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Revisão Profissional para Autores Exigentes.  

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Tig & Nell, de Margaret Atwood


Tig & Nell

Margaret Atwood


PRIMEIROS SOCORROS



Nell chegou em casa um dia, pouco antes do jantar, e a porta estava aberta. O carro tinha sumido. Havia uma trilha de manchas de sangue na escada, e, ao entrar, ela seguiu as marcas pelo carpete do corredor até a cozinha. Tinha uma faca em cima da tábua de corte, uma das favoritas de Tig, aço japonês, muito afiada — e ao lado uma cenoura manchada de sangue, com uma das pontas cortada. A filha deles, na época com nove anos, não estava em lugar nenhum.

O que teria acontecido?

Assaltantes tinham invadido. Tig tentou se defender usando a faca (mas como explicar a cenoura?) e acabou ferido. Os bandidos fugiram com ele, a menina e o carro. Nell precisava chamar a polícia.

Ou então Tig estava cozinhando, cortou-se com a faca, achou que precisava levar pontos e foi de carro para o hospital, carregando a filha para não deixá-la sozinha. Era o mais provável. Ele devia estar com pressa demais para deixar um bilhete.

Nell pegou o tira-manchas e borrifou as marcas de sangue: seria muito mais difícil tirá-las do carpete depois de secas. Em seguida, limpou o sangue do piso da cozinha e, depois de uma pausa, da cenoura. Estava em perfeitas condições; desnecessário desperdiçar.

O tempo passou. E o suspense foi aumentando. Ela já estava a ponto de telefonar para os hospitais ali por perto e perguntar por Tig quando ele voltou, com uma atadura na mão. Parecia tranquilo, assim como a filha. Tinha sido uma aventura e tanto! O sangue simplesmente jorrava, disseram. O pano de prato que Tig usou para envolver o corte ficou ensopado! Sim, foi difícil dirigir, disse ele — evitando a palavra perigoso —, mas não dava para esperar um táxi, e deu tudo certo usando basicamente uma das mãos, pois precisava manter a outra erguida, e o sangue escorria pelo cotovelo, e no hospital logo trataram de dar os pontos, pois pingava o tempo todo, e, enfim, foi isso! Felizmente nenhuma artéria fora atingida, o que seria outra história. (E de fato foi, quando Tig a contou apenas para Nell pouco depois: aquela valentia toda fora fingimento — para não assustar a menina — e ele ficou com medo de desmaiar se continuasse perdendo sangue, e aí o que aconteceria?)

— Preciso beber alguma coisa — disse Tig.

— Eu também — concordou Nell. — Posso fazer ovos mexidos.

Fosse lá que prato Tig pretendesse preparar com a cenoura, agora não fazia mais sentido.

O pano de prato voltou num saco plástico. Um vermelhão só, mas começando a ficar marrom nas bordas. Nell o mergulhou em água gelada, o melhor a fazer em caso de tecidos manchados de sangue.

Mas o que eu teria feito se estivesse aqui?, perguntava-se.

Um simples Band-Aid não adiantaria. Um torniquete? Ela aprendera a fazer, por alto, na época das bandeirantes. Também ensinavam a cuidar de torções no punho. De emergências sem gravidade ela dava conta, mas das graves, não. As graves eram com Tig.

Isso foi algum tempo atrás. No início do outono, ela se lembra, mais ou menos no fim da década de 1980. Na época já havia computadores pessoais, daqueles bem pesadões. E impressoras: o papel vinha com as páginas presas verticalmente umas às outras e com buracos nas laterais, em tiras perfuradas destacáveis. Mas não havia celulares, e por isso Nell não pôde telefonar nem mandar mensagem perguntando onde Tig estava, e por que aquele sangue todo.

Como a gente tinha que esperar, pensa ela. Esperar sem saber. Tantas lacunas que não dava para preencher, tantos mistérios. Tão pouca informação. Agora estamos na primeira década do século XXI, o espaço-tempo é mais denso, abarrotado, mal dá para se mexer, com o ar sobrecarregado disso e daquilo. Não dá para se livrar das pessoas: sempre em contato, por perto, a um toque de distância. Melhor ou pior?

Ela volta a atenção para a sala onde os dois estão neste exato momento. Num desses arranha-céus sem personalidade da Bloor Street, perto do viaduto. Ela e Tig estão sentados em cadeiras que mais parecem carteiras escolares — e de fato há um quadro branco à frente deles —, e um sujeito chamado sr. Foote está falando. Os ocupantes das outras cadeiras, também ouvindo o sr. Foote, são pelo menos trinta anos mais jovens que Tig e Nell; alguns talvez sejam até quarenta anos mais jovens. Crianças.

— Num acidente de moto — diz o sr. Foote — não se tira o capacete do acidentado, certo? Ninguém sabe o que vai encontrar, né?

Com as mãos estendidas, ele desenha círculos à frente, como se limpasse uma vidraça.

Faz sentido, pensa Nell. Ela imagina a viseira toda ensanguentada de um capacete. Por trás, um rosto que já não é um rosto. Um mingau de rosto.

O sr. Foote tem um talento especial para imagens evocativas assim. Fala de forma direta — o que seria de se esperar, já que nasceu em Newfoundland. Não fica cheio de dedos. Tem uma compleição sólida: tronco largo, pernas grossas, pouca distância entre orelhas e ombros. Tudo bem equilibrado, com um centro de gravidade baixo. Não seria nada fácil derrubar o sr. Foote. Nell supõe que já tenham tentado, em algum bar — ele parece do tipo que se sairia bem numa briga de botequim, mas também do tipo que só se meteria em algo assim se não corresse o risco de perder. Em situações extremas, deve jogar o adversário pela janela, calmamente — “Carece de manter a calma”, já disse duas vezes —, e depois checar se não quebrou nenhum osso. Em caso positivo, providenciaria uma tala e trataria os cortes e as escoriações da vítima. O sr. Foote é pau para toda obra. Na verdade, é paramédico, mas disso só ficaremos sabendo mais tarde.

Ele tem nas mãos uma pasta de couro preto e veste um moletom de manga comprida com zíper na frente e com o logotipo da St. John Ambulance, como se fosse um treinador, o que de certa maneira não deixa de ser: ele ensina primeiros socorros. No fim do dia haverá um teste e os participantes receberão um certificado. Estão todos aqui porque precisam dele: foram mandados por suas empresas. Nell e Tig também. Graças a um conhecido da família de Tig, os dois fazem palestras num navio de cruzeiros ecológicos, pássaros no caso dele, borboletas, no dela: são os seus hobbies. Tecnicamente, portanto, fazem parte da tripulação, e todos no navio precisam do certificado. É obrigatório, como informou seu contato no navio.

O que não lhes disseram é que, em sua maioria, os passageiros — os turistas, a clientela — já estão na melhor idade, para recorrer a um eufemismo. Alguns são mais velhos que Nell e Tig. Anciãos, portanto. Gente que pode desmoronar a qualquer momento e, nesse caso, haja certificado.

Nell e Tig não têm grande probabilidade de salvar ninguém: os mais jovens logo entrarão em campo, Nell está contando com isso. Se for o caso, vai se afobar e dizer que esqueceu o que precisa fazer, e será verdade. E Tig, o que fará? Vai falar: “Para trás, abram espaço.” Algo do tipo.

Todo mundo sabe — é o que dizem — que esses navios sempre têm congeladores extras, só por via das dúvidas. Nell imagina o horror de um empregado ao abrir a porta errada e dar com o olhar de pavor congelado de algum infeliz passageiro para o qual o certificado não foi suficiente.

De pé diante da classe, o sr. Foote passa os olhos pela turma do dia. A expressão no seu rosto pode ser considerada neutra, ou talvez um pouco divertida. Provavelmente está pensando: bando de molengas ignorantes. Bichos urbanos.

