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Conto "O Mau Lobo" de Valter Hugo Mãe

  • Foto do escritor: Letra & Ato Editorial
    Letra & Ato Editorial
  • 25 de jan.
  • 6 min de leitura

A Floresta Tem Alma: Como a Personificação do Ambiente Transforma um Conto.


Meus caros desbravadores da palavra,

Hoje, o nosso bisturi literário tem um alvo à altura do seu talento: Valter Hugo Mãe. Esqueça tudo o que você aprendeu sobre a tal "narrativa linear". Mãe é o tipo de autor que pega uma lupa e nos faz enxergar as miudezas que, de tão miúdas, se tornam gigantescas. Ele transforma o cotidiano em poesia e o prosaico em algo sagrado. Seu estilo é uma quebra proposital de regras, uma subversão da sintaxe que, em vez de confundir, nos transporta para um universo de pura emoção e sensibilidade.

Em "O Mau Lobo", ele faz o que faz de melhor: desmancha um arquétipo. Ele não nos dá o vilão óbvio ou a vítima inocente. Ele nos entrega seres humanos (mesmo que sejam lobos) em seu estado mais cru: confusos, angustiados e, por vezes, capazes de uma beleza inesperada. A escrita dele não te diz o que sentir; ela te faz sentir. E é exatamente isso que separa um autor de um contador de histórias. A capacidade de construir uma história com a alma do narrador, com a melodia do autor.

Preparem-se, porque a leitura de um conto de Valter Hugo Mãe não é apenas uma aventura, é uma experiência sensorial e transformadora.



O Mau Lobo

Valter Hugo Mãe

Capa de post com duas casas, uma voltada para a igreja e outra para um precipício, representando a personificação do cenário.

Os lobos farejaram a menina como se toda ela fosse um traço de sangue a percorrer a floresta. Apoquentada com os bolinhos frescos, metidos numa dobra de linho bordado, ela seguia o caminho sem desvios, avisada contra os perigos e para a necessidade de medir inteligentemente o sol. Levava a ansiedade infantil pelo sorriso da avó, que a esperava na sua pequena casa ao centro da clareira, junto ao lago. Se chegasse cedo, ainda nadaria um pouco, entre os peixes coloridos, que a lenda jurava terem sido flores na margem às quais a própria água ensinara a nadar. Da janela do quarto da avó, onde esta se deitava para descansar durante as tardes, via-se bem o lago, era por isso que a senhora dizia coleccionar estrelas. Deitadas à água, cintilavam continuamente, noite e dia, talvez bulidas pelas flores ou pela vontade de tornarem a voar. Ali, a menina tantas vezes nadava, também ela dividida entre ter alma de flor ou de peixe. De tão pura, também a menina cintilava.

As pernas curtas da criança pormenorizavam demasiado o percurso. Eram passinhos pequenos para o gigante da floresta, serviam de veículo lento, por mais que se atarefasse. Pensava sempre que a avó ficaria feliz e que partilhariam os bolos e ainda se contariam histórias e espantariam sempre. Inventavam estórias e esbugalhavam os olhos igual a verem maravilhas. Por isso, mais se aligeirava, distraída na pressa, cheia de antecipação. Talvez por estar distraída, ainda que obediente ao cuidado de por ali andar, a menina não percebeu os lobos indo e vindo mais em redor. Despontando os focinhos entre a vegetação, fungando manhosos, mudos, à espera, pensando. Os lobos pensavam coisas terríveis. Ela só via as árvores e os feixes de luz que desciam em formas acesas por entre as copas cerradas. Parecia-lhe que a floresta se fazia de caixa mágica onde o que se acendia e apagava procurava imitar seres de outro mundo. Seres que se mexiam, quase dando passos iguais aos dela. Era o que sentia, que atravessava a floresta como quem testemunhava uma longa fantasia. Até a sua avó, tão verdadeira e concreta no generoso abraço, lhe chegava a soar como a fantasia enfim perfeita. Claro que teria de apressar-se. Todas as pessoas se apressam quando vão ao encontro da perfeição. É como irem de encontro à felicidade. E os lobos chegavam. Chegavam cada vez mais, silenciosamente encurralando os pontos de fuga.

