O Arco do Personagem 4: Lucy e Venâncio de Carla Madeira
- Ana Amélia

- 17 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de jan.
Sejam bem-vindos ao ato final, meus caros aficionados por narrativas. Ana Amélia aqui, para o último e mais intenso episódio da nossa série O Personagem — Da Estrutura à Alma.
Até agora, nossas radiografias nos mostraram as mais diversas jornadas. Vimos um personagem se desintegrar em ecos em Pedro Páramo, outro construir sua identidade tijolo por tijolo em Americanah, e um terceiro aceitar um destino milagroso em A cabeça do santo. Mas e quando o arco do personagem não pertence a um indivíduo só? E quando a transformação de uma alma está tragicamente amarrada à de outra, como dois barcos apanhados na mesma correnteza violenta?
Para fechar esse módulo, vamos mergulhar fundo nas águas turvas de um fenômeno da literatura brasileira contemporânea: Tudo é rio, de Carla Madeira. Aqui, não há um protagonista, mas um epicentro de dor: o casal Lucy e Venâncio. Vamos dissecar como a tragédia estilhaça suas vidas e como o perdão se torna a única, e mais dolorosa, forma de síntese.
O Arco do Personagem de Lucy e Venâncio: A Anatomia de uma Tragédia

Em Tudo é rio, o arco do personagem é compartilhado. A jornada de Lucy não faz sentido sem a de Venâncio, e vice-versa. A transformação deles é um espelho quebrado, onde cada um reflete a dor do outro. Nossa análise em quatro atos seguirá a trajetória dessa relação, do paraíso à danação, e à difícil busca pela paz.
Passo 1: A Fotografia Inicial (A Tese)
A história de Lucy e Venâncio começa não no amor, mas na fusão. Eles não são um casal, são um acontecimento da natureza. A "tese" de suas vidas é uma paixão tão absoluta e carnal que anula o resto do mundo. Seus corpos são sua linguagem, seu universo.
O corpo de Lucy e o de Venâncio cabiam um no outro com a naturalidade da água no leito do rio. Um encaixe perfeito. Sem vãos. [...] A fome de um comia a do outro e se saciava. Eram tempos bons. Um contentamento de bicho. Nenhum pensamento. As palavras viviam nos corpos e os corpos eram analfabetos.
Este ponto de partida é crucial. Carla Madeira estabelece um estado de unidade quase mítica. Lucy e Venâncio existem em um paraíso pré-verbal, um Éden de puro desejo. Eles não precisam pensar ou falar; eles são. É essa perfeição inicial que torna a queda subsequente tão devastadora e define o resto de seus arcos.
Passo 2: O Catalisador (A Tragédia)
O evento que quebra esse paraíso é de uma brutalidade atordoante. Movido por um ciúme doentio, Venâncio comete um ato impensável que resulta na morte do filho recém-nascido do casal. É o ponto de virada mais violento que se pode imaginar. A "tese" do amor perfeito é aniquilada em um instante de fúria.
Tudo aconteceu em um segundo. Venâncio enfiou a mão na bacia e afogou o pinto do filho na água. O menino, com o susto e a dor, debateu-se, o corpo duro, e o umbigo mal cicatrizado se abriu em sangue. O sangue escorreu sujando a água. E, antes que alguém pudesse fazer alguma coisa, o corpo do menino amoleceu e ficou boiando de bruços. Um pinto magro boiando na água suja de sangue.
Este ato é o catalisador que redefine completamente o arco do personagem dos dois. O amor que os unia se transforma no trauma que os separa. A partir daqui, suas jornadas serão definidas por esse momento: Venâncio será movido pela culpa, e Lucy, pela dor e pelo vazio. Eles deixam de ser uma unidade para se tornarem duas solidões que orbitam a mesma tragédia.
Passo 3: A Metamorfose (A Desintegração)
Após a tragédia, Lucy e Venâncio se transformam em suas "antíteses". O amor que era vida se torna uma celebração da morte. Lucy, cujo corpo era o templo de uma paixão exclusiva, torna-se a prostituta mais desejada da cidade, usando o sexo para se esvaziar, para se punir e para exercer uma forma distorcida de poder.
Lucy descobriu o avesso do amor. O avesso do amor é a cama onde todo mundo se deita e se esvazia. É o que ela queria, esvaziar-se. Eram tantos os homens que a procuravam que Lucy perdeu o nome, virou a puta.
Venâncio, por sua vez, se fecha em um casulo de culpa. O homem de desejo intenso se torna uma casca vazia, assombrado pelo fantasma da esposa e do filho. Sua vida vira uma penitência silenciosa.
A vida de Venâncio era um fiapo. Uma existência rala, encolhida no fundo de um poço. A barba por fazer, o corpo magro, o olhar vago e os dentes estragados. Vivia mastigando uma culpa que não tinha fim.
A metamorfose de ambos é uma descida ao inferno. Eles não são mais o casal do início; são agora definidos pela dor que os separa. Seus arcos correm em paralelo, espelhando um ao outro na miséria.
Passo 4: A Resolução (A Síntese Final)

