top of page

Tire o nome da fala. Quem sobrou?

Escrever um diálogo que diferencie intenção, repertório e posição na relação.

Autor ocupando o centro do texto enquanto personagens permanecem silenciosos.

Módulo 3 — Quem fala e quem pressiona
Ana Amélia

Seu adolescente, sua desembargadora e seu pescador interrompem as frases no mesmo lugar, ironizam com a mesma elegância e encontram a metáfora perfeita antes do café. Talvez você tenha criado um elenco. Talvez tenha distribuído crachás para a própria voz.

Vamos escutar a diferença por dentro. Uma personagem não ganha linguagem própria apenas porque recebeu três gírias e uma preferência por palavrões. O que ela consegue formular, o que evita e a posição que ocupa diante de alguém participam da construção da fala.

Ao terminar esta aula, você terá um diálogo em que duas pessoas tentam coisas diferentes e dispõem de recursos diferentes para fazê-lo.

Uma voz tem alcance e tem limites

Idioleto é o conjunto de particularidades da linguagem de uma pessoa ou personagem. Para trabalhar o conceito, vamos além de um sotaque reconhecível. Observe a extensão dos raciocínios, o repertório de comparações, o grau de formalidade, a facilidade para nomear sentimentos e as palavras que provocam uma reação.

Uma personagem pode explicar com precisão como consertar uma máquina e não conseguir pedir companhia. Outra pode falar longamente sobre respeito e interromper a resposta de quem acaba de cobrar. Essa diferença entre capacidade verbal e dificuldade afetiva oferece mais material que um bordão colado em todas as entradas.

As escolhas também variam dentro da mesma pessoa. Alguém que dá ordens em casa pode pedir licença em excesso no trabalho. A mudança de situação faz parte da voz; não precisa ser tratada como falha de coerência.

O diálogo carrega uma tentativa

Considere uma primeira versão criada para esta oficina:

— Mãe, precisamos vender a máquina para pagar o aluguel, porque estou preocupada com você.

— Filha, compreendo sua preocupação, mas preciso preservar minha autonomia e continuar trabalhando.

As posições estão compreensíveis. O problema é que as duas parecem ter revisado um documento de mediação antes da conversa. Cada uma explica o próprio papel com uma disponibilidade que a cena talvez não sustente.

Agora, outra possibilidade:

— Ela vem às quatro. Só olhar.

— Põe a linha azul aqui.

— Mãe, você ouviu?

— Ouvi. Só não sei quem é “ela”.

— A mulher da máquina.

— A máquina tem uma mulher. Está sentada nela.

Lia administra a informação: primeiro apresenta a visita como algo pequeno, depois identifica a compradora de modo incompleto. Teresa não faz um discurso sobre autonomia. Interrompe o eufemismo e recupera sua posição na decisão.

A referência à linha mantém o trabalho na conversa. Dependendo do contexto, pode funcionar como adiamento, comando ou teste de atenção. Não é preciso que cada fala corresponda a uma única função.

Macabéa tenta conversar com Olímpico

Na aula 3, vimos Macabéa ouvir a Rádio Relógio de madrugada e guardar informações que talvez um dia pudesse usar. Quando conversa com Olímpico, ela encontra alguém a quem fazer as perguntas que o rádio deixa em aberto. Repare no que cada um faz com a pergunta do outro.

– Você sabia que na Rádio Relógio disseram que um homem escreveu um livro chamado Alice no País das Maravilhas e que era também um matemático? Falaram também em “élgebra”. O que é que quer dizer “élgebra”?

– Saber disso é coisa de fresco, de homem que vira mulher. Desculpe a palavra de eu ter dito fresco porque isso é palavrão para moça direita.

– Nessa rádio eles dizem essa coisa de “cultura” e palavras difíceis, por exemplo: o que quer dizer “eletrônico”?

Silêncio.

– Eu sei mas não quero dizer.

– Eu gosto tanto de ouvir os pingos de minutos do tempo assim: tic- tac-tic-tac-tic-tac. A Rádio Relógio diz que dá a hora certa, cultura e anúncios. Que quer dizer cultura?

– Cultura é cultura, continuou ele emburrado. Você também vive me encostando na parede.

– É que muita coisa eu não entendo bem. O que quer dizer “renda per capita”?

– Ora, é fácil, é coisa de médico.

– O que quer dizer rua Conde de Bonfim? O que é conde? É príncipe?

– Conde é conde, ora essa. Eu não preciso de hora certa porque tenho relógio.

Macabéa abre a conversa com uma informação e termina sua fala numa pergunta. O mesmo movimento volta com “eletrônico”, “cultura” e “renda per capita”. Olímpico reage primeiro ao tipo de pessoa que, na opinião dele, se interessaria pelo assunto. Mais adiante, devolve o termo que deveria explicar, como em “Cultura é cultura”. Quando diz que ela o encosta na parede, nomeia a pressão que sente. Ela usa a conversa para dar continuidade ao que escutou. Ele responde de modo a preservar a posição de quem sabe, mesmo quando a resposta pouco esclarece.