— Temos que pensar no que fazer e no que não fazer — anuncia. — Vou explicar os dois. Primeiro, carece de não sair gritando feito galinha sem cabeça. Mesmo se o sujeito estiver de fato sem cabeça.

Só que galinhas sem cabeça não gritam, pensa Nell. Ou pelo menos é o que presume. Mas deu para entender. Manter a calma nas emergências, como se diz. O sr. Foote acrescentaria: “Se der.” Ele certamente gostaria que mantivessem a cabeça no lugar.

— Muita coisa pode ser resolvida — continua o sr. Foote. — Mas não se a cabeça não estiver no lugar. Isso daí eu não posso ensinar, pessoal.

É uma piada, supõe Nell, mas o sr. Foote não deixa transparecer. Sempre impassível.

— Digamos que você esteja num restaurante. — Depois de tratar de acidentes de moto, o sr. Foote passou para a asfixia. — E o sujeito se engasga. O que precisa saber é: ele consegue falar? Pergunte se pode dar uns tapas nas costas dele. Se responder que sim verbalmente, a situação já não está tão ruim, afinal ele ainda consegue respirar, né? Mas o mais provável: muita gente se sente constrangida, levanta e faz o quê? Vai para o banheiro, não quer causar alvoroço. Chamar atenção. Mas é preciso ir atrás, é preciso seguir a pessoa, pois ela pode morrer. Estatelada ali no chão, sem nem ter tempo de ver o que aconteceu.

Ele faz um gesto significativo com a cabeça. Ele sabe de casos, diz o gesto. Já vivenciou essa situação. Já viu acontecer. E chegou tarde demais.

O sr. Foote sabe do que fala, pensa Nell. Exatamente a mesma coisa quase aconteceu com ela uma vez. Engasgar, ir para o banheiro, não querer estardalhaço. Constrangimento pode matar, ela agora se dá conta. O sr. Foote acertou na mosca.

— O passo seguinte é fazer a pessoa se inclinar para a frente — prossegue o sr. Foote. — Cinco pancadas nas costas: capaz de o naco de carne, o salgadinho, a espinha de peixe, ou o que for, ser expelido ali mesmo. Caso contrário, passamos à manobra de Heimlich. O negócio é que, se a pessoa não conseguir falar, não terá como permitir nada, e ainda pode começar a ficar azul e desfalecer. Não dá para esperar. Você pode até quebrar uma costela, mas ela não vai morrer, né? — Ele esboça um sorrisinho, ou pelo menos é a impressão que dá a Nell. Uma espécie de contração da boca. — Esse é o objetivo, né? Não morrer!

Eles ensaiam a manobra de Heimlich e a melhor maneira de bater nas costas da pessoa. Segundo o sr. Foote, a combinação das duas coisas quase sempre funciona, mas é preciso ser rápido: em matéria de primeiros socorros, não perder tempo é essencial.

— Por isso são chamados primeiros, né? Não é o maldito fiscal do leão, com perdão da má palavra, eles podem levar o tempo que quiserem, mas vocês só vão ter quatro minutos e olhe lá.

Agora uma pausa para o lanche, ele anuncia, e depois passaremos a afogamentos e respiração boca a boca, seguidos de hipotermia; após o almoço, ataques cardíacos e desfibrilador. Muita coisa para um dia só.

Afogamentos são muito simples.

— Primeiro é preciso tirar a água dos pulmões. Vai ajudar se você fizer uso da gravidade, né? Vire a pessoa de lado, para esvaziar, mas tem que ser rápido. — O sr. Foote tem experiência com afogamentos: passou a vida inteira perto do mar. — Vire a pessoa de barriga para cima para limpar as vias respiratórias, cheque a respiração, cheque o pulso e peça a alguém para chamar a ambulância. Se a pessoa não estiver respirando, é preciso começar a respiração boca a boca. Então… esse negócio que estou mostrando aqui é um protetor bucal de RCP para o boca a boca, pois a pessoa pode vomitar… Bem, você não vai querer que entre pela sua boca. E, de qualquer maneira, tem os germes, né? Carece de ter sempre um desses à mão.

O sr. Foote tem um pequeno estoque à disposição. Podem ser comprados no fim do dia.

Nell decide comprar um. Como é que conseguiu viver até hoje sem um protetor bucal? Absurdo.

Para a prática do boca a boca, os alunos são divididos em pares e recebem um torso de plástico vermelho com uma cabeça branca e careca inclinada para trás e uma esteira de ioga para ajoelhar enquanto os dois salvam a vida do boneco. Aperte as narinas, cubra a boca com a sua, sopre cinco vezes, enchendo o peito de ar, e pressione cinco vezes a caixa torácica. Repita. Enquanto isso, a outra pessoa chama a ambulância, e os socorristas vão continuar com as compressões. Elas podem ser cansativas, deixam os punhos doloridos. O sr. Foote percorre a sala, verificando a técnica de cada um.

— Está no caminho certo — diz.

Tig alega que, como já está ajoelhado na esteira, Nell terá que chamar a ambulância para levantá-lo do chão, considerando-se o estado dos seus joelhos. Nell esboça uma risadinha com os lábios na boca de plástico, comprometendo o salvamento.

— Só espero que ninguém se afogue no nosso turno — diz. — Provavelmente vão continuar afogados mesmo.

Tig acha que é uma maneira relativamente indolor de passar para o outro lado. Dizem que a pessoa ouve sinos.

Após salvar todos os torsos de plástico, eles passam para hipotermia e choque. Nos dois casos, com uso de cobertores. O sr. Foote conta a história impressionante de um sujeito que foi para uma estação de esqui e saiu do chalé para urinar, sem lanterna, em um terreno coberto por uma espessa camada de neve, caiu numa área de derretimento em torno de uma árvore, não conseguiu mais sair, e só foi encontrado na manhã seguinte. Estava gelado e duro feito pedra, contou o sr. Foote, sem sombra de respiração, o coração num silêncio tumular. Mas uma pessoa do chalé tinha feito o curso de primeiros socorros e ficou tentando reanimar o camarada, possivelmente morto, durante seis horas — seis horas! — e conseguiu trazê-lo de volta.

— Persistir sempre. Nunca desistir — diz o sr. Foote. — Nunca se sabe.

Hora do almoço.

Nell e Tig encontram um pequeno restaurante italiano perdido num daqueles arranha-céus sem alma, pedem uma taça de vinho para cada e comem uma boa pizza. Nell diz que vai mandar fazer um cartão de visita com os dizeres “Em caso de acidente chame o sr. Foote”, e Tig propõe a candidatura do sr. Foote para primeiro-ministro, pois assim poderá fazer boca a boca no país inteiro. Ele acha que o sr. Foote esteve na Marinha. Nell discorda, ele é espião. Tig pondera que talvez tenha sido pirata, e Nell de novo diz que não, só pode ser um alienígena do espaço sideral, e o fato de ser um instrutor de primeiros socorros chamado sr. Foote é o disfarce ideal.

Os dois se sentem perfeitos idiotas, além de incompetentes. Nell tem certeza de que, se enfrentar qualquer dessas emergências — o afogado, a pessoa em choque, o congelado —, vai entrar em pânico e tudo que o sr. Foote ensinou vai desaparecer da sua cabeça.

— Mas pode dar certo com mordidas de cobra — diz. — Aprendi um pouco disso com as bandeirantes.

— Acho que o sr. Foote não lida com mordidas de cobra — retruca Tig.

— Aposto que sim. Mas só em aulas particulares. É um nicho.

A tarde é emocionante. São distribuídos desfibriladores de verdade, cujas almofadas são aplicadas com precisão aos torsos de plástico. Cada um tem a sua vez. O sr. Foote explica como devem evitar desfibrilar-se acidentalmente — o coração pode se confundir e decidir parar. Nell murmura para Tig que morrer de autodesfibrilação não seria nada digno. Pior seria morrer enfiando um garfo na tomada, responde ele.

