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Biscoitos: Adjetivação na escrita — a Cura pela Ação

  • Foto do escritor: Adorama
    Adorama
  • há 21 horas
  • 5 min de leitura

Olá, cúmplices na busca pela palavra exata.

Sejam bem-vindos a mais uma "fornada" da nossa Série Biscoitos. Sabe aquele biscoito que você compra na padaria, ele é lindo, dourado, mas quando você morde, tem gosto de essência artificial? Falta a manteiga de verdade, a baunilha em fava, o tempo de descanso da massa. Na escrita, o adjetivo abstrato é a nossa "essência artificial". Ele tenta dar sabor ao texto de forma rápida, mas o leitor sente que falta a substância da experiência real.

Hoje vamos falar sobre a adjetivação na escrita, especificamente quando ela deixa de ser um adorno e passa a ser uma muleta. Vamos entender por que encher um parágrafo de "terrivelmente", "lindíssimo" ou "misterioso" é, na verdade, um grito de socorro do seu texto pedindo por mais cena e menos explicação.


1. Apresentação do Desafio: O Adjetivo como Sintoma


Dicionário gigante sendo espremido, vertendo uma paisagem urbana complexa.

Na Letra & Ato, não olhamos para o excesso de adjetivos como um erro a ser punido com o sinal de "deletar". Nós o vemos como um sintoma. Quando um autor escreve que um personagem está "profundamente triste" ou que uma casa é "extremamente assustadora", ele está nos dando um diagnóstico, não um tratamento. Ele sabe que a tristeza é profunda ou que o medo é intenso, mas, por uma espécie de "preguiça narrativa" momentânea (ou apenas pressa), ele decide rotular a emoção em vez de construí-la.

O problema do adjetivo abstrato é que ele é um "pacote fechado" que não permite que o leitor participe da criação. Se eu digo que o dia está "maravilhoso", eu estou impondo a minha conclusão ao leitor. Se eu descrevo o calor do sol na pele e o cheiro de grama cortada, eu permito que o leitor conclua, por conta própria: "Que dia maravilhoso!". O objetivo da nossa lapidação hoje é transformar o rótulo em comportamento.


2. O Rascunho Competente (Versão de Trabalho)


Ricardo era um homem extremamente arrogante e desagradável. Ele entrou no restaurante luxuoso com um ar de superioridade insuportável, ignorando o garçom que o recepcionou de forma gentil. Sua esposa, uma mulher visivelmente infeliz e submissa, o acompanhava com passos tímidos. O jantar foi tenso e silencioso. Ricardo parecia furioso com a comida, fazendo reclamações constantes e desnecessárias, enquanto ela olhava para o prato com uma expressão melancólica e triste. Era um relacionamento tóxico e deplorável.

O texto acima não é "ruim". Você entende perfeitamente quem são essas pessoas e qual é o clima da cena. No entanto, ele é um texto de "etiquetas". O autor colou etiquetas de "arrogante", "infeliz", "tenso" e "tóxico" nos personagens. O leitor recebe a informação mastigada, mas não sente o estômago embrulhar. Não há textura.


3. O Diálogo Exploratório: O Que o Adjetivo Esconde?


Quando aplicamos o nosso método de revisão dialogal, em vez de dizer "corte esses adjetivos", nós perguntamos ao autor o que eles estão tentando proteger.


  • Sobre a arrogância de Ricardo: Como ele demonstra que se sente superior sem que precisemos usar a palavra "arrogante"? É no tom de voz? É na forma como ele nem sequer olha para as pessoas?

  • Sobre o restaurante "luxuoso": Luxo é relativo. O que exatamente nesse lugar grita "riqueza" e como isso contrasta com a "frieza" da cena? É o som da prataria? O peso do guardanapo de linho?

  • Sobre a "infelicidade" da esposa: Como o corpo dela reage à presença dele? A submissão é um silêncio ou é uma antecipação nervosa aos desejos dele?

  • Sobre a "fúria" com a comida: Em vez de "reclamações desnecessárias", o que ele faz? Ele afasta o prato? Ele espeta a carne com força excessiva?


