Como Escolher o Detalhes na Escrita que Importa
- Adorama

- há 3 horas
- 5 min de leitura

Olá, cúmplices na busca pela palavra exata.
Sejam bem-vindos a mais um encontro da nossa Série Biscoitos. Sabe aquele biscoito artesanal, com uma massa amanteigada perfeita, mas que alguém resolveu colocar uma cobertura de granulado de plástico por cima? O granulado não acrescenta sabor, ele apenas atrapalha a textura e deixa um retrogosto artificial. Na literatura, o detalhe irrelevante é esse granulado. O autor se esforça tanto para ser "preciso" que acaba soterrando a emoção sob um inventário de mobília.
Hoje, vamos falar sobre a coragem de escolher. Vamos entender por que o detalhe errado arruína a cena certa e como a curadoria de imagens é o que separa um relato burocrático de uma narrativa que pulsa. Vamos entender como escolher o detalhe na escrita que importa.
1. Apresentação do Desafio: O Inventário vs. A Imagem
O grande erro que vejo em rascunhos competentes é a "síndrome do perito criminal". O autor entra na cena e sente que precisa descrever tudo: a cor das paredes, a marca da televisão, o tipo de piso, o modelo do carro lá fora e a marca do relógio do personagem. O objetivo é criar realismo, mas o efeito é o oposto: o leitor se sente lendo um catálogo de loja de departamentos.
Se você descreve o relógio, não é para sabermos as horas, mas para sentirmos a obsessão do personagem com o tempo ou a sua necessidade de ostentar um status que ele não possui. O detalhe na escrita deve ser uma sinédoque — uma parte que evoca o todo. Quando você escolhe o detalhe errado, você desvia a atenção do leitor para algo que não leva a lugar nenhum, quebrando o feitiço da imersão.
2. O Rascunho Competente (Versão de Trabalho)