Verdade, ela pensa. É preciso ter cuidado com isso com crianças pequenas.

Chega o momento do teste. O sr. Foote garante que todo mundo vai passar: dá dicas escancaradas das respostas e pede que levantem a mão se não entenderem alguma pergunta. Receberão os certificados por email, anuncia, fechando a pasta de couro preto — com alívio, imagina Nell. Mais uma fornada de imprestáveis saindo da fábrica, e queira Deus que nenhum deles se envolva em alguma emergência de verdade.

Nell compra um dos protetores bucais de RCP. Queria dizer ao sr. Foote que gostou das suas histórias, mas pode parecer tolice, como se fosse mero entretenimento, como se não o levasse a sério. Ele poderia se ofender. Diz então um simples obrigada, e ele responde com um aceno de cabeça.

Já em casa com Tig — no dia seguinte, ou talvez dois dias depois —, ela faz um apanhado das experiências de risco de vida pelas quais já passaram, ou de experiências que ela temia serem de risco. Até que ponto podia se considerar preparada?

A vez em que a chaminé de metal provocou um incêndio por baixo do telhado, e Tig teve que subir e rastejar no vão, quase sufocando na nuvem de fumaça, para jogar baldes d’água no forro. E se ele tivesse desmaiado lá em cima, asfixiado? Depois do incidente, Tig comprou uma manta antichamas e sempre havia extintores de incêndio em todos os andares de todas as casas onde moraram. Ele se preocupava até nos hotéis, certificando-se da localização das escadas, por via das dúvidas. As janelas também: podiam ser abertas? Cada vez mais, os hotéis passaram a ter janelas herméticas, mas talvez fosse possível quebrar o vidro, com o braço protegido por uma toalha. Mas de nada adiantaria se a janela fosse muito alta.

A vez em que Tig disparou todos os alarmes de incêndio num hotel de trinta andares ao acender um charuto bem embaixo do sensor de um corredor. Os dois desceram os lances de escada em uma corrida desabalada e saíram pelo saguão cheio de bombeiros, fingindo que não era com eles. Esse evento não teve muito risco. Nem chegou a ser constrangedor, já que não foram descobertos.

A vez em que estavam na estrada e se soltou à frente deles a carga de um caminhão madeireiro: as tábuas iam caindo, quicavam no asfalto e eram projetadas longe, por pouco não os atingiram. E no meio de uma nevasca, ainda por cima. Não adiantaria nada saber fazer boca a boca.

A vez em que faziam canoagem num dos Grandes Lagos e a canoa foi virada por uma onda traiçoeira provocada por um navio a vapor. Nenhum risco de vida: estavam perto da praia, a temperatura da água era boa. Apenas se molharam, nada mais.

A vez em que Tig chegou aos berros no quadriciclo, rebocando uma carreta cheia de madeira que cortara com a motosserra, com sangue escorrendo pelo rosto, de um ferimento no couro cabeludo que nem tinha percebido. Nenhuma vida em risco: ele nem se dera conta.

— Está escorrendo sangue no rosto dele — disse Nell às crianças, como se elas não estivessem vendo.

— Sempre tem sangue escorrendo no rosto dele — retrucou uma delas, dando de ombros. Para elas, ele era indestrutível.

— Devo estar cheio de sangue — disse Tig com um sorriso amarelo.

Onde diabos teria esfolado a cabeça? Não foi nada que merecesse muita atenção. No minuto seguinte ele estava descarregando a madeira, e logo depois a serrando: já estava seca, andara ceifando árvores mortas. E aí, paf!, enchendo a caixa de lenha para fogueira. Nessa época eles levavam a vida no modo acelerado.

As caminhadas que faziam quando não havia celulares: nenhum dos dois pensava em grandes riscos. Será que sequer levavam um kit de primeiros socorros? Talvez curativos para bolhas, pomada antibiótica, analgésicos. O que teria acontecido se um deles torcesse o tornozelo, quebrasse a perna? Talvez nem dissessem a alguém aonde iam…

Certo outono, por exemplo, num parque nacional. Mau tempo: neve e gelo antes da época.

Caminhando pela floresta de faias amarelas e douradas com suas enormes mochilas de viagem, sondando a superfície de lagos congelados com os bastões de marcha, consultando mapas de trilhas e divergindo sobre os caminhos a seguir. Comendo tabletes de chocolate e parando para almoçar: aboletados em troncos caídos, devorando fatias de queijo, ovos cozidos, nozes e biscoitos. Um cantil de rum.

Tig já tinha problemas nos joelhos, mas ainda assim encarava as caminhadas. Atava bandanas em torno de cada um, acima e abaixo.

— Por que insiste em caminhar? — perguntou um médico certa vez.

— Para dizer a verdade, você nem tem joelho.

Mas isso foi muito depois.


um alce pulando em um penhasco

Naquele ano circulava uma lenda urbana sobre um perigo rondando as trilhas, segundo a qual na temporada de outono — exatamente a daquele momento — os alces machos sentiam atração sexual por Fuscas. Andavam saltando do alto dos penhascos, esmagando carros e motoristas. Nell e Tig acharam que era uma enorme besteira, mas acrescentavam um “provavelmente”, afinal as coisas mais estranhas podem mesmo acontecer.

Montaram a barraca numa área agradável, prepararam o jantar no fogareiro a gás de uma boca, penduraram os recipientes de comida numa árvore a alguma distância, para se prevenir dos ursos, e se enfiaram nos sacos de dormir gelados.

Nell ficou acordada, refletindo sobre o fato de a barraca, com sua forma abobadada, parecer um bocado com um Fusca. E se um alce aparecesse no meio da noite e pulasse em cima deles? E se ficasse furioso ao descobrir o erro? Todo mundo sabe que os alces ficam enfurecidos na época do acasalamento. Podia ser um sério risco.

Na luz clara do amanhecer, a possibilidade de serem esmagados por um alce já parecia remota. Não propriamente um risco de vida, exceto na cabeça de Nell.

No ano seguinte, um casal que fazia exatamente aquela trilha morreu atacado por um urso e foi parcialmente comido na barraca. Tig ficou achando que tinham escapado por pouco. Começou a ler em voz alta para Nell, à noite, um livro chamado Ataques de ursos. Eram dois os tipos de ursos que atacam, segundo o autor: ursos com fome e mães ursas protegendo os filhotes. A reação recomendada divergia para cada caso, mas não era apresentado um método para entender a diferença. Quando se fazer de morto, quando sair de fininho, quando resistir ao ataque? Nem se distinguia o tipo de urso: negro ou cinzento? As instruções eram complexas.

— Não acho bom a gente ler essas coisas antes de dormir — disse Nell.

Eles tinham chegado à história de uma mulher que teve o braço abocanhado e arrancado, embora no fim tivesse conseguido afugentar o urso batendo no focinho dele.

— Ela devia ter nervos de aço — observou Tig.

— Deve ter ficado em estado de choque — acrescentou Nell. — A pessoa fica com poderes sobre-humanos.

— De qualquer maneira, sobreviveu — concluiu Tig.

— Por pouco — retrucou Nell.

Tudo isso por acaso serviu para dissuadi-los de persistir em suas mal equipadas caminhadas? Não. Mas Tig comprou um spray antiurso. Quase sempre eles se lembravam de botá-lo na mochila.

Revisitando as histórias — depois de um tempo, depois de muitas vezes, o hábito de revisitar se instaura —, Nell se pergunta se as instruções do sr. Foote teriam feito alguma diferença nessas situações, na hora do pega pra capar. Talvez no caso do incêndio na chaminé: se ela tivesse conseguido rebocar Tig, já inconsciente, do vão por baixo do telhado, talvez pudesse tentar salvá-lo com a respiração boca a boca enquanto a casa desmoronava. Mas ser comido por um urso ou esmagado por um alce? Sem possibilidade de resgate.

