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A Aula de Jorge L. Borges: Mentindo com Precisão

  • Foto do escritor: Ana Amélia
    Ana Amélia
  • 20 de jan.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 21 de jan.

Este post faz parte do curso A Arquitetura de Universos Literários

Olá, caros aprendizes de feiticeiro (ou melhor, de mentirosos profissionais)!

Bem-vindos à Fase 3 da nossa série Construindo Universos Literários. Se vocês sobreviveram até aqui, parabéns: vocês já têm as ferramentas básicas. Agora, vamos entrar no vestiário do "Time dos Sonhos". Vamos ver como os grandes craques jogam. E para abrir o baile, chamei ninguém menos que o bibliotecário mais perigoso da Argentina: Jorge Luis Borges.

Peguem seus monóculos e suas notas de rodapé falsas, porque hoje vamos aprender como Borges nos faz acreditar em planetas impossíveis usando apenas um tom de voz autoritário e algumas bibliografias inexistentes.


A Aula com Jorge L. Borges: A Verossimilhança pela Erudição


O Labirinto de Borges

Borges não era apenas um escritor; ele era um arquiteto de ilusões intelectuais. Enquanto outros autores tentam te convencer pelo sentimento, Borges te convence pelo cansaço... e pela lógica. A macro-estratégia dele é o que eu chamo de A Ilusão Intelectual. Ele constrói um andaime de fatos reais, nomes históricos e citações eruditas tão pesado que, quando ele coloca a "mentira" no topo, você não tem força para empurrar de volta.

Em seu conto fundamental, "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", ele nos apresenta a descoberta de uma enciclopédia que descreve um planeta inteiro (Tlön), cujas leis físicas e linguísticas são diferentes das nossas. O truque? Ele escreve como se fosse um ensaio acadêmico ou uma reportagem de jornal.


O Micromecanismo 1: A Voz Pseudo-Acadêmica


O espelho de borges

A primeira coisa que você nota em Borges é a Voz Narrativa. Ele não começa dizendo "Era uma vez um mundo estranho". Não, ele começa de forma chata, burocrática e cheia de nomes de amigos reais (como Bioy Casares).

Ao usar esse tom de "relatório de pesquisa", ele desativa o seu radar de ficção. Você entra no texto achando que vai ler um artigo e, quando percebe, já aceitou que existe uma enciclopédia secreta que está reescrevendo a história do mundo.

Vejam como ele introduz o mistério através de um objeto cotidiano (um espelho) e uma conversa banal entre intelectuais, ancorando o absurdo em detalhes geográficos e bibliográficos precisos:


Devo à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar. O espelho inquietava o fundo de um corredor numa quinta da rua Gaona, em Ramos Mejía; a enciclopédia chama-se enganosamente The Anglo-American Cyclopaedia (Nova York, 1917) e é uma reimpressão literal, mas também morosa, da décima-primeira Encyclopaedia Britannica. O fato ocorreu há uns cinco anos. Bioy Casares viera jantar comigo naquela noite e nos atrasou uma vasta polêmica sobre a execução de um romance na primeira pessoa, cujo narrador omitisse ou desfigurasse os fatos e incorresse em diversas contradições, que permitissem a uns poucos leitores — a muito poucos leitores — a adivinhação de uma realidade atroz ou banal. Do fundo do corredor, o espelho nos espreitava. Descobrimos (na alta noite esse descobrimento é inevitável) que os espelhos têm algo de monstruoso. Então Bioy Casares lembrou que um dos heresiarcas de Uqbar havia declarado que os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens.

Perceberam o veneno? Ele cita a edição exata da enciclopédia (Nova York, 1917). Ele dá o endereço da rua (Ramos Mejía). Ele usa nomes de pessoas reais. Esse acúmulo de Detalhes Concretos e a voz desapaixonada criam um "andaime de lógica irrefutável". Se a rua existe e o Bioy Casares existe, então Uqbar tem que existir, certo?


