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Personagem 1: Desejo vs. Necessidade

  • Foto do escritor: Ana Amélia
    Ana Amélia
  • 15 de jan.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 24 de jan.


Desejo e Necessidade: O Segredo do Arco que Transforma Personagens


Olá, meus caros construtores de mundos! Aqui é Ana Amélia, a sua guia para desvendar os truques que os grandes mestres usam para nos fazer amar — ou odiar — um personagem.

Estamos abrindo o MÓDULO 1 do nosso curso Personagem da Estrutura à Alma, e se você está pensando em escrever um romance, esta é a aula que separa os amadores que escrevem eventos dos artesãos que constroem Arcos de Personagens.

Eu sei que você já ouviu por aí a máxima de que "todo personagem tem que querer alguma coisa". É verdade. É o bê-á-bá. Mas, na boa, se o seu protagonista só quer o que ele diz que quer, ele é de papel alumínio.

Sabe aquele seu amigo que vive reclamando que precisa de um carro novo, mas o problema dele, na verdade, é que ele não consegue pedir desculpas à ex-esposa? Isso é literatura.

O erro fatal de quem não sabe por onde começar é criar um personagem com um Desejo claro (o que ele quer, o carro novo) sem entender a Necessidade oculta (o que ele precisa, o perdão). A tensão entre Desejo e Necessidade é o motor de combustão do seu romance. Se essa tensão não existe, seu arco morre na segunda página e vira um "chiclete mascado".



Imagem surrealista de um espelho quebrado; reflete Desejo (cidade polida) e Necessidade (caos interno).

O Bê-á-bá Cirúrgico: Definições de Combate


Antes de pegar o bisturi nas obras, precisamos de um dicionário de bordo. A falta de clareza nesses dois termos é o que mata a profundidade do seu protagonista.


  1. O Desejo: A Superfície da Trama.

    • O que é: É o objetivo consciente do seu personagem. É

    • a coisa externa, palpável e definida que ele persegue ativamente na trama.

    • Função: Gera a Ação. É o que o faz sair da cama: ganhar a competição, achar o tesouro, fugir da prisão, conquistar a pessoa. É o que move o plot, a trama.

    • Exemplo Fraco: Ele quer um novo emprego.


  1. A Necessidade: A Alma do Tema.

    • O que é: É o que falta ao personagem para que ele se torne inteiro ou para que ele resolva seu principal defeito de caráter. É interno, psicológico ou moral. É o que ele ignora ou reprime.

    • Função: Gera a Transformação. É a lição que ele precisa aprender para que seu arco se complete: aprender a confiar, superar o medo da rejeição, aceitar a si mesmo. É o que move o tema.

    • Exemplo Forte: Ele precisa aceitar a imperfeição para encontrar a paz.


A Tese da Ana: Um Desejo é forte, mas a Necessidade é o que torna seu personagem humano. O truque é criar um Desejo que, se alcançado, NÃO resolve o problema, porque o verdadeiro problema é a Necessidade.

O leitor (e a vida) adora a ironia de alguém que corre desesperadamente para o lugar errado. Vamos ver como os mestres usam essa ironia, focando na Necessidade de Identidade e Pertença.



Colagem dadaísta de uma cabeça se abrindo, revelando engrenagens internas e um mapa para a construção de personagem.

Laboratório de Contraste: Quando o Desejo é uma Mentira


Para demonstrar a força da tensão Desejo e Necessidade, vamos ao nosso laboratório, analisando duas mestras que dissecam a identidade feminina e racial de maneiras opostas, mas igualmente potentes.



O Desejo como Fuga (Nella Larsen, Identidade)



Para entender a profundidade do conflito entre Desejo e Necessidade que move essa obra-prima de Nella Larsen, precisamos conhecer as duas faces dessa moeda. O romance se passa nos vibrantes anos 1920 e gira em torno de duas amigas de infância, ambas mulheres negras com a pele clara o suficiente para se passarem por brancas — um ato socialmente arriscado, conhecido como passing (identidade). Irene Redfield é a protagonista que escolheu viver abertamente na sociedade negra de elite do Harlem. Ela tem uma vida de prestígio, casada com um médico e dedicada à sua comunidade. Sua luta é manter a segurança e a respeitabilidade dessa vida cuidadosamente construída. Por outro lado, Clare Kendry escolheu o caminho oposto: ela passa por branca integralmente, casada com um homem branco e abertamente racista, garantindo assim uma vida de luxo e status social. O Desejo de Clare é manter essa fachada de segurança e riqueza, mas sua Necessidade mais profunda — a conexão com sua identidade, sua cultura e seu povo — é o que a faz reaparecer perigosamente na vida de Irene. A trama se detona quando Clare começa a se infiltrar secretamente na vida social de Irene e do Harlem, satisfazendo sua Necessidade de pertencer e, com isso, ameaçando destruir a vida segura de ambas. A tensão entre o que Clare tem (riqueza) e o que ela precisa (identidade) é o motor de combustão do romance.


Havia algo estranhamente fascinante em Clare. Ela era tão bonita, tão intensa. Ela era tão, tão desesperada. Como se, se você tirasse os olhos dela por um instante, ela pudesse escorregar e desaparecer. Irene sentia que havia algo terrivelmente errado, algo perigoso, na segurança que Clare havia construído para si. Um castelo de cartas pronto para desmoronar. Ela desejava ardentemente que Clare simplesmente ficasse onde estava, quietinha, mantendo sua vida cuidadosamente estruturada, para que a dela, a vida de Irene, não fosse ameaçada. Mas Clare estava inquieta. Ela precisava daquele contato com a comunidade negra de onde veio, da energia, da risada, da música. Era como se a parte dela que estava morrendo de fome fosse a única parte que a fazia se sentir real. E era essa fome que a tornava tão perigosa, tão destrutiva. O luxo não era o suficiente. O Desejo de segurança era um disfarce pálido para a Necessidade voraz de pertencer.

