O Autor como Estranho: A Prática do Close Reading no Próprio Texto
- Paulo André

- 17 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 20 de jan.

Meus caros, hoje entramos em um terreno que exige não apenas técnica, mas uma profunda honestidade intelectual.
É comum ouvirmos que "o autor é o pior juiz de sua própria obra". Há uma verdade pragmática nisso, mas também um equívoco teórico. O autor pode, sim, realizar um close reading (leitura atenta)↗️ de seu texto, desde que aceite passar pelo processo que Paul Ricoeur chamou de distanciação. No momento em que a palavra é grafada, ela se desprende do autor e passa a pertencer ao mundo. O texto ganha uma "autonomia semântica".
O desafio que lhes proponho é: vocês são capazes de ler o que escreveram ignorando o que queriam dizer? A hermenêutica nos ensina que o sentido não está guardado em um cofre na mente do autor, mas habita a relação entre os signos na página. Ao ler-se, o autor frequentemente descobre uma exploração do inconsciente que ele mesmo não havia autorizado conscientemente. O texto sabe coisas sobre você que você ainda não sabe sobre si mesmo.
O Espelho Quebrado: A Falácia Intencional e a Autonomia
Para realizar esse exercício, precisamos primeiro derrotar o fantasma da "Intenção". Na teoria literária, chamamos de Falácia Intencional o erro de acreditar que o mérito ou o sentido de uma obra dependem do que o autor planejou. Como nos ensina a fenomenologia, a obra é um "objeto estético" que só se completa na leitura.
Quando o autor assume a posição de leitor, ele deve realizar uma "Hermenêutica da Suspeita". Ele deve desconfiar de suas próprias escolhas. Por que este adjetivo? Por que este silêncio? Muitas vezes, o que retornará desse mergulho não é a confirmação do projeto original, mas a revelação de uma estrutura latente — uma descaracterização do eu em favor da verdade da obra.
O Narrador que se Lê em Machado de Assis
Machado de Assis, nosso mestre da metalinguagem, frequentemente colocava seus narradores para a "ler" suas próprias memórias e sensações, revelando o hiato entre a intenção e a realidade.
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador-defunto realiza um close reading de sua própria vida. A tese machadiana é que a verdade só emerge quando o sujeito se distancia da vida (ou da escrita) para analisá-la com o ceticismo de quem já não tem nada a perder.
Brás Cubas reflete sobre a invenção do seu "emplasto", revelando as motivações mesquinhas por trás de um suposto desejo de ajudar a humanidade. Observem como o autor usa a autoanálise para desmascarar a própria vaidade, tratando a intenção inicial como uma ilusão.
Com efeito, era um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade; mas, na petição de privilégio que redigi, chamei a atenção do governo para o fato de ser o meu primeiro intento puramente humanitário. Pobre Brás Cubas! Se eu dissesse isso a alguém, todos se ririam de mim. O que me deu a ideia do emplasto foi o desejo de ver impresso nos jornais, nos cartazes, nos folhetos, nas esquinas e, enfim, nas caixas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Confesso que o meu coração bateu de alegria ao pensar nisto.
Aqui, o autor-personagem faz o que todo escritor deveria fazer em sua revisão: ele lê a sua "petição de privilégio" (o texto oficial/intencional) e a confronta com a realidade de seu desejo (o texto latente/inconsciente). Machado nos ensina que o close reading autoral é, essencialmente, um exercício de desmascaramento.
A Escrita do Inconsciente em Clarice Lispector

Se Machado usa a ironia para o distanciamento, Clarice Lispector usa a entrega. Em sua obra, o texto frequentemente escapa ao controle racional, tornando-se uma exploração do inconsciente em tempo real.
No fluxo de consciência clariceano, a tese é que o texto possui uma vida biológica. O autor é apenas o canal. O close reading de um texto clariceano pelo próprio autor revelaria não um plano, mas uma pulsação.
Em momentos de epifania, a narradora se vê diante de um objeto ou sensação que a retira de si mesma, forçando-a a uma leitura do mundo que é, no fundo, uma leitura de seu próprio abismo.
Atentem para como a linguagem tateia o que não pode ser dito, criando uma hermenêutica do invisível.
O que eu te escrevo é um "isto". Não vai parar: continua. Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo. O que eu te escrevo é um "isto". Não vai parar: continua. É um estado. Eu não sei o que escrever. E não quero saber. Sou o que sou. Sou o que sinto. Sou o que escrevo. Mas não me conheço.
Clarice admite o limite: "não me conheço". Para o autor clariceano, o close reading é a aceitação de que o texto é um "outro". Não há conhecimento extratextual que explique o "isto". A hermenêutica aqui não busca uma interpretação fechada, mas a manutenção da abertura para o mistério da criação.
O Método da Distanciação na Prática Literária
Como aplicar isso ao seu manuscrito? A Letra & Ato acredita que o autor deve passar por um processo de "estranhamento" (Ostranenie). Nossa abordagem holística de revisão sugere que, antes de revisar, você deve deixar o texto "descansar" o tempo suficiente para que ele deixe de ser um apêndice do seu corpo.
Quando você volta ao texto após semanas, você já não é o mesmo sujeito que escreveu. Você se tornou o Leitor de si mesmo. É neste hiato que a revisão dialogal acontece. Você começa a ver onde o texto "fala" sozinho, onde ele contradiz sua intenção e onde ele, brilhantemente, diz muito mais do que você planejou.
Pontos-Chave:
Abandone a Intenção: O que você "quis dizer" não importa para o leitor. Foque no que as palavras estão dizendo efetivamente.
Identifique o Inconsciente: Procure por padrões, obsessões e metáforas recorrentes que você não planejou. Ali está o coração da sua obra.
O Texto é Autônomo: Trate o seu manuscrito como se tivesse sido escrito por um estranho. Seja impiedoso com as gorduras e atento às sutilezas.
A Distanciação é Chave: O tempo é o melhor revisor. Ele permite que o autor "morra" para que o leitor "nasça".
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📚 Sugestão do Paulo: O Arco e a Lira de Octavio Paz |
Um dos ensaios mais fundamentais da modernidade sobre o fenômeno poético. Paz explora como o autor, ao criar, desaparece na obra, e como o poema é um diálogo eterno entre o tempo e o sagrado. |
☕Vamos Conversar?
O ato de ler a si mesmo com rigor é um dos exercícios mais solitários e difíceis da vida literária. É o momento em que enfrentamos nossos limites e nossas maiores potências. Muitas vezes, precisamos de um par de olhos externos que não estejam contaminados pela nossa "intenção" para nos ajudar a ver o que o texto realmente é.
Na Letra & Ato, nossa revisão dialogal atua como esse interlocutor necessário. Nós não olhamos apenas para a gramática; nós mergulhamos na hermenêutica da sua obra, ajudando você a realizar essa "distanciação" de forma produtiva. Quer descobrir o que o seu texto está escondendo de você? Oferecemos uma amostra gratuita da nossa revisão para um pequeno trecho do seu texto. Vamos conversar sobre o potencial oculto entre as suas linhas?
A verdadeira leitura começa onde a intenção do autor termina.
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