da estrada. Lembro de seu olhar inabalável, fixo no tráfego, talvez comparável ao de uma viúva de Nantucket contemplando o mar. Quando já tínhamos gastado nossos dez mil dólares sem resultado, nossas reuniões passaram a ser cada vez menos frequentes e pouco prestigiadas. Só três pessoas apareceram na última, incluindo o orador. A estrada foi duplicada, o que levou à demolição de seis casas e tornou outras duas inabitáveis, apesar de os proprietários não terem recebido indenizações. Vários poços foram destruídos pelas detonações. Depois que o comitê se desmanchou, Marge quase desapareceu. Alguém me disse que ela viajara para o exterior. Quando voltou, veio acompanhada de um simpático jovem romano chamado Pietro Montani. Tinham se casado. Marge exibiu seu talento para a felicidade conjugal com Pietro, embora ele fosse bem diferente do primeiro marido. Era bonito, espirituoso e bem de vida — representava uma empresa fabricante de palmilhas —, mas falava o pior inglês que eu já tinha escutado. Era possível falar com ele, beber com ele e rir com ele, mas ao mesmo tempo era quase impossível se comunicar com ele. No fundo isso não importava. Ela parecia muito feliz e era agradável visitá-los em casa. Estavam casados fazia menos de dois meses quando Pietro, ao dirigir seu conversível pela 64, foi decapitado por um guindaste. Ela enterrou Pietro junto com os outros, mas permaneceu em sua casa na Twin-Rock Road, de onde se podiam ouvir os ruídos de guerra do tráfego industrial. Acho que arranjou um emprego. Era vista nos trens. Três semanas após a morte de Pietro, uma jamanta de vinte e quatro rodas e oitenta toneladas, seguindo no sentido norte pela rota 64 por razões nunca averiguadas, invadiu a pista contrária e arrebentou dois carros, matando seus quatro passageiros. Depois o caminhão se chocou contra uma barreira de granito, tombou de lado e pegou fogo. A polícia e o corpo de bombeiros chegaram imediatamente ao local, mas a carga era inflamável e o incêndio só foi controlado às três da manhã. Todo o tráfego da rota 64 foi desviado. O efetivo feminino dos bombeiros ficou servindo café. Duas semanas depois, às oito horas da noite, outra jamanta de vinte e quatro rodas com uma carga de blocos de cimento perdeu o controle no mesmo local, invadiu a pista de sentido sul e derrubou quatro árvores altas antes de colidir com a barreira. O impacto da batida foi tão forte que meio metro de granito foi arrancado do muro. Não houve incêndio, mas os dois motoristas foram esmagados de tal forma pela colisão que precisaram ser identificados pela arcada dentária. No dia 3 de novembro, às oito e meia da noite, o tenente Dominic DeSisto relatou que um homem vestindo uniforme de trabalho invadiu o escritório principal da delegacia. Parecia histérico, drogado ou bêbado e alegava ter sido baleado. Estava tão incoerente, de acordo com o tenente DeSisto, que levou um bom tempo até conseguir explicar o que tinha acontecido. Estava dirigindo no sentido norte pela 64, mais ou menos na mesma altura em que os outros caminhões haviam perdido o controle, quando um projétil de rifle atravessou a janela esquerda da cabine, errou o motorista e saiu pela janela direita. A vítima potencial era Joe Langston, de Baldwin, Carolina do Sul. O tenente examinou o caminhão e verificou as janelas quebradas. Ele e Langston foram numa viatura até o local de onde viera o disparo. No lado direito da estrada, havia um pequeno morro de granito com alguns trechos de solo. Durante a duplicação da estrada, o morro fora dinamitado ao meio e o morrinho à direita correspondia à barreira que tinha matado os demais motoristas. DeSisto examinou a encosta. A grama no morro estava amassada e havia duas bitucas de cigarro no chão. Langston foi levado ao hospital em estado de choque. A colina foi mantida sob vigilância durante um mês, mas faltava efetivo à polícia e era uma chatice ficar sentado sozinho na encosta desde o entardecer até a meia-noite. Assim que a vigilância foi retirada, um quarto caminhão perdeu o controle. Dessa vez o caminhão se desviou para a direita, derrubou uma dúzia de árvores e caiu num vale estreito e íngreme. Quando a polícia chegou até o motorista, ele já estava morto. Tinha levado um tiro. Em dezembro, Marge casou com um viúvo rico e se mudou para North Salem, onde há somente uma via de pista única e o som do tráfego é suave como o zunido de um projétil.     III   Instalou-se no assento do corredor — 32 — no 707 com destino a Roma. O avião não chegava a estar lotado e havia um assento vago entre ele e a ocupante do assento da janela. Viu com satisfação que se tratava de uma mulher extremamente bonita — ela não era jovem, mas ele também não. Estava usando perfume, um vestido escuro e joias, e parecia pertencer àquela parte do mundo onde ele se movia com mais naturalidade. “Boa noite”, ele disse, acomodando-se. Ela não respondeu. Soltou um grunhido desencorajador e abriu um livro de bolso diante do rosto. Ele tentou conferir o título, mas ela o cobriu com a mão. Não era a primeira vez que ele encontrava uma mulher tímida num avião — não era comum, mas já acontecera. Imaginava que elas tinham aprendido a cultivar uma cautela compreensível contra bêbados, conquistadores e chatos. Sacou seu exemplar do The Manchester Guardian. Havia notado que os jornais conservadores às vezes inspiravam um pouco de segurança às tímidas. Quando lia os editoriais, a página de esportes e, principalmente, a seção de economia, às vezes uma tímida desconhecida se mostrava disposta a uma conversa. O avião decolou, o aviso de proibido fumar foi desligado e ele pegou uma cigarreira dourada e um isqueiro dourado. Não eram chamativos, mas eram dourados. “Se importa se eu fumar?”, perguntou. “Por que me importaria?”, ela respondeu. Ela não olhou na sua direção. “Algumas pessoas se importam”, ele disse, acendendo o cigarro. Ela era quase tão bonita quanto hostil, mas por que precisava ser tão fria? Ficariam lado a lado durante nove horas e era mais que sensato dispor-se a um mínimo de conversa. Será que ele a fazia lembrar de alguém desagradável, alguém que a magoara? Estava de banho tomado, barbeado, corretamente vestido e acostumado a fazer amizades. Ela podia ser uma mulher infeliz que não aturava o mundo, mas, quando a aeromoça veio oferecer uma bebida, o sorriso que abriu para a jovem desconhecida foi ofuscante e generoso. Isso o animou a tal ponto que ele próprio sorriu, mas, quando ela percebeu que ele tinha se intrometido numa comunicação direcionada a outrem, voltou-se para ele, fez uma cara feia e retornou ao seu livro. A aeromoça trouxe um martíni duplo para ele e um xerez para a sua vizinha. Ocorreu-lhe que a bebida forte poderia agravar ainda mais o desconforto dela, mas era um risco a correr. Ela continuou lendo. Se ao menos pudesse descobrir qual era o título do livro, pensou, conseguiria dar o primeiro passo. Harold Robbins, Dostoiévski, Philip Roth, Emily Dickinson — qualquer coisa ajudaria. “Posso perguntar o que está lendo?”, perguntou educadamente. “Não”, ela disse. Quando a aeromoça trouxe os jantares, ele passou a bandeja dela por cima do assento vazio. Ela não agradeceu. Ele se acomodou para comer, para se alimentar, para desfrutar esse hábito simples. A comida estava atipicamente ruim e ele enunciou essa opinião. “Não se pode exigir demais nessas circunstâncias”, ela disse. Ele pensou ter ouvido um traço de cordialidade na sua voz. “Talvez o sal ajude”, ela disse, “mas não me deram sal nenhum. Se incomoda de me dar o seu?” “Oh, com certeza”, ele disse. As coisas estavam definitivamente melhorando. Ele abriu o pacotinho de sal e, ao estendê-lo na direção dela, deixou cair um pouco no carpete. “Sinto dizer que a má sorte será toda sua”, ela disse. Não havia humor nenhum no tom da frase. Ela salgou o pedaço de carne e comeu tudo que veio na bandeja. Depois continuou lendo o livro com o título escondido. Ele sabia que cedo ou tarde ela precisaria ir ao banheiro, e então ele teria a oportunidade de checar o título do livro, mas, quando chegou a hora, ela levou o livro junto ao toalete. A tela do filme foi baixada. A não ser quando o filme era excepcionalmente interessante, ele nunca alugava o equipamento de áudio. Descobrira que a leitura labial e o jogo de adivinhação acrescentavam uma dimensão ao filme, e de qualquer modo os diálogos costumavam ser ofensivamente banais. Sua vizinha alugou o equipamento e deu sinais de estar se divertindo para valer. Tinha uma risada melodiosa e encantadora e interagia com os atores na tela da mesma maneira que havia interagido com a aeromoça e da mesma maneira que se recusava a interagir com seu companheiro de assento. O sol nasceu quando estavam se aproximando dos Alpes, embora o filme ainda não tivesse acabado. Aqui e ali, o brilho da manhã alpina podia ser visto por entre as fendas da cortina fechada, mas, enquanto eles navegavam no ar sobre o Mont Blanc e o Matterhorn, os personagens na tela continuavam seguindo o roteiro. Houve um desfile, uma perseguição, uma reconciliação e um final. Sua companheira, de novo carregando o livro misterioso, retirou-se mais uma vez para o toalete e voltou com uma espécie de touca de dormir na cabeça e o rosto coberto por uma grossa camada de unguento branco. Arrumou o travesseiro e o cobertor e se preparou para dormir. “Bons sonhos”, ele ousou dizer. Ela suspirou. Nunca dormia em aviões. Foi à