Personagens 6: Como Personagens Secundários Moldam seu Protagonista
- Ana Amélia

- há 4 dias
- 4 min de leitura
A Galeria de Espelhos: Por que seu Protagonista não é Ninguém sem os Outros
Se você acha que escrever um livro é apenas sobre a jornada do herói, sinto lhe dizer: você está escrevendo um diário, não um romance. Na engenharia literária, o protagonista é uma peça que só se move porque outras o empurram. No escritório da Letra & Ato, costumamos dizer que coadjuvante não é samambaia — ele é o parâmetro de gravidade.
Hoje, vamos desparafusar o "Sistema de Personagens". Vamos entender como grandes autores usam figuras secundárias para revelar o que o protagonista tenta esconder. Esqueça o "alívio cômico"; vamos falar de agentes narrativos.
1. O Parasita Necessário: José Dias e a Catalise Machadiana

Em Dom Casmurro, Machado de Assis nos dá José Dias. Ele é o "agregado". Para um autor amador, José Dias seria apenas um figurante que mora de favor. Para Machado, ele é o motor que inicia a tragédia.
José Dias ia conosco. [...] José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias; não as tendo, servia para prolongar as frases. [...] — É uma criatura angelical! — dizia ele, referindo-se a minha mãe. E o "angelical" saía-lhe com tal força de convicção que a gente via as asas.
Engenharia Reversa:
A Função de Catalisador: É José Dias quem "inventa" o amor de Bento e Capitu para a Dona Glória, apenas para denunciá-lo e forçar Bento a ir para o seminário. O secundário aqui não apenas está na cena; ele cria a cena.
O Superlativo como Máscara: A técnica de dar um tique verbal (os superlativos) a um secundário serve para que o leitor o identifique imediatamente, mas Machado usa isso para mostrar a falsidade inerente ao sistema social. José Dias é o espelho da hipocrisia daquela casa.
O Protocolo da Dependência: Remova José Dias e Bento e Capitu talvez nunca tivessem tido consciência de que se amavam. O secundário é quem dá nome aos bois.
2. A Geometria do Desejo: O Coro Grego de Jorge Amado

Se Machado usa um indivíduo para infiltrar o caos, Jorge Amado usa a vizinhança inteira. Em Dona Flor e Seus Dois Maridos, o sistema de personagens secundários funciona como um "coro" que define a moralidade — e a falta dela — da protagonista.
[citação]
— Que formosura, que beleza de mulher! Um peixão, e se vê que anda contente, que nada lhe falta nem na mesa nem na cama. [...]
— Não diga isso! — protestou Moysés Alves, o perdulário do cacau — Se há mulher direita na Bahia é Dona Flor.
— Estou de acordo, quem não sabe que ela é mulher honrada? O que eu digo é que esse doutor, com sua cara de palerma, é um finório.
Engenharia Reversa:
O Sistema de Contrapontos (Foils): Teodoro (o marido vivo, metódico e frio) e Vadinho (o marido morto, canalha e quente) não são personagens independentes; eles são as duas metades da alma de Flor. Um só faz sentido porque o outro existe. Jorge Amado constrói a "carne" de Flor através dessa tensão entre o "doutor palerma" e o "fantasma reboloso".
A Voz Social como Personagem: Os vizinhos (Moysés Alves e outros) não são apenas figurantes. Eles representam a Função de Observador. Eles validam a honra de Flor para que o leitor sinta o peso do escândalo quando ela se entrega ao fantasma.
A Técnica do Reflexo Distorcido: Quando Jorge Amado descreve os secundários comentando o rebolado de Flor, ele está nos dando a visão externa que ela, em sua timidez, jamais confessaria. O secundário diz o que o protagonista cala.
3. A Engrenagem da Sombra: O que levar para sua mesa

O erro recorrente que vejo nas revisões estruturais aqui na Letra & Ato é o "Personagem Satélite". Aquele que gira em torno do herói apenas para concordar com ele ou levar informações de um lado para o outro.
Para consertar isso, aplique o Teste do Parafuso:
Se você deletar o personagem secundário e o protagonista continuar chegando ao mesmo destino pelo mesmo caminho, o personagem é lixo literário. O secundário deve ser um obstáculo, um espelho ou um catalisador. Ele deve forçar o protagonista a se olhar no espelho e odiar (ou amar) o que vê.
Relatório de Engenharia Reversa: O Sistema de Personagens Secundários
O Catalisador (Protocolo José Dias): Use um secundário para dar o empurrão que o protagonista não tem coragem de dar em si mesmo.
O Contraponto (Foil): Crie um personagem que personifique tudo o que o protagonista não é, forçando o leitor a comparar as duas naturezas.
O Coro Social: Use os figurantes para estabelecer as regras do mundo. Se ninguém no livro se espanta com um fantasma, o leitor também não se espantará.
A Regra da Necessidade: Todo personagem secundário deve ter uma agenda própria. Ninguém existe apenas para ajudar o herói; todos estão tentando sobreviver ao próprio romance.
☕ Vamos Conversar?

Seu protagonista parece estar flutuando em um vácuo? Os seus secundários têm vida própria ou são apenas bonecos de ventríloquo?
Um sistema de personagens bem ajustado é o que transforma uma história rasa em um clássico. Aqui na Letra & Ato, nossa revisão estrutural disseca justamente essas conexões. Nós não apenas corrigimos o texto; nós calibramos a gravidade do seu universo ficcional.
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