top of page

Revisão Profissional para Autores Exigentes.  

Desde 1990

lea

A Aula com Julio Cortázar: A Verossimilhança pela Fissura no Real

  • Foto do escritor: Ana Amélia
    Ana Amélia
  • 21 de jan.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 23 de jan.

Este post faz parte do curso A Arquitetura de Universos Literários

Olá, arquiteto de pequenos terrores.


Sabe aquele barulho que você ouve no meio da noite? Não o trovão ou o gato do vizinho, mas aquele estalo inexplicável que vem do cômodo ao lado. Aquele rangido no assoalho quando você tem certeza de que está sozinho em casa. Nossa primeira reação não é gritar. É parar. É ouvir. É tentar encaixar aquele som estranho na lógica do nosso mundo. "É só a madeira se assentando", dizemos a nós mesmos.

É nessa pequena fissura, nesse instante em que a nossa realidade ameaça rachar, que vive a obra de Julio Cortázar.

Enquanto muitos autores de literatura fantástica constroem castelos em terras distantes, Cortázar não se dava a esse trabalho. Ele preferia encontrar uma casa antiga e sólida no nosso mundo e, sorrateiramente, injetar o impossível em suas fundações. A aula de hoje é sobre isso: a verossimilhança pela invasão lenta, pelo horror que não arromba a porta, mas entra pela fresta.


O Terror que Pede Licença: A Banalidade em "Casa Tomada"


Close de uma chave antiga e ornamentada girando na fechadura de uma porta. A mão está calma, mas tensa, simbolizando a aceitação passiva do horror em "Casa Tomada".

Nossa cobaia para esta análise é o conto magistral "Casa Tomada". A premissa é simples: dois irmãos, Irene e o narrador, vivem uma vida reclusa e metodicamente organizada numa casa ancestral que herdaram. A rotina deles é um balé de pequenos hábitos: limpeza, tricô, leitura de literatura francesa. Eles são a personificação da normalidade, do conforto burguês. A casa é o universo deles, um organismo que os protege do mundo exterior.

Até que, um dia, o universo deles encolhe.


Foi às oito da noite que me deu uma vontade súbita de preparar o mate. Fui pelo corredor até defrontar com a porta de comunicação, que estava entreaberta, e ia passando para o outro lado quando ouvi na cozinha e na parte dos quartos um barulho. Um barulho surdo e impessoal. Um ruído de cadeira que se arrasta ou de coisa que cai. Fiquei de corpo imóvel, prestando atenção. Ouvi-o ao mesmo tempo na cozinha e nos quartos. Fechei imediatamente a porta de comunicação e tranquei-a com o ferrolho. Voltei para o meu quarto e disse a Irene: — Tive que fechar a porta de comunicação. Tomaram a parte do fundo. Deixou cair o tricô e me olhou com seus olhos graves e cansados. — Você tem certeza? — Tenho — respondi. — Então — disse ela, recolhendo as agulhas —, teremos que viver neste lado.

Vamos dissecar o que acabou de acontecer. Uma força desconhecida, anônima ("eles"), invade e toma posse de metade da casa. Qual é a reação dos personagens a este evento que deveria ser apavorante? Pânico? Gritos? Uma chamada para a polícia?

Nada disso. A análise de "Casa Tomada" revela três micromecanismos funcionando em perfeita harmonia:


  1. Ação Explícita Passiva: A reação do narrador não é de confronto, mas de contenção. Ele não vai ver o que é. Ele fecha a porta e a tranca. Irene não corre, ela simplesmente deixa cair o tricô. São ações de renúncia, de aceitação. Eles cedem o território sem lutar.

  2. Diálogo "Sujo" e Banal: A conversa é quase administrativa. "Tomaram a parte do fundo". "Teremos que viver neste lado". Parece que estão a discutir uma infiltração ou uma reforma, não uma invasão sobrenatural. Essa linguagem mundana, desprovida de emoção, é o que torna a cena tão perturbadora.