cozinha e pediu um uísque. A aeromoça era bonita e conversadora e falou sobre suas origens, sua escala de trabalho, seu noivo e seus problemas com passageiros que tinham medo de voar. Passando dos Alpes, começaram a descer e ele espiou o Mediterrâneo pela janelinha e pediu outro uísque. Avistou Elba, Giglio e os iates na enseada de Porto Ercole, onde era possível enxergar as villas de seus amigos. Lembrava-se da sua chegada a Nantucket, tantos anos antes. As pessoas costumavam se alinhar na amurada e gritar: “Oh, os Perry estão aqui, e os Salton e os Greenough”. Era parte verdadeiro, parte exibição. Quando ele voltou ao seu assento, a companheira tinha removido a touca e o unguento. Na luz matinal, sua beleza era intensa. Ele não conseguia diagnosticar o que tanto o cativava — uma nostalgia, talvez —, mas os traços dela, a alvura da pele, a posição dos olhos, tudo correspondia ao seu ideal de beleza. “Bom dia”, ele disse, “dormiu bem?” Ela fechou a cara, parecendo achar a pergunta impertinente. “E alguém dorme?”, perguntou elevando o tom. Colocou o livro misterioso dentro de uma bolsa com zíper e juntou suas coisas. Quando pousaram em Fiumicino, ele cedeu a passagem e a seguiu pelo corredor. Passou logo atrás dela no guichê de passaporte, na imigração e no posto sanitário e depois a encontrou no lugar onde se pega a bagagem. Mas olha só, olha só. Por que ele aponta a mala dela ao carregador e por que, quando já estão ambos de posse de suas bagagens, ele a segue até o ponto de táxi e pechincha com o motorista o preço da corrida até Roma? Por que ele entra com ela no táxi? Ele é o conquistador obstinado que ela tanto abomina? Não, não. Ele é o marido dela, ela é a sua esposa, a mãe de seus filhos, uma mulher que ele venera com paixão há quase trinta anos.     Trad. Daniel Galera 👉 Compre 28 Contos de John Cheever na Amazon Luz e Sobra na Obra de John Cheever Sua obra mergulha nas profundezas da vida americana de meados do século XX, explorando a aridez espiritual e, paradoxalmente, a possibilidade de transcendência em uma sociedade marcada pela alienação. Os melhores contos de Cheever, enraizados na realidade, funcionam como críticas implacáveis ao vazio existencial de seus personagens, condenados a vidas anódinas. No entanto, em momentos de ruptura lírica do realismo, Cheever abre espaço para epifanias, sugerindo que a existência não se resume apenas a um isolamento sem sentido. O amor, as relações familiares e a natureza, transfigurados pela arte, tornam-se fontes de deslumbramento e significado. Apesar da busca constante pela "luz e brilho" em sua ficção, a publicação póstuma de "Home Before Dark" revelou o lado mais sombrio de Cheever, expondo seu homossexualismo e alcoolismo. Essa revelação causou perplexidade em muitos que admiravam o artista, confrontando a imagem pública com uma personalidade dolorosamente complexa. Contudo, essa exposição apenas ressalta a profundidade e a humanidade crua que permeiam a obra de Cheever, tornando-o um autor ainda mais fascinante e relevante. John Cheever nasceu em 27 de maio de 1912  e faleceu em 18 de junho de 1982 .

  • A Gota (Mia Couto): Um Conto de Pós-Guerra, Ilusão e Sobrevivência

    Após os bombardeamentos a cidade ruiu, pedra sob pedra. O que antes era chão é agora um imenso tapete de cinzas. Por entre ruínas, nem gente, nem bicho, nem planta. Resta um único sinal de vida: dona Teófila e o seu marido, Diamantino. Vivem no que restou da antiga casa, sobrevivem do que sobrou na velha despensa. Todas as manhãs dona Teófila pede ao marido que vá conferir as reservas de comida, as latas de conserva, os sacos de arroz, os garrafões de água. E o marido, que é cego, sorri, complacente, e faz de conta que cumpre com o que lhe foi mandado. Ao fim da tarde, quando o calor amaina, o casal sai dos seus escombros privados e atravessa em silêncio a defunta paisagem. Com passo trémulo, Diamantino empurra a cadeira de rodas, guiado pelas instruções murmuradas com firmeza pela esposa. Protegida por um sombreiro, a velha senhora vai empertigada como se as ruínas fossem o seu reino, a cadeira fosse o seu trono e Diamantino fosse o seu povo. — Devagar, Diamantino — comanda dona Teófila. E acrescenta: — Estás farto de saber que esta poeira é um veneno. O marido não percebe nada do que ela diz, as palavras dela enroscam-se no tecido da máscara que lhe cobre o rosto. A própria voz de Teófila lhe parece estranha, depois de atravessar o pano que ela teima em usar sobre a boca e o nariz. Desde os bombardeamentos que não chove nem sopra a mais ténue brisa. Foi como se as bombas tivessem rasgado e vazado as nuvens. Os sulcos das rodas e as pegadas de Diamantino são o único desenho vivo sobre a perpétua poeira dos escombros. Acontece como na superfície lunar: toda a pegada se torna eterna. O percurso é o mesmo de sempre: dirigem-se às ruínas da casa dos vizinhos, os Pimentas. Ali se senta dona Teófila numa mutilada sombra enquanto vai desatando falas, como se alguém escutasse do outro lado do muro. E vai revelando, num longo rosário, peripécias e segredos do marido. Aos poucos, ali se desfiam lembranças de uma vida conjugal que o próprio Diamantino desconhecia. Até que, cansado de tanto esperar, o homem a faz regressar à realidade. — Ponha na sua cabeça, mulher: não há ninguém do outro lado do muro, está tudo morto, mais do que morto — vai avisando Diamantino. E depois, entediado, ele reclama: — Por que tanto insistes em falar de mim, mulher? — Para que essa maldita Marlu morra de ciúmes — responde dona Teófila. Um sol implacável escoa por entre uma espessa e persistente bruma. Apesar desse céu fechado — de onde para sempre se ausentou o sol e a lua — dona Teófila não abdica do seu guarda-sol. Protege-se, diz ela, da poeira que cai das nuvens. — Os pássaros já começaram a voltar — afirma dona Teófila. — Gostava que os pudesses ver, Diamantino. — A verdade é que não os escuto — avisa o marido. — Mas já andam por aí — insiste dona Teófila. — Não tarda que comecem a cantar. — Onde pousam esses pássaros se as árvores morreram? — Se fosses mulher educada, saberias da existência dos albatrozes. Pousam no próprio voo, morrem sem tocar no chão. Na velha cidade tudo se tornou chão: um chão tão deitado e macio que eles não escutam os próprios passos. E um outro chão vertical, feito desse céu de onde se penduram restos de paredes. Diamantino traz a máscara descaída sobre o queixo. A mulher corrige-lhe esse descuido enquanto adverte: — Esse pano está imundo, da mesma cor deste mundo. Assim que voltarmos a casa vais lavar esse trapo. — Não vou desperdiçar água, os panos que esperem. — Olha, está a passar agora uma garça! — proclama dona Téofila, com entusiasmo. E repete o anúncio da celestial descoberta, sabendo das dificuldades auditivas do marido. — É pena não veres, é tão branca, parece um anjo... — Por que é que mentes, mulher? Os pássaros, a vizinha, a garça. Tudo mentira, tudo pura mentira. — Às vezes, meu velho, mentir é a única maneira que nos resta de rezar. O marido insiste: já não há gente vivendo entre as ruínas. Dona Teófila opõe-se. Há gente, sim. Se o marido fosse mulher e não fosse cego, saberia que os sobreviventes deambulam como sombras por detrás dos escombros. Já não restam portas nem paredes, é verdade. Mas as pessoas têm artes mágicas de se enclausurar. Somos os mais competentes carcereiros de nós mesmos. É o que diz dona Teófila. — Quando falas, mulher — reclama o homem —, espalhas cuspe e levantas poeira e ambos são mortais venenos. — Tem que haver pessoas, Diamantino — insiste a esposa. — Se assim não fosse, já teríamos morrido. É que o ar precisa de gente — prossegue dona Teófila. — Se tivesses estudado, Diamantino, saberias que o ar, para se manter vivo, precisa de ser respirado. As pessoas são o nosso oxigénio. Diamantino levanta os braços da cadeira e limpa o rosto com a própria máscara. As mãos e os gestos parecem desencontrados como acontece com quem nunca viu o seu próprio corpo. — Falas de mim, Diamantino, falas dos meus cuspes e das minhas poeiras e devias ter vergonha na cara — acusa dona Teófila. — Continuas a sonhar com essa maldita Marlu. Eu bem te escuto a murmurar o nome dela. Tens que passar a dormir de máscara, para não me contaminares. — Não entendo nada do que dizes, mulher — comenta Diamantino. — Às vezes me pergunto como é que um cego sonha? — interroga-se dona Teófila. — Desconfio que à noite deixas de ser cego. Diamantino sorri com um riso oblíquo. A mulher fala sozinha. É então que o marido se apercebe de que Teófila se levanta e caminha por si mesma. O cego sabe que o vestido dela é de um vermelho intenso, como sabe que a sua camisa é azul-marinho e imagina que aquelas duas manchas coloridas visitarão os seus sonhos. No início, Diamantino percebe que a esposa vai atravessando a rua. Aos poucos, ele vai deixando de escutar o suave ruído dos passos dela e, de novo, todos os silêncios voltam a tornar-se indistintos. Usando a cadeira de rodas como se fosse uma bengala, Diamantino transpõe a praça até chegar aos destroços da casa da Marlu Pimenta. Deve ser ali que a sua esposa se encontra. O cego vai evoluindo, cauteloso, entre as brumas até que esbarra com um vulto. E logo se apercebe de que ali se aglomeram sombras, imóveis e silenciosas como pedras. Assusta-se, primeiro, o cego Diamantino. Depois escuta uma das sombras que lhe dirige a palavra. — Veio ao