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Lugar de Fala ou Novilíngua? O Dilema Ético do Autor Contemporâneo.

  • Foto do escritor: Ana Amélia
    Ana Amélia
  • há 30 minutos
  • 4 min de leitura
pintura surrealista de um homem com um mapa em lugar da cabeça

O Mapa não é o Território: A Ética da Alteridade

Sejam bem-vindos a mais uma sessão de terapia literária — ou melhor, de engenharia de risco. Ana Amélia aqui.

Hoje vamos mexer em um vespeiro que faz muito autor suar frio e muita rede social entrar em combustão: o famigerado "Lugar de Fala".

Antes que vocês comecem a cancelar uns aos outros nos comentários, vamos colocar os pingos nos is. Paulo me lembrou recentemente de uma polêmica que beira a insanidade: o caso de American Dirt (Terra Americana), onde uma autora norte-americana, Jeanine Cummins, foi massacrada por escrever sobre a travessia de migrantes mexicanos. O debate foi tão tóxico que parecia que tínhamos instituído a Novilíngua de George Orwell , onde certas experiências são proibidas de serem nomeadas por quem não as "possui".

Escrever é, por definição, um ato de invasão. É o risco ético de falar pelo outro. Mas será que a literatura sobrevive se nos trancarmos apenas no que vivemos? Ou será que o problema não é quem fala, mas a falta de precisão de quem tenta imitar uma voz que não conhece?

Nota da Ana: O que diabos é Lugar de Fala? De forma minimalista: Não é um "cala a boca". É o reconhecimento de que todos falamos de um ponto específico na estrutura social. Ter lugar de fala não te impede de escrever sobre o outro; apenas exige que você reconheça que a sua visão sobre esse outro é mediada pela sua própria posição (de gênero, raça, classe). É sobre consciência de perspectiva, não sobre proibição de tema.

Engenharia Reversa: O Parafuso da Alteridade


Para entender como se constrói a voz do "outro" sem cair no ridículo ou na apropriação barata, vamos soltar os parafusos de quem fez isso com maestria e de quem se perdeu no caminho.


1. O Ventriloquismo vs. A Empatia Técnica


Uma máscara de porcelana branca partida ao meio, revelando uma galáxia vibrante no seu interior, simbolizando a complexidade oculta da identidade e da alteridade.

Muitos questionam se um homem pode escrever um eu-lírico feminino. Temos o clássico exemplo de Chico Buarque na música brasileira, ou poetas que parecem "encarnar" a alma feminina. O segredo aqui não é mística; é observação estrutural.

O erro de obras como American Dirt não foi o fato de a autora ser branca e americana. O erro foi a Engenharia do Estereótipo. Ela usou o "contar" em vez do "mostrar". Ela entregou o que o público esperava de um mexicano (vítima, sofredor, exótico) em vez de construir uma subjetividade complexa. Quando você escreve o outro baseado no que você acha que ele é, você não está fazendo literatura, está fazendo turismo social.


2. A Identidade como Dispositivo: Nella Larsen e o "Passing"



Vejam como a técnica de Nella Larsen em Identidade (Passing), obra dos anos 20, desmonta essa discussão. Larsen, uma mulher negra, escreve sobre o fenômeno de pessoas negras de pele clara que se "passavam" por brancas na sociedade americana.


Clare Kendry, por outro lado, vive no limite. Após perder o pai aos 14 anos, saiu da vizinhança negra em que vivia para ir morar com as tias e começou a se passar por branca, mantendo sua verdadeira ancestralidade miscigenada em segredo para todos, principalmente para o homem racista com quem se casou. No entanto, após o reencontro e à medida que começa a se envolver cada vez mais na vida de Irene, Clare vê a energia da comunidade que deixou para trás...

Aqui, a alteridade é tratada como uma tensão de engenharia. Larsen não precisa "explicar" o racismo; ela o mostra através da farsa de Clare. O risco ético está na própria trama. O autor que deseja escrever sobre o outro precisa entender a frequência vibratória daquela realidade. Se você não viveu, sua pesquisa precisa ser tão profunda que a técnica substitua a biografia sem deixar cicatrizes de falsidade.


3. O Perigo da Novilíngua em 1984


rte Pop-Art de uma boca com uma barra de censura estilizada, ilustrando a tensão entre o silenciamento e a necessidade de expressão na escrita contemporânea.

Em 1984, Orwell nos mostra a criação da "Novilíngua", um projeto para reduzir o vocabulário e, consequentemente, o pensamento.


O objetivo da Novilíngua não era apenas fornecer um meio de expressão para a visão de mundo e os hábitos mentais próprios dos devotos do Socing, mas inviabilizar todas as outras formas de pensamento. [...] Isso se conseguia em parte pela invenção de novas palavras, mas principalmente pela eliminação de palavras indesejáveis.

Quando a discussão sobre lugar de fala se torna "insana", como Paulo mencionou, corremos o risco de criar uma Novilíngua literária. Se proibimos o autor de ficção de exercer a alteridade, estamos eliminando palavras, perspectivas e, por fim, a própria capacidade humana de entender o que é diferente de nós. A ética na escrita não está no silêncio, mas na responsabilidade da palavra.


Vamos Conversar?


um lápis ponte representando a relação autor e revisão na letra e ato

O grande drama do autor contemporâneo é o medo. Medo de errar a mão, medo de ser cancelado, medo de não ter "autorização" para criar. Mas a boa literatura sempre foi um ato de coragem e de risco. O que diferencia um mestre de um amador não é o tema que ele escolhe, mas a precisão cirúrgica com que ele trata a voz alheia.


Na Letra & Ato, nós entendemos que a revisão de uma obra que toca em temas sensíveis exige mais do que gramática; exige sensibilidade editorial. Nós ajudamos você a identificar onde sua voz está "mentindo", onde o estereótipo está substituindo a humanidade e onde o seu "lugar de fala" está obscurecendo a visão do seu personagem.

Quer que olhemos para a estrutura ética e técnica do seu original? Peça sua amostra gratuita. Vamos garantir que seu mapa literário realmente descreva o território, sem cair nas armadilhas da superficialidade.

O Risco como Motor: A escrita ética não evita o conflito; ela o habita com rigor técnico e pesquisa.



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