Queremos que o leitor chegue à conclusão de que o relacionamento é "tóxico" sem que essa palavra precise ser escrita. A força da narrativa está no que fica subentendido entre as linhas, no diálogo invisível entre o texto e a sensibilidade de quem lê.


4. A Versão Lapidada: Do Rótulo à Vivência


Pulmões transparentes com palavras flutuantes liberando pássaros pela garganta.

Agora, vamos observar como a cena ganha vida quando removemos as muletas da adjetivação na escrita e as substituímos por ações e detalhes sensoriais.


Ricardo cruzou o salão do L’Ermitage sem desviar os olhos do balcão de reservas. O garçom inclinou o corpo em uma saudação que Ricardo interrompeu com um gesto seco, entregando o sobretudo molhado sem sequer reduzir o passo. Atrás dele, Helena mantinha os ombros encolhidos, os dedos torcendo a alça da bolsa até que as juntas ficassem brancas. Ela não olhou para o maître; seus olhos estavam fixos na nuca do marido, monitorando a inclinação da sua cabeça.
À mesa, o silêncio era preenchido apenas pelo tilintar metálico dos talheres de prata. Ricardo examinou o foie gras como se procurasse uma ofensa escondida entre as guarnições. Ele afastou o prato com a ponta do indicador, fazendo a porcelana ranger contra o vidro da mesa.
— Patético — murmurou ele, não para o garçom, mas para o copo de vinho que girava entre seus dedos.
Helena parou o garfo no meio do caminho. Ela não perguntou o que estava errado. Apenas pousou o talher, alinhando-o milimetricamente com a borda do prato, e voltou a estudar os reflexos das velas na superfície da mesa, as mãos agora escondidas sob o linho do guardanapo, onde ninguém pudesse ver o movimento involuntário de seus polegares.

Notem a transformação:

  1. Arrogante/Desagradável: Virou o gesto seco, o ato de entregar o sobretudo sem olhar e o murmúrio para o copo de vinho.

  2. Luxuoso: Virou o nome do restaurante, o tilintar da prata e a porcelana sobre o vidro.

  3. Infeliz/Submissa: Virou o ato de torcer a bolsa, monitorar a nuca do marido e o alinhamento obsessivo do talher.

  4. Tóxico: Ficou evidente na atmosfera de medo e na falta de comunicação verbal.

Eliminamos os rótulos e entregamos o comportamento. O leitor agora não apenas sabe o que está acontecendo; ele sente a pressão atmosférica daquela mesa.


Reforço de Aprendizagem: A Dieta do Adjetivo


  • O Adjetivo é um Resumo: Sempre que usar um adjetivo abstrato (triste, belo, terrível), pare e pergunte: "Como posso descrever o que causa essa sensação?".

  • Verbos de Ação são seus Melhores Amigos: Um verbo forte muitas vezes substitui um advérbio ou adjetivo fraco. "Ele caminhou rapidamente" pode ser "Ele disparou" ou "Ele marchou".

  • Foco no Sensorial: Substitua o julgamento (bonito) pela percepção (a luz refletida no cobre).

  • O Leitor é Inteligente: Confie que o seu leitor consegue somar 1 + 1. Se você mostrar o personagem chutando a porta, não precisa dizer que ele está "bravo".

  • Use Adjetivos Concretos: Se precisar usar adjetivos, prefira os que dão textura física (áspero, úmido, metálico) em vez dos que dão julgamentos de valor (bom, ruim, incrível).


☕Vamos Conversar?


O excesso de adjetivos é, muitas vezes, o medo do autor de não ser compreendido. Mas a verdadeira conexão com o leitor acontece no espaço que você deixa para ele preencher com a própria imaginação. Na Letra & Ato, nós ajudamos você a identificar esses "sintomas" de adjetivação e a encontrar as ações que darão peso e verdade ao seu texto.

Nossa revisão não apaga a sua voz; ela limpa o vidro para que a sua história brilhe com mais nitidez. Quer ver como o seu texto pode ganhar essa textura profissional? Convidamos você a experimentar nossa amostra gratuita de revisão. Vamos conversar sobre como transformar seus rótulos em cenas inesquecíveis?


O texto é seu, o cuidado é nosso.


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