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O Segredo Macabéa de Hora da Estrela de C. Lispector

  • Foto do escritor: Ana Amélia
    Ana Amélia
  • 18 de jan.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 24 de jan.


Olá, construtores de mundos! Ana Amélia por aqui.

Depois de mapearmos os grandes terremotos da alma na nossa série "O Personagem da Estrutura a Alma", chegou a hora de ajustar o foco. Vamos sair da escala Richter e pegar o microscópio.

Neste post, não vamos olhar a jornada, mas a "carne". O tecido vivo. A matéria-prima da qual uma pessoa literária é feita. E não poderíamos deixar de fora a mais inesquecível anti-heroína da literatura brasileira: Macabéa de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.

Macabéa quase não tem arco do personagem. Sua vida é uma linha trêmula, quase reta, até ser brutalmente interrompida. Então, por que ela é inesquecível? Porque Clarice a constrói não no movimento, mas na essência. Vamos entender como a autora cria um ser imortal a partir de seus detalhes mais "insignificantes".


Lâmina 1: A Voz (O que ela diz e como diz)


A voz de Macabéa é o som de sua inadequação. Ela não domina a linguagem; ela é dominada por ela. Seu vocabulário é limitado, e ela aspira a palavras que não compreende, como se fossem amuletos mágicos que poderiam transformá-la.


Ela era incompetente. Incompetente para a vida. E sentia uma falta que não sabia de quê: falta de uma palavra que a salvasse. Tentou uma vez em conversa com Olímpico usar uma palavra difícil que por acaso guardara: — Eu sou assoberbada. — O quê? — Assoberbada de trabalho. Ele riu com vontade.

A análise desta lâmina é brutalmente reveladora. O diálogo não serve para avançar a trama, mas para expor a alma. Ao tentar usar "assoberbada", Macabéa não busca comunicar, busca ser. Ela acredita que a palavra certa lhe dará a dignidade que o mundo lhe nega. A risada de Olímpico é a rejeição do mundo a essa tentativa. A falta de ferramenta verbal é a prova de sua falta de lugar. Sua voz é a geografia de sua solidão.


Lâmina 2: O Corpo (Como ela se move no mundo)


O corpo de Macabéa é a materialização de sua condição. Clarice não nos poupa dos detalhes de sua existência física precária, pois é neles que reside a verdade da personagem.


Tinha ombros agudos e caídos, pezinhos de pomba, a nuca um pouco grossa demais, o que lhe dava um ar de quem se submete. O corpo era no osso, como se diz. Magra, muito magra. [...] O seu viver era ralo. Ralo e pobre. E um pouco sórdido. Tomava café frio e comia pão com manteiga.

A genialidade na construção de personagens aqui é que cada detalhe físico é um adjetivo da alma. A "nuca um pouco grossa demais" que lhe dá "um ar de quem se submete" é uma aula magna de "mostrar, não contar". O "corpo no osso" não é só magreza, é a falta de excessos, de luxo, de vitalidade. Seus gestos, como tomar café frio, não são ações, são expressões de sua existência "rala". O corpo dela não age no mundo; ele padece o mundo.



Lâmina 3: O Pensamento (O que ela não diz)


Como acessar o universo interior de alguém que mal consegue se expressar? Clarice nos dá essa chave através do narrador, Rodrigo S.M., que funciona como um tradutor dos silêncios de Macabéa. Ele nos revela a riqueza que existe na pobreza, os sonhos que brotam no deserto.


Seu interior, este sim, era rico. E sem ela saber. Seu interior era um emaranhado de estrelas escuras. Ela tinha dentro de si o que se pode chamar de: a solidão. Mas ela mesma não chamava assim, pois não sabia que o era. Pensava que gente era gente e que solidão era uma invenção de palavras.

Colagem mostrando o rosto de Macabéa através de uma página de dicionário rasgada na palavra "felicidade", ilustrando sua busca por significado.

Esta lâmina nos mostra a importância do ponto de vista. Sem o olhar do narrador, Macabéa seria apenas uma figura patética. Mas com ele, entendemos que sua "ignorância" é também uma forma de pureza. Ela não consegue nomear sua dor ("solidão era uma invenção de palavras"), mas a vive em sua forma mais pura. Seus desejos são triviais – ser como Marilyn Monroe, ter um namorado, sentir uma dor de dente para ter o que fazer – e é nessa trivialidade que reside sua profunda humanidade.



Lâmina 4: Os Rituais (As pequenas âncoras da identidade)


Na ausência de grandes eventos, a vida de Macabéa é definida por seus pequenos e repetitivos rituais. São eles que dão alguma ordem ao seu caos existencial e que a ancoram em sua identidade.


A sua única fonte de saber e de cultura era ouvir às sete da manhã a Rádio Relógio, que dava "informações gratuitas que não precisava decorar". Dava a hora certa e a cultura. E assim ela ia vivendo. Às vezes acontecia um pingo de chuva e ela o bebia com a boca aberta. Chuva era bom.


Máquina de escrever surrealista cujas teclas mostram os rituais de Macabéa, questionando a própria existência, chave na construção do personagem.

O ritual de ouvir a Rádio Relógio é a âncora de Macabéa. As informações inúteis lhe dão a sensação de pertencer a um mundo de conhecimento do qual ela é excluída. Beber o pingo de chuva, um gesto de uma simplicidade quase animal, é sua forma de comungar com o universo. Esses hábitos são a sua liturgia pessoal. São os "marcadores de personalidade" que a tornam palpável, real. Não a conhecemos por suas grandes decisões, mas pelo som do rádio em seu quarto e pelo gosto da chuva em sua língua.


A Síntese da Personalidade


A biópsia está completa. E o que vemos é que a força de Macabéa não está em sua transformação, mas na potência de sua presença. Clarice Lispector nos mostra que a construção de personagens memoráveis não depende de arcos heróicos. Depende da coragem de olhar para a vida em seu nível celular – na palavra mal dita, no corpo sofrido, no pensamento secreto e no ritual sagrado do cotidiano. Macabéa é inesquecível porque, em sua insignificância, ela é dolorosamente real.


Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia...

📚A Estante de Ana: O Estrangeiro de Albert Camus

| Se a biópsia de Macabéa nos revela uma personagem definida por sua rica e desarticulada vida interior, a história de Meursault nos apresenta o oposto: um homem definido por suas ações externas, seus sentidos e sua desconexão emocional. Uma leitura essencial para entender como construir um personagem complexo através da superfície, do gesto e da indiferença.


☕Vamos Conversar?


Seu personagem tem seus rituais? A voz dele é realmente dele, ou soa como a de todos os outros? O corpo dele conta uma história, mesmo quando ele está parado?

Esses são os detalhes que dão alma a um nome numa página. É o trabalho minucioso que separa um rascunho de uma obra de arte. Se você sente que já tem o esqueleto da sua história, mas ainda falta a carne e o sangue, talvez seja a hora de uma conversa. Envie-nos um trecho. Vamos colocar o jaleco e fazer uma biópsia juntos, sem compromisso, para encontrar a vida que pulsa nas entrelinhas do seu texto.

Um personagem que vive no detalhe é um personagem que vive para sempre.



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