A Ética e a Criação na Escrita
- Ana Amélia

- 21 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: 21 de jan.
Este post faz parte do curso A Arquitetura de Universos Literários
Olá, cúmplices no belo crime de escrever.
Hoje, esqueçam as ferramentas. Guardem os manuais, as regras de ouro e os micromecanismos. A aula de hoje é uma antiaula. Não estou aqui para lhes dar mais um instrumento para sua caixa, mas para convidá-los a olhar para o abismo que existe entre a mão que segura a caneta e a página em branco.
Nossa série é sobre "Construir Universos Literários". Falamos sobre a arquitetura, a engenharia, a técnica. Mas e se a obra mais importante que construímos ao escrever for um espelho? E se, ao narrar a vida de outro, a história que realmente contamos for a da nossa própria crise, da nossa própria insuficiência diante do poder e da responsabilidade da palavra?
Para essa investigação visceral, não há guia melhor que a agonia de Clarice Lispector. Vamos abrir A Hora da Estrela não para ver a história da pobre Macabéa, mas para testemunhar, em tempo real, o doloroso parto de uma história e a crise existencial de quem a cria.
O Espelho da Criação: O Escritor Nu em "A Hora da Estrela"
A tese desta antiaula é simples: A Hora da Estrela é menos um romance sobre uma virgem alagoana e mais um documentário brutal sobre o que significa escrever. Através do narrador-personagem Rodrigo S. M., Clarice nos lega um manifesto sobre a angústia, a culpa e a inadequação que assombram todo verdadeiro criador.
Ele nos diz: "Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever." E com essa chave, ele não abre a porta da história de Macabéa, mas a da sua própria sala de tortura.

1. A Angústia e a Inadequação do Criador
Antes de nos apresentar sua personagem, Rodrigo S. M. nos apresenta sua própria paralisia. Ele confessa seu medo, sua insegurança, sua dificuldade em dar forma à "matéria opaca" que tem em mãos. A escrita não é um ato de poder, mas de vulnerabilidade. Ele não é um deus onisciente, mas um homem aterrorizado pela tarefa.
Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados.
Essa confissão inicial é um ato de honestidade radical. Clarice/Rodrigo desmistifica o glamour da criação. Escrever não é inspiração divina, é trabalho braçal, é quebrar a si mesmo contra a dureza da linguagem, na esperança de que alguma faísca de sentido salte dessa colisão.
2. O Dilema Ético de Representar o "Outro"

A angústia de Rodrigo não é apenas técnica, é moral. Ele, um homem letrado, de classe média, se vê no direito de contar a história de uma "coisa" anônima, de se apropriar da miséria alheia para transformá-la em arte. A culpa o corrói. Ele reconhece a violência inerente ao seu ato, a distância abissal entre quem narra e quem é narrado.
(Quando penso que eu podia ter nascido ela e por que não? estremeço. E parece-me covarde fuga de eu não ser, sinto culpa como disse num dos títulos.)
Este é o coração ético do romance. Rodrigo nos força a perguntar: quem somos nós para contar as histórias dos outros? Com que autoridade transformamos dor real em ficção? É nesse confronto, nessa busca por uma ponte entre o autor e seu tema, que a relação de diálogo se torna não apenas uma técnica, mas uma necessidade ética, um esforço para honrar a matéria-prima humana que temos em mãos.
3. O Autor como Construção Ficcional
Clarice não assina a obra como si mesma. Ela a entrega com a seguinte dedicatória: "DEDICATÓRIA DO AUTOR (Na verdade Clarice Lispector)". Essa pequena nota de rodapé é uma bomba. Ela cria um narrador masculino, Rodrigo, que é, ele mesmo, uma personagem.
Por quê? Para dinamitar a ideia do autor como uma entidade neutra e confiável. Rodrigo é uma máscara. Uma construção que permite a Clarice expor as limitações, os preconceitos e as armadilhas da própria voz autoral. Ele não é um guia seguro; ele é um homem tão perdido quanto sua personagem, um filtro imperfeito através do qual a história de Macabéa é distorcida e, talvez por isso mesmo, se torna mais real.
4. A Palavra contra o Silêncio

