A Brochada de Prazeres
- Letra & Ato Editorial

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Atualizado: há 5 horas
Texto com linguagem explícita, violência simbólica e ruptura deliberada de pactos de leitura.

— Você brochou? — gritei. Não faça essa cara de que é-muito-pior-para-mim! O que você espera de mim: consolo? compreensão? resignação? Eu estou falando com você! — berrei. — Entre amantes há obrigações implícitas e recíprocas. Mas a única que realmente conta é foder comme il faut, como se deve. Como você quer que eu lide com isso, seu merda? Não vai falar nada? Não vai me olhar nos olhos?
— Cala boca! Eu estou pouco me fodendo para as suas desculpas. Meu nome é Prazeres. Pra-ze-res! Se não levantou comigo, não há de se levantar com mais ninguém: seu pau cometeu suicídio! Mediocris vita, mors optabilior: é melhor a morte a uma vida medíocre.
Silenciei.
— E as suas promessas? No bar, eu me arrepiei com seus beijos, com o rilhar de seus dentes em meus ombros, em meu pescoço, com sua voz máscula sussurrando promessas de me foder como nenhum outro havia feito. Você me prometeu, e as suas mãos firmes por todo o meu corpo certificaram, que me levaria aos céus… Eu acreditei em você, meu sexo latejava e fisgava a cada palavra que você dizia, a cada toque que me cedia. Mas, agora, meu corpo arde como o inferno. Cadê a porra do céu?
Esperei.
— Você é igual a K — resignei-me. Mas, ao contrário de você, ele me distraía com sua língua comprida e elástica, contava-me suas ideias, falava sobre seus textos e, sobretudo, de sua fixação em prender uma garota só com a escrita. Você sabia que K só escrevia porque não conseguia uma garota? Fui eu quem lhe ensinei que, muito melhor que prendê-las com a escrita, era satisfazê-las com a língua.

— Na última vez que veio aqui, K estava enlouquecido, perdido em seu próprio mundo distorcido, incapaz de usar a língua. Eu o ameacei: ou você me fode comme il faut ou boto fogo em todo esse lugar, em nós. Implorei: K, meu amor, me dê sua mão, sinta meu sexo, veja como arde de desejo… A mão dele chamuscou feio, as bolhas pipocaram, ele gritou de dor e enraiveceu-se: seu pau enrijeceu-se imenso, monstruoso, irreal. Não me importei: puxei e travei seu corpo contra o meu com uma chave de perna bem aplicada. Sedenta, o esmagava contra meu sexo, mendigava por algum prazer. Ele me bateu com mão forte para que o soltasse, não resisti à violência, gozei, amoleci, libertei-o. Ele despejou seus escritos nesse vaso — veja aqui as marcas do fogo, se duvida — embriagou-se bebendo direto do gargalo, regou os papéis com o resto da vodca e pôs fogo. Riu enlouquecido, gritava em prantos: fodam-se as palavras, as malditas palavras, fodam-se todas elas: eu as libertarei.
— Ele sempre havia se sentido aprisionado à escrita, ao pai e às verdades esquecidas. Aquele pau excedente, descomunal, rompeu o que o prendia: não havia nele mais ou desconsolo, ou desespero, ou indecisão, ou culpa, ou arrependimento, ou amor, ou esperança, ou significado. Apenas restou-lhe a vergonha. De quê? De tudo que se é! Aquele cacete enorme libertou a vergonha, não o libertou da vergonha. Você está compreendendo o que eu estou dizendo? Eu demorei a compreender K, a entender que a única inocência possível hoje é a vergonha de quem se liberta do mal-estar. Olhe para seu lado, olhe no seu smartphone, olhe nas redes sociais: o que nos resta, o que resta à humanidade é a vergonha. É como se a vergonha devesse sobreviver a nós, imortalizada em bits e bytes.

— Desculpe-me se não entendeu, mas, de todo modo, segurando o cacete enorme com as duas mãos, ele veio a mim com olhos horripilantes, hipnotizantes. Ele estava louco, fora de si. Seu olhar era aterrorizante, vermelho, inteiramente avermelhado por labaredas. Arrependida pelo meu malfeito, eu pedi, roguei a ele, a deus e ao diabo por clemência. Não fui atendida por nenhum deles: homens e suas confrarias. Encolhida na cabeceira da cama, apequenada, trêmula, K não teve piedade: me fodeu como nunca havia sido fodida, comme il faut: apaixonadamente, interminavelmente, implacavelmente, desavergonhadamente, deliciosamente, prazerosamente… Fui reduzida a um enorme buraco; absolutamente oca, senti nada: só gozei, gozei, gozei…
Silenciei.
— Eu posso fazer o mesmo por você. Basta me pedir — disse com minha língua bífida.
— Você se importa que acenda um baseado? Lembra do Kurtz? Ele morreu exatamente aí onde você está, nessa cama. Não pude fazer nada por ele. Os médicos disseram que eu não deveria ter fodido tanto com ele, que seu coração era fraco e sua alma imunda. Kurtz, que viveu a sua vida em cada detalhe de desejo e rendição e, quando iluminado pela morte, gritou à vida ou à morte — sabe-se lá para qual — O horror! O horror!
— Mesmo quando Kurtz era deus, ele nada pôde. Tudo era desvario: na sua morte não havia nenhuma verdade ou mentira, nenhuma condenação ou redenção. Eu estava lá!, montada sobre ele, quicando e gemendo, e lhe garanto: só havia em sua morte o mesmo vazio que ele tentou preencher por toda vida. O mesmo olhar vazio que ele tinha em vida, ele manteve quando morto, igualzinho.
Esperei.
— É isso que você quer para si mesmo? Ser como o Kurtz? Iludir-se? Acreditar? Preencher-se? Poder, não é? Realizar-se?
— Não me lembro de nenhum de meus clientes que não quisesse realizar-se. Todos medíocres, brochas do cacete. Escute o que lhe digo: a realidade é uma merda, desejá-la é um não desejo, é negação, é aceitação, é submissão: com a coluna quebrada de tanto se dobrar, você nunca comerá alguém, é muito doloroso.
Sorri.
Amorosa, enrolei-me umidificando seu corpo com o sumo ácido de meu sexo sedento em um bote bem apertado, que o adensava e acolhia. Beijei-lhe o pescoço, as orelhas, penetrei os ouvidos com a minha língua bífida e, segura de que minhas palavras não encontrariam obstáculos, sibilei: creia em mim: ressuscitarei seu pau ao terceiro dia.
Gargalhei.
Resignado, ele não podia, não fazia, não resistia, não queria ou se iludia, não mais acreditava.
Exultante, lambi o ranho aquoso de seu nariz choroso, a seus lábios mudos impus meus seios fecundos, a seus dedos ressequidos expus meus orifícios úmidos, à sua boca soluçante sobrepus meu sexo delirante, com sua língua exasperante compus gozos reverberantes: a circularidade do prazer que arfa para ser, os gracejos travessos e os desejos obsessos de minha alma avessa a poder.
Fodi.
Homenagem Póstuma a Prazeres dos Anjos, nossa amiga e cliente.
Nós sabemos que, sem dúvida, você está no inferno se divertindo "pra caralho", como sempre quis e sempre dizia. Muito obrigado por todos os prazeres que vivemos juntos.
Equipe da Letra & Ato















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