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O Segredo de Samuel de Cabeça de Santo de S. Acioli

  • Foto do escritor: Ana Amélia
    Ana Amélia
  • 18 de jan.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 24 de jan.




Silhueta humana recortada de uma página de livro, preenchida com engrenagens, representando a mecânica interna na construção de personagens.

E aí, pessoal da pena e do pixel! Ana Amélia na área.

Recentemente, a gente conversou bastante sobre o esqueleto da história, a grande arquitetura que sustenta uma narrativa: o arco do personagem. Vimos como um protagonista sai do ponto A, enfrenta o apocalipse (interno ou externo) e chega ao ponto B, transformado. É o Raio-X, a visão macro, a jornada da alma.

Mas e a carne? E o sangue? E os tiques nervosos, o jeito de segurar a xícara, o silêncio constrangedor que diz mais que mil palavras?

Bem-vindos à nossa nova série de posts. Se a anterior era o "Raio-X", esta é a "Biópsia do Personagem". Vamos colocar nossos jalecos, pegar o microscópio e analisar o tecido vivo, as células que fazem um personagem respirar, doer e amar nas nossas mentes. Porque, sejamos honestos, um arco perfeito sem uma personalidade real por baixo é só um cabide sem roupa. E é na construção de personagens em nível micro que a mágica realmente acontece.

Para inaugurar nossa mesa de análise, vamos revisitar um conhecido nosso: Samuel, o protagonista de Cabeça de Santo, da brilhante Socorro Acioli. Vimos o Raio-X de sua jornada da passividade à ação. Agora, vamos fazer a Biópsia e entender como Acioli nos convenceu dessa passividade antes mesmo de a trama engrenar.


Lâmina 1: O Corpo como Espelho da Alma


Antes de Samuel dizer a que veio (ou, no caso dele, a que não veio), seu corpo já nos conta toda a história. A primeira impressão que temos dele não vem de suas ações ou palavras, mas de sua fisicalidade.


Samuel ia caminhando devagar, como se o corpo doesse, mas o cansaço vinha da alma. A única coisa que queria era chegar. Para onde quer que fosse, mas chegar. O sol lhe queimava a pele do rosto, do pescoço, dos braços. A poeira das sandálias já lhe alcançava as canelas.

Vamos dissecar isso. Não é apenas um homem cansado. É um corpo que desistiu. O "caminhar devagar", o "corpo que dói", o "cansaço que vinha da alma" — cada detalhe físico é uma pincelada que pinta o quadro de sua inércia existencial. Acioli não diz "Samuel era passivo". Ela nos faz sentir a poeira nos pés dele, o sol queimando sua pele. A personalidade está impressa no corpo.

Para entender como essa escolha é potente, vamos colocá-la em contraste com a fisicalidade de outro personagem icônico da nossa literatura, Fabiano, de Vidas Secas.


Fabiano recebia-o como um amigo. Curvava-se, arrastava-se para um lado e para o outro, procurando um caminho melhor. As pernas faziam dois arcos, os braços moviam-se desengonçados. Parecia um macaco. Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam a campina seca, rachada, como um casco de animal. [

(Trecho de "Vidas Secas", de Graciliano Ramos)


Vejam a diferença brutal na construção de personagens? Enquanto o corpo de Samuel é um peso que ele arrasta, o de Fabiano é uma ferramenta de sobrevivência. Os "nervos de aço", a agilidade "como um bicho" — Graciliano também usa o corpo para definir o personagem, mas aqui ele expressa resiliência, instinto e uma prontidão para a ação. O corpo de Samuel sofre o mundo; o de Fabiano enfrenta o mundo.


Lâmina 2: A Voz como Retrato da Agência


O que um personagem diz é tão importante quanto o que ele cala. No início da jornada, Samuel é praticamente um monge trapista. Sua voz não serve para expressar quem ele é, mas apenas para funcionar no mundo.

Ele não puxa conversa, não opina, não debate. Ele pede informações. Ele reage. Seu silêncio inicial é o marcador sonoro de sua falta de agência. Ele é um recipiente, um eco, não uma fonte. A ironia, claro, é que seu destino será se tornar um receptáculo literal das vozes de Candeia.

É por isso que o ponto de virada em seu desenvolvimento interno é tão poderoso quando ele percebe:


Mas começou a sentir falta de gente. Queria conversar, rir, contar e ouvir histórias. Ele, que nunca fora de muita conversa, de repente se viu sozinho, apenas com as vozes das mulheres que o enchiam de tristeza.


Planta baixa do corpo humano, detalhando gestos e voz em vez de músculos, como um guia para a construção de personagens.

A primeira centelha de sua transformação não é um ato heroico, mas um desejo micro, profundamente humano: o desejo de conversar. A vontade de usar a própria voz para se conectar. Aqui, a biópsia revela o primeiro sintoma da cura da alma.


Lâmina 3: O Espaço como Definição do Ser


Diga-me onde habitas e te direi quem és. Poucos personagens na literatura recente levam isso tão ao pé da letra quanto Samuel. Sua escolha de morada é a metáfora central de sua personalidade.

Ele, um homem que se sente oco de propósito, vai viver literalmente numa cabeça oca de estátua.


Ele continuava vivendo na cabeça do santo. Durante o dia, escondia-se no mato. Quando o sol se punha, entrava em sua morada para ouvir as preces da noite.

Ele não está apenas se escondendo da chuva; ele está adotando um espaço que espelha e define seu papel na história. Ele é o homem dentro do santo. Sua identidade é seu abrigo. É um espaço vazio, preenchido apenas pelos desejos dos outros. Essa escolha de habitar o oco, o vazio, o sagrado, diz mais sobre seu estado de espírito do que qualquer monólogo interior.

A construção de personagens, meus caros, é um trabalho de ourives. O grande arco narrativo é o fio de ouro, mas são os pequenos detalhes — um caminhar cansado, um silêncio teimoso, um esconderijo inusitado — que formam o delicado bordado que nos faz acreditar. É essa textura que a gente na Letra & Ato adora analisar, pois é nela que a voz do autor se revela com mais força.




Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia...

📚A Estante de Ana: A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector

Se Acioli nos mostra um personagem através de seus gestos e espaços, Clarice nos afoga no universo interior de sua protagonista. Este livro não é uma leitura, é uma vivissecção da alma. Uma aula magna sobre como usar a linguagem para mapear o pensamento, a sensação e a crise de identidade em seu nível mais microscópico. Essencial para quem quer ir fundo na psique de um personagem.


☕Vamos Conversar?


Percebe como esses detalhes dão peso e verdade ao seu protagonista? Às vezes, na ânsia de fazer a trama andar, a gente se esquece de deixar o personagem simplesmente ser na página. Ele anda? Como? Ele fala? Como? Onde ele se sente seguro?

Essas são as perguntas que transformam um boneco numa pessoa. E é nessa conversa fina, nesse ajuste dos pequenos parafusos da personalidade, que o nosso método de revisão dialogal encontra seu maior prazer. Se você sente que seu personagem tem um grande destino, mas ainda não parece real o suficiente para vivê-lo, vamos conversar. Envie um trecho. Vamos fazer uma pequena "biópsia" juntos e descobrir a vida que pulsa aí.


Uma história inesquecível é feita de personagens que respiram, e a revisão é o sopro de vida.


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