O sr. Foote tinha razão: não dá para adivinhar. Ninguém pode saber de onde virá a salvação, e por sinal por que falam de salvação? Ninguém se salva, no fim das contas. “Não vamos sair daqui vivos ”, costumava brincar Tig, embora não fosse nem um pouco engraçado. E se desse para adivinhar, se fosse possível prever, por acaso seria melhor? Não: a pessoa ficaria sofrendo o tempo todo, lamentando coisas que nem tinham acontecido ainda.

Melhor manter a ilusão de segurança. Melhor improvisar. Melhor ir caminhando pela dourada floresta outonal sem se preparar muito, testando a superfície das lagoas geladas com o bastão de marcha, comendo chocolate, sentando em troncos gelados, descascando ovos cozidos com dedos frios enquanto os primeiros flocos de neve começam a cair e o dia escurece. Ninguém sabe onde você está.

Será que eles eram mesmo tão despreocupados assim, tão descuidados? Sim. O descuido dera muito certo.


CHAMUSCADOS


John tentou dar um tiro na cabeça, mas pegou no radiador — disse François. E deu aquele risinho mudo nas bochechas rosadas. — Mas ele não pode saber que eu contei.

— Como assim, “no radiador”? — perguntei. François nem sempre era muito claro.

— Ele queria se matar — respondeu ele —, mas mudou de ideia e acertou no radiador.

E fez uma pausa, me dando tempo para perguntar É mesmo? com o esperado arquear de sobrancelhas.

— Exatamente! É o que parece — prosseguiu. — O piso está todo alagado. Ele chamou um encanador. Está furioso.

— Minha nossa! — falei.

John fora nosso senhorio no inverno, mas a essa altura Tig e eu já estávamos alugando outra casa. John costumava vir de Paris para ver como estávamos, ele dizia, mas desconfio que o verdadeiro motivo era ter algum público além da esposa francesa, sempre cética. Ficava num quarto que mantinha para si e só saía para inspecionar o terreno, discutir com os vários ajudantes que empregava para consertar coisas e jantar com a gente de vez em quando.

Eu então me acostumei com seus acessos de raiva, que podiam acontecer a qualquer momento. Também sabia onde ficava o tal radiador: numa entrada dos fundos junto à cozinha. Era onde John limpava a espingarda, ou as espingardas. Eu não sabia ao certo quantas. No que será que atirava com ela, ou com elas? Porcos-do-mato, possivelmente, uma vez. Os bichos se espalhavam pelas colinas; arrancavam as videiras pela raiz, e também serviam para fazer salsicha. Mas com certeza John não tinha caçado porcos-do-mato recentemente: não estava mais em forma.

— No radiador! É hilário — exclamou François, com mais caretas divertidas. — Mas não deixe John perceber que você sabe. Ele ficaria melindrado.

Era assim a relação dos dois. Risos, por um lado, e, por outro, ataques de fúria. Eram muito amigos: um irlandês magricela e explosivo e um francês baixinho, rechonchudo e afável. Uma dupla surpreendente. Mas, se John podia esbravejar contra qualquer um ou qualquer coisa em seus rompantes, nunca se voltava contra François. E François se preocupava com o estado emocional de John como se o amigo fosse um gatinho abandonado — e François tinha adotado vários.

A explicação: ambos haviam ido para a guerra.

Agora já estavam mortos. Algo que ocorre cada vez mais: as pessoas morrem. O incidente do radiador aconteceu no início da década de 1990, quando os dois deviam ter… quantos anos? Preciso fazer as contas para trás. John estivera na Marinha britânica, digamos que tivesse dezoito, dezenove ou vinte anos em 1939. Na época do tiro no radiador, portanto, estaria com setenta e poucos. François era três ou quatro anos mais moço.

Ambos me introduziram às respectivas histórias naquele ano. Como sabiam o tipo de pessoa que eu era, também sabiam — na verdade esperavam — que um dia eu contasse suas vidas. E por que esperariam? Por que alguém deseja algo assim? É difícil aceitarmos a ideia de que nos tornaremos simples punhados de pó, e por isso queremos nos transformar em palavras. Um sopro na boca dos outros.

Cavalheiros, chegou a hora. Farei o melhor que puder pelos senhores. Estão ouvindo?

Devo agora montar a cena, o cenário em que vim a conhecê-los.

A casa de John — a que Tig e eu alugamos naquele inverno — ficava numa protoaldeia na Provença: algumas casas espalhadas em torno de uma encruzilhada, a maioria em propriedades agrícolas. Havia porcos desgarrados (acessos de fúria por causa dos porcos). Muita lama nas estradas (fúria por causa da lama). Havia vizinhos com casacos de malha pesada e macacões imundos (fúria com os vizinhos). A casa de John, contudo, não ficava numa propriedade rural. Devia ter pertencido em algum momento a um membro qualquer da aristocracia, da qual John podia ser considerado um representante moderno: um apartamento espaçoso em Paris, perto da igreja de Saint-Germain; uma aposentadoria que lhe facultava certas benesses, como viagens e restaurantes; e a casa de campo que alugamos.

Era uma casa de dois andares, de pedra, século XVIII, com as janelas altas de venezianas características da época e do lugar. Tinha uma cerca de ferro com portão, um jardim nos fundos e um pórtico voltado para o sul, com as colunas enlaçadas por glicínias. O interior era um dos mais belos que Tig e eu já havíamos visto. Mas, apesar da beleza, sempre nos pareceu algo indistinto, como que visto numa bruma: as cores meio desbotadas, os contornos meio indefinidos. Os móveis não eram confortáveis nem convenientes, mas eram autênticos. John fez questão de deixar isso bem claro, embora o gosto requintado fosse da esposa, e não dele. (Ele nunca teve acessos de fúria envolvendo essa mulher que ninguém via, pelo menos não quando estávamos por perto.)

Durante a guerra, a casa pertenceu a um inglês de tendências políticas duvidosas. No fim do conflito, ele foi encontrado assassinado na varanda das colunas e glicínias que dava para o adorável jardim, à luz do sol. Bala na cabeça. Nenhuma arma à vista, descartando, portanto, suicídio.

— Por quê? — perguntei a John.

Ele deu de ombros e seguiu com um miniataque de reclamações sobre a criminalidade e a mania de segredo da região. Ninguém sabia por quê. Ou melhor, alguém devia saber, mas ninguém dizia. Assim era na época, explicou John; e continuava sendo, por baixo dos panos. Nunca dava para saber quando a vingança viria, por alguma infame perfídia política ou um sai-pra-lá ofensivo, uma rixa causada por alguma rapariga sifilítica, uma disputa de terras, sempre havia disso, ou em torno dos dois grandes favoritos: roubo de caracóis — se alguém pusesse as mãos nos caracóis de outro, era enforcamento na certa — e colheita ilegal de trufas, justificando castração com facão enferrujado.

E bem feito, disse John, quem manda ser tão imbecil?!

A mata estava cheia de avisos ameaçadores sobre armadilhas e venenos, para dissuadir possíveis meliantes com seus cães farejadores de trufas. Certa vez, caminhando nas colinas, demos com dois enormes ossos carcomidos, deviam ser ossos de vaca, amarrados em forma de cruz diagonal e pendurados numa árvore. E se fosse bruxaria? Uma advertência, mas sobre o quê, para quem? Estávamos afastados da trilha principal; ninguém andava por ali.

— Não toque nisso — disse Tig.

De qualquer maneira eu não tocaria. Já havia moscas rondando, com aquele fedor de carne podre.

Contamos a John a história dos ossos, o que provocou um novo discurso enfurecido contra as manias tenebrosas da região. Malditos camponeses, ignorantes crassos, chafurdando na lama feito uns descerebrados, emmerdeurs, contrabandistas, ladrões. Respeito zero pela civilização, ou pela lei, que é o que é, e pronto.