Mais tarde, depois da visita ao Jardim Zoológico, Olímpico acusa Macabéa de ficar calada. Ela recorre novamente ao repertório que vinha tentando dividir com ele.

Depois da chuva do Jardim Zoológico, Olímpico não foi mais o mesmo: desembestara. E sem notar que ele próprio era de poucas palavras como convém a um homem sério, disse-lhe:

– Mas puxa vida! Você não abre o bico e nem tem assunto!

Então aflita ela lhe disse:

– Olhe, o Imperador Carlos Magno era chamado na terra dele de

Carolus! E você sabia que a mosca voa tão depressa que se voasse em linha reta ela ia passar pelo mundo todo em 28 dias?

– Isso é mentira!

– Não é não, juro pela minha alma pura que aprendi isso na Rádio

Relógio!

– Pois não acredito.

– Quero cair morta neste instante se estou mentindo. Quero que meu pai e minha mãe fiquem no inferno, se estou enganando você.

– Vai ver que cai mesmo morta. Escuta aqui: você está fingindo que é idiota ou é idiota mesmo?

– Não sei bem o que sou, me acho um pouco… de quê? … Quer dizer não sei bem quem eu sou.

A informação sobre Carlos Magno, guardada no quarto desde a aula anterior, finalmente encontra uma ocasião. Macabéa a oferece para atender à cobrança de Olímpico. O assunto, porém, passa daquilo que ela aprendeu à acusação de que estaria mentindo. Olímpico termina exigindo que ela defina o que é. A pergunta que no primeiro trecho partia dela e buscava o significado das palavras agora vem dele e recai sobre ela.

A última fala registra a dificuldade dentro da própria frase. Macabéa começa tentando dizer o que é, interrompe a formulação e acaba perguntando, para si, quem é. Os dois modos de falar se distinguem também pelo que conseguem fazer na relação. Um interlocutor pode impor o assunto, contestar a resposta e transformar uma pergunta em acusação. O outro tem de descobrir se ainda consegue falar dentro dessas condições.

No seu exercício, experimente fazer uma pergunta mudar de função ao longo da cena. Uma pergunta de curiosidade pode receber como resposta uma defesa, uma ordem ou outra pergunta. Ouça o que acontece com a voz de quem precisa responder.

Clarice Lispector, A hora da estrela, edição com manuscritos e ensaios inéditos. Excertos do romance, nas conversas de Macabéa e Olímpico em torno da Rádio Relógio.

Não use repertório como fantasia de grupo social

Profissão, idade, região e experiência interferem na linguagem, mas não entregam uma pessoa pronta. Um médico não precisa falar como uma bula; uma trabalhadora rural não está impedida de construir abstrações; um adolescente não recebe um pacote obrigatório de expressões.

Pergunte o que a personagem conhece, com quem conviveu e o que a situação permite mostrar. Se ela usa um termo inesperado, isso pode integrar sua história. O texto deve sustentar a possibilidade, sem precisar anexar uma justificativa para cada palavra.

E cuidado com a eliminação de toda semelhança. Personagens próximos podem compartilhar ritmos, frases e vocabulário. Uma família constrói linguagem comum. A diferenciação precisa servir à relação e à leitura, não a uma competição de excentricidades.

Na bancada — A mesma notícia, outra boca

Retome a situação da aula 2 e escolha uma informação que interesse a dois participantes por razões diferentes. Escreva de 250 a 350 palavras de diálogo. Você pode incluir ações entre as falas.

Antes, registre para cada pessoa:

Pergunta Personagem A Personagem B
O que tenta obter da conversa?
O que sabe e o outro não sabe?
O que evita nomear diretamente?
O que pode exigir do interlocutor?
Que assunto ou palavra percebe primeiro?

Durante a escrita, deixe uma fala alterar a estratégia da outra pessoa. Um diálogo não precisa soar como duas declarações preparadas em quartos separados.

O teste sem etiquetas

Retire provisoriamente os nomes e as marcações de fala. Observe se reconhece diferenças de intenção, ritmo ou repertório. Se tudo for intercambiável, examine o pensamento que sustenta as frases antes de trocar palavras.

Isso é um diagnóstico, não a obrigação de identificar cada personagem por uma frase isolada. Há falas curtas e compartilháveis; há obras interessadas em vozes próximas; há cenas que dependem justamente de uma expressão repetida.

Recoloque as marcações necessárias para a leitura. O objetivo não é expulsar todos os “disse” da página. É construir pessoas que, ao dizer, calar ou rodear um assunto, estejam tentando viver naquela relação.

Guarde o diálogo. Na próxima aula, vamos examinar se a pessoa que está diante do protagonista tem uma vida em movimento ou foi contratada apenas para concordar com ele.

Aprofundamento opcional: “José Dias: um retrato que também descreve quem narra” e o estudo de Tudo é rio, para observar fala, silêncio e destinatário.

Para continuar

Leituras complementares

Do blog

← Aula anterior · Voltar ao curso · Próxima aula →

bottom of page