Consciência literária em Han Kang — A Vegetariana
- Ricardo

- há 2 dias
- 2 min de leitura

Técnica Narrativa e Silêncio
Vou começar pelo aviso honesto que ninguém faz: A Vegetariana não é um livro “sobre ser vegetariano”. Se alguém te vendeu assim, já começou errado. O romance da sul-coreana Han Kang é curto, seco e profundamente desconfortável. E é justamente aí que ele acerta.
A história gira em torno de Yeong-hye, uma mulher comum que, um dia, decide parar de comer carne. Sem discurso. Sem militância. Sem explicação sociológica. Ela simplesmente para. E esse gesto mínimo — quase banal — implode tudo ao redor dela: o casamento, a família, a forma como os outros a veem e, sobretudo, o direito que o mundo acha que tem sobre o corpo dela.
O que me interessa aqui, como leitor atento à construção literária, não é o “tema”, mas o mecanismo.
Han Kang constrói o livro em três partes, cada uma narrada por alguém diferente — e esse detalhe é crucial. Yeong-hye quase não fala. Ela é vista. Observada. Interpretada. Diagnosticada. Controlada. O silêncio dela não é vazio: é resistência estrutural.
E repare na escolha radical: a protagonista do livro é justamente quem menos tem voz direta.
Isso desloca o eixo inteiro da narrativa. O centro não está na psicologia explicada, mas no choque entre sistemas: família, casamento, desejo, normalidade, sanidade.
Os personagens ao redor funcionam como forças de contenção. O marido quer normalidade. O pai quer obediência. O cunhado quer transformar o corpo dela em objeto estético. A irmã tenta “administrar” o caos. Cada um projeta algo sobre Yeong-hye — e o texto nunca permite que essas projeções se resolvam em conforto.
Aqui entra um ponto que vale ouro para quem escreve (e para quem lê melhor):os personagens não são profundos porque são complexos psicologicamente, mas porque ocupam posições claras em um sistema de tensões. É neste ponto que a Consciência literária em Han Kang torna-se brilhante.
Han Kang não explica. Ela encena.

O estilo acompanha essa ética. A linguagem é contida, quase clínica em certos momentos. Não há floreio. Não há catarse fácil. O horror surge justamente da frieza, da repetição, da sensação de que ninguém está ouvindo — porque ninguém está mesmo.
Se você espera uma narrativa de “superação”, este livro vai te frustrar. Se espera um manifesto, também. Mas se você quer observar como a literatura pode tratar corpo, identidade e recusa sem virar discurso, A Vegetariana é uma aula silenciosa.
É um daqueles livros que não pede interpretação rápida. Ele fica. Incomoda. E, dias depois, você percebe que estava pensando nele sem perceber por quê.
E talvez esse seja o maior mérito do romance: mostrar que, às vezes, o gesto mais violento numa narrativa não é o excesso — é a recusa de participar do jogo.
Se você gosta de livros que não te explicam o que sentir, mas te obrigam a conviver com a sensação, vale a leitura.













Muito bom! Parabéns 👏