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Personagens sem voz: o erro invisível de quem escreve bem demais

  • Foto do escritor: Ricardo
    Ricardo
  • há 21 horas
  • 4 min de leitura

Silhuetas de personagens diferentes projetando a mesma sombra, simbolizando vozes indistintas na escrita.

Quando todos os seus personagens falam igual, o problema não é técnico — é de escuta

Eu vou começar pelo sintoma, porque é assim que ele aparece para quem escreve.

Você termina um conto, um capítulo, às vezes um romance inteiro. Reler não dói. A história está ali. O enredo anda. Os diálogos “funcionam”. Mas há uma sensação estranha, difícil de nomear: se você tirar o nome do personagem antes das falas, tanto faz quem está falando. Tudo soa… parecido.

Não é exatamente ruim. É pior. É indiferenciado.

Nesse momento, quase todo mundo corre para o mesmo lugar: técnica.“ Preciso diferenciar melhor as vozes.” “Talvez eu esteja errando no diálogo.” “Vou estudar como construir personagens mais fortes.”

O impulso é compreensível — e equivocado.

Quando todos os personagens falam igual, o problema raramente está no como você escreve. Ele está no quanto você escuta.


O autor que ocupa todo o espaço sonoro do texto


Existe uma confusão muito comum entre quem escreve: achar que o texto é um palco onde o autor precisa estar sempre presente. Opinando, organizando, explicando, sustentando a cena com a própria voz. O efeito colateral disso é simples: todos os personagens acabam falando com o mesmo timbre — o seu.

Não importa se são idades diferentes, gêneros diferentes, classes sociais diferentes. Eles discordam entre si, mas discordam do mesmo jeito. Argumentam com a mesma cadência. Ironizam com o mesmo ritmo. Pensam com a mesma lógica sintática.

Isso não é falta de talento. É excesso de centralidade.

O autor não percebe que está falando o tempo todo — inclusive quando acha que está “deixando o personagem falar”.


O mito da voz neutra


Aqui entra um erro conceitual grave, mas silencioso: a ideia de que existe uma escrita “neutra”, transparente, sem marca de autor.

Não existe.

Toda escrita tem voz. Toda frase carrega escolhas. Toda construção revela uma forma de ver o mundo — mesmo quando tenta se esconder atrás da clareza ou da simplicidade.

Quando o autor acredita que está sendo neutro, o que geralmente acontece é outra coisa: ele naturaliza o próprio idioleto* como se fosse linguagem universal.

O resultado? Os personagens não falam como pessoas. Falam como versões levemente deslocadas do autor.


Personagem não é performance, é escuta


Aqui vai uma afirmação que costuma incomodar: personagem forte não nasce da criatividade, mas da escuta.

Escuta de quê? – Do mundo– Das tensões sociais– Das contradições internas– Das hierarquias invisíveis– Dos silêncios que cada figura carrega

Quando isso não acontece, o personagem vira uma performance: um “jeito de falar”, um traço engraçado, uma marca superficial. Pode até ser funcional. Mas não sustenta densidade.

É por isso que tantos textos têm personagens “bem desenhados” e, ainda assim, vazios. Eles foram pensados como construção externa, não como consequência de um sistema de forças.


O problema não é o diálogo — é o centro acústico


Reflexos idênticos simbolizando personagens como extensões da voz do autor.

Muita gente acha que o defeito aparece no diálogo. Ele aparece ali, mas não nasce ali.

O problema começa antes: quem ocupa o centro acústico do texto?

Se é sempre o autor, os personagens orbitam. Se o mundo do texto fala mais alto que o autor, os personagens emergem.

Essa diferença muda tudo.

Um personagem não precisa falar muito para ter voz. Às vezes, o que define sua presença é o que ele não diz, o que ele evita, o que ele contorna.

Mas isso exige uma coisa difícil para quem escreve: sair do centro.


Consciência literária não é técnica — é deslocamento


É aqui que entra a tal “consciência literária”, tão citada e tão pouco praticada.

Ela não começa quando você aprende nomes difíceis ou estruturas narrativas. Ela começa quando você percebe que seu texto tem um eixo — e que talvez você esteja ocupando esse eixo o tempo inteiro.

Escrever com consciência é reconhecer:– onde sua voz aparece – quando ela é necessária– e quando ela atrapalha

Sem esse reconhecimento, toda técnica vira maquiagem. Funciona por um parágrafo, talvez por um conto, mas não sustenta um livro.


Antes de diferenciar vozes, reconheça a sua


Muita gente quer aprender a “criar vozes diferentes”. Pouca gente aceita fazer o movimento anterior: identificar a própria.

Sem isso, o exercício vira mímica. Você troca vocabulário, altera ritmo, coloca um cacoete aqui e ali — mas o pensamento continua sendo o mesmo.

É como trocar a roupa da frase sem mudar o corpo que a sustenta.

E o leitor percebe. Sempre percebe.


Um aviso honesto (e necessário)


Se você se reconheceu aqui, não transforme isso em culpa. Culpa não escreve melhor. Consciência, sim.

Esse post não é um manual. Não é uma aula. É um espelho.

No próximo texto, a gente vai descer um nível: falar de idioleto e dramatis personae não como termos acadêmicos, mas como estruturas vivas — aquelas que explicam por que alguns personagens parecem respirar enquanto outros apenas ocupam espaço na página.

Por enquanto, basta uma pergunta — simples e incômoda:


👉 Se eu apagar os nomes dos falantes, quem ainda existe no meu texto além de mim?


Vamos conversar?

Se esse texto acendeu um incômodo — ótimo. É assim que a escrita começa a amadurecer. Revisar não é corrigir erro: é aprender a escutar o próprio texto com menos ego e mais precisão. Se quiser caminhar junto nesse processo, a conversa está aberta.


*Idioleto é o modo de falar próprio de um personagem, marcado por escolhas individuais de vocabulário, ritmo e estilo, e ajuda a construir sua identidade, diferenciá‑lo dos demais e tornar a narrativa mais verossímil.


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