funeral, Diamantino? — Funeral? Funeral de quem? — Da Marlu. Morreu esta noite. Diamantino tomba desamparado sobre a cadeira. Leva a mão ao rosto para se certificar de que ainda existe. — Não sei o que dizer — murmura ele. — Sempre pensei que Marlu não tivesse sobrevivido aos bombardeamentos. — O que se passa, Diamantino? — espanta-se um dos vizinhos. — Desde que ficou viúvo, não houve tarde em que o senhor não tivesse levado a passear a nossa querida Marlu. — Ainda ontem saíram os dois, já não se lembra? — pergunta um outro vizinho. Diamantino retira-se, os sapatos raspando as cinzas. Regressa a casa, o universo pesando-lhe nos ombros. Sempre soube vencer o escuro. Mas reconhece que lhe faltou discernimento para admitir que, apesar das cinzas, a cidade se mantinha viva, na companhia dos vivos. Se alguém enviuvara tinha sido apenas ele. Dirige-se ao velho poço e ali se deixa ficar sentado na cadeira de rodas, o braço estendido sobre uma sombra aberta entre um pequeno monte de pedras. Num dado momento, escuta passos de alguém que se aproxima. São passos de mulher, disso ele está certo. E reconhece o silêncio de quem chegou. Depois o cego faz pender mais o braço sobre o chão, aponta para a sombra entre as pedras e pergunta: — Já germinou? — Já despontam duas pequenas folhinhas — responde uma voz toldada pela comoção. Do braço de Diamantino tomba uma gota de suor. E ele jura que é a chuva que regressa. Como jura que um vulto de mulher se vai afastando por entre o nevoeiro. Às vezes, mentir é a melhor forma de rezar. MIA COUTO

  • Uma Análise Filosófica e Psicanalítica das Origens Criativas e da Psique do Artista

    👉👉👉Todos os posts publicados na categoria REPERTÓRIO CULTURAL   diferenciam-se da proposta do Blog da Revisão Dialogal , que visa oferecer soluções para escritores por meio de dicas práticas. Nesta categoria, temas complexos são abordados com maior profundidade , com vistas à construção de um sólido arcabouço cultural para os leitores do Blog da Revisão Dialogal.👈👈👈 ➡️Resumo: ⬅️ A Arte como Deslocamento e Expressão. A arte, em suas múltiplas manifestações, tem sido objeto de profunda investigação filosófica e estética, especialmente no que tange à sua origem e à força motriz que impulsiona o artista. A presente análise explora a tese de que a criação artística emerge de um fundamental "deslocamento em relação ao mundo" e de uma intrínseca "necessidade de expressá-la". Esta dinâmica será examinada através das lentes da teoria psicanalítica, particularmente os conceitos freudianos de Eros (a pulsão de vida, ligada ao princípio do prazer e à expressão da sensibilidade sensível) e Thanatos (a pulsão de morte, cujo controle pode ser mediado pela escrita). Casos de escritores com doenças mentais servirão como exemplos limites, iluminando a complexa relação entre sofrimento psíquico e genialidade criativa. O objetivo é oferecer uma compreensão abrangente das raízes existenciais e psicológicas da arte, abordando as perspectivas filosóficas, estéticas e psicanalíticas que sustentam essa intrincada interconexão. A análise aborda a arte como um fenômeno resultante de um “deslocamento em relação ao mundo” e de uma “necessidade de expressá-lo”, explorando as interconexões entre a criação artística, a psique do artista e a filosofia. A criação artística é vista como um afastamento da realidade convencional, proporcionando um espaço fértil para a inovação e a expressão criativa. I. O Deslocamento em Relação ao Mundo como Gênese Artística A origem da arte pode ser compreendida como um afastamento ou uma reconfiguração da realidade convencional, um "deslocamento" que não é meramente uma fuga, mas um terreno fértil para a inovação criativa. Este processo envolve uma nova forma de percepção e interação com o mundo, que se manifesta em diversas tradições filosóficas e estéticas. 1.1. Perspectivas Filosóficas sobre Estranhamento e Alienação na Criação Na estética contemporânea, o conceito de deslocamento transcende um mero estado psicológico interno, tornando-se uma ferramenta ativa e consciente nas mãos do artista. Este deslocamento implica a construção de um percurso, a adaptação a contextos variados e a incorporação de acidentes e imprevistos como elementos constitutivos do processo criativo. Historicamente, figuras e movimentos como os dadaístas e artistas das décadas de 1960 e 1970, incluindo nomes como Rodin, Giacometti, Joseph Beuys, Bruce Nauman, Richard Long e Pierre Huyghe , adotaram a caminhada e o nomadismo como recursos artísticos. Essa abordagem redefiniu a compreensão do espaço e do movimento na arte, transformando-a de uma representação estática para uma performance ou experiência dinâmica do deslocamento. A paisagem urbana, em particular, emergiu como um cenário predominante para a expressão do deslocamento na arte contemporânea. As "deambulações" dos artistas pelas cidades moldam o próprio espaço urbano em um meio para experiências diversas e a captura de fragmentos da realidade. Nesse contexto, a mobilidade e o movimento são intrinsecamente ligados à criação artística. Um precursor crucial dessas práticas foi a "deriva situacionista", uma metodologia estético-política que consistia em perambular sem rumo predefinido, subvertendo sistemas capitalistas e buscando uma arte não comercializável, ao mesmo tempo que mapeava as características psicogeográficas das cidades. Nicolas Bourriaud, com seu conceito de " forma-trajeto ", sintetiza essa estética contemporânea. As obras de arte que emergem de trajetórias oferecem ao público uma "v isão positiva do caos e da complexidade " e uma " experiência positiva de desorientação ". Isso significa que estados que poderiam ser percebidos como negativos são ressignificados em encontros estéticos valiosos . Essa perspectiva sugere que a arte, ao abraçar e apresentar essas condições, pode transformá-las em algo esteticamente valioso e até mesmo benéfico em um nível psicológico. O ato artístico não se limita a expressar uma condição negativa, mas a transmutá-la ativamente em um novo e perspicaz modo de percepção e compreensão. 👉👉 Em "O Deslocamento na Arte Contemporânea: Uma Jornada Estética e Conceitual" há uma explicação mais detalhada da forma-trajeto 👈👈 A noção de " altermodernidade " expande ainda mais essa compreensão, descrevendo o artista como um " radicante " – alguém que cultiva suas próprias raízes enquanto está em movimento – e um "homem sem aura", livre de uma identidade fixa e sagrada. Este artista navega por culturas globais através de processos de tradução e mobilidade constante. Essa figura representa uma profunda redefinição da posição subjetiva do artista em um mundo cada vez mais fluido e interconectado. Isso implica que a arte, nascida de um estado de deslocamento, pode servir como uma ferramenta crucial para navegar pelas complexidades e incertezas inerentes ao mundo moderno , especialmente em uma era caracterizada por globalização acelerada, saturação digital e identidades fluidas. O artista, ao encarnar e abraçar seu próprio deslocamento, oferece um modelo para uma nova e mais adaptável maneira de habitar e dar sentido a uma realidade em constante mudança, tornando a arte um meio de resiliência cognitiva e emocional. Perspectiva Teórica Conceito de Deslocamento Estranhamento Relação com a Criação Artística Estética Contemporânea (Bourriaud) Ferramenta ativa, nomadismo, deriva, forma-trajeto, altermodernidade. Criação de novos percursos, redefinição do espaço, transformação do caos em experiência positiva. Fenomenologia (Dufrenne, Merleau-Ponty) Abertura a um "outro mundo" sensível, suspensão de interesses práticos. Revelação da subjetividade do criador, expansão da percepção, contato com o inédito. Nietzsche Sofrimento como etapa natural e inevitável, superação do "último homem". Ingrediente fundamental para a criatividade e genialidade, intensificação e afirmação da vida. Schopenhauer Fuga momentânea da Vontade e do sofrimento inerente à existência. Meio de contemplação das Ideias, alento existencial, conhecimento puro e desinteressado. 