Jonas estava sentado na sala de espera do hospital, que tinha paredes pintadas de um azul claro e quatro cadeiras de plástico reforçado presas ao chão. No canto, uma televisão de 42 polegadas da marca Sony exibia um telejornal com o volume baixo. O chão era de granilite cinza com algumas manchas de uso. Jonas usava uma calça jeans escura da Levi's e uma camisa polo verde-musgo com três botões. Ele olhava para o seu relógio de pulso digital a cada cinco minutos, esperando que a enfermeira chamasse seu nome para saber o resultado dos exames de sua esposa. O ar-condicionado da marca Split fazia um ruído constante de 60 decibéis.
Aqui temos um texto que "informa" muito, mas "revela" pouco. O autor foi extremamente preciso na marca da TV, no modelo do ar-condicionado e na marca da calça. Mas, me digam: o fato de a TV ser Sony ou a calça ser Levi's ajuda a sentir a angústia do Jonas? Não. São informações que ocupam espaço cerebral do leitor sem oferecer nenhum retorno emocional. É o detalhe irrelevante ocupando o lugar da atmosfera.
3. O Diálogo Exploratório: O Que Jonas Realmente Vê?
Em nossa revisão dialogal, o processo de reconhecimento passa por questionar a utilidade de cada átomo de informação. Precisamos filtrar o que é ruído e o que é sinal.
Sobre o ambiente: Ninguém em pânico num hospital repara na marca da televisão. O que uma pessoa ansiosa repara? Talvez na mancha de café no balcão que ninguém limpou, ou no modo como a luz fluorescente faz a pele de todos parecer doente.
Sobre os objetos: Em vez da marca da calça, que tal focar no que Jonas está fazendo com as mãos? Ele está descascando a cutícula? Ele está segurando o cartão do plano de saúde com tanta força que o plástico está entortando?
Sobre o som: O "ruído do ar-condicionado" é bom, mas "60 decibéis" é técnico demais. Como esse som afeta o Jonas? Parece um zumbido de inseto? Parece uma contagem regressiva?
O ambiente deve ser um reflexo ou um contraste do estado interno do personagem. O detalhe certo é aquele que carrega um subtexto. Quando limpamos o excesso de "informações de catálogo", permitimos que a verdadeira tensão da cena emerja. A revisão não é apenas sobre o que adicionar, mas sobre o que ter a coragem de retirar para que o essencial brilhe.
4. A Versão Lapidada: A Força da Imagem Única
Vamos observar como a cena se transforma quando substituímos o inventário de marcas por detalhes que comunicam a agonia da espera.
Jonas não conseguia tirar os olhos de um pequeno rasgo no estofado da cadeira ao lado. A espuma amarelada aparecia por baixo do plástico azul, como uma ferida exposta que ninguém se dera ao trabalho de curar. Na parede, a televisão exibia bocas que se mexiam sem emitir som, uma pantomima inútil de notícias que não podiam alcançá-lo ali, naquele vácuo de antisséptico e luz branca.
Ele sentia o peso do cartão do plano de saúde contra a palma da mão, as bordas de plástico cravando-se na pele suada. A cada vez que a porta automática do corredor se abria, o suspiro pneumático do mecanismo parecia sugar todo o ar do recinto. Jonas não olhava para o relógio para ver as horas; ele olhava para o ponteiro dos segundos apenas para confirmar que o tempo ainda estava se movendo, embora o mundo parecesse ter estancado. Uma mosca solitária batia contra a vidraça da janela, um som seco e rítmico que era a única coisa que rivalizava com a pulsação acelerada em seus próprios ouvidos. Quando a enfermeira finalmente apareceu, Jonas reparou apenas no modo como ela ajeitava o estetoscópio no pescoço — um gesto rotineiro que, para ele, tinha o peso de uma sentença.
Vejam a mudança de perspectiva:
A Cadeira: Em vez de "cadeira de plástico reforçado", temos a "espuma amarelada" e a "ferida exposta". O objeto agora carrega a metáfora da doença e do descaso.
A TV: A marca não importa. O que importa é a "pantomima inútil", o silêncio visual que reforça o isolamento de Jonas.
O Cartão vs. A Calça: A calça Levi's sumiu. No lugar dela, o cartão cravado na mão suada, mostrando a tensão física da espera.
O Ar-condicionado: Virou o "suspiro pneumático" da porta, um detalhe muito mais orgânico e ameaçador.
O detalhe na escrita agora serve à história. Ele não é mais um enfeite; é uma ferramenta de imersão.
Reforço de Aprendizagem: A Peneira do Detalhe Revelador
O Teste da Emoção: Antes de descrever um objeto, pergunte-se: "Este detalhe ajuda o leitor a sentir o que o personagem está sentindo?". Se a resposta for não, delete.
Fuja das Marcas: A menos que a marca seja essencial para a caracterização socioeconômica ou para o enredo, ela costuma datar o texto e distrair o leitor.
Use os Cinco Sentidos: Um cheiro (cloro, café queimado) ou uma textura (metal frio, plástico rachado) costuma ser muito mais potente do que uma descrição puramente visual.
Menos é Mais: Uma única imagem forte (a espuma saindo da cadeira) vale mais do que dez descrições genéricas da sala inteira.
O Detalhe como Metáfora: Tente escolher detalhes que espelhem o conflito interno do personagem ou o tema da cena.
Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia...
A Cabeça do Santo de Socorro Acioli
Socorro Acioli utiliza detalhes sensoriais e regionais com uma precisão poética impressionante. Cada elemento do cenário — desde o calor do sertão até as fitas de pedidos penduradas — não está ali por acaso; eles constroem a mística e a humanidade da jornada do protagonista.
☕Vamos Conversar?
Escolher o que mostrar é, em última análise, o que define a sua voz como autor. É nesse processo de curadoria que o seu olhar se diferencia de todos os outros. Na Letra & Ato, nós entendemos que a sua intenção é preciosa, e nosso papel na revisão dialogal é ajudar você a identificar quais detalhes estão brilhando e quais estão apenas fazendo sombra no seu talento.
Sente que suas descrições estão pesadas ou que o leitor parece "tropeçar" em informações desnecessárias? Vamos passar o seu texto pela nossa lupa? Convidamos você a conhecer nosso método e a aproveitar nossa amostra gratuita de revisão. Vamos juntos encontrar o detalhe revelador que vai tornar sua cena inesquecível?
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