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A Aula com Margaret Atwood: A Verossimilhança como Espelho Histórico

  • Foto do escritor: Ana Amélia
    Ana Amélia
  • 22 de jan.
  • 5 min de leitura

Este post faz parte do curso A Arquitetura de Universos Literários



Olá, meus caros visionários (ou sobreviventes)!


Se vocês acham que escrever uma distopia é apenas inventar um futuro sombrio onde todos usam roupas estranhas e o governo é malvado, vocês estão fazendo isso errado. E quem vai lhes dar um puxão de orelha hoje é a rainha da ficção especulativa: Margaret Atwood.

Hoje, no décimo post da nossa série Construindo Universos Literários, vamos sair do terror individual de King e da invasão doméstica de Cortázar para olhar para algo muito mais vasto e assustador: A Sociedade. Vamos entender como Atwood constrói mundos que nos fazem perder o sono, não porque são "fantásticos", mas porque são terrivelmente familiares.


Como Escrever Distopias Críveis: A Técnica do Precedente de Margaret Atwood


Colagem política com silhuetas de mulheres de vermelho sobre fundo de jornais antigos.

A macroestratégia de Atwood é o que chamamos de Ancoragem no Precedente Histórico. Atwood tem uma regra de ouro que ela seguiu religiosamente ao escrever O Conto da Aia (Gilead): ela não incluiu nenhum detalhe, nenhuma punição, nenhuma restrição de direitos que não tivesse ocorrido em algum lugar da história da humanidade.

Essa é a mentira mais sofisticada de todas. Ela não está inventando o futuro; ela está reorganizando o passado em um cenário novo. A verossimilhança aqui não vem da lógica científica, mas da lógica sociológica. Se aconteceu uma vez, pode acontecer de novo. E essa "possibilidade" é o que ancora o leitor na narrativa com um nó na garganta.


O Mecanismo da Regressão Social



Atwood entende que a sociedade não avança em linha reta; ela oscila. Para tornar a teocracia de Gilead crível, ela usa o micromecanismo da Lógica da Regressão. Ela nos mostra como os direitos são retirados não de uma vez, mas através de pequenos ajustes administrativos que parecem "necessários".

Observem este trecho de O Conto da Aia, onde a protagonista Offred (June) relembra o momento exato em que a sua realidade financeira — e, consequentemente, sua liberdade — foi apagada. A força do detalhe aqui está na burocracia fria, algo que todos nós reconhecemos:


Eu estava na fila do caixa do supermercado quando o cartão foi recusado. Achei que fosse um erro do sistema, ou que a conta estivesse temporariamente bloqueada. Mas o caixa me olhou com uma cara estranha, uma mistura de pena e desprezo. "Não está funcionando, senhora", ele disse. Liguei para o banco e a resposta foi uma voz automática, metálica, dizendo que as contas vinculadas a números de registro feminino haviam sido transferidas para os tutores masculinos mais próximos. Foi assim, sem tiros, sem explosões de bombas. Apenas um código em um computador, uma linha de programação que decidiu que eu não era mais dona do meu próprio dinheiro. Voltei para casa a pé, sentindo o asfalto sob os pés como se ele pudesse se abrir a qualquer momento. O mundo ainda parecia o mesmo — os mesmos carros, as mesmas árvores —, mas o chão sob mim tinha sido removido.

O que Atwood faz aqui é genial. Ela usa um sistema eletrônico moderno (cartão de crédito) para implementar uma lei medieval. A verossimilhança nasce desse choque entre o familiar (o supermercado) e o extremo (a perda de direitos financeiros). O leitor acredita porque ele também já teve um cartão recusado; ele sabe como é o frio na barriga. Atwood apenas aumenta a escala desse sentimento.


A Comparação Necessária: O Mestre George Orwell


Livros de história amarrados com fita vermelha sob uma máscara de gás.


