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Samuel: quando um lugar muda as possibilidades de ação

Leitura complementar · Ana Amélia

Leitura complementar às aulas 2 e 3

Imagine dois personagens com o ouvido colado à mesma parede. Um escuta uma mulher pedindo ajuda para se casar. O outro escuta tanto quanto você está escutando agora. Como os dois saem dali com um plano em comum?

Em A cabeça do santo, Samuel chega ferido a Candeia e passa a noite numa cavidade que toma por gruta. Acorda assustado com vozes de mulheres. Corre para fora e encontra silêncio. Só então, olhando de fora, percebe onde dormiu. A gruta era a cabeça oca de uma estátua de santo Antônio.

A fuga já mostrou que atravessar a abertura muda o que Samuel consegue ouvir. No capítulo “Carvão”, Socorro Acioli põe essa descoberta à prova de outro jeito. Francisco está dentro da cabeça com ele. Samuel sabe a hora em que as vozes começam e aponta o lugar onde costuma ouvir uma moça falar do dr. Adriano. Francisco consulta o relógio. Faltam vinte minutos. Os dois esperam.

Quando a oração começa, a narrativa localiza a voz “do lado direito da cabeça, dois palmos acima da orelha”. A moça quer ir ao posto na sexta-feira para ver o médico, mas precisa inventar uma doença e despistar a mãe, que fecharia a bodega para acompanhá-la. Ela conta ao santo até que já tirou uma meia do doutor. Enquanto Samuel mal segura o riso, Francisco, também de ouvido colado à cabeça, protesta: “Não ouvi nada.”

O que cada um consegue descobrir

Francisco já sabe que o médico atende na sexta-feira. Quando Samuel menciona a consulta, ele suspeita que o forasteiro esteja devolvendo uma informação que recebeu dele mesmo. A conversa muda quando Samuel repete o detalhe da mãe que fecharia a bodega. Francisco conhece a cidade e consegue identificar a moça: é Madeinusa, filha de Helenice.

Repare na ordem. A oração começa como uma voz que Samuel consegue localizar no concreto. Depois vira um relato que Francisco pode contestar. Só ganha um nome quando os dois juntam o que sabem. Samuel tem acesso à oração. Francisco conhece as pessoas a quem aqueles detalhes pertencem. E descobrir o nome da moça ainda deixa espaço para Francisco desconfiar de como Samuel conseguiu a informação.

Acioli dá corpo a essa investigação. Em outro momento da mesma conversa, Samuel, ainda ferido, apoia as palmas na parede e vai “esfregando o ouvido por dentro da cabeça” até distinguir outra voz. Depois, usa carvão para marcar os pontos em que as vozes voltam a ser audíveis. A posição do ouvido, a hora e a marca no concreto permitem repetir uma descoberta que, na primeira noite, parecia um pesadelo. A cabeça continua sendo abrigo para um homem ferido e passa a ser também um lugar onde ele sabe o que fazer às cinco da manhã.

O que Samuel faz com o que ouviu

É Samuel quem propõe armar o encontro entre Madeinusa e o médico. Na sexta-feira, volta a escutar a moça no ponto marcado. Depois sai para falar com ela. Na rua, apresenta como recado do santo o que soube pela oração e pede que ela leve a meia à consulta. No posto, avisa o médico de que a moça virá com a meia. Adriano sabe que o objeto sumiu do carro e quer entender como Samuel ficou sabendo.

Na cabeça, a meia era um detalhe da oração. No consultório, é um objeto que o médico reconhece e que Madeinusa pode mostrar. A passagem de um lugar ao outro muda a função do detalhe. Samuel já não precisa estar com o ouvido no concreto para agir. Precisa lembrar o que ouviu, escolher o que contar e contar a cada pessoa o suficiente para que ela faça alguma coisa.

Na sua bancada

Escolha uma cena com dois personagens no mesmo lugar. Dê a um deles uma posição física que lhe permita perceber um detalhe. Dê ao outro uma experiência anterior que lhe permita interpretá-lo. Escreva a conversa até o ponto em que um dos dois muda de ideia ou decide agir.

Depois, mude a posição do primeiro personagem. Se ele estivesse do outro lado da porta, sentado em outra cadeira ou dois passos mais longe, o que deixaria de perceber? Veja qual ação já não poderia acontecer do mesmo jeito. É aí que o espaço entra na construção da cena.

Socorro Acioli, A cabeça do santo.

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