O Legado de Kant: Como a Crítica do Juízo Moldou a Forma Como Lemos.
- Paulo André

- 27 de jan.
- 6 min de leitura
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Olá, pessoal.
Sejam bem-vindos. Hoje, quero convidá-los a uma jornada que não visa a trama de um romance específico, mas a estrutura invisível que sustenta nosso próprio ato de ler e julgar uma obra. Por que certas combinações de palavras nos arrebatam? Por que uma descrição nos parece bela, enquanto outra nos esmaga com uma sensação de sublime? Para encontrar respostas que não sejam meras opiniões, precisamos voltar no tempo, mais precisamente a 1790, ao trabalho de um filósofo que revolucionou nossa maneira de pensar sobre a arte: Immanuel Kant e sua Crítica da Faculdade do Juízo.
Compreendo que, à primeira vista, um filósofo alemão do século XVIII possa parecer distante de sua experiência com um romance contemporâneo. No entanto, garanto a vocês: as ideias de Kant são o alicerce sobre o qual boa parte da nossa sensibilidade moderna foi construída. Entendê-lo não é um exercício de erudição pedante; é ganhar um mapa para navegar com mais profundidade pelo território da arte.
A Revolução Silenciosa de Kant: O Belo Não Está no Objeto, Mas em Nós

Antes de Kant, o debate sobre a beleza oscilava, de maneira geral, entre dois polos. Para os racionalistas, a beleza era uma perfeição objetiva na própria coisa, uma harmonia matemática que a razão poderia decifrar. Para os empiristas, era uma mera sensação subjetiva de prazer, algo particular e intransferível.
Kant propõe uma terceira via, uma verdadeira "revolução copernicana" na estética. Ele argumenta que o juízo de gosto ("isto é belo") é, de fato, subjetivo, pois se baseia em um sentimento de prazer. Contudo, e aqui reside sua genialidade, ele reivindica uma validade universal para esse juízo. Como isso é possível?
O Prazer Desinteressado e o Livre Jogo das Faculdades
Quando dizemos que uma flor é bela, não a estamos julgando por sua utilidade (ela serve como remédio?) ou por seu conceito (ela é um exemplar perfeito de Rosa gallica?). Segundo Kant, o verdadeiro juízo estético é desinteressado. Ele não visa satisfazer um desejo, um interesse prático ou um conceito cognitivo. É a pura contemplação da forma.
Esse prazer desinteressado surge de um "livre jogo" entre duas de nossas faculdades mentais: a imaginação (que organiza os dados dos sentidos) e o entendimento (que busca conceitos e regras). Diante de um objeto belo, a imaginação cria uma representação que, sem se encaixar em um conceito determinado, entra em uma harmonia espontânea com as regras gerais do entendimento. É como um diálogo fluido e prazeroso entre a liberdade criativa e a busca por ordem, um estado de harmonia interna que sentimos como prazer.
Ao afirmar "isto é belo", eu não estou apenas dizendo "isto me agrada". Estou, implicitamente, supondo que qualquer outra pessoa, com as mesmas faculdades que eu, deveria sentir o mesmo. Eu falo com uma "voz universal". É por isso que discutimos sobre arte. Não discutimos sobre se gostamos ou não de brócolis; isso é um mero gosto particular. Mas a beleza, para Kant, exige um assentimento universal.
Para Além do Belo: O Sublime e o Deleite no Desconforto
Kant, contudo, sabia que a experiência estética não se resumia a essa harmonia prazerosa. Há experiências que nos avassalam, que nos fazem sentir pequenos e, ao mesmo tempo, exaltados. Pensem na vastidão de uma noite estrelada, na fúria de uma tempestade no mar ou na grandiosidade de uma cordilheira. Isso não é belo. É sublime.
O sublime, para Kant, nasce do confronto entre nossa imaginação e a razão.
O Sublime Matemático: Diante de algo imensuravelmente grande (o oceano, o cosmos), nossa imaginação falha. Não conseguimos capturar a totalidade em uma única imagem. Essa falha nos humilha, mas, ao mesmo tempo, desperta em nós a consciência de uma faculdade superior: a Razão, que consegue pensar a ideia de infinito, mesmo que não possa imaginá-la. Sentimos prazer na superioridade da nossa própria razão sobre a sensibilidade.
O Sublime Dinâmico: Diante de uma força esmagadora da natureza (um vulcão, um furacão), sentimos medo. Nossa finitude física é evidente. No entanto, se estamos em um lugar seguro, esse medo se transforma. Percebemos que, como seres morais e racionais, possuímos uma dignidade que nenhuma força da natureza pode aniquilar.