1.2. A Visão Fenomenológica da Percepção Estética e o "Outro Mundo" do Artista A fenomenologia oferece uma perspectiva aprofundada sobre como a percepção estética se distingue da percepção comum, propondo que a arte emerge de uma sensibilidade que transcende o utilitário e o conceitual. Para Mikel Dufrenne, a percepção estética propicia qualidades que geram novos sentidos e atmosferas, abrindo novas formas de ver, pensar e sentir, indo além do que já está estabelecido. Essa experiência permite a configuração de novas formas de ser e estar no mundo. A percepção estética, na visão de Dufrenne, é composta por três atos interligados: a presença, a representação e o sentimento. A presença  refere-se à captação do objeto pelo corpo no nível do vivido, uma compreensão primitiva e pré-reflexiva onde o sentido é dado imediatamente no sensível. O corpo vivido é capaz de conhecer, e a consciência habita as coisas sem reflexão, experimentando a significação através da convivência com o mundo. Essa "intelecção corporal" é uma "apoteose do sensível" , onde a virtude do objeto estético reside em seu poder de seduzir o corpo e despertar seus desejos. A relação entre autor e espectador se estabelece por uma cumplicidade corporal mediada pela obra, unindo sujeito e objeto. A representação implica a passagem do vivido para o pensado, da presença para a representação. A imaginação atua como o meio para essa transição, permitindo o recuo necessário para a afirmação de uma distância. A imaginação , em seu aspecto transcendental, torna o dado aparente, enquanto em seu aspecto empírico, enriquece-o com seus possíveis. Embora a imaginação possa abrir possíveis, Dufrenne ressalta que, na experiência estética, ela deve ser contida para manter a fidelidade à obra, que já contém um mundo suficiente em si mesma. Finalmente, o sentimento é o ápice da experiência estética, onde o sentido da obra, que era opaco na presença e transcendia a representação, é finalmente acessado. Este sentido deve ser congênito e genuíno à obra. Dufrenne distingue a reflexão que se distancia da obra de uma "reflexão simpática" que adere ao sentido da própria obra, permitindo que ela deposite seu significado de forma espontânea. Essa afinidade entre sujeito e objeto, que se estende à natureza e ao eu, funciona como uma comunhão, sendo a via de acesso ao sentimento. O conhecimento estético, portanto, não é objetivante, mas pressupõe um acordo originário entre homem e mundo. O sentimento, um "novo imediato", edifica-se a partir dos momentos anteriores e exerce uma função noética, sendo uma leitura da expressão. Noético (definição) Noético se refere a algo relacionado à inteligência, ao intelecto ou ao conhecimento puramente racional e intuitivo , em oposição ao conhecimento sensorial ou empírico. É o que pertence à razão, à mente ou à intuição intelectual . Essa experiência implica um deslocamento da realidade comum, pois a percepção estética difere da percepção cotidiana ao não visar ao objeto por sua finalidade prática ou utilitária. Ela convida o sujeito a sentir, não a decifrar, suspendendo interesses práticos ou intelectuais. O único mundo presente para o sujeito é o do objeto estético, imanente à aparência expressiva. A subjetividade do artista se imprime na obra, revelando seu estilo e sua visão singular do mundo. Merleau-Ponty argumenta que a obra não nasce de uma subjetividade isolada, mas do encontro do artista com o mundo, que ele transmuta em um "outro mundo" através de sua arte. O pintor, ao pintar, pratica uma "teoria mágica da visão", onde as coisas parecem olhar para ele. Essa experiência expande o olhar diante da realidade, transcendendo esquemas perceptivos e mobilizando a potência criativa. A arte, ao propor questões e desafiar o espectador a olhar por outros ângulos, fomenta a possibilidade de mudança, abrindo os sujeitos "para aquilo que não somos", colocando-os em contato com a alteridade e o novo, o inédito, o único, que "exige de nós criação para dele termos experiência". 1.3. O Sofrimento e a Angústia como Catalisadores do Deslocamento Criativo (Nietzsche e Schopenhauer) O sofrimento e a angústia são elementos intrínsecos à condição humana que, para alguns filósofos, atuam como poderosos catalisadores para o deslocamento criativo, impulsionando a arte como uma forma de lidar com a existência. Para Friedrich Nietzsche , a relação com o sofrimento é central para a produção artística e a busca pela satisfação humana. Inicialmente influenciado por Schopenhauer, Nietzsche via a vida como sofrimento. Contudo, sua perspectiva evoluiu: ele passou a encarar o sofrimento não como algo a ser evitado, mas como uma etapa natural e inevitável na conquista de um bem e da satisfação. A busca pela felicidade, para Nietzsche, implica a presença de dificuldades constantes, e o reconhecimento do sofrimento como parte do processo é essencial para o estágio do "Além-do-Homem" (Übermensch), que vive a vida com seus desafios. Nietzsche criticava a civilização moderna por tentar livrar a condição humana das adversidades, buscando uma vida sem sofrimento, o que ele considerava irrealizável. Ele via a valorização excessiva da racionalidade e o afastamento do lado "animal" do homem como impedimentos à expressão dos instintos, levando-os a se voltar para a interioridade. O corpo, para Nietzsche, é a "grande razão", a fonte de aprendizado e conhecimento, e ele criticava a moral cristã por "amputar" o corpo de suas possibilidades criadoras. A vida aspira a um sentimento máximo de potência, e o sofrimento, ao invés de ser uma fraqueza, é um ingrediente fundamental para a criatividade e a genialidade. A analogia do prisioneiro que busca a libertação ilustra como as privações podem produzir o gênio. A criação artística, para Nietzsche, exige um imenso sofrimento, mas também promove imensa satisfação, sendo a própria condição para a mudança. A arte trágica, em particular, surge das próprias tragédias, funcionando como intensificadora e afirmadora da vida, tornando os indivíduos mais resistentes à dor e encontrando um sentido existencial mesmo diante dela. A origem da tragédia no coro, elemento essencial na arte grega, demonstrava a capacidade de unir o sujeito com o mundo e proporcionar consolo diante da "terrível ação destrutiva da história universal". Arthur Schopenhauer , por sua vez, concebia a existência humana como intrinsecamente ligada à dor e ao sofrimento, afirmando que "TODA A VIDA É SOFRIMENTO". Diante dessa tragicidade, a arte surge como um "alento existencial" , tornando a existência mais suportável e plena de significado. A arte, em sua visão, facilita a contemplação das Ideias – formas universais e imutáveis da representação – permitindo que o sujeito cognoscente transcenda sua individualidade e seus desejos (a Vontade), alcançando um estado de "puro sujeito do conhecimento". Nesse estado, a consciência é preenchida pela calma contemplação do objeto artístico, e o indivíduo se "perde por completo nesse objeto", esquecendo seu próprio querer e sofrimento. Essa metamorfose do sujeito, que se torna um "claro espelho do objeto", permite um conhecimento puro e desinteressado da essência das coisas. A fruição do belo e o consolo da arte são uma compensação para o sofrimento da existência. A vida, quando intuída puramente como representação ou repetida pela arte, apresenta-se como um "teatro pleno de significado", livre de tormentos. O artista, por sua genialidade, capta e expressa essa essência, proporcionando um estado de sublimidade que faz o espectador esquecer a realidade trágica e encontrar significado. Embora a arte ofereça uma fuga momentânea, Schopenhauer considerava que esse conhecimento não leva à completa resignação da vontade, funcionando apenas como um "calmante momentâneo"; a superação total do sofrimento só é possível através de um ascetismo excepcional. A música, para Schopenhauer, ocupa um lugar de primazia, pois não copia os fenômenos, mas é a "essência íntima, o Em-si de todos eles, a Vontade mesma", comunicando a essência do mundo de forma mais poderosa do que as outras artes. II. A Necessidade de Expressão: Impulsos Internos e a Sublimação 2.1. Eros e Thanatos: Pulsões de Vida e Morte na Dinâmica da Criação Artística Sigmund Freud e a psicanálise estabelecem uma conexão profunda entre as pulsões de vida (Eros) e de morte (Thanatos) e a criação artística, vendo a arte como uma manifestação complexa dessas forças. Freud, em "O mal-estar na civilização", descreve Eros como a pulsão que busca reunir indivíduos em uma grande unidade, a humanidade, através de ligações libidinais. Eros divide o domínio do mundo com Thanatos, e é na tensão entre essas duas pulsões que a espécie humana busca a felicidade. A arte é vista como uma forma de sublimação, um mecanismo pelo qual as pulsões são desviadas de seus objetivos originais (sexuais) e reorientadas para atividades culturalmente valorizadas, como a criação artística. Freud sugere que o prazer derivado do trabalho psíquico e intelectual, como a alegria do artista em criar e dar corpo às suas fantasias, possui uma qualidade especial, estabelecendo uma conexão direta entre a pulsão de vida (Eros) e a criação artística como uma forma de satisfação e alívio do sofrimento. A literatura, em particular, é uma referência fundamental para a psicanálise. Freud prestou tributo a Virgílio e sua "Eneida" ao inaugurar a psicanálise, e personagens literários como Édipo são estruturais para a compreensão da psicologia infantil e a formação de impulsos psíquicos. A arte, ao entrar em contato com os afetos da psique humana, seus paradoxos e inquietudes, estabelece seu vínculo com a psicanálise. Freud confirmou a finalidade do drama de despertar terror e comiseração e produzir uma purgação de afetos (catarse), abrindo fontes de prazer na vida afetiva, onde o desabafo dos afetos do espectador é primordial. A literatura também se conecta com a fantasia psíquica e os desejos recalcados. Freud explica que o impacto duradouro de obras como "Édipo Rei" reside na natureza específica do material que contextualiza o contraste entre destino e vontade humana, referindo-se aos desejos sexuais infantis e ao ódio paterno. A literatura, assim como o sonho, pode expressar uma elaboração secundária de fantasias relacionadas a desejos infantis recalcados, que são satisfeitos ao entrar em contato com o texto poético. A sexualidade, para Freud, não é idêntica à união de dois sexos, mas tem muito mais semelhança com Eros, que "tudo inclui e tudo preserva", contribuindo significativamente para as realizações culturais do indivíduo e da sociedade quando seus componentes são desviados de objetos imediatos. O escritor é comparado a uma criança brincando, criando seu próprio mundo de fantasias a partir de desejos ocultos e vergonhosos, sendo a criação literária uma continuação e substituição das brincadeiras infantis. O texto literário, portanto, carrega uma "marca pulsional", expressando algo que, de outra forma, permaneceria recalcado. Freud considerava os escritores criativos aliados valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois conhecem uma vasta gama de coisas que a filosofia ainda não nos deixou sonhar, nutrindo-se em fontes que ainda não são acessíveis à ciência. A própria concessão do prêmio Goethe a Freud reconheceu o valor de suas obras e os efeitos transformadores da psicanálise, que abriu passagem para as forças pulsionais da alma. Freud sugeriu que Goethe, que sempre teve Eros em alta consideração, não teria repudiado a psicanálise. Finalmente, em "A transitoriedade", Freud aborda a fugacidade da existência, expressando a esperança de que, após o luto pelas perdas, algo novo possa ser criado, reconstruindo o que foi destruído em um solo mais firme e duradouro, evidenciando a relação entre a libido (potencial amoroso de Eros) e a criação. 