Por que "Mostrar, Não Contar" Vai Mudar Seu Texto para Sempre
- Ana Amélia

- há 12 minutos
- 4 min de leitura
Sejam bem-vindos ao bloco cirúrgico da literatura. Ana Amélia aqui, e hoje não vamos falar de perfumaria. Esqueçam aquela dica genérica de oficina literária que diz que "mostrar" é apenas descrever o cheiro da chuva ou o suor nas mãos do protagonista. Isso é o básico, o jardim de infância da escrita. Se você quer que o seu leitor não apenas leia, mas sangre com o seu texto, você precisa entender a engenharia por trás do "Mostrar, Não Contar" (Show, Don't Tell) como uma ferramenta de precisão ética e estrutural.
Muitos de vocês, caros aspirantes a autores, sofrem de uma doença chamada "Explicite aguda". Sentem uma necessidade patológica de dizer ao leitor como ele deve se sentir. "Ele estava triste", "Ela era malvada", "O ambiente era hostil". Parem com isso. O leitor não é um turista perdido precisando de um guia que aponte para a placa de "Cuidado: Emoção à Frente". O leitor quer ser o detetive. Se você entrega o veredito pronto, você rouba dele o prazer da descoberta — e, no processo, transforma seu livro em um relatório de ocorrência burocrático.
Hoje, vamos dissecar o mestre absoluto dessa omissão estratégica: Machado de Assis. Peguem o bisturi e vamos ao trabalho.
A Cirurgia da Indiferença: Engenharia Reversa em "Pai contra mãe"

Para entender como o "mostrar" pode ser uma arma, precisamos olhar para o conto mais brutal da nossa literatura. Em Pai contra mãe, Machado não está interessado em nos convencer de que a escravidão era terrível. Ele sabe que, se ele contar que era terrível, você concordará intelectualmente e seguirá para o próximo parágrafo. Mas, se ele mostrar a mecânica da coisa, ele te prende pelo estômago.
Observem este trecho crucial, onde o protagonista Cândido Neves captura a escrava fugida, Arminda:
Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoites, — coisa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoites. — Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? — perguntou Cândido Neves.
[...]
Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinquenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou. O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as consequências do desastre.
1. O Parafuso da Lógica Transacional

Notem a frieza cirúrgica de Machado. Ele não usa adjetivos como "cruel", "insensível" ou "monstruoso" para descrever Cândido Neves ou o dono da escrava. Ele mostra a transação financeira: "...tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinquenta mil-réis".
A engenharia aqui é brilhante: ao colocar os detalhes do dinheiro (duas notas de cinquenta) imediatamente antes da frase sobre o aborto, Machado cria uma justaposição técnica. O valor da vida humana é reduzido a papel-moeda na frente dos seus olhos. Ele não precisa contar que a vida ali não vale nada; ele mostra o recibo da venda.
2. O Silêncio Social como Cenário
Outro parafuso solto que Machado aperta com maestria é a reação dos transeuntes: "Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia".
Ao usar o advérbio "naturalmente", o autor faz um "mostrar" de nível avançado. Ele não descreve a sociedade como "conivente" ou "apática". Ele mostra a ação (ou a falta dela) como parte da paisagem. O efeito é muito mais devastador: o horror não é uma exceção, é o cenário. Se ele explicasse o contexto histórico, seria didatismo. Ao mostrar o vizinho que olha e não ajuda, é literatura de alto impacto.
3. A Focalização Egoísta (A Engenharia da Frase)
Vejam o fechamento: Cândido Neves vê o aborto, mas "urgia correr à rua da Ajuda". A estrutura da frase prioriza a urgência pessoal do personagem sobre a tragédia humana que acabou de ocorrer. Machado remove o narrador de cena e deixa apenas a lente da câmera focada no interesse do protagonista.
Isso é o ápice do Show, Don't Tell: o autor não julga o personagem. Ele deixa que as ações do personagem o condenem diante do tribunal do leitor. Se o narrador dissesse "Cândido era egoísta", você apenas registraria a informação. Quando o narrador mostra Cândido ignorando um feto morto para buscar o próprio interesse, você sente o asco.
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Relatório de Engenharia Reversa
Substituição de Adjetivos por Ações: O caráter do personagem é revelado pelo que ele faz (contar dinheiro) e não pelo que o narrador diz que ele é.
Contraste Estrutural: Colocar elementos triviais (notas de cinquenta mil-réis) ao lado de elementos trágicos (aborto) para potencializar o efeito de choque.
Omissão de Julgamento: O narrador se mantém neutro para que a indignação nasça no leitor, tornando a experiência mais imersiva e memorável.
Uso de Detalhes Sensoriais Estratégicos: O gemido, o rastejar, a queda no corredor. Detalhes que ancoram a cena na realidade física.

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