Meta-discurso em Machado de Assis
- Ana Amélia

- 15 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 21 de jan.

Como Machado de Assis Desmontou o Romance (e nos Ensinou a Escrever)
E aí, pessoal da pena e do pixel! Ana Amélia de volta ao posto.
Lembram do nosso último papo? Falamos sobre o "narrador fofoqueiro" de Machado de Assis, aquele que para a história para bater um papo com a gente, como vimos no conto "Pai contra mãe". Pois bem. Hoje, eu quero propor algo mais ousado. Quero convencê-los de que aquela "fofoca" era apenas o aperitivo. O prato principal do Bruxo do Cosme Velho era muito mais complexo, muito mais revolucionário.
Aquela intrusão era, na verdade, a semente de algo que hoje chamamos de meta-discurso ou metalinguagem: é quando a ficção para de fingir que é só uma história e começa a falar sobre si mesma. É a literatura se olhando no espelho.
Machado não só conversava com o leitor. Ele o agarrava pelo colarinho, o sentava à força na cadeira e o obrigava a assistir à autópsia do romance que ele mesmo estava escrevendo. E ele fez isso mais de um século antes de essa prática virar moda.
Vamos provar essa tese.
Prova #1: O Narrador que Despreza o Leitor (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Se em "Pai contra mãe" o narrador nos trata como confidentes, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, a relação azeda. Brás Cubas, nosso narrador defunto, não está nem um pouco preocupado em nos agradar. Pelo contrário, ele nos insulta, nos chama de estúpidos e se queixa do nosso tédio.
Ponto de Partida: O narrador aqui não quer apenas quebrar a quarta parede; ele quer dinamitá-la. A tese é que, ao atacar o leitor, Machado expõe a artificialidade da relação autor-leitor, transformando essa tensão em um dos temas centrais do livro.
Nesta cena Brás Cubas está, como sempre, divagando sobre a estrutura de sua própria obra. Ele para de narrar suas memórias para fazer uma crítica direta a quem o lê. O texto a seguir não é sobre a vida de Brás Cubas. É sobre o livro que está em suas mãos. É o autor (pela boca do narrador) pensando em voz alta sobre o próprio ofício e sobre o seu público.
O maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esque1rda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...
Viram? Isso não é uma "fofoca". É uma declaração de guerra. Ele está esfregando na nossa cara que este livro não seguirá as regras que esperamos. Ao fazer isso, a própria estrutura do romance vira a protagonista. Estamos lendo um livro sobre um homem que está escrevendo um livro sobre sua vida. Isso é meta-discurso em sua forma mais pura e genial.

Prova #2: O Narrador que Anuncia o Projeto (Dom Casmurro)
Se Brás Cubas é o narrador que desconstrói o livro enquanto o escreve, Bentinho, em Dom Casmurro, é o engenheiro que nos mostra a planta baixa antes de assentar o primeiro tijolo. Ele não esconde suas intenções; ele as anuncia.
Ponto de Partida: Bentinho não é apenas um memorialista atormentado pelo ciúme; ele é um autor consciente, um advogado que está construindo uma peça de acusação em forma de livro. A tese aqui é que, ao revelar seu "método", ele nos torna cúmplices de sua manipulação e, ao mesmo tempo, nos alerta sobre sua falta de confiabilidade.
Logo no início do romance, antes mesmo de mergulhar nas memórias de Capitu, Bentinho nos explica por que decidiu escrever e qual é o seu objetivo com a narrativa.
Prestem atenção em como o trecho a seguir não é sobre o passado, mas sobre o presente da escrita. Ele está falando sobre o ato de "atar as pontas", de organizar a vida em uma narrativa. Ele está nos mostrando a viga, o cimento e o andaime do livro que estamos começando a ler.
Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Astrologia, jurisprudência, filosofia e política foram sucessivamente pensadas, mas nenhuma me pareceu ajustar-se ao meu ofício. (...) O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.
Ao fazer isso, Dom Casmurro deixa de ser apenas um relato e se torna um artefato. Bentinho nos diz: "Vejam, estou construindo esta versão da história para vocês". A partir daí, não podemos mais ler de forma ingênua. Somos forçados a questionar cada palavra, cada memória, cada escolha. A história de Capitu é o tema, mas o verdadeiro enredo é a construção (e a manipulação) da memória através da escrita.
A literatura, aqui, não é um espelho da vida. É a ferramenta com a qual se constrói uma versão da vida. Na Letra & Ato, entendemos que toda escrita é uma construção. Nosso trabalho de revisão dialogal é justamente ajudar o autor a garantir que cada peça do seu projeto esteja sólida, consciente e alinhada à sua intenção.
A Metalinguagem como Arma
Exponha o artifício: Em vez de esconder que sua história é uma ficção, use isso a seu favor. Um narrador que admite estar "contando uma história" pode gerar um tipo diferente de confiança e complexidade.
Transforme o processo em enredo: A dificuldade de escrever, a busca pela palavra certa, a dúvida sobre uma memória... tudo isso pode se tornar parte da própria narrativa, criando profundidade e identificação.
Dialogue com o gênero: Seu personagem pode reclamar das convenções de um romance policial enquanto está dentro de um. Ou um narrador de fantasia pode questionar a lógica da magia que ele mesmo descreve. Isso cria ironia e originalidade.
Use-a para criar narradores não confiáveis: Como Machado faz com Bentinho, um narrador que discute muito seu próprio método está, muitas vezes, tentando nos convencer de sua versão dos fatos. É uma ferramenta sutil e poderosa para criar ambiguidade.
Quer Escrever Bem? Leia e Leia e Leia...
📚A Estante de Ana: Se um viajante numa noite de inverno de Italo Calvino
Se você ficou fascinado com a forma como Machado desmonta o romance, Calvino pega essa ideia e a eleva a um nível alucinante. Este não é um livro que você lê; é um livro sobre você tentando ler um livro. É a obra-prima definitiva do meta-discurso e uma leitura obrigatória para quem quer entender os limites (e a ausência deles) na ficção.
☕Vamos Conversar?
Percebeu como cada escolha narrativa, da mais simples à mais complexa, carrega uma intenção profunda? Seu manuscrito é um projeto, uma arquitetura de ideias e emoções. Às vezes, o que falta para que essa estrutura atinja todo o seu potencial é um segundo par de olhos, um diálogo que questione e ilumine as fundações da sua obra. Na Letra & Ato, não corrigimos textos, conversamos com autores. Quer experimentar uma amostra gratuita da nossa revisão e ver o que podemos descobrir juntos no seu original?
Uma história se torna inesquecível quando sua forma e seu conteúdo dançam em perfeita sintonia.
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