2.3. A Sublimação Freudiana: Desvio de Pulsões e Seus Limites na Produção Artística A sublimação, na obra freudiana, descreve o processo de desvio das forças pulsionais sexuais para alvos não sexuais, resultando em atividades socialmente valorizadas, como a arte, a ciência e o esporte. Diferente do recalque, que leva à formação de sintomas e neuroses, a sublimação envolve a formação reativa, que molda traços de caráter e pode culminar na disposição artística. Uma pulsão é considerada sublimada quando busca um novo alvo não sexual ou objetos socialmente valorizados, mantendo seu teor sexual, mas modificando sua finalidade do sexual para o social. Freud introduziu o termo Sublimierung  para explicar atividades humanas impulsionadas pela força da pulsão sexual, inicialmente ligando-a à sexualidade como um refinamento e defesa. No Caso Dora (1905), a sublimação já estava associada à contenção de uma exigência erótica, transformando-a em energia para realizações culturais. Nos Três Ensaios sobre a Sexualidade  (1905), a excitação visual podia ser desviada para a arte. Freud também associou a sublimação à pulsão de saber na infância, ligada à pulsão de domínio e à escopofilia. Um impasse inicial era diferenciar a sublimação do recalque, já que ambos envolviam a dessexualização. A solução veio com Leonardo da Vinci  (1910), onde Freud sugeriu que na sublimação não há recalque das pulsões sexuais, mas uma passagem direta para a produção de objetos sublimes, com a libido se ligando à pulsão de investigação e fortalecendo o intelecto. Em Introdução ao Narcisismo  (1915), Freud distinguiu sublimação de idealização: a idealização engrandece o objeto, enquanto a sublimação exige a troca do objeto original, permitindo que as exigências do eu sejam atendidas sem recalque e a pulsão seja realizada em um novo contexto. A partir de Além do Princípio do Prazer  (1920), com a introdução da pulsão de morte (Thanatos), a compreensão da sublimação se aprofundou. A pulsão de morte é vista como insuperável, marcando a subjetividade, e a sublimação, nesse contexto, implica na liberação das pulsões agressivas do supereu, que lutam contra a libido, deixando o eu exposto ao perigo. No Mal-Estar na Civilização  (1930), a sublimação é apresentada como uma reorientação dos objetivos pulsionais que elude a frustração do mundo exterior, trazendo realização através do trabalho psíquico e intelectual. A alegria do artista em criar ou do cientista em solucionar problemas é um exemplo de satisfação que torna o indivíduo independente do mundo externo. Na clínica psicanalítica, a sublimação é percebida sempre que há transformação das pulsões em criações culturais, sendo este o propósito da análise: substituir a pulsão de morte por Eros (pulsão de vida). Freud, em Novas Conferências Introdutórias sobre psicanálise  (1933), usou a metáfora da drenagem do Zuiderzee  para ilustrar a transformação do pulsional em criações culturais, um trabalho que amplia limites e cria algo novo. O sucesso da análise depende da possibilidade de transformar a pulsão de morte em Eros. Lacan, por sua vez, afirma que na sublimação há a elevação do objeto à dignidade da Coisa ( das Ding ), que é o objeto perdido de uma satisfação mítica. A sublimação, sendo um ato em produção, é causa da criação e não se liga ao que já foi criado, trazendo a dimensão do novo e da transformação. Conceito Psicanalítico Descrição Relação com a Criação Artística Eros (Pulsão de Vida) Impulso de união, busca de prazer, ligação libidinal, construção. Impulsiona a criação, a busca de satisfação através da arte, a expressão de fantasias e desejos. A arte como forma de aliviar o sofrimento e construir. Thanatos (Pulsão de Morte) Impulso de destruição, desintegração, busca de retorno a um estado inorgânico. A sublimação pode envolver a liberação de pulsões agressivas; a arte lida com o vazio e a desorganização, unindo-se a Eros na criação. Sublimação Desvio das forças pulsionais (especialmente sexuais) para alvos não sexuais e socialmente valorizados. A arte é uma das principais vias de sublimação, transformando impulsos em criações culturais, fortalecendo o ego e proporcionando satisfação independente do mundo externo. Limites da Sublimação Não protege o artista do sofrimento humano; ela própria pode ser desorganizadora. Artistas precisam manter contato com fontes pulsionais perigosas para criar; a arte não é uma cura para o sofrimento, mas uma forma de expressá-lo e transformá-lo. É crucial notar os limites da sublimação na criação artística. Embora a sexualidade esteja na origem de toda atividade artística, nem toda atividade artística é sublimação; para que seja, a pulsão deve encontrar um novo destino. A arte, ao contrário da religião e da ciência, trabalha com o vazio e se constitui como criação, repetindo o modelo da concepção a partir do nada. O belo, na arte, une e separa as pulsões de vida e morte, revelando o amálgama entre Eros e Thanatos. A sublimação, embora possa canalizar e transformar derivados do campo pulsional, não protege o indivíduo dos perigos internos, pois ela própria é potencialmente desorganizadora. Exemplos de artistas como Amedeo Modigliani, Egon Schiele e Frida Kahlo, que, apesar do êxito criativo, não foram libertados do sofrimento humano pela sublimação, demonstram que o artista, para criar, precisa manter contato com a fonte das pulsões perigosas e destrutivas para o eu. A distância dessas fontes pulsionais é que determinará o equilíbrio psíquico do artista criador. III. A Sensibilidade Sensível e a Busca do Prazer Estético A experiência estética é profundamente enraizada na sensibilidade, permitindo uma interação única com o mundo que culmina na busca e na fruição do prazer estético, muitas vezes mediado por processos de catarse. 3.1. A Percepção Estética e a Experiência do Corpo no Nível do Vivido (Dufrenne) Conforme abordado anteriormente, a fenomenologia de Mikel Dufrenne destaca a percepção estética como uma experiência que transcende a percepção comum. Ela não se limita a decifrar o mundo, mas a senti-lo, abrindo novas formas de ser e estar. Os três atos da percepção estética – presença, representação e sentimento – são cruciais. A presença  é a captação imediata do objeto pelo corpo no nível do vivido, uma "intelecção corporal" que é a "apoteose do sensível". O corpo não é um mero recipiente, mas um sistema de equivalências intersensoriais que unifica a diversidade do sensível, permitindo que o sentido seja dado diretamente na experiência. A virtude do objeto estético é medida pelo seu poder de seduzir o corpo e despertar seus desejos. A representação  é o trânsito do vivido para o pensado, mediado pela imaginação, que permite a distância necessária para a reflexão. A imaginação, em sua função transcendental, torna o dado aparente e, em seu aspecto empírico, enriquece-o com possíveis. Contudo, na experiência estética, a imaginação deve ser contida para preservar a fidelidade à obra, que já contém um mundo suficiente. O sentimento  é o ponto culminante, onde o sentido da obra é finalmente acessado. Não é uma volta pura à presença, mas um "novo imediato" que se edifica a partir dos momentos anteriores, exercendo uma função noética. O sentimento permite uma "reflexão simpática" que adere ao sentido da própria obra, revelando uma afinidade entre sujeito e objeto, e um acordo originário entre homem e mundo. A profundidade do objeto estético, correlativa à existência do observador, exige uma transformação para ser captada, unificando, afetando e abrindo o indivíduo. 3.2. A Catarse na Estética: Purgação de Afetos e a Abertura para o Novo A catarse, conceito originário da tragédia grega, desempenha um papel significativo na estética como um processo de purgação ou esclarecimento de afetos, que se relaciona com a necessidade de expressão e o processamento de tensões internas. Para Aristóteles , a catarse na tragédia, ao despertar temor e compaixão, operava uma "libertação", "serenidade" ou "calma" desses sentimentos, levando a uma forma superior de prazer estético. A música também podia propiciar essa purificação e alívio agradável de emoções. György Lukács expandiu a compreensão da catarse, vendo-a como um princípio elementar de recepção do objeto estético, um reflexo concentrado de comoções com origem na vida real. Para ele, a catarse não se limita aos efeitos da tragédia, mas é um momento constante e significativo da vida social, cujo reflexo é um elemento formador da refiguração estética da realidade. Theodor Adorno oferece uma contribuição multifacetada e crítica à compreensão da catarse, distanciando-se das concepções tradicionais. Em Adorno, a catarse sofre um duplo deslocamento: 1.     