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Americanah: voltar também muda o ponto de chegada

Leitura complementar · Ana Amélia

Leitura complementar à aula 7

Você manda sua personagem de volta para casa. Ela desce do avião com dez anos de experiência na mala. Como o leitor vai perceber o que mudou? Em Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie põe Ifemelu numa conversa sobre onde almoçar no domingo.

Para entender por que um convite tão banal incomoda tanto, vale voltar à primeira página.

Antes da volta, um trem para trançar o cabelo

No início do romance, Ifemelu gosta de Princeton. Gosta das ruas limpas, das lojas caras e da sensação de poder passar por alguém que teve acesso àquele “sagrado clube americano”. Logo depois de descrever esse prazer, a narrativa põe Ifemelu na plataforma da estação. Ela precisa ir a Trenton para trançar o cabelo.

O trem dá consequência ao contraste. Princeton oferece a Ifemelu o prazer de se imaginar parte daquele mundo. Para fazer as tranças, ela precisa sair dali. Adichie deixa as duas experiências na mesma cena. Ifemelu pode gostar de um lugar e perceber, ao organizar uma tarde qualquer, o que ele tem ou deixa de ter para alguém como ela.

Guarde essa ida ao salão. Depois do retorno à Nigéria, o cabelo volta à conversa. Dessa vez, Ifemelu está entre pessoas que reconhecem de imediato o assunto.

Em Lagos, a voz que Ifemelu ouve é a dela

Na reunião do Clube Nigerpolita, à beira de uma piscina em Lagos, Ifemelu conversa com Bisola e Yagazie. As duas usam o cabelo natural. Yagazie reclama que, nos salões da cidade, ainda lhe perguntam se ela quer alisar o cabelo. A observação termina numa acusação mais ampla, sobre o modo como os próprios africanos valorizam o cabelo natural. A resposta de Ifemelu vem depressa.

“Concordo”, disse Ifemelu, e ela percebeu a superioridade em sua voz, na voz deles todos.

A ordem importa. Ifemelu concorda e se ouve concordar. Ela conhece o incômodo de entrar num salão e descobrir o que se espera que faça com o próprio cabelo. Também reconhece, no tom que acabou de usar, uma satisfação em julgar o lugar para onde voltou. O narrador poderia resumir tudo dizendo que ela se sentia dividida. Adichie deixa a personagem ouvir essa divisão na própria voz.

Logo entram outras pessoas na conversa. As referências circulam com facilidade. Um homem diz que morava em Boston, e Ifemelu entende a universidade que ele deixou subentendida. Quando o grupo começa a listar as coisas americanas de que sente falta, ela contribui com leite de soja, rádio e internet rápida. Perceber a superioridade no próprio tom não tira dela o prazer de conversar com gente que entende suas referências.

O almoço que ela quer e a frase que preferia evitar

Bisola sugere um restaurante para o domingo. O argumento é simples: “Eles servem o tipo de coisa que a gente gosta de comer.” Ifemelu se anima com a ideia. Imagina saladas frescas e legumes ainda firmes. Gosta do arroz jollof com bastante óleo e da banana-da-terra frita de que sentia saudade quando estava fora. Também sente falta da quinoa que Blaine preparava.

O que a inquieta é se reconhecer naquele a gente. A frase oferece a intimidade de um gosto compartilhado e, ao mesmo tempo, delimita quem está falando. Ifemelu gostaria de ter menos vontade de conhecer o restaurante. A vontade já apareceu.

Pouco depois, Fred fala de Nollywood olhando para ela como quem espera cumplicidade. Ifemelu diz que gosta dos filmes. O narrador nos deixa saber que ela concorda em parte com o que ele disse e que também está com vontade de contrariar o grupo. A resposta tem, portanto, duas tarefas. Expressa um gosto e faz Ifemelu experimentar, diante dos outros, uma distância que ela ainda não sabe se tem.

É assim que a trajetória chega à cena. Em Princeton, acompanhamos Ifemelu gostando de um lugar onde pode imaginar que pertence. Em Lagos, ela encontra um grupo ao qual pertence com uma facilidade que a deixa desconfortável. Entre uma cena e outra, mudaram o lugar, a companhia e os hábitos dela. A conversa de domingo permite que o leitor perceba essas mudanças em coisas que a personagem faz em poucos minutos. Ela concorda, se escuta, entra na brincadeira e, por fim, contraria alguém.

Na sua bancada

Escolha uma personagem que reencontre um lugar ou um grupo depois de uma ausência. Dê a ela um motivo banal para estar ali. Pode ser um almoço, uma carona ou uma visita para buscar alguma coisa.

Na primeira metade da cena, escreva um gesto ou uma fala que mostre com que facilidade ela ainda participa daquele mundo. Na segunda, faça alguém usar uma expressão coletiva, como a gente sempre faz assim. O que a personagem faz quando percebe que está incluída? Deixe aparecer, numa resposta ou num gesto, algo que ela ainda quer daquele grupo e algo que agora lhe custa aceitar.

Ao reler, marque o ponto em que o leitor percebe a mudança antes de a personagem explicá-la.

Chimamanda Ngozi Adichie, Americanah.

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