A literatura está repleta de explorações do sublime. A caçada obsessiva de Ahab em Moby Dick, de Melville, não é uma busca pelo belo, mas um confronto com o sublime dinâmico encarnado na baleia branca. As paisagens desoladas e grandiosas nos romances góticos ou as reflexões cósmicas na ficção científica exploram essa mesma fronteira.
O Legado e as Alternativas: O Juízo Kantiano sob Escrutínio
A influência de Kant é inegável. A ideia de "arte pela arte", o foco na autonomia da obra e a separação entre o juízo estético e os interesses morais ou políticos que marcaram o modernismo literário (pensem em James Joyce ou Virginia Woolf) devem muito a essa base kantiana. A própria noção de uma crítica literária que analisa a forma, a estrutura e a linguagem de uma obra, como fez a minha colega Ana Amélia ao destrinchar a estrutura de um conto, opera sobre um terreno preparado por Kant.
No entanto, seria um erro pensar que a filosofia parou em 1790. O pensamento de Kant, justamente por ser tão poderoso, gerou reações igualmente fortes.
Hegel e a História: Para Hegel, a arte não é um prazer desinteressado, mas uma manifestação do "Espírito Absoluto" (a consciência humana) em um determinado momento histórico. A beleza não está em uma harmonia atemporal, mas no modo como a obra de arte revela a verdade de sua época. Uma tragédia grega é bela porque expressa perfeitamente o mundo grego, não por um "livre jogo" universal.
Nietzsche e a Vontade de Potência: Nietzsche zombaria do "desinteresse" kantiano. Para ele, a arte é a mais potente afirmação da vida, uma expressão da Vontade de Potência. Nós criamos e amamos a arte para aumentar nosso sentimento de poder e celebrar a existência, com toda a sua dor e alegria. A estética é inseparável do corpo, dos instintos, da fisiologia.
Adorno e a Crítica Social: Já no século XX, Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, argumentaria que na sociedade capitalista, a ideia de um prazer "desinteressado" é uma ilusão. A arte autêntica, para ele, não deve nos proporcionar uma harmonia fácil, mas, ao contrário, ser dissonante e difícil. Ela deve, através de sua forma complexa e negativa, expor as contradições e a brutalidade do mundo em que vivemos.
Então, a teoria de Kant é a melhor? A pergunta talvez esteja mal formulada. Ela é a fundamental. É o ponto de partida. As teorias de Hegel, Nietzsche e Adorno não existem no vácuo; elas são, em grande medida, um diálogo crítico com Kant.
Ler literatura hoje com as lentes de Kant nos permite entender a arquitetura da forma, a busca pela autonomia da obra e a distinção entre a beleza harmoniosa e o assombro do sublime. Mas ler com as lentes de seus críticos nos permite questionar: que história esta obra está contando sobre seu tempo (Hegel)? Que forças vitais ela afirma ou nega (Nietzsche)? Que verdade incômoda sobre nossa sociedade ela revela através de sua dificuldade (Adorno)?
A beleza da teoria, meus caros, é que ela não nos dá respostas definitivas. Ela nos oferece ferramentas mais sofisticadas para formular perguntas cada vez mais profundas. E é nesse questionamento que a verdadeira paixão pela literatura reside.
Para saber um pouco mais
Para aqueles que desejam aprofundar a reflexão sobre os fundamentos do juízo estético, sugiro as seguintes obras teóricas, que dialogam, expandem ou criticam a herança kantiana:
Immanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo (1790): A fonte primária. A leitura da "Analítica do Belo" e da "Analítica do Sublime" é indispensável para compreender a revolução que Kant operou. É um texto denso, mas de uma arquitetura conceitual deslumbrante.
Friedrich Schiller, Cartas sobre a Educação Estética do Homem (1794): Um dos primeiros e mais brilhantes herdeiros de Kant. Schiller aplica a estética kantiana à política e à formação humana, argumentando que é através da experiência da beleza que o homem pode reconciliar sua natureza sensível e racional, tornando-se verdadeiramente livre.
Theodor W. Adorno, Teoria Estética (1970): Uma obra póstuma e monumental que representa uma crítica radical à ideia de prazer e harmonia na arte. Para Adorno, a arte moderna autêntica deve ser enigmática e dissonante para resistir à lógica da indústria cultural. É uma leitura desafiadora, mas essencial para entender a arte do século XX.
Referências
ADORNO, Theodor W. Teoria Estética. Edições 70, 2008.
HEGEL, G.W.F. Cursos de Estética. Edusp, 2001.
KANT, Immanuel. Crítica da Faculdade do Juízo. Editora Forense Universitária, 2005.
NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia. Companhia das Letras, 1992.
SCHILLER, Friedrich. A Educação Estética do Homem. Iluminuras, 2017.
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