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Personagens 5: Como Descrever Personagens — Fuja da "Descrição de RG"

  • Foto do escritor: Ana Amélia
    Ana Amélia
  • 25 de jan.
  • 5 min de leitura

Olá, amantes de personagens charmosos!


Se eu abrir mais um original este mês e ler que o protagonista é "alto, magro, de olhos castanhos e cabelos levemente ondulados", eu juro que envio uma conta de luz para o autor pagar. Sabe por quê? Porque isso não é literatura, é depoimento em delegacia. O leitor não quer saber se o seu personagem passa no detector de metais do aeroporto; ele quer saber qual é a vibração que esse sujeito emite ao entrar em uma sala.

Descrever não é listar atributos físicos. Descrever é caracterizar através da imagem. É escolher o detalhe que revela a alma (ou a falta dela). Hoje, vamos fazer a engenharia reversa em três mestres que sabiam que um nariz não é apenas um apêndice nasal, mas um ponto de exclamação no rosto de alguém.



1. O Camaleão do Crime: A Função Narrativa de Dashiell Hammett


Pintura surrealista de uma mulher feita de névoa cor de alfazema em uma rua noir, representando a técnica de descrição por atmosfera de Dashiell Hammett.

Dashiell Hammett é o pai do hard-boiled. Ele escreve como quem dá um soco: seco, direto e sem adornos inúteis. Mas veja a genialidade do homem. Ele sabe quando ser um burocrata e quando ser um estilista.

Muitos autores iniciantes cometem o erro de fazer listas de atributos por pura preguiça. Hammett, no entanto, usa a lista como uma ferramenta de contexto. No trecho sobre Myra, ele nos entrega um inventário:


Myra: vinte anos de idade, um metro e 72 centímetros de altura, 68 quilos, atlética, ágil, com modos e postura quase masculinos; cabelos castanhos curtos; olhos castanhos, pele morena clara, rosto quadrado – com queixo grande e nariz pequeno –, cicatriz sobre a orelha esquerda escondida pelo cabelo, gosta de cavalos e de todos os esportes ao ar livre. Quando saiu de casa, usava vestido de lã azul e verde, chapéu azul pequeno, casaco de pele de foca curto preto e sapatos baixos pretos. (Hammett, Grande Golpe)

Engenharia Reversa: Por que isso funciona aqui e no seu livro não? Porque Myra é uma pessoa desaparecida. Esta é uma descrição funcional. Ela serve para que o detetive (e o leitor) a identifique na multidão. A "cicatriz sobre a orelha" não é um charme, é uma pista.

Agora, veja o que acontece quando Hammett quer que você sinta a personagem em vez de apenas identificá-la:


Ela não chegava a ter um metro e quarenta de altura – um bibelô vivo da estante de alguém. Seu rosto era uma minúscula forma oval de beleza maquiada, com a perfeição ressaltada pelos cabelos muito negros lisos e sedosos perto das têmporas. Brincos de ouro balançavam ao lado das bochechas macias e uma borboleta de jade enfeitava-lhe os cabelos. Estava coberta do queixo aos joelhos por um casaco cor de alfazema que reluzia pedras brancas. Meias cor de alfazema apareceram sob as calças curtas cor de alfazema, e os pés minúsculos vestiam chinelos da mesma cor em formato de gatinhos...

O "Pulo do Gato": Percebeu a repetição da palavra alfazema? Ele não precisa descrever o tom exato do roxo. A repetição cria uma mancha visual. A personagem vira uma cor, uma textura, um "bibelô". Ele substituiu os 68 quilos de Myra por uma "borboleta de jade". Isso é caracterização por atmosfera. Se você quer que sua personagem pareça fútil ou delicada, você não escreve "ela era fútil"; você veste ela de alfazema da cabeça aos pés e coloca chinelos de gatinho com olhos de pedra amarela.


2. A Sinestesia Erótica de Anaïs Nin


Ilustração em estilo Pop-Art dividida entre um projeto técnico de um rosto e um retrato expressivo e colorido, mostrando o contraste entre informação e sensação

Se Hammett é o soco, Anaïs Nin é o toque. Ela entende que o corpo humano é um mapa de contradições. Quando ela descreve Marcel em Delta de Vênus, ela não está interessada na altura dele, mas na tensão entre sua delicadeza e sua força bruta.


