José Dias: um retrato que também descreve quem narra
Leitura complementar · Ana Amélia

Leitura complementar às aulas 4, 5 e 6
Você deu ao seu personagem um jeito de falar que ninguém confunde com o dos outros. Ótimo. Agora tire esse personagem da sala. O que a fala dele deixou acontecendo ali?
Em Dom Casmurro, José Dias entra na conversa para saber se Dona Glória ainda pretende mandar Bentinho para o seminário. O rapaz ia entrar na sala de visitas, mas ouve o próprio nome e se esconde atrás da porta. A partir daí, acompanhamos duas coisas ao mesmo tempo. José Dias tenta convencer Dona Glória de que há motivo para se apressar. Bentinho ouve uma conversa que ninguém pensou em ter com ele.
O que cabe numa “grande dificuldade”
Dona Glória pergunta qual é a dificuldade. “Uma grande dificuldade”, responde José Dias. Por um instante, ela sabe apenas que ele considera o assunto grave. Então ele vai verificar se há alguém no corredor. Bentinho permanece escondido. José Dias volta, baixa a voz e aponta para a casa vizinha. Só aos poucos chega ao que queria dizer: se Bentinho e Capitu começarem a namorar, Dona Glória terá trabalho para separá-los.
Dona Glória tem outra maneira de ver os mesmos fatos. As duas crianças cresceram juntas, e ela as viu brincar sem achar motivo para desconfiança. Quando questiona a expressão “metidos nos cantos”, José Dias recua um pouco. Era um modo de falar. Mas logo insiste nos segredos e na frequência das visitas. Ao fim da troca, Dona Glória ainda acha que ele pode estar enganado, mas diz que tratará de pôr o filho no seminário quanto antes. A promessa já existia. A conversa dá urgência ao seu cumprimento.
É então que o tio Cosme pergunta se há mesmo necessidade de fazer o rapaz padre. Dona Glória chora. Atrás da porta, Bentinho quase entra na sala. José Dias, que abriu a conversa como quem trazia um aviso, precisa agora explicar por que falou:
“Se soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo...”
Veja o trabalho que o superlativo faz naquele instante. José Dias acabou de se meter numa decisão de família. Diante das lágrimas de Dona Glória, apresenta a intervenção como serviço prestado a ela. Primeiro enumera os sentimentos que o teriam movido. Depois, dentro da própria frase, aumenta o peso do dever. Era amargo. Ficou amaríssimo.
O menino vê as presilhas. O adulto vê um silogismo
José Dias sai para buscar o gamão. Bentinho se aperta contra a parede e o vê passar. É um bom momento para descrevê-lo. O rapaz tem motivo para ficar imóvel e observar, e o leitor acaba de ouvir a voz daquele homem.
Mas quem escreve o retrato é Bento, muitos anos depois. Ele começa assim:
José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às idéias; não as havendo, servia a prolongar as frases.
Essa última parte é de Bento. O menino podia ouvir “amaríssimo” e ver a roupa engomada. O adulto é quem decide que o superlativo às vezes servia para prolongar uma frase vazia. E é ele quem descreve o passo do agregado como “um silogismo completo”. A comparação faz o leitor imaginar alguém que parece calcular até a ordem dos passos. Também deixa à vista a inteligência irônica de quem o descreve.
O capítulo seguinte começa corrigindo a impressão de que José Dias andava sempre assim. Às vezes era rápido. Ria largamente quando a ocasião pedia, até quando ria sem vontade. Mais adiante, Bento recorda como ele se tornou necessário na casa. Essa sequência dá espessura ao retrato. O homem da roupa engomada e dos passos calculados também sabia ajustar o gesto à companhia. E o agregado que precisava conquistar lugar na família tinha influência suficiente para mudar o rumo de uma conversa sobre o futuro do filho da dona da casa.
Na sua bancada
Escreva uma conversa em que alguém com pouca autoridade formal consiga mudar uma decisão. Dê a essa pessoa uma expressão característica e faça com que ela a use no momento em que sua intervenção começa a incomodar. Leia a cena uma vez sem a expressão. O que a personagem perde naquele momento? Pode ser uma maneira de pedir licença, de recuar ou de justificar por que se meteu no assunto.
Depois, descreva essa mesma pessoa pelos olhos de quem ouviu a conversa de fora. Separe o que o observador pôde ver ou ouvir da interpretação que faz do gesto. Escolha uma frase em que essa interpretação diga tanto sobre quem observa quanto sobre a pessoa observada.
Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulos III a V. As citações seguem a grafia da edição consultada.