Em relação à psicanálise : Adorno critica a redução da obra de arte a meras projeções do inconsciente do artista. Para ele, a arte não é apenas uma sublimação subjetiva, mas atua no desejo de construir um mundo melhor, libertando a dialética total que a concepção puramente subjetiva não consegue apreender. A obra é uma prática objetiva que confronta o "não eu" e a negatividade. 2.     Em relação a Aristóteles : A catarse, para Adorno, deixa de ser uma experiência puramente do fruidor e passa a ser um traço imanente da própria obra de arte. A purificação estética, e não moral, ocorre na obra em si, no momento em que os conteúdos materiais artísticos passam por reconfigurações internas. A perspectiva aristotélica focava apenas no conteúdo e no fruidor, revelando uma faceta ideologicamente repressora. Para Adorno, a catarse autêntica na arte não se restringe à mera identificação subjetiva do fruidor, mas reside no potencial da obra em expressar uma tensão entre conteúdo e forma, particular e geral. A expressão que "diz com um gesto sem palavras" abre possibilidades para a imagem do novo ou do não-idêntico. Ele diferencia a catarse da obra de arte autêntica daquela administrada pela indústria cultural, que promove uma descarga emocional desprovida de relação educativa, servindo à lógica mercantil e ao entretenimento. Essa "catarse regressiva" impede o distanciamento crítico necessário para a elevação da consciência das complexas relações sociais. A arte autêntica, ao contrário dos produtos da indústria cultural, não é kitsch , pois a imagem do novo não é um produto vendável; ela surge da dialética que nos constitui. A catarse, para Adorno, envolve aspectos internos da obra e externos de sua relação com a sociedade, acontecendo como um "efeito emocional-emotivo desencadeado pela mimese", sinalizando a catarse como um aspecto de resistência frente ao real. IV. Casos Limites: Sofrimento Psíquico e Criação em Escritores A relação entre sofrimento psíquico e criação artística é um campo fértil para a compreensão das origens da arte, especialmente em "casos limites" como os de escritores com doenças mentais. Estes exemplos extremos iluminam a tensão intrínseca entre a psique do artista e a obra que dela emerge. 4.1. A Angústia Existencial e a Arte como Resposta e Busca de Sentido (Sartre, Camus, Kierkegaard) A filosofia existencialista explora a angústia, o sofrimento e a busca de sentido como elementos intrínsecos à condição humana, e a arte surge como uma forma de resposta e manifestação dessa busca. Para Jean-Paul Sartre , a obra de arte é uma "obra concreta imaginária" e um "ato de engajamento". O imaginário, ao negar o real, o mantém como pano de fundo, retornando a ele para desvelá-lo. Esse processo permite que artista e público compartilhem e reconheçam sua liberdade. A arte, como obra imaginária, é engajada, e essa continuidade está enraizada na compreensão de que tanto a imaginação quanto o engajamento são expressões e desvelamentos da liberdade. A arte, para Sartre, é um "irreal", uma negação do real com sua própria duração e espacialidade. O objeto estético é uma imagem isolada do universo, e os elementos físicos da obra (pinceladas, tinta, palavras) não constituem o objeto estético em si, mas um analogon que permite ao público apreender a imagem. Embora a imaginação possa parecer uma fuga, ela é, na verdade, uma manutenção do real, sempre realizada a partir de um ponto de vista específico no mundo. A negação do mundo pela imagem não é abstrata; ela confere ao real um sentido de "mundo" impregnado pela falta. O engajamento na arte, para Sartre, não se reduz a um posicionamento político estrito. Ele se identifica com o "estarmos embarcados" de Pascal, significando que, embora todos estejam situados no mundo, a maioria tenta negar essa condição. A função da arte é tornar esse engajamento tão claro que não possa ser ignorado, convidando o leitor a abraçar sua liberdade situada. A obra de arte, especialmente a prosa, ao desvelar o homem e o mundo, provoca o leitor a confrontar sua situação existencial e a responsabilidade que dela advém, o que pode gerar uma "consciência infeliz de si mesmo no plano da existência concreta". Essa consciência da situação e da responsabilidade está intrinsecamente ligada à angústia existencial. A arte exige a liberdade tanto do artista quanto do público, sendo um "exercício mútuo de liberdades que se reconhecem e se auxiliam na construção da obra irreal". Albert Camus concebe a arte como um papel fundamental para lidar com o absurdo e o sofrimento, não fugindo deles, mas abraçando-os e transfigurando-os. Para Camus, a criação é "para nada" ; sua grandeza é intrínseca ao próprio ato de criar. A revolta artística reside em sua adesão integral ao presente, impelida pela ausência de futuro. A arte não tem uma finalidade extrínseca; sua "função ausente" a afirma como um modo de vida . A filosofia e a arte caminham lado a lado, variações da sensibilidade, ambas criadoras. O artista "refaz o mundo por sua conta", "fabrica o destino sob medida" e "concorre com Deus", materializando um afeto em uma obra com grande potência disruptiva. A arte é uma "transcendência viva" e uma "imanência habitada". Arte e revolta compartilham a exigência de dar forma ao impossível, criando um "universo de substituição" diante da recusa do mundo como ele é, sem desejar fugir dele. A arte promove "revoluções na sensibilidade", afirmando que o desejo de felicidade é maior do que toda a tristeza da realidade. 4.2. O Inconsciente Coletivo e os Arquétipos na Manifestação Artística (Jung) Carl Jung oferece uma perspectiva distinta sobre a criação artística, focando na relação entre o inconsciente coletivo, os arquétipos e a manifestação da arte. Sua abordagem difere da psicanálise aplicada ao propor um processo de "deixar acontecer" ( Geschehen Lassen ) e "observar atenta e escrupulosamente" ( Betrachten ) a obra de arte, permitindo que o inconsciente se manifeste e seja compreendido. Essa postura implica "deixar-se impressionar", dando espaço para que sensações e sentimentos venham à superfície, com o espanto e o choque emocional servindo como indicadores claros do contato com o inconsciente. Jung enfatiza a circumambulatio , um processo de contornar a obra a partir de diferentes ângulos para melhor reconhecê-la e avaliá-la, permitindo uma compreensão fenomenológica e estrutural. A reincidência, evolução e transformações de representações típicas que vêm do legado arquetípico da história coletiva são observadas nessa abordagem. A perspectiva junguiana da arte opera em uma escala transpessoal e transgeracional, onde a arte, em suas aberturas no nível da história coletiva, é mais importante do que a singularidade da vida dos artistas. Para Jung, a arte nos precede e nos faz viver o que muitas vezes está fora de nosso alcance. Ela é um meio pelo qual as forças vivas e arcaicas do inconsciente coletivo se manifestam. A experiência precede o conceito: Jung percebeu que figuras como a "sombra" e "Philemon" surgiram em suas próprias pinturas antes que ele desenvolvesse as teorias correspondentes, mostrando como a arte pode antecipar o pensamento conceitual. Através da arte, um diálogo pode ser estabelecido com os personagens e presenças que povoam o mundo interior. A arte nos confronta com uma animalidade e vida pulsional anteriores ao complexo de Édipo, revelando o caos elementar, a violência e o "desmembramento" ( Zerstükelung ). Jung observou que a arte, especialmente a moderna e contemporânea, revela "estruturas organizadoras" da representação que são compartilhadas e transpessoais, as quais ele chamou de arquétipos . Ele viu isso em obras de artistas como Yves Tanguy, onde formas incoativas e a angústia manifestada remetem a esses arquétipos. Jung não apenas teorizou sobre a arte, mas a praticou, dedicando-se à construção, modelagem, escultura, desenho, pintura e caligrafia. Ele percebeu que as mãos podem decifrar enigmas que a mente não consegue, e essa prática pessoal o ajudou a se estruturar e compreender a relação com o inconsciente. Sua exploração da alquimia ocidental e da arte oriental também demonstrou como a arte pode revelar verdades que se contrapõem a dogmas estabelecidos, oferecendo um saber silencioso e prazeres privilegiados. 