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A Aula com Kazuo Ishiguro: Quando o Coração Valida o Impossível

  • Foto do escritor: Ana Amélia
    Ana Amélia
  • 26 de jan.
  • 5 min de leitura

Olá, meus caros colecionadores de cicatrizes!


Se vocês vieram aqui hoje esperando explicações sobre motores de dobra espacial, naves cromadas ou leis da robótica, podem dar meia-volta. Hoje, na nossa série Construindo Universos Literários, vamos falar com o homem que provou que, para o leitor acreditar no impossível, você não precisa de um manual técnico; você precisa de um lenço de papel.

Estamos na Fase 3 e o nosso mestre da vez é Kazuo Ishiguro. Vamos descer das distopias políticas de Atwood para entrar no silêncio ensurdecedor do coração humano. Preparem-se para entender por que, às vezes, o que você não explica é o que torna o seu mundo real.


A Aula com Kazuo Ishiguro: O Coração como Âncora da Ficção


A macroestratégia de Ishiguro é a Verossimilhança pela Supressão. Enquanto autores medíocres de ficção científica perdem parágrafos explicando como o DNA foi clonado, Ishiguro nos apresenta um mundo onde os clones já existem, vivem entre nós e... estão preocupados com quem vai herdar suas coleções de fitas cassete.

Em sua obra-prima Não Me Abandone Jamais, a tecnologia de clonagem é o pano de fundo de uma história sobre perda, amizade e a mortalidade. A genialidade dele está em tratar o absurdo com uma normalidade tão absoluta que o leitor para de questionar a "ciência" para sofrer com a "existência".


O Micro-Mecanismo 1: O Narrador Não-Confiável (pela Proximidade)


Mala aberta com brinquedos velhos e um prontuário médico em uma sala abandonada.

A narradora, Kathy H., nos conta a história de sua vida em uma escola interna chamada Hailsham. Ela fala de desenhos, de intrigas entre amigos e de professores. O truque técnico aqui é que Kathy não explica o mundo para nós, porque para ela o mundo é óbvio.

Ao usar uma voz que aceita o horror como rotina, Ishiguro nos obriga a fazer o mesmo. A verossimilhança não vem de provas externas, mas da consistência da voz interna da personagem. Se ela não está espantada por ser um "estoque de órgãos", por que nós estaríamos?

Observem como ele introduz o conceito da "doação" de forma quase burocrática e doméstica, focando na sensação física e no orgulho profissional, em vez da tragédia ética:

Meu nome é Kathy H. Tenho trinta e um anos e sou cuidadora há mais de onze. Isso parece muito tempo, eu sei, mas na verdade eles querem que eu continue por mais oito meses, até o fim do ano. Isso completará doze anos exatos. Agora, não estou querendo me gabar. Sei de cuidadores excelentes que receberam o aviso de dispassa em apenas dois ou três anos. E sei de pelo menos um cuidador que continuou por catorze anos apesar de ser um completo desperdício de espaço. Por isso não estou tentando me exibir. Mas sei perfeitamente que estão satisfeitos com o meu trabalho, e eu também estou. Meus doadores sempre se saem melhor do que o esperado. Os tempos de recuperação deles são impressionantes, e quase nenhum deles chega a ficar "perturbado", mesmo na quarta doação.

Perceberam o peso da palavra "doadores" entre aspas no original? E a naturalidade com que ela fala da "quarta doação" (que sabemos ser fatal)? Ishiguro usa o Eufemismo como um mecanismo de verossimilhança. Na vida real, nós damos nomes suaves para coisas terríveis. Ao fazer o mesmo na ficção, ele torna o universo assustadoramente crível.


O Micromecanismo 2: A Banalização do Fantástico


Pintura impressionista de uma fita cassete em um campo enevoado.

Para Ishiguro, o universo literário se sustenta nos objetos banais. Em Não Me Abandone Jamais, o "Efeito de Real" não vem de laboratórios, mas de uma fita cassete da cantora (fictícia) Judy Bridgewater. A busca por essa fita perdida torna-se o motor emocional da história.

O autor entende que a alma humana se apega a ninharias. Ao dar peso dramático a uma fita de música, ele ancora a sua ficção científica na experiência universal da infância e da nostalgia.

Eu estava no meu quarto, com a porta fechada, ouvindo a fita de Judy Bridgewater. Estava na parte que eu mais gostava, "Never Let Me Go", e eu estava dançando sozinha, segurando um travesseiro como se fosse um bebê. Eu era jovem demais para entender do que a música falava, mas para mim, era sobre uma mulher que tinha tido um bebê depois de esperar por anos, e ela o segurava com tanta força porque tinha medo de que ele fosse levado embora. Eu cantava junto, baixinho, sentindo aquele aperto no peito que a gente sente quando ama algo que sabe que não pode guardar. Naquele momento, Hailsham, as guardiãs, as doações que nos esperavam no futuro... nada disso existia. Existia apenas a voz da Judy e o peso do travesseiro nos meus braços.

A verossimilhança aqui é emocional. O leitor reconhece o sentimento de solidão e o conforto que a música traz. Quando o autor estabelece essa conexão humana, ele ganha "crédito" para que o leitor aceite qualquer premissa tecnológica sem reclamar.


Por que a "Tecnologia Invisível" funciona?


Gotas de chuva em uma janela refletindo um corredor de hospital borrado.

Muitos escritores de gênero falham porque tentam explicar o impossível através da física. Ishiguro explica o impossível através do subtexto.


Ignore o Manual de Instruções: Se a tecnologia faz parte da vida dos personagens desde que nasceram, eles não vão ficar explicando como ela funciona. Eles vão reclamar do preço ou do cheiro.

Foque nas Consequências Emocionais: O que importa não é como o clone foi feito, mas como ele se sente ao saber que nunca terá filhos. É no vácuo da emoção que a verdade do seu mundo se instala. Use sentimentos universais para validar premissas fantásticas.

O Poder da Aceitação: Personagens que lutam contra o sistema são comuns. Personagens que aceitam o sistema porque não conhecem outra realidade são aterrorizantes e muito mais reais.

Ishiguro nos ensina que o universo literário mais profundo é aquele que se mapeia dentro de nós.

Narrador de "Visão Curta":  Um narrador que não vê a "Big Picture" torna o relato mais íntimo e crível.

Uso de Eufemismos: Criar uma linguagem própria do mundo que suaviza o horror, tornando-o cotidiano.

O Objeto Transicional: Usar itens banais (fitas, desenhos, coleções) para dar peso à perda.



☕ Vamos Conversar?


Composição minimalista de uma ponte feita de luz e um lápis conectando rascunhos a um livro pronto, com uma mesa de café no centro.

Seu texto está tão preocupado em explicar as "regras do mundo" que esqueceu de explicar as "regras do coração"? Às vezes, o excesso de worldbuilding técnico mata a conexão com o leitor. Na Letra & Ato, nossa Revisão de Estilo foca intensamente no Subtexto. Nós ajudamos você a identificar onde o "não dito" pode ser muito mais poderoso do que uma página inteira de descrições tecnológicas. Afinal, o leitor não quer saber como a máquina funciona; ele quer saber como é o barulho da máquina quebrando o coração do protagonista. Vamos encontrar a alma do seu universo?


Na literatura, o caminho mais curto para a mente do leitor é sempre um desvio pelo coração.

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