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O Arco do Personagem 1: Pedro Páramo de Juan Rulfo

  • Foto do escritor: Ana Amélia
    Ana Amélia
  • 18 de jan.
  • 6 min de leitura

E aí, meus caros artesãos de destinos? Ana Amélia na área, com o bisturi afiado e um novo tipo de necropsia literária para vocês.

Sempre que dissecamos a técnica de um grande autor, pinçamos um momento, um truque, uma cena. Comparamos um soco do Faulkner com um jab do Hemingway. É ótimo, é útil. Mas e quando a técnica não é um golpe só, e sim a luta inteira? E quando a mágica está na jornada completa, na transformação visceral de um personagem do primeiro ao último capítulo?

É para isso que estamos inaugurando hoje a "Arco do Personagem". Vamos colocar uma única obra-prima na mesa de cirurgia e fazer uma análise vertical, seguindo a espinha dorsal da história: o arco do personagem. De onde ele sai? O que o quebra? No que ele se transforma? E, finalmente, qual o seu estado final?

Para começar, nada menos que um dos ossos mais duros de roer da literatura latino-americana: vamos radiografar a alma de Juan Preciado em Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Peguem o avental de chumbo, porque a radiação aqui é forte.


Raio-X de Juan Preciado: A Anatomia de uma Desintegração


O arco do personagem é a trajetória de mudança que ele sofre ao longo da narrativa. Para facilitar nossa análise, vamos dividi-lo em quatro atos, marcados por quatro trechos-chave do livro. Em Pedro Páramo, essa jornada não é de heroísmo, mas de apagamento. É uma aula sobre como o cenário pode ser o antagonista e engolir o protagonista.


Ilustração conceitual de uma mão segurando uma foto antiga de onde nasce uma estrada, representando a promessa que inicia a jornada do personagem em Pedro Páramo.

Passo 1: A Fotografia Inicial (A Tese)

Todo personagem começa em algum lugar, com uma crença, um desejo ou uma missão. Essa é a sua "tese". A de Juan Preciado é uma das mais famosas da literatura: uma promessa feita à mãe moribunda.



VIM A COMALA porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo. Minha mãe me disse. E eu prometi que viria vê-lo assim que ela morresse. Apertei suas mãos em sinal de que faria isso; pois ela estava morrendo, e eu decidido a prometer tudo. “Não deixe de ir visitá-lo”, recomendou ela. “O nome dele é assim e assado. Tenho certeza que ele vai gostar de conhecer você.”

Analisem a pureza aqui. Preciado não é um vingador nem um herói. É um filho cumprindo um último desejo, movido por uma imagem idílica de Comala que a mãe lhe pintou ("uma planície verde, um pouco amarelada por causa do milho maduro"). Ele é um estranho, um corpo vivo e cheio de esperança, entrando num mito. Sua tese é: "Vou a Comala encontrar meu pai e a terra paradisíaca da memória de minha mãe". Simples, claro e completamente equivocado. É o ponto de partida perfeito para um arco do personagem trágico.


Passo 2: O Catalisador (O Ponto de Virada)

O arco só começa de verdade quando algo acontece para quebrar a "tese" do personagem. Um evento catalisador o força a confrontar uma nova e terrível realidade. Para Juan Preciado, esse ponto de virada não é um único evento, mas uma série de encontros fantasmagóricos. O mais brutal talvez seja sua conversa com Damiana Cisneros, que o guia pela cidade morta.


— A senhora está viva, dona Damiana? Diga, Damiana! E de repente me encontrei sozinho naquelas ruas vazias. As janelas das casas abertas ao céu, deixando aparecer os talos ressecados do capim. Paredes esfoladas que mostravam seus adobes revirados. — Damiana! — gritei. — Damiana Cisneros! O eco me respondeu: “...ana... neros...! ...ana... neros..!”

Este é o momento em que o chão desaparece. A mulher com quem ele falava, uma figura aparentemente real, se desfaz em nada. A partir daqui, a missão original de Preciado se torna irrelevante. A nova realidade se impõe: Comala não é uma cidade, é um purgatório de ecos. Ele não está mais buscando um pai, está tentando sobreviver (e falhando) num mundo onde as leis da física e da vida foram suspensas. Ele não pode mais voltar atrás; sua percepção da realidade foi permanentemente fraturada.



Pintura surreal de uma figura deitada num túmulo, com seu corpo se desfazendo em murmúrios e ecos, simbolizando a morte e transformação do protagonista.
Passo 3: A Metamorfose (O Confronto com a Antítese)

Após o ponto de virada, o personagem luta contra a nova realidade (a "antítese") até ser transformado por ela. Em Pedro Páramo, a transformação é literal e absoluta: Juan Preciado morre. Mas sua morte não é causada por uma faca ou uma bala. Ele é morto pela própria essência de Comala: os murmúrios.