Mas talvez fosse uma questão de memória histórica, ponderei. Desconfiança da autoridade. A região fora palco de várias ondas de insurreições ao longo dos séculos: cátaros, evangélicos valdenses… (Na época eu andava lendo guias de turismo.)

John deu um berro. Cátaros? Eu estava me metendo com essas besteiras? Danem-se os cátaros, pois não eram perfeitos?, seres superiores?, ninguém estava nem aí para eles, só vendedores de souvenirs baratos made in China e de artesanato ordinário com cheiro de alfazema; e que se danem os valdenses, hipócritas pretensiosos e babões de Bíblia sem alegria na vida! Todos eles… só dois exemplos desses beatos tarados que sempre aparecem quando entra em cena alguma religião.

Mas tinham sido cruelmente perseguidos, insisti. Os cátaros. Não foi Simão de Monforte que incendiou Carcassona — todo mundo que estava dentro das muralhas da cidade, inclusive mulheres e crianças — dizendo: “Matem todos, Deus vai saber quem são os Seus”?

Nesse momento, Tig escapuliu até a cozinha para se servir de uma dose de uísque. Ele não se interessava muito pelo dualismo do século XIII, por heresias em geral nem massacres; bem diferente de mim. Na época, eu colecionava as diferentes desculpas que as pessoas invocam para massacrar umas às outras.

Mas John era um conhecedor de heresias. Não, disse, não foi Simão de Monforte, o que furava olhos e rasgava bocas, foi algum abade católico babão; e não foi Carcassona, foi Béziers: uma orgia sanguinária generalizada, seguida de churrasco humano, o fedor deve ter sido de lascar. Se eu estava a fim de me meter na história da França — o que ele não recomendava, era uma infindável sucessão de banhos de sangue e ossadas —, que pelo menos me informasse direito. De qualquer maneira, danem-se as perseguições! Eram heréticos, sabiam o que estavam fazendo, esperavam o quê? Ficariam decepcionados se não fossem perseguidos, todos uns masoquistas mesmo, deitando e rolando no sofrimento e dando a volta por cima, que se fodam, e um brinde aos católicos, que eram bons de perseguição, isso ele tinha que reconhecer.

Não que fosse católico. Danem-se os católicos, especialmente os irlandeses! John reservava um círculo especial no inferno para os conterrâneos, e não se cansava de anedotas sobre a corrupção dos políticos, a depravação dos padres e a tagarelice rasteira do campônio irlandês. O engraxate polindo seus sapatos com graxa de duas cores diferentes num hotel metido e decadente de Dublin, nos velhos tempos, o mecânico completando o óleo do carro e perguntando: “E o que vai ser agora?” Todos eles: não sabem a diferença entre aurora boreal e abóbora no areal.

Eu não queria largar mão dos hereges. Mas e os protestantes não conformistas?, perguntei, tentando trazê-lo de volta ao assunto. Especialmente no sul da França. Recusavam-se a entrar na linha. Não tinha a ver com a força da Resistência Francesa aqui na região, durante a guerra? Não era o caso dos guerrilheiros maquis, que se escondiam nas montanhas e à noite desciam para se infiltrar e assassinar ocupantes alemães e explodir as ferrovias?

Mas que diabo de vadia americana imbecilizada eu era?, John se irritou. Não sabia quantos aldeões inocentes foram alinhados ante o pelotão de fuzilamento em retaliação à encenação inútil e exibicionista dos maquisards? Aquele heroísmo todo não fez a mínima diferença, pura carnificina em busca de emoções baratas. Danem-se os maquis!

Quando acabavam os motivos de crítica, ele se fechava no quarto e (desconfio) chorava. Por trás da arrogância, era sentimental, como costumam ser os furiosos. Um dia provavelmente imaginara — e talvez ainda imaginasse — como as coisas seriam num mundo melhor que o nosso, mas eu nunca descobri.

Eu não tinha muita certeza do que John fizera na guerra, mas o que quer que tivesse sido, não foi nada divertido. Ele esteve no Pacífico, onde uma enorme quantidade de navios da Marinha Real foi a pique e cinquenta mil homens morreram. Será que o seu navio havia sido torpedeado? Ele quase morrera afogado? Não falava muito da guerra, exceto para xingar os americanos, que ficaram com todo o crédito pelo que foi feito no Pacífico Sul. Praticamente ninguém lembrava que os britânicos tinham participado.

Quanto a South Pacific, o musical, ao qual foi arrastado por uma mulher, bêbado demais para resistir, dava-lhe vontade de vomitar. Danem-se aqueles marinheiros dançando! Dane-se a loura oxigenada querendo esquecer seu homem! Aquelas figuras cantantes metidas a engraçadas nunca tinham estado cara a cara com um camarada saudável e, de repente, zapt, cabeça cortada, sangue jorrando… Que se danem!

Depois da guerra ele fez uma carreira brilhante na publicidade; daí a rica aposentadoria. Foi em Nova York (que se dane Nova York, só tem vigarista) e também em Toronto (que se dane Toronto, gente medrosa, pudica e provinciana chafurdando na lama), na época de ouro dos publicitários que mandavam ver na bebida, prontos para te apunhalar pelas costas na primeira bobeada, só dava pirata, e ele era um deles.

Na época, os produtos de grande sucesso para a publicidade eram cigarro e bebida; e qualquer coisa que tivesse a ver com limpeza, pois a guerra fora tão imunda e asquerosa que todo mundo queria se esfregar até ficar roxo. Brilhando de tão limpo, um novo começo, essa era a palavra de ordem. Ele próprio se especializou em xampus. E em permanentes feitos em casa — a grande descoberta da época, torturar o couro cabeludo em nome da beleza — e tinturas para o cabelo. Dizia ter inventado um slogan que ficou famoso: “Só o seu cabeleireiro vai saber.” Uma tirada genial, de fato: insinuar um segredo compartilhado, com sugestão de escapulidas sexuais. O que não teria acontecido nos bastidores da sessão de fotos para extrair aquele sorriso beatífico da modelo, o olhar malandro de rabo de olho! Andando pelos cantos com o cabeleireiro! Aos amassos no provador, a vadiazinha.

O que não faltava nesses anúncios era insinuação; e, entre os homens que os concebiam — eram sempre homens, nada de solteironas carreiristas castradoras e mandonas, reprovando isso e aquilo e estragando tudo —, um bocado de escapulidas. O próprio John estava sempre saçaricando por aí, ao que dizia. Ah, se fosse contar tudo, ninguém ia acreditar! Era bonitão — ele não disse nada, mas mostrou fotos. Bons tempos, não se pensava no amanhã. Pulando de cama em cama, interessadas não faltavam, muita dona de casa louca para dar, enganando o marido, uma emoção a mais, se lixando para a cautela no calor do momento, linguinhas rosadas para fora, e ele sempre por perto, pronto para servir.

Seria assim mesmo?, eu me perguntava. Não podia ser tão livre, leve e solto. Era a década de 1950, início da década de 1960: nada de anticoncepcional. As escapadelas improvisadas deviam ter cheiro de borracha, dos trecos que tinham que ser inseridos em alguma parte do corpo ou vestidos em outra. Provavelmente requeriam variados tipos de gel, espumas e cremes, hoje em dia antiquados como espartilhos. As donas de casa que se deixavam seduzir por John no calor do momento — com uma aparência de relutância, claro — deviam estar muito mais preparadas do que ele imaginava.

Mas nada disso eu disse.

Como no boliche, segundo ele. Elas eram derrubadas. Enquanto isso ele ganhava rios de dinheiro no jogo publicitário, e gastava com a mesma facilidade, bebendo na hora do almoço. E depois bebendo no jantar. E bebendo no café da manhã. Até que o médico disse que, se não parasse de beber, ia morrer.