Entendidos entre si como se conversassem meticulosamente acerca da melhor estratégia para caçarem a criança.

De virem tantos e tão urgentes, os lobos ficaram atarantados. Chamavam uns pelos outros, desassossegavam-se à espera de ordens, queriam saber e respeitar quem descobrira tão bela presa. Queriam avançar, depois, pensavam melhor, esperavam. Alguns enfureciam-se, outros, talvez mais espertos, matreiravam com maior paciência. Na confusão, uma loba trouxe o filhote, que brincava com as próprias patas, tropeçando e espanando borboletas. A mãe obrigava-o ao silêncio, mas ele não sabia que gestos eram silentes e que gestos provocavam ruídos. A vida ainda era inteira uma surpresa. O lobito apenas sabia brincar.

Quando passou no estreitinho dos rochedos, entre os rochedos muito altos que criavam uma porta magrinha para o outro lado da floresta, e onde se abriam novas clareiras e até algumas cabanas começavam a aparecer, os lobos assomaram ao cimo para espiarem. Teriam de atacar pouco depois, antes das cabanas, para evitarem que se alertasse algum caçador com o pedido de socorro da preciosa presa. Nervosos, os bichos correram e subiram ou desceram, espalharam-se, outros vieram muito perto, quase precipitando-se sobre a inocente criança. E, sem contarem, ao cimo dos rochedos se pôs a loba com o seu filhote trapalhão que, no exacto momento em que a menina passava entre o alcantilado das rochas, caiu, estatelando-se assustado no chão. Ali ficou, sem mexer mais do que os olhos, meio chorando. O lobito, de haver nascido havia tão pouco tempo, não sabia nem o tamanho das distâncias ou do profundo das quedas. Por ver os pássaros, teria pensado que com um passo chegaria suavemente ao chão ou que talvez das suas costas brotariam asas para seguir até alguma nuvem bonita pairando. A menina, sobressaltada, viu o pequeno animal no chão e imediatamente se inclinou sobre ele. De igual modo, todos os lobos suspenderam a respiração e se afligiram.

A menina sabia já muito bem o tamanho das distâncias e do profundo das quedas. Sem hesitar, tirou do cesto o linho, abriu-o no mais fofo das ervas e retirou os bolinhos do interior. Depois, com mãos de algodão, recolheu o lobito e ali o deitou, cobrindo-o. Aconchegou-o no cesto e, com o cesto muito seguro de encontro ao peito, partiu em corrida. Ficaram os bolinhos desordenados pelo chão, quando logo um grupo de formigas os cobiçaram. A mãe loba, em corrida tanto quanto a menina, descia a encosta e todos os lobos pensavam nela e se lhe juntavam.

A menina era como um traço de sangue sagrado que corria pela floresta. E corria carregando o cesto de maneira a que fosse o mais veloz e perfeita possível. Não conteve as lágrimas. Entendera que precisava de fazer tudo para curar o lobito, seria a única cura para a sua própria tristeza, para as suas lágrimas. O cesto, de tão valioso, seguia-lhe diante do peito como flutuando. Assim chegou à casa bonita da avó.

Os lobos, angustiados, amainaram diante das janelas da velha senhora, bordejando até o lago, por serem muitos, por serem todos. E a avó e a menina, a partir das mesmas janelas sempre abertas, ali os viram finalmente. Eram lobos calados, deitados sobre as patas como fazem os cães mais sensíveis. A menina, confiando nas mezinhas da avó, saiu ao sol ainda limpo da tarde e, embora duvidando de que os animais a pudessem entender claramente, disse: a minha avó vai curar o vosso lobito, não fiquem tristes. A minha avó traz um milagre de cada gesto. A menina sorriu.


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📚A Estante de Ana: A História de um Casamento de Andrew Sean Greer

Este romance, que navega pela história de uma família ao longo de décadas, é um exemplo primoroso de como a casa, a rua e até a própria cidade podem ser personagens que guardam memórias, segredos e sentimentos. O autor usa a personificação do espaço para dar profundidade e coesão à narrativa.



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