Como se resolve um arco definido por uma dor tão absoluta? Em Tudo é rio, a "síntese" não é a reconciliação, mas a transcendência através do perdão. É Dalva, a outra mulher, que, ao amar os dois, cria a ponte para que Lucy possa finalmente confrontar sua dor e libertar a si mesma e a Venâncio.
Ela chorava. Não sabia se chorava de amor ou de dor. E, se pudesse escolher, escolheria os dois. Lucy ficou ali, abraçada a Venâncio, até o dia amanhecer. [...] Sentiu uma compaixão que a desarmou. E, pela primeira vez desde que o menino morrera, desejou que Venâncio ficasse bem.
Este é o momento da resolução. O arco do personagem de Lucy se completa quando ela consegue sentir compaixão. Ao desejar o bem para Venâncio, ela finalmente começa a curar a si mesma. A síntese não apaga a tragédia, mas a integra. O perdão não é esquecimento, é a aceitação que permite que a vida, como um rio, volte a fluir.
Meu colega Paulo André diria que a estrutura de Tudo é rio é uma catarse clássica. A narrativa nos afunda no terror e na piedade para, no final, nos purgar. É um lembrete brutal de que, na literatura, a dor é uma das mais poderosas ferramentas de transformação. A jornada de um personagem através do inferno só tem valor se, de alguma forma, ele nos ensina algo sobre como encontrar a luz.
Conclusão do Módulo A Espinha Dorsal dos Personagens
Ao longo destes quatro posts, viajamos por diferentes geografias da alma. Vimos o arco do personagem como desintegração (Pedro Páramo), como construção de identidade (Americanah), como aceitação do destino (A cabeça do santo) e, hoje, como transformação pela tragédia. Quatro caminhos, quatro técnicas, mas uma única verdade: um personagem só se torna inesquecível quando ele se transforma. Mapear essa jornada é o coração do ofício do escritor. E, como um bom revisor sabe, é no diálogo com essa jornada que um texto encontra sua verdadeira força.
Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia...
📚A Estante da Ana: O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë
Se a paixão de Lucy e Venâncio é um rio que destrói e purifica, o amor de Catherine e Heathcliff é uma tempestade que assola a charneca inglesa por gerações. O clássico de Brontë é o estudo de caso definitivo sobre como um amor obsessivo e maior que a vida pode definir, destruir e transcender os arcos de todos os personagens que toca. Uma leitura fundamental sobre a paixão como destino. |
☕Vamos Conversar?
Seus personagens amam, odeiam, sofrem? A relação entre eles é o motor da sua história? Um evento trágico define o rumo de suas vidas? O arco do personagem nem sempre é uma jornada solitária. Muitas vezes, a transformação de um está amarrada à do outro, em um nó de amor, culpa ou perdão.
Dar forma a essas jornadas interligadas, garantindo que cada personagem tenha sua própria trajetória crível dentro do drama compartilhado, é um desafio complexo. Requer um equilíbrio delicado entre a ação e a reação, a dor e a possibilidade de cura.
Na Letra & Ato, entendemos essa complexidade. Nosso método dialogal é perfeito para desatar esses nós, para conversar sobre as motivações de cada personagem e garantir que suas transformações, individuais e coletivas, ressoem com a força de uma grande tragédia.
Que tal nos enviar um trecho? Vamos mergulhar juntos nas águas do seu texto e garantir que a correnteza leve seus personagens — e seus leitores — a um lugar de profundo impacto emocional.
Toda história é um rio; o personagem que não se move com ele, ou se afoga, ou é apenas uma pedra no fundo.
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