Ele e um amigo alcoólatra se internaram numa clínica de reabilitação, mas no primeiro dia pularam o muro dos fundos e enterraram meia dúzia de garrafas de uísque no terreno, para um caso de extrema necessidade. Ele contou como se fosse uma excentricidade, uma travessura, e nós achamos a devida graça; mas, relembrando agora a aventura, encaro de outra maneira. Escalar um muro na escuridão, olhar para um futuro sem nada visível, o ego que você construiu com retalhos e performances desmoronando ao redor, um sujeito sem cabeça montando guarda por trás; uma queda vertiginosa. Terror.

— Foram três tentativas e dois anos, mas finalmente consegui me livrar. Salvou minha vida — dizia ele.

Agora nem tocava em qualquer sobremesa com uma gota de licor: um passo em falso e já era.

O que aconteceu depois? Houve um intervalo, sobrepondo-se ao período de alcoolismo ou logo depois, no qual ele teve um barco a vela — seria um iate? Eu não era do tipo que se impressiona com barcos, contou, nunca soube praticamente nada do assunto — estava às voltas com uma jovem estonteante, uma feiticeira ruiva da Dinamarca, talvez da Suécia. Uma devassa. Ele usou mesmo a palavra devassa.

Eu ficava com vergonha por ele nessas partes das histórias, parcialmente por causa do vocabulário velho e surrado, mas também porque a coisa toda parecia um sonho juvenil de polução noturna, fantasias tiradas direto da Playboy. Hoje ele seria considerado misógino, sem discussão, mas a mim parecia que os acessos de fúria contra as mulheres — trapaceiras, hipócritas, bruxas, devassas — eram um subsistema da sua misantropia básica. A espécie humana, incluindo a espécie feminina, estava acabada.

À exceção da esposa francesa, claro, que parecia uma espécie de superbabá. E à exceção de François.

François vivia numa cidadezinha a uma hora de caminhada do povoado de John. Tig fazia esse percurso a pé diariamente. Anos depois, diria se lembrar de cada detalhe do caminho e muitas vezes o percorria de olhos fechados, para depois cair no sono. Embora eu fosse com menos frequência — era difícil manter o ritmo de Tig, muito bom de marcha —, posso dizer o mesmo: conheço cada curva, cada subida ou descida.

Saindo pela entrada da casa de John. Virando à direita na estrada de cascalho. Passando pelo entroncamento, porcos e lama. Mais porcos e mais lama até a primeira à direita. Depois um campo aberto. Nessa época do ano, digamos, fevereiro ou março, não cresce muita coisa, pelo menos não de propósito. Muitas vezes havia por ali uma mulher de idade com um xale enrolado na cabeça, calçando galochas e tocando um rebanho de cabras com a ajuda de alguns cães. As cabras pastavam enquanto ela colhia plantas silvestres comestíveis, ao que nos parecia, juntando-as num saco de aniagem; os cães guardavam as cabras. Certa vez ela insuflou os cães para cima de Tig, provavelmente para ver o que ele faria. Eles não atacaram, mas chegaram muito perto, orelhas para trás, rosnando e latindo. O que funcionava com cães no interior era se inclinar para a frente como se fosse pegar uma pedra, dizia Tig. Eles então recuavam. Deviam ter experiências prévias com pedras.

Lembrar-me dessa velha que deve ter morrido há muito tempo me dá vontade de chorar. Por quê? Na época, eu mal registrava sua presença, mas agora me recordo da figura com precisão, como se fizesse parte da paisagem. Ela faz parte do que já era, de tudo que foi levado embora.

Talvez eu seja a única pessoa que ainda se lembre dela. Eu costumava achar que uma boa memória é uma bênção, mas já não tenho tanta certeza. Talvez esquecer seja uma bênção. Seja como for, a mente inventa coisas. De que cor era o xale? Havia mesmo um xale?

Após o descampado, havia um bosque: árvores altas, filtrando a luz do sol. Depois de adentrar a mata, a estrada mergulhava num barranco debruçado num regato, cortado por uma ponte de madeira. Várias vezes vimos gente lá embaixo, nas margens, com trailers estacionados. Não eram turistas, segundo Tig. Nunca ficavam muito tempo.

A estrada então voltava a subir e deixava o bosque para trás, virando à direita. Passava por uma grande cisterna retangular de blocos de cimento — sem muito uso, a julgar pelas algas — onde havia uma grande colônia de rãs. Dava para ouvi-las coaxando à distância, mas, ainda que nos aproximássemos silenciosamente, elas sempre percebiam e se calavam, recomeçando quando nos afastávamos. Durante vários meses fiz de tudo para passar a perna nas rãs — queria muito vê-las em ação —, mas não consegui.

Depois das rãs vinham velhas figueiras. E muitos figos murchos espatifados no chão. No começo, eu não sabia o que eram, e tive que perguntar a François.

— O que é aquele troço nojento que cai das árvores e acaba esborrachado na estrada? — quis saber.

Acho que estávamos tomando café numa mesa ao ar livre, Tig, François e eu, enquanto os passantes gritavam com seus cães, correndo por todo lado com lenços vermelhos e azuis amarrados no pescoço. Jane! Jane! Viens ici! Bob! Bob! Fais pas ça! Os cães sempre tinham nomes em inglês.

François deitou e rolou com a minha pergunta.

— Sim! Essas coisas que caem das árvores, se espatifam e ficam parecendo nojentas! — exclamou. — Grande mistério! Também já vi! O que poderiam ser?

E passamos a especular. Alguma espécie de réptil? Fungos? Levou um tempo para que ele confessasse serem figos.

Depois das figueiras, começavam as casas da cidade, com íris em jardins de pedra e vasos de gerânio. (Que se danem as íris! Danem-se os gerânios!, fulminava John. Jardins cenográficos, todos eles! Não se pode nem pintar a própria casa nessa palhaçada fraudulenta sem ter a autorização de alguma empresa fajuta querendo se passar pelo governo!)

Chegávamos então a uma fonte — um deus dos rios vertendo água pela boca. O acúmulo de calcário e musgo encobria parte dos traços da figura, deixando-a com uma barba verde. A expressão era ambígua: um rugido de indignação? Um protesto? Estaria sufocando, e o gorgolejar da fonte seria um som de afogamento, o último suspiro? Os olhos eram cegos, há muito desgastadas as pupilas.

São detalhes que me vêm à lembrança, embora depois da fonte não me voltasse uma imagem clara da estrada. Serpenteava em direção a ruas estreitas, com lojinhas e cafés; também um hotel quatro estrelas e um restaurante que servia profiteroles de alfazema, onde às vezes almoçávamos com François.

Eu encontrava François quando íamos às compras, cada um com sua cesta de palha com alça de couro.

— François, hoje tem sardinhas enormes e lindas — puxei conversa em certa ocasião.

Eu ficara sabendo pela dona de uma das lojas mais caras, que sempre me puxava a um canto para sussurrar essas novidades, e certa vez me vendeu uma trufa com olhares tão furtivos que era como se tivesse roubado um segredo de Estado.

— Ah, não, não suporto sardinhas — respondeu ele, revirando os olhos.

— É mesmo? — insisti, abrindo espaço para a versão mais longa, que, eu sabia, já estava na ponta da língua.

— Pois é — prosseguiu François. — No campo de aprisionamento só dava sardinha. Sardinha cozida, sardinha frita, sardinha grelhada. O óleo servia para fazer miniluminárias. Tudo fedia a sardinha, sardinha, sardinha dia e noite! Nem nós conseguíamos nos livrar do cheiro na pele. Para mim, portanto, nunca mais.

E estremeceu num calafrio.

O campo de aprisionamento era na Espanha, que se mantivera neutra na guerra. François foi mandado para lá ao fugir pelos Pireneus, depois de quase ter sido condenado por traição.