A crise de Rodrigo é, acima de tudo, uma batalha com a linguagem. Ele desconfia das palavras. Teme que a beleza da forma, os "termos suculentos" e os "adjetivos esplendorosos", possa trair e falsificar a realidade crua e sem adornos de Macabéa. Sua busca não é pelo estilo, mas pela verdade.
Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.
Sua escrita se torna um exercício de despojamento, uma tentativa de alcançar um estado de pureza onde a palavra não enfeita, apenas é. Ele quer que a história exista apesar das palavras, não por causa delas. É a luta de todo escritor honesto: como dizer o indizível sem profaná-lo com a literatura?
5. A Ficção como Ato de Criação da Realidade
Apesar de toda a sua dúvida, Rodrigo entende o poder do que está fazendo. Ele sabe que, ao escrever sobre Macabéa, ele a está arrancando do nada e lhe dando existência. A ficção não é um mero reflexo do mundo; é um ato que interfere no mundo, que o cria e o recria.
Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato.
Nesta frase reside a justificação final para o seu tormento. A escrita, para ele, torna-se a única forma de dar sentido e realidade a uma vida que, de outra forma, passaria despercebida. Ele escreve não porque sabe, mas porque precisa saber. Ele inventa para poder descobrir.
No fim, a morte de Macabéa é também a morte de Rodrigo. Ao concluir a história dela, ele é forçado a confrontar a sua própria finitude. "Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas – mas eu também?!" Criador e criatura se fundem em um mesmo destino trágico, provando que, no espelho da criação, a morte do personagem é sempre um ensaio para a morte do autor.
As Antilições da Antiaula
Abrace a Dúvida: A insegurança não é sinal de fracasso, mas de consciência. A grande literatura muitas vezes nasce da luta do autor com suas próprias limitações.
Questione sua Posição: Esteja ciente do seu lugar de fala e da responsabilidade ética de narrar a vida dos outros. A escrita é um ato de poder; use-o com cuidado e empatia.
Desconfie da Linguagem: Não se contente com a primeira palavra que surge. Lute por uma linguagem que seja fiel à sua matéria, mesmo que isso signifique ser mais simples, mais cru, menos "literário".
A Voz é uma Máscara: Entenda que sua "voz autoral" é uma construção, uma persona. Brinque com ela, questione-a e use-a para explorar diferentes facetas da sua própria verdade.
Escrever é Fazer Existir: Lembre-se do poder do seu ofício. Você não está apenas contando histórias; você está dando vida, criando fatos, transformando o silêncio em ser.
Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia...
📚A Estante de Ana: Névoa de Miguel de Unamuno
Se a antiaula de Clarice despertou seu interesse pela crise entre criador e criatura, Unamuno o levará ao limite. Nesta obra-prima, o protagonista, Augusto Pérez, confronta seu próprio autor para questionar sua existência e lutar contra o destino que lhe foi imposto. É uma exploração filosófica e vertiginosa sobre o que é ser real.
☕Vamos Conversar?
Escrever é, muitas vezes, um ato solitário de confronto. Confronto com a página, com a história, com as personagens e, fundamentalmente, consigo mesmo. A agonia de Rodrigo S. M. é a agonia de todos nós que já nos sentimos pequenos e inadequados diante da imensidão do que queremos contar.
Se você se reconhece nesse espelho, se sente que a sua história trava uma batalha com você, talvez o que falte não seja mais técnica, mas um diálogo. Uma segunda voz que olhe para a sua crise não como um problema, mas como o motor da sua arte. Acreditamos que é nessa vulnerabilidade que reside a força de um texto. Que tal nos enviar um trecho? Nossa amostra gratuita é um convite para transformar a angústia em conversa e a dúvida em clareza.
No final, toda revisão é um confronto com o espelho, um diálogo para garantir que a criatura que você trouxe ao mundo possa, de fato, respirar sozinha.
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