O Micromecanismo 2: A Falsa Erudição (O Poder da Citação)

a enciclopédia de Borges

Borges sabia que ninguém contesta uma citação em latim ou uma referência a um filósofo alemão obscuro. Ele usa a "autoridade" do conhecimento para validar a fantasia. Ele inventa livros, inventa autores e os mistura com autores reais.

Em Tlön, ele descreve o "Vigésimo Primeiro Volume" de uma enciclopédia que não existe, mas faz isso com tamanha precisão técnica que você sente o peso do papel nas mãos. Ele analisa a metafísica de Tlön como se estivesse resenhando um livro para a revista Nature.

No volume que tenho às mãos — o décimo primeiro da A First Encyclopaedia of Tlön (Hlaer a Jangr) — há trechos de uma das línguas de Tlön: os nomes não existem, o verbo é a unidade básica. Não se diz "lua"; diz-se "luou" ou "lunar". No lugar de "A lua surgiu sobre o rio", diz-se "hlör u fang axaxaxas mlö", ou seja: para cima (upward) por trás do fluir duradouro luniqueou. (Xul Solar traduz mais sucintamente: alualizou). A língua de Tlön é fundamentalmente idealista: sua psicologia é a base de todas as disciplinas. Para o povo de Tlön, o mundo não é um concurso de objetos no espaço; é uma série heterogênea de atos independentes. É sucessivo, temporal, não espacial.

Aqui, Borges atinge o ápice da verossimilhança. Ele cria uma gramática imaginária! Ele cita um tradutor (Xul Solar, que era um artista real e amigo dele). Ele transforma o absurdo linguístico em um debate filosófico sério. Quando um autor se dá ao trabalho de explicar a declinação verbal de um planeta inventado, o leitor se rende. É o que chamamos de Saturação de Detalhe Técnico.


A Lição de Borges para Você


O que Borges nos ensina não é que precisamos ser gênios eruditos, mas que a autoridade narrativa é uma construção.


Se você quer que o seu leitor acredite em algo impossível:

  1. Baixe o tom: Não tente "vender" o fantástico com adjetivos espalhafatosos. Use a voz de um burocrata, de um historiador ou de um cientista.

  2. Misture o Falso com o Verdadeiro: Coloque sua cidade inventada ao lado de uma cidade real no mapa. Cite um livro que todo mundo conhece e, logo depois, um que você inventou. A credibilidade do primeiro "contamina" o segundo.

  3. Seja Preciso no Absurdo: Se você inventou um sistema de magia, descreva as leis desse sistema como se fosse um manual de instruções de um micro-ondas. A precisão mata a dúvida.

  4. Voz Pseudoacadêmica: Usar o tom de ensaio para validar a ficção.

  5. Ancoragem em Reais: Misturar personagens e lugares reais com inventados.

  6. Saturação Técnica: Descrever o "como funciona" de forma exaustiva e lógica.

  7. O Objeto de Poder: Usar documentos (enciclopédias, mapas, cartas) como provas físicas da existência do seu mundo.



☕ Vamos Conversar??

O estilo de Borges parece intimidante, não é? Muita gente acha que precisa de um doutorado para escrever como ele. Mas o segredo não está no que ele sabe, e sim em como ele apresenta o que inventa. Você já tentou dar esse tom de "autoridade" para o seu narrador? Ou você ainda sente que está pedindo permissão ao leitor para contar sua história? Na Letra & Ato, nossa revisão estrutural e análise de estilo ajudam você a encontrar a voz certa para o seu universo. Às vezes, mudar o "tom de voz" do seu narrador é o que falta para transformar um conto fantástico em uma obra-prima inquestionável. Vamos dar essa autoridade ao seu manuscrito?

📚 A Estante de Ana:

"O Nome da Rosa" de Umberto Eco

"Um thriller medieval que segue a cartilha borgiana: erudição profunda, bibliotecas labirínticas e uma verossimilhança histórica construída nos mínimos detalhes."

Não escreva apenas para ser lido; escreva para ser documentado como verdade.

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