Personagem 4: As Técnicas de Caracterização de Personagens
- Ana Amélia

- 13 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de jan.
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A Carne da Personagem: O Desconforto Visceral de Daniel Galera
Em O deus das Avencas, Daniel Galera nos apresenta Manuela. Ele poderia ter escrito: "Manuela estava grávida de nove meses, muito irritada com o calor de outubro e sentia que seu corpo era um fardo". Eficiente? Talvez. Literário? Nem um pouco. Galera prefere nos jogar para dentro da pele esticada e dolorida dela.
Estão esperando que ela comece a sangrar, a sentir dor. Manuela está com ódio de tanta demora. Já faz duas semanas que não aguenta mais carregar a barriga por aí, nas escadas do prédio sem elevador, pelas calçadas repletas de lajotas soltas que ainda espirram nas suas canelas inchadas a água suja das últimas chuvas de outubro. Quer dormir de bruços e sem o amparo de travesseiros, levantar do vaso sem precisar se apoiar na pia, parar de levar chutes nas costelas pelo lado de dentro. Quer voltar a transar sem ser derrotada toda vez por essa massa que se agigantou em seu corpo.
Dissecando a Engrenagem do Galera:
O Detalhe que Incomoda: Galera não fala em "caminhar". Ele fala em escadas de prédio sem elevador e canelas inchadas que recebem respingos de água suja. A caracterização aqui é feita por contraste de resistência. O mundo físico é o inimigo.
Desejos Proibidos e Mundanos: A personagem não quer "paz espiritual". Ela quer dormir de bruços e voltar a transar. Isso humaniza Manuela instantaneamente. O Info Dumping tentaria nos convencer da profundidade dela com adjetivos; Galera faz isso com o desejo de "levantar do vaso sem se apoiar na pia".
A Metáfora da Massa: O bebê não é um "milagre da vida" aqui; é uma "massa que se agigantou". Essa escolha lexical define a voz da personagem: prática, exausta e honestamente ressentida com a biologia.
O Gelo da Personagem: A Indiferença Cirúrgica de Albert Camus

Se Galera nos sufoca com a carne, Camus nos gela com a falta dela. No clássico O Estrangeiro, a caracterização de Meursault é um milagre da economia. Ele é definido por sua desconexão emocional, construída através de uma distância narrativa que beira o desumano1.
Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Mãe falecida. Enterro amanhã. Sinceros pêsames." Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem. [...] Pedi dois dias de licença ao meu patrão e ele não pôde recusar, com uma desculpa dessas. Mas não parecia contente. Cheguei a dizer-lhe: "A culpa não é minha". Ele não respondeu. Pensei então que não devia ter dito aquilo. Enfim, eu não tinha de que me desculpar. Era ele, antes, que me devia apresentar pêsames.
Dissecando a Engrenagem de Camus:
A Prosa de Laudo Pericial: Camus usa frases curtas e declarativas. "Hoje, mamãe morreu". Não há o "infelizmente", o "tristemente", nem o "meu coração se partiu". A ausência de adjetivos emocionais é o que constrói a "indiferença" de Meursault. Isso é caracterização de primeira classe: deixar o leitor preencher o vácuo com horror ou perplexidade.
O Foco no Prático: O personagem se preocupa com a reação do patrão e com a validade da sua "desculpa". Ele analisa o evento da morte sob a ótica burocrática e social, não sentimental.
A Técnica do Zoom Out: Enquanto o Info Dumping tentaria explicar a infância traumática de Meursault para justificar seu jeito, Camus simplesmente nos mostra como ele processa o presente. A "verdade" do personagem não está no que ele diz, mas na cadência mecânica de seus pensamentos.
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Filtre pelo Corpo: Quer mostrar que alguém está ansioso? Não escreva "ele estava ansioso". Escreva sobre a gota de suor que desce pela costela ou a vontade súbita de urinar. Siga o Protocolo Galera.
A Força da Omissão: Se o seu personagem é frio, retire os advérbios de modo e as explicações sentimentais. Deixe a "secura" do texto criar o clima. Siga o Protocolo Camus.
Mate o "Porquê": O leitor não precisa saber o trauma de infância da personagem na página 2. Deixe que as ações dela no presente sugiram o passado. O mistério é o melhor tempero para a curiosidade.
Vamos Conversar?

Escrever é um ato de coragem, mas também de paciência. Muitas vezes, o autor "despeja" informações (o fatídico Info Dumping) por medo de não ser compreendido, ou por pressa de chegar ao conflito principal. Mas a verdade é que o leitor se apaixona pelo processo de descoberta.
Se você sente que seu manuscrito está "explicativo demais" ou que seus personagens parecem bonecos de papel sem peso físico, talvez seja a hora de uma revisão estrutural e de estilo. Na Letra & Ato, nós não apenas corrigimos vírgulas; nós ajudamos você a encontrar o equilíbrio entre o "mostrar" e o "contar", garantindo que a alma do seu personagem brilhe sem precisar de muletas explicativas. Quer ver como seu texto pode ganhar essa densidade? Peça nossa análise de amostra.
Um personagem bem construído é como um iceberg: o leitor só vê a ponta, mas sente todo o peso do que está submerso.
📚 A Estante de Ana: |
"Nove Noites de Bernardo Kucinski" |
"Um quebra-cabeça literário onde a busca por um personagem desaparecido revela as entranhas de um Brasil sombrio. Uma aula de como construir ausência através da palavra." |
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