Dalva, Venâncio e Lucy: quando os percursos se cruzam
Leitura complementar · Ana Amélia · Contém spoilers

Leitura complementar sobre desejo, relações e trajetória
Atenção. Esta leitura revela acontecimentos centrais e o desfecho do romance.
Em Tudo é rio, Dalva chega à Casa de Manu com um bebê, uma sacola e instruções escritas. Precisa que Lucy fique com João até o fim da tarde. Parece uma conversa sobre quem pode cuidar de uma criança por algumas horas. O romance inteiro pesa sobre a maneira como Dalva faz o pedido.
Para entender o peso dessa visita, vale olhar para o que cada um dos três personagens já quis do outro.
O mesmo encontro pode significar duas coisas
Dalva é casada com Venâncio. Quando nasce Vicente, o vínculo dela com o menino desperta nele um ciúme que culmina na agressão contra os dois. Depois daquela noite, Dalva deixa de falar com Venâncio. Os dois continuam vivendo na mesma casa, e ele passa a desejar justamente aquilo a que antes tinha acesso todos os dias: uma resposta dela.
Lucy, por sua vez, começa a se interessar por Venâncio quando ele a recusa na Casa de Manu. A recusa atinge a certeza que ela tem de seu poder de sedução. Quando finalmente se envolve com ele, vê no encontro a possibilidade de uma vida a dois. Venâncio, ao ver Lucy soltar os cabelos, recorda Dalva e procura no encontro com uma mulher a intimidade que perdeu com a outra. A cena anda porque os dois querem estar ali. O conflito cresce porque cada um acredita estar vivendo uma história diferente.
Quando Lucy anuncia a gravidez, Venâncio a agride. É Dalva quem intervém e o obriga a soltá-la. Mais tarde, Lucy entrega João aos cuidados de Dalva. Guarde essas duas ações. Na visita à Casa de Manu, elas ajudam a entender por que Lucy espera tão pouco daquela mulher e por que o gesto de Dalva a alcança com tanta força.
“Nosso filho”
Naquela manhã, Dalva volta a cantar enquanto dá banho em João. Faz cócegas no menino, arruma-se e sai com ele. Toma o caminho de sempre, mas desta vez para diante da Casa de Manu. Pede a Doralda que chame Lucy.
Lucy chega ao alpendre ainda de camisola. Ao ver os dois, diminui o passo, se cala e tenta se cobrir. O narrador acompanha o esforço dela para se recompor diante do filho. Dalva, enquanto isso, fala do que precisa ser feito. Na sacola está tudo o que João vai usar. No papel, as instruções. Então diz:
Antes do fim da tarde, eu venho buscar nosso filho.
A frase junta duas coisas que poderiam parecer incompatíveis para Lucy. Dalva anuncia que voltará para buscar João e, no mesmo fôlego, reconhece Lucy como mãe dele. O “nosso” chega dentro de uma tarefa concreta. Lucy vai passar o dia com o menino. Pode estender os braços e pegá-lo.
Mais adiante, quando Dalva volta, sabemos que Lucy passou o dia lembrando o que ouviu. João está bem cuidado e as coisas dele estão organizadas. Mesmo assim, Lucy mal consegue ensaiar a pergunta que agora lhe importa: se ele poderá voltar de vez em quando. Repare no tempo que Madeira dá ao efeito daquela fala. Lucy recebe o filho, cuida dele e começa a imaginar outra visita. Ainda precisa encontrar coragem para pedi-la.
“Vicente, esse é o seu pai”
Entre a ida de Dalva à Casa de Manu e o encontro final no portão, o romance muda o que o leitor sabe. Dalva atravessa a igreja, sai por uma porta lateral e toma o caminho para a casa de Francisca. O percurso abre espaço para voltar ao passado. Foi uma medalhinha de Vicente, entregue por Clarisse a pedido de Francisca, que levou Dalva até lá pela primeira vez depois da agressão. Naquele momento, ela temia que a medalha confirmasse a morte do filho. Encontrou Vicente vivo.
Quando chegamos ao portão com Venâncio, já sabemos quem é o menino que vem de mãos dadas com Dalva. Venâncio primeiro vê João nos braços dela. Demora a reparar na outra criança. Quando finalmente olha para o menino, lembra-se de um retrato seu, de quando era pequeno, que o pai carregava consigo. A lembrança dá ao leitor uma pista do que Venâncio está começando a reconhecer, antes que ele consiga formular a pergunta.
Há ainda outro desencontro. Venâncio interpreta o passo firme de Dalva como indiferença. O narrador deixa ver o que ele perde: as pernas bambas e o coração disparado. Então Dalva olha para ele e lhe estende o sorriso que havia começado com o menino. A fala vem depois desse percurso:
Vicente, esse é o seu pai.
Dalva se dirige ao filho. Venâncio ouve, na mesma frase, a confirmação que vinha tentando alcançar. Para o leitor, que já sabe que Vicente sobreviveu, o que está em jogo agora é ver Dalva tomar a iniciativa de apresentá-lo. A revelação sobre o passado e a mudança na relação acontecem em momentos diferentes. Essa distância permite que o final tenha força mesmo depois que o segredo foi contado.
O caminho alagado que fecha o romance guarda a possibilidade de aproximação e a dos abismos. A cena chegou até o primeiro passo. O que virá depois ainda depende do que essas pessoas conseguirem fazer umas diante das outras.
Na sua bancada
Escolha uma relação que tenha mudado no seu manuscrito. Ponha os personagens diante de uma tarefa comum, como devolver uma chave, buscar alguém ou repartir os cuidados com uma criança. Escreva uma fala que, ao resolver a tarefa, ofereça ao outro um lugar que antes ele não tinha. Depois dê a esse outro uma ação concreta para responder. Veja quanto da mudança chega ao leitor pelo que ele faz.
Agora marque três momentos no seu texto. Quando o fato aconteceu? Quando o leitor soube dele? Quando a personagem mais afetada soube? Se os três momentos coincidirem, experimente separar dois deles. Observe o que o leitor passa a esperar da cena quando já conhece um fato que alguém ali ainda está tentando entender.
Carla Madeira, Tudo é rio.