Marcel chegou ao barco, os olhos azuis cheios de surpresa e assombro, com tantos reflexos quanto o rio. Olhos famintos, ávidos, desprotegidos. Sobre a expressão inocente e absorta, caíam grossas sobrancelhas, selvagens como as de um camponês. Sua rusticidade era atenuada pela testa luminosa e pelos cabelos sedosos. A pele também era frágil; o nariz e a boca, vulneráveis e transparentes; mas as mãos de camponês, como as sobrancelhas, denunciavam sua força.

Engenharia Reversa: Note o uso dos contrastes. "Olhos desprotegidos" versus "sobrancelhas selvagens". "Pele frágil" versus "mãos de camponês". Nin constrói o personagem através do conflito físico. O leitor entende imediatamente que Marcel é um homem de sensibilidade refinada preso em uma carcaça de trabalhador braçal.

Dica da Ana: Quer dar profundidade a um personagem? Dê a ele uma característica física que "brigue" com sua personalidade. Um gigante com voz de flauta. Uma mulher fatal com mãos calejadas de quem planta batatas. O contraste é onde a curiosidade do leitor mora.


3. O Fogo sob o Tédio: Clarice Lispector e a Descrição Abstrata



Representação de Joana de Perto do coração selvagem

Chegamos à rainha do "não-dito". Clarice Lispector não descreve rostos; ela descreve o que acontece atrás dos olhos. Em Perto do Coração Selvagem, a descrição física de Joana é quase uma fumaça que se dissipa para revelar uma essência.


Parecia uma gata selvagem, os olhos ardendo acima das faces incendiadas, pontilhadas de sardas escuras de sol, os cabelos castanhos despenteados sobre as sobrancelhas. Enxergava em si púrpura sombria e triunfante. O que fazia com que brilhasse tanto? O tédio… Sim, apesar de tudo havia fogo sob ele, havia fogo mesmo quando representava a morte. Talvez isso fosse o gosto de viver.

Engenharia Reversa: Clarice usa o físico como metáfora do estado de espírito. "Olhos ardendo", "faces incendiadas". Ela não está dizendo que Joana está com febre, mas que ela está em combustão interna. E a frase definitiva: "olhou-se ao espelho e só era bonita pelo fato de ser uma mulher".

Isso é um tapa na cara da descrição convencional. Ela está dizendo que a beleza de Joana não vem do desenho do queixo ou da cor da íris, mas da sua própria existência biológica e existencial. Quando você descreve assim, você obriga o leitor a projetar sua própria ideia de "beleza" ou "selvageria" na personagem. Você cria um vínculo de coautoria.


Relatório de Engenharia Reversa:


  • Fuja do Inventário: Só liste medidas e cores se houver uma função narrativa clara (como em um mistério policial).

  • Aposte no Contraste: Use características físicas que entrem em conflito com a personalidade do personagem para criar tensão (O Protocolo Nin).

  • Crie Manchas Visuais: Use cores ou objetos recorrentes (o casaco alfazema de Hammett) para fixar a imagem sem precisar de adjetivos pobres.

  • Descreva o Efeito, não a Causa: Em vez de dizer que ela é linda, descreva o que o brilho dela causa no ambiente (O Protocolo Lispector).



Vamos Conversar?



Composição minimalista de uma ponte feita de luz e um lápis conectando rascunhos a um livro pronto, com uma mesa de café no centro. USAR ESSA

Você já sentiu que seus personagens são apenas "cabides" para roupas e cores de olhos? A diferença entre um personagem que esquecemos ao virar a página e um que nos assombra à noite está na precisão editorial.

Aqui na Letra & Ato, nossa revisão estrutural não olha apenas se a vírgula está no lugar certo (embora a gente tenha obsessão por isso). Nós olhamos se a "mão de camponês" do seu herói faz sentido com a jornada dele. Quer saber se suas descrições estão funcionando ou se são apenas um inventário de loja de departamentos?

Peça sua amostra gratuita via formulário de qualificação. Vamos transformar seu "RG literário" em uma obra de arte.


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