— Pois é verdade, Dorotea. Os murmúrios me mataram. Lá você vai encontrar a minha querência. O lugar que eu amei. Onde os meus sonhos emagreceram. Meu povoado, levantado sobre a planície. Cheio de árvores e de folhas, como um cofre onde guardamos nossas memórias. Você vai sentir que ali a gente gostaria de viver para a eternidade. O amanhecer; a manhã; o meiodia e a noite, sempre os mesmos; mas com a diferença do ar. Lá, onde o ar muda a cor das coisas; onde a vida se ventila como se fosse um murmúrio; como se fosse um puro murmúrio da vida...

— Sim, Dorotea. Os murmúrios sussurrados me mataram.


Que aula de construção de personagem! O arco de Preciado se completa na sua aniquilação. Ele não supera o obstáculo; ele é absorvido por ele. Sua "metamorfose" é passar do estado de ouvinte dos mortos para se tornar mais uma voz entre eles. O protagonista deixa de ter um corpo, uma ação, e se torna, ele mesmo, parte da atmosfera fantasmagórica que o destruiu. É a desintegração como clímax.


Passo 4: A Resolução (A Síntese Final)

O que resta de um personagem após sua transformação final? A "síntese" é o seu novo estado de ser. Para Juan Preciado, a síntese é o silêncio. Sua jornada individual acaba, e sua voz se funde ao coro anônimo que narra o resto da história. Ele não é mais o protagonista; é parte da terra, parte do mito. A prova final dessa dissolução total, que é o destino de todos em Comala, vem na última linha do livro, com a morte do próprio Pedro Páramo.


Apoiou-se nos braços de Damiana Cisneros e fez a tentativa de caminhar. Depois de alguns tantos passos caiu, suplicando por dentro; mas sem dizer uma única palavra. Deu uma batida seca contra a terra e foi se desmoronando como se fosse um montão de pedras.
Fotografia de uma estátua humana se desfazendo em um monte de pedras, uma metáfora para a dissolução final do personagem na terra de Comala.

Este é o eco final da jornada de Preciado. Assim como o todo-poderoso Pedro Páramo se desfaz em pó, nosso protagonista também se desfez em eco. A resolução de seu arco é se tornar indistinguível da terra amaldiçoada que veio procurar.


Meu colega, o teórico Paulo André, chamaria isso de um perfeito "arco de personagem negativo" ou "arco de desintegração", onde o protagonista não ascende, mas se dissolve. É a antítese da Jornada do Herói. E é por isso que Pedro Páramo é tão poderoso: Rulfo nos mostra que a transformação mais profunda, às vezes, é o completo desaparecimento.

O diálogo entre o autor e a estrutura, entre o que se quer contar e a forma como a jornada do personagem é moldada, é um dos processos mais delicados da escrita. É uma conversa íntima com a alma da história. Na Letra & Ato, acreditamos que a revisão é a continuação dessa conversa, um olhar que ajuda a garantir que cada passo do seu personagem, do primeiro ao último, seja firme, verdadeiro e inesquecível.

No próximo post desta série, vamos analisar um arco do personagem completamente diferente: a jornada de Ifemelu em Americanah, uma história não de desintegração, mas de dolorosa e triunfante construção de identidade. Fiquem ligados.



Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia...

📚A Estante de Ana: Coração das Trevas, de Joseph Conrad

Se a viagem de Juan Preciado é uma descida a um purgatório mexicano, a de Marlow, protagonista de Conrad, é uma expedição ao inferno literal e metafórico no coração da África. Um estudo de caso clássico sobre como uma jornada geográfica pode espelhar a completa desintegração moral e psicológica de um personagem. Leitura essencial para entender a construção de arcos de personagem sombrios.



☕Vamos Conversar?


O seu protagonista está parado no mesmo lugar do começo ao fim do livro? Ou ele passa por uma transformação tão radical que mal o reconhecemos no último capítulo? Construir um arco do personagem convincente é o que separa uma anedota de uma grande história.

Talvez você sinta que a mudança dele é brusca demais. Ou sutil demais, quase imperceptível. Encontrar o ritmo certo dessa evolução, os pontos de virada que a tornam crível e impactante, é uma arte. E, como toda arte, ela se beneficia de um olhar externo, de uma conversa que ajude a iluminar o caminho.

Que tal nos enviar um trecho do seu original? Podemos conversar sobre a jornada do seu personagem, identificar os momentos-chave do arco dele e garantir que sua transformação não seja apenas contada, mas sentida pelo leitor.

Afinal, as melhores histórias não são sobre o que acontece, mas sobre quem nos tornamos por causa do que acontece.


Um personagem estático é um retrato; um personagem que se transforma é uma vida.

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