— Estávamos na Resistência — disse. — Éramos muito jovens e cheios de entusiasmo. Eu tinha dezessete anos, já pensou? Inseríamos panfletos de propaganda entre as páginas dos jornais. Foi em Marselha, e eu era vigiado.

— Ah, não! — exclamei. — Deve ter sido terrível!

— Não teve graça mesmo. Mas foi na época do regime de Vichy, que dizia representar a França, e eles tinham que processar, não podiam simplesmente me fuzilar. O jornaleiro era a única testemunha de acusação, mas foi abordado pela Resistência a tempo, avisando que, se me identificasse, seria um jornaleiro morto. Ele então declarou em juízo que eu era o François errado. Eles precisavam de outro François, um François mau.

— Muita sorte sua — eu disse.

— Realmente, foi útil contar com um mau François impossível de ser encontrado. Mas eles sabiam que era eu; mais cedo ou mais tarde eu seria eliminado. Fui embora na mesma noite, caminhando pelas montanhas, como tanta gente. Nem é preciso dizer que não convenci como espanhol, de modo que minha intrusão em seus respeitáveis domínios não passou despercebida por muito tempo. E assim fui ao encontro das sardinhas.

— Ah — exclamei, assentindo com a cabeça. — As malditas sardinhas.

— Os britânicos é que me salvaram desse peixe maligno. Me trocaram por um saco de farinha.

— Um saco de farinha?

— Sim, um saco de farinha. Mas presta atenção! Um saco muito grande!

François passou a trabalhar em Londres com o general De Gaulle e a organização ainda incipiente da França Livre. Morava num apartamento detonado em Earl’s Court com vários outros refugiados franceses, e assim aprendeu inglês. Estava lá durante as blitze aéreas alemãs e tinha a maior admiração por certo sangue frio dos britânicos nos momentos de bravura, ou talvez de imbecilidade: no mundo de François, era parecido. No caso da Resistência, ele não se considerava um herói, e sim um tolo, por ter sido apanhado.

— Lá estávamos, em Londres — contava, abrindo ao máximo os braços —, bombas caindo por todo lado! Bombas caindo! — E forçava nos Bs de bombas. — E na calçada em frente tinha um inglês — pausa para efeito dramático — tocando piano!


pianista tocando o piano em meia a um vendaval

Um sorriso angelical, um olhar para cima, recordando as bombas caindo, um dar de ombros. As cenas ridículas daquela calçada! Mas quanta coragem!

François foi designado para uma função no serviço de inteligência da França Livre, acompanhando a movimentação ferroviária em torno da França. Muitos ferroviários tinham participado da Resistência, eles é que retiveram os trens no Dia D e depois. Impediram que os reforços alemães chegassem com rapidez às praias de desembarque na Normandia; em retaliação, foram fuzilados. Mas no começo da guerra esses homens apenas passavam informações; já em si um sério risco.

François e seus jovens companheiros de monitoramento ferroviário seguiram o rastro de uma guilhotina enviada a certa cidade, onde seria usada numa execução. O trem foi desviado, mandado de volta, imobilizado; nunca chegou ao destino.

— Foi de propósito? — perguntei.

— Como saber? — Ele espalma as mãos e ergue os ombros. — Na época havia muitos acidentes. Acidentes horríveis, mas também alguns bons. — Pausa. — Como saber se foi de propósito?

Depois da guerra, François participou da intensa atividade artística e intelectual que transformou Paris em farol internacional na década de 1950 e no início da década de 1960. Sartre, Simone de Beauvoir e Camus mantinham uma espécie de salão no restaurante Le Dôme; no teatro, Jean Genet, Beckett, Ionesco e o Teatro do Absurdo causavam sensação. Na época, François escrevia peças para a cena alternativa. Numa delas, segundo me contou, uma enorme barata subia pela lateral do palco, atravessava o teto e descia pelo outro lado. Outra peça consistia em uma cadeira de balanço, que balançava rapidamente ao subir a cortina e continuava cada vez mais devagar, até parar.

— Parece que eram bem curtas, as suas peças — disse eu.

— Sim, eram mesmo — admitiu François, fazendo sua careta sorridente. — Muito curtas!

Essas peças chegaram a ser montadas? Eu não tinha muita certeza. François nunca disse explicitamente, e teria sido indelicado perguntar.

Um dos motivos de John se mostrar tão tolerante com François, concluí a certa altura, era achar que François tivera menos sorte na vida que ele. Na verdade, foi uma vida trágica. François se casou com uma mulher que amava de verdade, contou John, mas ela teve um sério problema psicológico e se matou. Tiveram uma filha que herdou a mesma condição; deduzi que também estava morta. Ao passo que John, depois de um período de total despreocupação plantando aveia selvagem, acabou nas mãos irônicas, mas indulgentes, de uma esposa equilibrada até demais, vivendo no que para ele era o centro do universo: Paris.

Mas François não se queixava da tristeza em sua vida: sinal de como era virtuoso. (John teria reclamado horrores, e sabia disso.) Não era justo, dizia John. Por que tanta fatalidade na vida de François? Por que ninguém para cuidar dele? Desconfio que houve várias tentativas de John como casamenteiro, mas se de fato ocorreram não deram certo, e François vivia sozinho com seus gatos meio selvagens, que entravam e saíam pela janela do primeiro andar quando bem entendiam.

Vários anos depois daquele inverno, François fez uma cirurgia de peito aberto. Ficamos sabendo por um e-mail de John — à época o e-mail já fora inventado, mas não as redes sociais, e assim o mundo foi poupado das arengas desvairadas de John no Twitter, que certamente teriam acontecido se ele tivesse vivido o suficiente. Ele ficou muito angustiado com a cirurgia — por que François, que era mais moço? Se alguém devia ter um coração comprometido, era ele! Parecia esperar que fizéssemos algo, que assumíssemos alguma responsabilidade. O tom era de reprovação: como é que Tig e eu permitíamos que aquilo acontecesse?

Talvez já estivesse perdendo o contato com a realidade. Será que alguma vez o teve de fato? Segundo ele, sim. A realidade era uma merda! Dane-se a realidade, ele a enxergava muito bem, e todos nós ali, levando nossas vidinhas banais e vulgares, felizes por encher as burras de maneira indecente, andávamos na verdade com antolhos cor-de-rosa. Dane-se a felicidade! Ele tinha coisas mais sérias com que se preocupar, estava escrevendo um romance. Por que não fazíamos nada para ajudar François?

François recuperou-se da operação. Nós havíamos mandado vários cartões e bilhetes desejando melhoras, de modo que ele tinha nosso endereço, e um dia recebemos um embrulho. Continha uma carta dizendo que achara aquela história toda — de quase ter morrido e da intervenção de peito aberto — muito curiosa. Junto com a carta vinha um manuscrito — não chegava a ser um romance, mas era mais longo que um conto. Segundo ele, era inspirado em suas experiências sob anestesia geral. Era o texto mais longo que escrevera, acrescentava. Sabia que eu lia francês e se perguntava se me divertiria com a leitura.

A novela se intitulava L’Endormi se ment, o homem adormecido mente para si mesmo. Era um trocadilho com l’endormissement, o ato de adormecer — François adorava trocadilhos. Começava com o narrador deitado numa mesa de bilhar num camarim, cercado de pessoas vestidas de verde: jalecos, luvas, máscaras. Cirurgiões, supunha ele. Estaria morto?

“E agora”, sussurra-lhe alguém, “você vai fazer amor.”

“Com uma rã gigante, suponho, doutor?”, retruca ele, em referência aos trajes verdes.

“Em absoluto! Com uma mulher de verdade!”

Gritos de encorajamento dos circunstantes. Uma mulher de carne e osso de fato aparece, mas se dissolve nos seus braços e de repente ele está flutuando tranquilamente no mar. Surge um navio chamado L’Ana-Lise.


um homem flutuando em uma mesa de bilhar

A Análise.

“Você sabe jogar com palavras?”, pergunta um homem no convés.