Clare persegue o Desejo superficial (segurança, status) ao custo de sua Necessidade interna (identidade). A genialidade de Larsen é que a trama avança não pelo que Clare faz para manter o Desejo, mas pelo que ela faz para satisfazer a Necessidade reprimida: ela se infiltra na vida de Irene, arriscando tudo. O Desejo é a fachada que esconde o conflito, e a trama é a exposição lenta dessa mentira. Se Clare só quisesse o Desejo, seria um conto sobre uma mulher rica. É a Necessidade que a transforma em uma tragédia.



Silhuetas Cubistas de duas mulheres feitas de texto, conectadas por uma tensão que representa a Necessidade de Identidade.

A Necessidade Exposta (Chimamanda Ngozi Adichie, Americanah)


Em Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, a protagonista Ifemelu se muda da Nigéria para os Estados Unidos. O Desejo de Ifemelu é claro: ter sucesso, prosperar e construir uma vida estável nos EUA.

No entanto, ela é confrontada por uma Necessidade que não sabia que tinha: a definição de sua identidade racial em um mundo que a obriga a "ser negra" de uma forma que ela nunca precisou ser na Nigéria.


Em Princeton no verão não tinha cheiro de nada e, embora Ifemelu gostasse do verde tranquilo das diversas árvores, das ruas limpas, das casas imponentes, das lojas delicadas e caras demais e do ar calmo de quem sabia merecer a graça alcançada, era isso, a falta de cheiro, que mais lhe agradava, 1talvez porque todas as outras cidades americanas que conhecia tinham um cheiro bem peculiar. A Filadélfia tinha o odor embolorado da história. New Haven cheirava a abandono. Baltimore cheirava a salmoura. O Brooklyn, a lixo esquentado pelo sol. Mas Princeton não tinha cheiro. Ela gostava de respirar fundo ali. Gostava de observar os moradores da cidade, que dirigiam fazendo questão de mostrar que eram educados e estacionavam seus carros de último modelo, mas ela logo aprendeu que o Desejo de prosperar e o ar asséptico de Princeton não eliminavam a Necessidade de Ifemelu de pertencer a um lugar onde ela não precisasse pensar na raça. A Necessidade de Ifemelu de se compreender em seu novo contexto, de lutar contra os rótulos de "não-americana" e "negra não-americana", e de dar voz a essa luta, era mais forte do que seu Desejo de sucesso.

Ifemelu persegue o Desejo de sucesso e estabilidade, mas o mundo externo (a estrutura social americana) atua como um martelo que força sua Necessidade de autodefinição à tona. O Desejo a tira da Nigéria, mas a Necessidade é o que a faz voltar, completando seu arco. Adichie não esconde a Necessidade; ela usa o Desejo como a isca para atrair o personagem para o local onde a Necessidade será exposta e resolvida.


O Truque Final: A Inversão de Rota (Onde o Arco Acontece)


Se você está começando seu romance do zero, pare de perguntar o que seu personagem quer. Pergunte: O que ele acredita que quer (Desejo) e por que essa crença está fundamentalmente errada (Necessidade)?

O arco do personagem, que dissecaremos nos próximos módulos, é o processo de abandonar o Desejo superficial e, finalmente, aceitar a Necessidade oculta.

Se o seu personagem consegue o que quer (o Desejo) e a história acaba, você falhou. Se ele consegue o que quer (o Desejo) e percebe que a vida dele ainda está um inferno, porque ele ignorou o que precisava (a Necessidade), você criou um protagonista para a eternidade. É aí que a mágica da escrita acontece.


Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia...

📚A Estante de Ana: O Barão nas Árvores de Italo Calvino

Por que ler: Este é o livro perfeito para entender o Desejo de fuga levado ao extremo. O Barão sobe nas árvores para não mais descer. Seu Desejo de se isolar é a premissa, mas sua Necessidade de participar do mundo (e de amar) é o que o força a interagir, mesmo de cima. Estude a Necessidade que desafia a premissa.


☕Vamos Conversar?


um lápis conectando o serviço de revisão de livro  com os autores

O primeiro passo é sempre o mais difícil. Você tem uma ideia de romance, um personagem no coração, mas sente que ele está faltando "vida" ou "motor"? É porque a conversa sobre o Desejo e a Necessidade ainda não aconteceu.

Nosso método de revisão dialogal na Letra & Ato é focado em compreender exatamente esse eixo: autor-texto-leitor. Antes de corrigir uma vírgula, a gente conversa sobre o que o seu personagem realmente precisa. Não focamos apenas em corrigir seu texto, mas em reconhecer e potencializar o seu talento, o seu Desejo de contar essa história.

Se você está nesse ponto de ignição, entre o Desejo de escrever e a Necessidade de dominar a técnica, por que não começamos uma conversa?

Eu te dou uma amostra gratuita da revisão do seu texto. Você nos manda um pequeno trecho, e nós aplicamos nosso olhar de 35+ anos de experiência e dois revisores diferentes para te mostrar o potencial da sua obra. Zero compromisso, total clareza. Você não tem nada a perder e a alma do seu personagem a ganhar.



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