top of page

Revisão Profissional para Autores Exigentes.  

Desde 1990

lea

Para Além da Trama: Apagar Arquitetura da Voz Narrativa em Mia Couto

  • Foto do escritor: Ana Amélia
    Ana Amélia
  • há 15 horas
  • 4 min de leitura


Comparação visual entre as paisagens literárias de Mia Couto e Guimarães Rosa, ambas construídas a partir de palavras.

E aí, pessoal que briga com as palavras até elas confessarem a verdade? Ana Amélia na área, com o bisturi afiado.

Hoje vamos falar sobre uma verdade inconveniente: bons escritores não contam apenas histórias. Os melhores, os que realmente ficam na nossa cabeça, eles inventam idiomas. Não estou falando de Klingon ou Alto Valiriano. Estou falando de pegar a nossa boa e velha língua portuguesa e torcê-la, amaciá-la, enfeitiçá-la até que ela só possa ser falada naquele universo específico que eles criaram.

É sobre construir uma arquitetura da voz. E para essa aula de feitiçaria linguística, trouxe um bruxo-mór de Moçambique: Mia Couto.


O Encantamento pela Palavra: A Prosa de Mia Couto


Mia Couto não escreve, ele sussurra no ouvido da gente. A prosa dele é um lugar onde a fronteira entre poesia e narrativa se dissolveu na chuva. Ele não descreve a realidade; ele a sonha no papel.

Para provar que não estou delirando, vejam este trecho do início de Terra Sonâmbula:

Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos trilhos de areia, em vez de carros, eram valas que se arrastavam, serpentes de um rio sem água. E as acácias, desgrenhadas, varriam com seus ramos a poeira do chão. Um mundo que se despia. Aos lados da estrada, os paus de pilar o céu tinham sido incendiados e o capim, de tão calcinado, mudara a sua cor. Nesse deserto, as únicas cores que sobravam eram as que desmaiavam no horizonte.

Vamos à autópsia:

  • Personificação Radical: "A guerra tinha morto a estrada". Simples assim. A guerra não destruiu, não danificou. Ela matou. A estrada não é um objeto, é uma vítima. Isso imediatamente nos joga para um universo animista, onde tudo tem vida e, portanto, pode morrer.

  • Ritmo Onírico: Leia em voz alta. A cadência é suave, quase hipnótica. As frases fluem como as "serpentes de um rio sem água". Não é uma prosa para informar, é uma prosa para embalar o leitor para dentro de um sonho (ou pesadelo).

  • Metáforas que Criam o Mundo: "paus de pilar o céu". Ele não diz "postes de eletricidade". Ele nos dá a função poética, mítica, daquele objeto. Naquele mundo, os postes não levam luz, eles sustentam o próprio firmamento.

A linguagem de Couto não é um veículo para a história. A linguagem é a história.


O Contraponto: A Linguagem Forjada no Fogo de Guimarães Rosa


Para não dizerem que essa magia só acontece do outro lado do Atlântico, vamos buscar o nosso próprio mestre em forjar idiomas: João Guimarães Rosa. Se a prosa de Couto é água de rio, a de Rosa é terra seca que racha sob o sol do sertão. Peguem o famoso início de Grande Sertão: Veredas:


Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de longe; não foram de aqui perto. Foi um que um caçador me contou... O senhor sabe: caçador é povo de inventar. Todos eles. Um por um. E, quando não é caçador, é algum que para ouvir foi o mesmo que para contar. O senhor nonada não procure. Espere. O senhor querendo, eu conto.

O que o nosso Bruxo do Sertão faz aqui?

  • Neologismo como Cartão de Visitas: "Nonada". A história já começa com uma palavra que não existe e que, ao mesmo tempo, diz tudo. É "não" e "nada", mas com uma sonoridade que já nos transporta para a oralidade, para o "causo".

  • Oralidade Pura: O texto inteiro é uma conversa. "O senhor ouviu", "O senhor sabe", "O senhor querendo, eu conto". Não estamos lendo um livro, estamos sentados na frente de Riobaldo, ouvindo sua história. A autoridade do narrador erudito foi para o beleléu.

  • Sintaxe da Fala: A estrutura das frases não segue a norma culta escrita. Ela segue o ritmo da fala, com suas hesitações, repetições e inversões.

Tanto Couto quanto Rosa fazem a mesma coisa: eles criam uma voz tão única que ela se torna o próprio DNA do mundo narrado. A gente reconhece um texto deles como reconhece a voz de um amigo no telefone.


E se você quiser ver essa magia de Mia Couto em ação num conto completo, pode mergulhar em A Gota (Mia Couto): Um Conto de Pós-Guerra, Ilusão e Sobrevivência, que já passou pelo nosso bisturi aqui no blog.


Entender essa arquitetura da voz é o que separa um texto bom de uma obra que ecoa na alma. Não é só sobre o que você diz, mas sobre o idioma que você inventa para dizer. Esse é o tipo de profundidade que buscamos na Revisão Dialogal, uma conversa que vai além da vírgula e mergulha na essência do seu estilo.

🔪 Dica de Leitura da Ana

A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe. Se Couto e Rosa usam a linguagem para criar paisagens externas e internas, Valter Hugo Mãe a usa para construir a geografia da velhice e da memória. Preste atenção em como a ausência de letras maiúsculas e a pontuação peculiar criam uma voz contínua, quase um fluxo de consciência, que nos afoga na mente de seu protagonista de 84 anos. É outra aula sobre como a forma é inseparável do sentimento.




lápis-ponte simbolizando a relação autor-revisor na Letra & Ato

Vamos conversar?

Você leu sobre a feitiçaria de Couto e a forja de Rosa. Agora, olhe para o seu texto. Ele tem uma voz ou é apenas um conjunto de palavras bem-arrumadas? Ele tem um idioma próprio ou fala a língua de todo mundo?

Encontrar essa voz única é a jornada mais difícil de um escritor. E, às vezes, é preciso um ouvido de fora para ajudar a sintonizar a frequência. Antes de pensar em pacotes complexos de revisão, que tal começar com um teste de clareza?

Envie-nos um trecho do seu texto. Faremos uma amostra gratuita da nossa revisão gramatical e ortográfica. É o nosso jeito de mostrar o rigor com que tratamos cada palavra. A partir daí, podemos começar um diálogo sobre como lapidar a sua voz para que ela não apenas conte uma história, mas cante uma canção que só você pode compor.

:

Não basta contar uma história. É preciso inventar a língua em que ela merece ser contada.



© 2024-2026 Letra & Ato Todos os direitos reservados.

1 comentário

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Convidado:
há 6 minutos
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Adoro Mia Couto

Curtir
bottom of page