4.3. A Tensão entre Gênio Criativo e Sofrimento: Reflexões sobre os Limites da Sublimação em Artistas A análise da sublimação freudiana já indicou que, embora a arte seja uma via poderosa para o desvio e a transformação de pulsões, ela não necessariamente liberta o artista do sofrimento. Pelo contrário, a sublimação, em si, pode ser potencialmente desorganizadora, e o artista, para criar, muitas vezes precisa manter contato com as fontes pulsionais perigosas e destrutivas para o eu. Essa proximidade ou distância dessas fontes pulsionais é o que determina o equilíbrio psíquico do criador. Os "casos limites" de escritores com doenças mentais servem como exemplos contundentes dessa tensão. Nesses indivíduos, a profunda necessidade de expressão, impulsionada por um deslocamento existencial e pela dinâmica de Eros e Thanatos, pode coexistir com, ou até ser intensificada por, estados de angústia, desespero e sofrimento psíquico. A arte, nesse contexto, não é meramente um mecanismo de defesa ou uma "cura" para a doença, mas uma manifestação intrínseca de uma psique que, em sua singularidade e em seu contato com o "não eu" (Adorno) ou o inconsciente coletivo (Jung), encontra uma linguagem para o indizível. A criação artística, para esses artistas, pode ser uma forma de dar sentido ao caos interno ou confrontar as forças arcaicas da psique (como na abordagem junguiana ). No entanto, como observado em artistas como Modigliani, Schiele e Frida Kahlo, o êxito criativo não se traduz necessariamente em libertação do sofrimento humano. Isso sugere que a pulsão criativa é tão potente que impele à produção artística mesmo a um grande custo pessoal, evidenciando a natureza não redutiva do impulso artístico. O deslocamento do mundo, embora generativo, pode ser uma fonte contínua de tensão interna, e a arte se torna o palco onde essa luta se manifesta e se transforma em forma estética. Conclusão A investigação das teorias estéticas e filosóficas revela que a arte é, de fato, um fenômeno profundamente enraizado em um "deslocamento em relação ao mundo" e em uma imperiosa "necessidade de expressá-la". Este deslocamento não é uma mera alienação, mas uma reconfiguração ativa da percepção e da existência, manifestada desde as deambulações dos artistas contemporâneos até a "apoteose do sensível" na fenomenologia. O sofrimento e a angústia, longe de serem meros obstáculos, atuam como catalisadores essenciais para a criação, como demonstrado por Nietzsche e Schopenhauer, que veem na dor um caminho para a genialidade e o alento existencial. A necessidade de expressão é impulsionada por complexas dinâmicas psíquicas, conforme a psicanálise elucida. Eros e Thanatos, as pulsões de vida e morte, entrelaçam-se na criação artística, com a sublimação atuando como um mecanismo central para desviar e transformar impulsos em obras culturalmente valorizadas. Contudo, a análise dos limites da sublimação e dos "casos limites" de escritores com sofrimento psíquico demonstra que a arte, embora seja um poderoso canal de expressão e busca de sentido, não é uma panaceia para a dor existencial. Pelo contrário, a genialidade criativa muitas vezes coexiste com, e é alimentada por, um contato íntimo com as fontes pulsionais mais desafiadoras da psique. A sensibilidade sensível, explorada pela fenomenologia, sublinha a experiência corporal e a capacidade da arte de abrir o indivíduo para o "novo" e o "não-idêntico", enquanto a catarse, ressignificada por Adorno, revela a capacidade imanente da obra de arte de purificar e resistir. As perspectivas existencialistas de Sartre, Camus e Kierkegaard reforçam que a arte é uma resposta à angústia e ao absurdo da condição humana, um exercício de liberdade e uma busca incessante por sentido em um mundo que, por vezes, se mostra caótico e desorientador. Em suma, a arte emerge como uma resposta intrínseca à condição humana, um modo de ser e de engajar-se com a existência que transcende a mera representação. Ela é o palco onde o deslocamento se torna forma, a necessidade se faz expressão e as pulsões mais profundas da alma encontram sua manifestação, reafirmando a arte como um fenômeno complexo, multifacetado e profundamente humano. Referências BOURRIAUD, Nicolas. Por uma estética radicante: deslocamento, estranhamento e hibridismo cultural . Estudos Avançados, São Paulo, v. 26, n. 75, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/5GJQQptKr8Fq9ZbwBrQFLqF/?lang=pt . Acesso em: 21 jun. 2025. LIMA, Fernanda. O laço de Eros entre a literatura e a psicanálise . Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 35, n. 2, p. 200–210, 2019. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-58352019000200004 . Acesso em: 21 jun. 2025. MARINHO, Liliane. Arte e sofrimento: Proust schopenhaueriano . 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  • "Alguma coisa urgentemente" de João Gilberto Noll

    OS PRIMEIROS ANOS DE VIDA  suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. A característica mais marcante do meu pai era a sua rotatividade. Dizia-se filósofo sem livros, com uma única fortuna: o pensamento. Eu, no começo, achava meu pai tão-só um homem amargurado por ter sido abandonado por minha mãe quando eu era de colo. Morávamos então no alto da Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, meu pai me levava a passear todas manhãs na Praça Júlio de Castilhos e me ensinava os nomes das árvores, eu não gostava de ficar só nos nomes, gostava de saber as características de cada vegetal, a região de origem. Ele me dizia que o mundo não era só aquelas plantas, era também as pessoas que passavam e as que ficavam e que cada um tem o seu drama. Eu lhe pedia colo. Ele me dava e assobiava uma canção medieval que afirmava ser a sua preferida. No colo dele eu balbuciava uns pensamentos perigosos: — Quando é que você vai morrer? — Não vou te deixar sozinho, filho! Falava-me com o olhar visivelmente emocionado e contava que antes me ensinaria a ler e escrever. Ele fazia questão de esquecer que eu sabia de tudo o que se passava com ele. Pra que ler? — eu lhe perguntava. Pra descrever a forma desta árvore — respondia-me um pouco irritado com minha pergunta. Mas logo se apaziguava. — Quando você aprender a ler vai possuir de alguma forma todas as coisas, inclusive você mesmo. No final de 1969 meu pai foi preso no interior do Paraná. (Dizem que passava armas a um grupo não sei de que espécie.) Tinha na época uma casa de caça e pesca em Ponta Grossa e já não me levava a passear. No dia em que ele foi preso, eu fui arrastado para fora da loja por uma vizinha de pele muito clara, que me disse que eu ficaria uns dias na casa dela, que o meu pai iria viajar. Não acreditei em nada mas me fiz de crédulo como convinha a uma criança. Pois o que aconteceria se eu lhe dissesse que tudo aquilo era mentira? Como lidar com uma criança que sabe? Puseram-me num colégio interno no interior de São Paulo. O padre diretor me olhou e afirmou que lá eu seria feliz. — Eu não gosto daqui. — Você vai se acostumar e até gostar. Os colegas me ensinaram a jogar futebol, a me masturbar e a roubar a comida dos padres. Eu ficava de pau duro e mostrava aos colegas. Mostrava as maçãs e os doces do roubo. Contava do meu pai. Um deles me odiava. O meu pai foi assassinado, me dizia ele com ódio nos olhos. O meu pai era bandido, ele contava espumando o coração. Eu me calava. Pois se referir ao meu pai presumia um conhecimento que eu não tinha. Uma carta chegou dele. Mas o padre-diretor não me deixou lê-la, chamou-me no seu gabinete e contou que o meu pai ia bem. — Ele vai bem. Eu agradeci como normalmente fazia em qualquer contato com o padre-diretor e saí dizendo no mais silencioso de mim: — Ele vai bem. O menino que me odiava aproximou-se e falou que o pai dele tinha levado dezessete tiros. Nas aulas de religião o padre Amâncio nos ensinava a rezar o terço e a repetir jaculatórias. — Salve Maria! — ele exclamava a cada início de aula. — Salve Maria! — os meninos respondiam em uníssono. Quando cresci meu pai veio me buscar e ele estava sem um braço. O padre-diretor me perguntou: — Você quer ir? Olhei para meu pai e disse que eu já sabia ler e escrever. — Então você saberá de tudo um dia — ele falou. O menino que me odiava ficou na porta do colégio quando da nossa partida. Ele estava com o seu uniforme bem lavado e passado. Na estrada para São Paulo paramos num restaurante. Eu pedi um conhaque e meu pai não se espantou. Lia um jornal. Em São Paulo fomos para um quarto de pensão onde não recebíamos visitas. — Vamos para o Rio — ele me comunicou sentado na cama e com o braço que lhe restava sobre as pernas. No Rio fomos para um apartamento na Avenida Atlântica. De amigos, ele comentou. Mas embora o apartamento fosse bem mobiliado, ele vivia vazio. — Eu quero saber — eu disse para o meu pai. — Pode ser perigoso — ele respondeu. E desliguei a televisão como se pronto para ouvir. Ele disse não. Ainda é cedo. E eu já tinha perdido a capacidade de chorar. Eu procurei esquecer. Meu pai me pôs num colégio em Copacabana e comecei a crescer como tantos adolescentes do Rio. Comia a empregada do Alfredinho, um amigo do colégio, e, na praia, precisava sentar às vezes rapidamente porque era comum ficar de pau duro à passagem de alguém. Fingia então que observava o mar, a performance de algum surfista. Não gostava de constatar o quanto me atormentavam algumas coisas. Até meu pai desaparecer novamente. Fiquei sozinho no apartamento da Avenida Atlântica sem que ninguém tomasse conhecimento. E eu já tinha me acostumado com o mistério daquele apartamento. Já não queria saber a quem pertencia, porque vivia vazio. O segredo alimentava o meu silêncio. E eu precisava desse silêncio para continuar ali. Ah, me esqueci de dizer que meu pai tinha deixado algum dinheiro no cofre. Esse dinheiro foi o suficiente para sete meses. Gastava pouco e procurava não pensar no que aconteceria quando ele acabasse. Sabia que estava sozinho, com o único dinheiro acabando, mas era preciso preservar aquele ar folgado dos garotos da minha idade, falsificar a assinatura do meu pai sem