Para entendermos a profundidade dessa técnica, precisamos olhar para quem pavimentou esse caminho: George Orwell. Em 1984, Orwell fez exatamente o mesmo que Atwood: ele usou o que viu na Guerra Civil Espanhola e no Stalinismo para construir a Oceania.

Enquanto Atwood foca na opressão de gênero e na teocracia (buscando bases na Revolução Iraniana e no Puritanismo Americano), Orwell foca na destruição da linguagem. Mas a técnica de ancoragem é a mesma: o uso da Voz Documental.

Vejam como Orwell descreve a técnica da "Novilíngua", transformando um conceito político abstrato em uma realidade técnica e opressiva:


O objetivo da Novilíngua não era apenas fornecer um meio de expressão para a visão de mundo e os hábitos mentais próprios dos devotos do Socing, mas inviabilizar todas as outras formas de pensamento. Pretendia-se que, quando a Novilíngua fosse adotada de uma vez por todas e a Velhalíngua esquecida, um pensamento herético fosse literalmente impensável, pelo menos na medida em que o pensamento depende das palavras. Seu vocabulário era construído de modo a dar expressão exata e muitas vezes muito sutil a cada significado que um membro do Partido pudesse desejar expressar, ao mesmo tempo que excluía todos os outros significados e também a possibilidade de chegar a eles por métodos indiretos. Isso se conseguia em parte pela invenção de palavras novas, mas principalmente pela eliminação de palavras indesejáveis.

Orwell usa uma lógica linguística rigorosa. A verossimilhança em 1984 não está nos telatelas, mas na ideia de que se você remover a palavra "liberdade", o conceito de liberdade morre. Tanto Atwood quanto Orwell usam o Andaimes de Lógica Irrefutável: eles estabelecem uma premissa (a história ou a linguística) e a levam até as últimas consequências.



Como aplicar a Técnica do Precedente no seu Universo?


Ilustração cubista de uma mão com caneta tinteiro atrás de arame farpado.

Se você está escrevendo uma distopia ou um universo político, aprenda com Atwood:


Pesquise o Passado: Quer criar uma lei absurda? Procure no Google por leis que existiram no século XVIII. A realidade histórica é sempre mais bizarra que a ficção.  Mostre o passo a passo da perda de normalidade.

O Horror é Burocrático: O mal raramente vem com uma capa preta; ele vem com um formulário, uma assinatura e uma desculpa administrativa. Trate o absurdo político como um fato administrativo.

Ancore no Familiar: Para o leitor acreditar no "Novo Mundo", você precisa mostrar o "Velho Mundo" se desfazendo em lugares comuns: um café, um banco, uma conversa de calçada.  Use fatos reais para validar a fantasia futura.  Insira o elemento opressor em cenários cotidianos.


Atwood nos ensina que a melhor forma de construir um futuro crível é ser um historiador atento. A ficção política não é sobre o que poderia ser, mas sobre o que somos capazes de fazer.




☕ Vamos Conversar?


ponte ligando uma pilha de papéis desorganizado a um livro acabado simbolizando a revisão dialogal

Escrever sobre sociedades e sistemas políticos exige um equilíbrio delicado. Se você pesar demais a mão, vira panfleto; se pesar de menos, fica inverossímil. O segredo da Atwood é justamente essa "calma" técnica ao descrever o horror. Você já sentiu que o universo do seu livro precisa de uma base mais sólida? Que a política da sua história parece "inventada demais"? Na Letra & Ato, nossa análise estrutural ajuda você a encontrar esses pontos de ancoragem histórica e lógica. Nós ajudamos você a transformar seu "mundo imaginário" em um espelho inquietante da realidade. Vamos conversar sobre o peso político da sua obra?

📚 A Estante de Ana:

"Fahrenheit 451" de Ray Bradbury"

"Uma distopia onde a queima de livros é o detalhe concreto que sustenta uma crítica feroz ao anti-intelectualismo e à passividade social."

O futuro só é assustador porque ele já aconteceu antes. Escreva para que não esqueçamos.

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