  3. Ação Implícita (Tensão): O que são os invasores? Fantasmas? Ladrões? Memórias? Cortázar nunca diz. O horror é poderoso justamente porque não tem nome nem rosto. É um "barulho surdo e impessoal". Ao se recusar a explicar, ele força a nossa imaginação a preencher a lacuna, e o que imaginamos é sempre pior do que qualquer monstro que ele pudesse descrever.


A verossimilhança aqui é uma obra-prima de psicologia reversa. A história é crível não apesar da reação calma dos irmãos, mas por causa dela. Eles agem de uma forma tão estranhamente lógica dentro do seu universo fechado que nós, leitores, não temos escolha a não ser aceitar a premissa bizarra.


O Eco na Colina: A Sugestão em Shirley Jackson



Sala de estar antiga e empoeirada, com uma xícara de chá frio e um livro aberto. A cena transmite uma sensação de abandono súbito, mas estranhamente tranquilo.

Cortázar não estava sozinho nesta arquitetura do medo sutil. Do outro lado do equador, Shirley Jackson estava fazendo algo parecido com tijolos, argamassa e traumas psicológicos. Em A Maldição da Residência Hill, o terror também é uma força invisível que se manifesta em pequenos sons e sensações.

[citação]

Ninguém falou, mas ficaram olhando para o corredor escuro, e o som veio de novo, um pequeno e claro som de batidas, muito longe, mas nítido. — É uma pena — disse a senhora Montague, com a voz um pouco trêmula. — Deveríamos ter deixado as luzes acesas no corredor. — Não seja boba, querida — disse o doutor. — Está tudo bem. — Mas eu não gosto do escuro — disse a senhora Montague. O som veio de novo, mais perto, um pouco mais alto. Parecia estar vindo ao longo do corredor, batendo suavemente nas portas enquanto passava. — Apenas alguém querendo entrar — disse Luke, e deu uma risada que soou estridente.

Vê a semelhança? A ameaça é sonora, indefinida. E a reação dos personagens é tentar desesperadamente normalizá-la, encaixá-la na realidade. Eles falam sobre as luzes, fazem piadas nervosas. Assim como os irmãos de Cortázar, eles tentam conter o medo com a banalidade.

Tanto Cortázar quanto Jackson nos ensinam que a verossimilhança do fantástico muitas vezes não depende de quão bem você descreve o monstro, mas de quão bem você descreve a tentativa humana de negar que o monstro está ali. A credibilidade nasce da reação. É um lembrete poderoso de que, ao escrever, a psicologia dos seus personagens é a fundação mais importante do seu mundo, especialmente quando as paredes começam a fazer barulhos estranhos.


Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia...

📚A Estante de Ana: A Casa das Folhas de Mark Z. Danielewski

|Se "Casa Tomada" é uma fissura no real, este livro é um terremoto. Uma obra labiríntica e experimental que trata uma casa como uma entidade topográfica impossível. Leitura desafiadora, mas uma aula magna sobre como a forma e a estrutura de um texto podem se tornar a própria manifestação do horror.


Vamos Conversar?


ilustração da sessão vamos conversar uma ponte ligando uma pilha de papel desorganizados com um livro

Sua história tem uma casa? Um lugar, um objeto, uma ideia que parece normal na superfície, mas que abriga algo estranho por baixo? Como seus personagens reagem quando a lógica do mundo deles começa a ruir? Eles gritam e correm, ou fecham a porta e decidem que, a partir de agora, terão que viver só de um lado?

A credibilidade desses momentos decisivos é tudo. Na Letra & Ato, adoramos explorar essas fissuras, esses pontos de ruptura. Nossa análise dialogal é uma conversa profunda sobre as reações que tornam uma história não apenas fantástica, mas inesquecivelmente crível. Vamos falar sobre os fantasmas que assombram o seu manuscrito?


Afinal, a melhor revisão é aquela que ouve os barulhos estranhos junto com o autor e ajuda a trancar a porta certa.


Letra & Ato

Tradição | Precisão Editorial | Sensibilidade

© 2024-2025 Letra & Ato (antiga Revisão Dialogal). Todos os direitos reservados.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page