“Não é que eu saiba, mas sou obrigado, pois as palavras mentem. Já as doenças não mentem.”

Aqui temos um jogo de homófonos: “le mot ment, en revanche les maux ne mentent pas” — que não faria muito sentido numa tradução.

A novela prosseguia nesse diapasão, um duplo sentido intraduzível depois do outro. O narrador deve escrever diariamente um texto sobre temas fornecidos pelo capitão, que avalia as redações de todos a bordo, sendo atirados aos tubarões os que se saem mal.

O primeiro tema fornecido é “le contraire d’une chaise”. O contrário de uma cadeira. E assim começam os jogos de palavras, ainda manuseáveis. Mas logo as coisas ficam pesadas. O capitão é muito difícil de agradar, os temas propostos são impossíveis — “Se eu apagar a palavra apagador com um apagador, o que resta?” — e os outros passageiros são desagradáveis.

A amante do capitão, uma escultural loura norueguesa, chega para seduzir o narrador. Os dois enveredam por uma complexa discussão filosófica para decidir se só se faz amor com o próprio pênis. Não ocorre nenhum ato sexual. Ela se retira, chamando-o de “um pobre coitado que se acha um gênio”.

Sozinho, ele reconhece que é mesmo um pobre coitado — afinal, não é verdade que qualquer pessoa com um mínimo de autoconhecimento tem consciência de sua insignificância? —, mas nega que se ache um gênio. E, por sinal, o que significa se achar? Num caso assim, de falsa autoidentificação, seria o caso de dizer se perder. Ah, a mentira das palavras!… No dia seguinte, muitos passageiros e toda a tripulação estão flutuando no único bote salva-vidas, e o capitão pula no mar.

Restam apenas três passageiros no L’Ana-Lise. Matam o tempo bebendo todo o álcool disponível. O navio é destruído numa tempestade e o narrador se salva subindo numa mesa de bilhar que flutua nas ondas.

É a mesa na qual ele começou a viagem. Os médicos de verde vêm falar com ele, mas lhe dão as costas, e ele se dá conta de que não vai acordar. Mas não liga. Flutuando tranquilamente em sua balsa improvisada, ouve à distância uma voz solitária, entoando cantigas infantis dos velhos tempos.

François teria mesmo sonhado tudo isso sob efeito da anestesia geral? Improvável. O esmero verbal parecia caprichado demais. A novela pode ter sido inspirada por algum fragmento de devaneio, mas escrever tudo aquilo teria exigido considerável tempo e esforço. O tema — a eventualidade da própria morte — era mobilizador o suficiente. Por que enviar a novela justamente para Tig e para mim? Ou melhor, para mim, já que Tig não lia francês. O que ele esperava que eu fizesse?

De qualquer maneira, a história era profética, pois pouco depois François de fato morreu. As palavras mentem, mas as doenças não, e a doença de François disse a verdade.

Pode ter sido coincidência, mas depois disso a situação de John só decaiu. Ele vendeu a linda casa de campo e se arrependeu. Mandou-nos seu romance ainda em processo de criação, que versava sobre as repetitivas aventuras sexuais do protagonista e era razoavelmente ruim. Tig, na época mais tolerante com John que eu — que já me cansava das eternas invectivas, em especial quando voltadas contra mim —, tomou para si a missão de responder. Saiu-se com enorme tato, mas provavelmente não foi suficiente.

A comunicação de John começou a se liquefazer. Chegavam e-mails confusos: investidas contra tudo e todo mundo, desmanchando-se numa salada verbal. Nossas respostas, manifestando preocupação — ele estava bem? O que estava acontecendo? — esbarravam num muro de silêncio.

Mas esse é um fim triste. Como ainda posso — como sou a única que resta e ainda pode —, vou aqui reverter o tempo para passarmos juntos um momento mais alegre. Nós quatro: John e François, Tig e eu. Até já parecemos mais jovens, como você pode perceber.

Digamos que é primavera. Os dois vêm nos ver com uma certa empolgação.

— Temos uma surpresa para vocês — diz François. — Fizemos uma descoberta!

Ele está radiante. John também parece surpreendentemente feliz.

Dando até umas risadinhas? Não, John não dá risadinhas.

— O que foi? — pergunta Tig.

Os dois estão tão cheios de si que não podemos sonegar a esperada recompensa, seja o que for.

— Vocês vão ver. É realmente extraordinário — diz François. — Vão gostar.

Parte da surpresa é nos levar para almoçar. Entramos num carro (nosso? De John? François não tem carro) e damos numa estrada estreita, passando por casas e plantações de oliveiras, até chegar a áridas colinas marrons. Deve ser um dia de sol — não me lembro de chover —, mas de qualquer maneira luminoso. O destino é uma dessas fazendas com um celeiro antigo, bem ao estilo Velho Mundo. Grandes vigas de madeira sustentando o telhado, paredes de tijolo rústico. Cheiro de queijo velho e esterco novo. Somos recebidos por um sujeito fazendo o papel de fazendeiro, embora provavelmente o seja de fato, que nos convida a sentar a uma das mesas dando para uma arena com o chão coberto de serragem, do tipo usado para exercitar cavalos ou leiloar animais. Bem no meio há um montinho de terra.

Começam a chegar os pratos do almoço. Hors d’oeuvres, entrée, prato principal…

— Tudo feito com queijo — sussurro.

— Sim! Tudo feito com queijo! — proclama François, batendo palmas. O cardápio univocamente lácteo estimula seu senso do absurdo: como as sardinhas da juventude, só que com queijo. — Mas é criativo todo esse queijo, não? Eles inventam os mais variados preparos!

— Tudo feito aqui mesmo — resmunga John. — Nada do lixo falsificado dessas butiques metidas por aí. Agora vem a cheesecake.

— É essa a surpresa? — pergunto, me esforçando para parecer feliz.

— Um cardápio só de queijo?

Tig se serve de outra taça de vinho.

— Não, não, vocês vão ver — responde François, fazendo força para segurar o riso.

— Teremos uma apresentação — anuncia John, num riso malicioso. — Nada do habitual. Nada de vadias.

— Vejam! Está começando! — diz François, apontando para a esquerda.

Um bando de ovelhas entra na arena, balindo ruidosamente. São mais brancas que o normal: foram lavadas com xampu. Atrás delas — perseguindo-as, talvez — vêm seis ou sete cabras bem-cuidadas, com alguns cães pastores nos calcanhares. Em seguida, três burros, e depois dois pôneis saltitantes com fitas vermelhas no rabo. Por fim, surge uma lhama que parece a força propulsora, da qual todos fogem, sendo as lhamas sabidamente irritáveis e agressivas.

François exala felicidade. John está até rindo, o que em si já é uma surpresa.

Sem parar, os animais galopam ao redor da arena a toda velocidade, numa cacofonia de berros e balidos e zurros e relinchos. Depois da terceira volta, a lhama avança a meio galope para o centro da arena e sobe no monte de terra. E lá fica, triunfal, a rainha do castelo. Os outros param, olhando para ela. Os convivas aplaudem.

— Entramos no terreno da política — diz John. — Eis aí o maldito primeiro-ministro.

— Parece que estamos no teatro! — emenda François. — Não é maravilhoso? Estão se divertindo?

— Sim! — confirmo.

— Obrigada!

Mas ainda não entendi o que está rolando. Talvez não role nada. Talvez seja só isso mesmo. Quem sabe algo parecido com a barata subindo por uma parede e descendo por outra… Eu não quero desapontar François.

— Incrível mesmo! — acrescento, com o possível entusiasmo.

Tig não abre a boca, mas sorri e assente com a cabeça, com ar entendido. Mas, quando ficamos sozinhos, pergunta:

— Que porra foi essa?

François para de rir.

— Eles fazem o que podem por nós — diz. — Não podemos esperar mais. Vamos?



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