remorsos a cada exigência do colégio. Eu não dava bola para a limpeza do apartamento. Ele estava bem sujo. Mas eu ficava tão pouco em casa que não dava importância à sujeira, aos lençóis encardidos. Tinha bons amigos no colégio, duas ou três amigas que me deixavam a mão livre para passá-la onde eu bem entendesse. Mas o dinheiro tinha acabado e eu estava caminhando pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana tarde da noite, quando notei um grupo de garotões parados na esquina da Barão de Ipanema, encostados num carro e enrolando um baseado. Quando passei, eles me ofereceram. Um tapinha? Eu aceitei. Um deles me disse olha ali, não perde essa, cara! Olhei para onde ele tinha apontado e vi um Mercedes parado na esquina com um homem de uns trinta anos dentro. Vai lá, eles me empurraram. E eu fui. — Quer entrar? — o homem me disse. Eu manjei tudo e pensei que estava sem dinheiro. — Trezentas pratas — falei. Ele abriu a porta e disse entra, o carro subiu a Niemeyer, não havia ninguém no morro em que o homem parou. Uma fita tocava acho que uma música clássica e o homem me disse que era de São Paulo. Me ofereceu cigarro, chiclete e começou a tirar a minha roupa. Eu pedi antes o dinheiro. Ele me deu as três notas de cem abertas, novinhas. E eu nu e o homem começando a pegar em mim, me mordia de ficar marca, quase me tira um pedaço da boca. Eu tinha um bom físico e isso excitava ele, deixava o homem louco. A fita tinha terminado e só se ouvia um grilo. — Vamos — disse o homem ligando o carro. Eu tinha gozado e precisei me limpar com a sunga. No dia seguinte meu pai voltou, apareceu na porta muito magro, sem dois dentes. Resolvi contar: — Eu ontem me prostituí, fui com um homem em troca de trezentas pratas. Meu pai me olhou sem surpresas e disse que eu procurasse fazer outra história da minha vida. Ele então sentou-se e foi incisivo: — Eu vim para morrer. A minha morte vai ser um pouco badalada pelos jornais, a polícia me odeia, há anos me procura. Vão te descobrir mas não dê uma única declaração, diga que não sabe de nada. O que é verdade. — E se me torturarem? — perguntei. — Você é menor e eles estão precisando evitar escândalos. Eu fui para a janela pensando que ia chorar, mas só consegui ficar olhando o mar e sentir que precisava fazer alguma coisa urgentemente. Virei a cabeça e vi que meu pai dormia. Aliás, não foi bem isso o que pensei, pensei que ele já estivesse morto e fui correndo segurar o seu único pulso. O pulso ainda tinha vida. Eu preciso fazer alguma coisa urgentemente, a minha cabeça martelava. É que eu não tinha gostado de ir com aquele homem na noite anterior, meu pai ia morrer e eu não tinha um puro centavo. De onde sairia a minha sobrevivência? Então pensei em denunciar meu pai para a polícia para ser recebido pelos jornais e ganhar casa e comida em algum orfanato, ou na casa de alguma família. Mas não, isso eu não fiz porque gostava do meu pai e não estava interessado em morar em orfanato ou com alguma família, e eu tinha pena do meu pai deitado ali no sofá, dormindo de tão fraco. Mas precisava me comunicar com alguém, contar o que estava acontecendo. Mas quem? Comecei a faltar às aulas e ficava andando pela praia, pensando o que fazer com meu pai que ficava em casa dormindo, feio e velho. E eu não tinha arranjado mais um puto centavo. Ainda bem que tinha um amigo vendedor daquelas carrocinhas da Geneal que me quebrava o galho com um cachorro-quente. Eu dizia bota bastante mostarda, esquenta bem esse pão, mete molho. Ele obedecia como se me quisesse bem. Mas eu não conseguia contar para ele o que estava acontecendo comigo. Eu apenas comentava com ele a bunda das mulheres ou alguma cicatriz numa barriga. É cesariana, ele ensinava. E eu fingia que nunca tinha ouvido falar em cesariana, e aguçava seu prazer de ensinar o que era cesariana. Um dia ele me perguntou: — Você tem quantos irmãos? Eu respondi sete. — O teu pai manda brasa, hein? Fiquei pensando no que responder, talvez fosse a ocasião de contar tudo pra ele, admitir que eu precisava de ajuda. Mas o que um vendedor da Geneal poderia fazer por mim senão contar para a polícia? Então me calei e fui embora. Quando cheguei em casa entendi de vez que meu pai era um moribundo. Ele já não acordava, tinha certos espasmos, engrolava a língua e eu assistia. O apartamento nessa época tinha um cheiro ruim, de coisa estragada. Mas dessa vez eu não fiquei assistindo e procurei ajudar o velho. Levantei a cabeça dele, botei um travesseiro embaixo e tentei conversar com ele. — O que você está sentindo? — perguntei. — Já não sinto nada — ele respondeu com uma dificuldade que metia medo. — Dói? — Já não sinto dor nenhuma. De vez em quando lhe trazia um cachorro-quente que meu amigo da Geneal me dava, mas meu pai repelia qualquer coisa e expulsava os pedaços de pão e salsicha para o canto da boca. Numa dessas ocasiões em que eu limpava os restos de pão e salsicha da sua boca com um pano de prato a campainha tocou. A campainha tocou. Fui abrir a porta com muito medo, com o pano de prato ainda na mão. Era o Alfredinho. — A diretora quer saber por que você nunca mais apareceu no colégio — ele perguntou. Falei pra ele entrar e disse que eu estava doente, com a garganta inflamada, mas que eu voltaria pro colégio no dia seguinte porque já estava quase bom. Alfredinho sentiu o cheiro ruim da casa, tenho certeza, mas fez questão de não demonstrar nada. Quando ele sentou no sofá é que eu notei como o sofá estava puído e que Alfredinho sentava nele com certo cuidado, como se o sofá fosse despencar debaixo da bunda, mas ele disfarçava e fazia que não notava nada de anormal, nem a barata que descia a parede à direita, nem os ruídos do meu pai que às vezes se debatia e gemia no quarto ao lado. Eu sentei na poltrona e fiquei falando tudo que me vinha à cabeça para distraí-lo dos ruídos do meu pai, da barata na parede, do puído do sofá, da sujeira e do cheiro do apartamento, falei que nos dias da doença eu lia na cama o dia inteiro umas revistinhas de sacanagem, eram dinamarquesas as tais revistinhas, e sabe como é que eu consegui essas revistinhas? roubei no escritório do meu pai, estavam escondidas na gaveta da mesa dele, não te mostro porque emprestei pra um amigo meu, um sacana que trabalha numa carrocinha da Geneal aqui na praia, ele mostrou pra um amigo dele que bateu uma punheta com a revistinha na mão, tem uma mulher com as pernas assim e a câmera pega a foto bem daqui, bem daqui cara, á como os caras tiraram a foto da mulher, ela assim e a câmera pega bem desse ângulo aqui, não é de bater uma punheta mesmo? a câmera pertinho assim e a mulher nua e com as pernas desse jeito, não tou mentindo não cara, você vai ver, um dia você vai ver, só que agora a revistinha não tá comigo, por isso que eu digo que ficar doente de vez em quando é uma boa, eu o dia inteiro deitado na cama lendo revistinha de sacanagem, sem ninguém pra me aporrinhar com aula e trabalho de grupo, só eu e as minhas revistinhas, você precisava ver, cara, você também ia curtir ficar doente nessa de revistinha de sacanagem, ninguém pra me encher o saco, ninguém cara, ninguém. Aí eu parei de falar e o Alfredinho me olhava como se eu estivesse falando coisas que assustassem ele, ficou me olhando com uma cara de babaca, meio assim desconfiado, e nem sei bem o que passou pela cabeça dele quando meu pai lá no quarto me chamou, era a primeira vez que meu pai me chamava pelo nome, eu mesmo levei um susto de ouvir meu pai me chamar pelo meu nome, e me levantei meio apavorado porque não queria que ninguém soubesse do meu pai, do meu segredo, da minha vida, eu queria que o Alfredinho fosse embora e que não voltasse nunca mais, então eu me levantei e disse que tinha que fazer uns negócios, e ele foi caminhando de costas em direção à porta, como se estivesse com medo de mim, e eu dizendo que amanhã eu vou aparecer no colégio, pode dizer pra diretora que amanhã eu converso com ela, e o meu pai me chamou de novo com sua voz de agonizante, o meu pai me chamava pela primeira vez pelo meu nome, e eu disse tchau até amanhã, e o Alfredinho disse tchau até amanhã, e eu continuava com o pano de prato na mão e fechei a porta bem ligeiro porque não aguentava mais o Alfredinho ali na minha frente não dizendo nem uma palavra, e fui correndo pro quarto e vi que o meu pai estava com os olhos duros olhando pra mim, e eu fiquei parado na porta do quarto pensando que eu precisava fazer alguma coisa urgentemente.   Quem foi João Gilberto Noll João Gilberto Noll (1946-2017) foi um dos mais aclamados e singulares escritores brasileiros de sua geração. Nascido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Noll construiu uma obra marcada pela originalidade... pelo experimentalismo linguístico e por uma profunda investigação da condição humana. Seus textos, frequentemente permeados por uma atmosfera onírica e de estranhamento, exploram temas como a identidade, o desamparo, a busca por sentido e a fluidez da existência. Com uma prosa concisa e fragmentada, mas de grande impacto, Noll conquistou diversos prêmios literários, incluindo cinco Jabutis. Entre suas obras mais notáveis estão "Bandoleros" (1992), "Harmada" (1993) e "Lorde" (2004). Sua literatura continua a influenciar e intrigar leitores e críticos, consolidando-o como uma voz essencial na ficção brasileira contemporânea.

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